O Primeiro Amor de um Garoto

4 Cap. 4 - Vermelhidão.


Notas iniciais
Cap saindo do forno!

16/10, Terça, às 00:05

Estou furioso, não consigo dormir. Estava tão perto. Droga, Sara!

16/10, Quarta às 15:10

Antes de ir para a aula de Surf, vou contar o que rolou ontem. Ou o que QUASE rolou.

Esperei Sara sair de casa e fui chamar Tiago para ir à praça. O lugar tem um tamanho modesto, um parquinho com brinquedos para as crianças, bancos, uma quadra de futsal e basquete e do outro lado várias barraquinhas vendendo açaí, cachorro- quente, batata frita e sorvete. E a vi ali, sentada num dos bancos. Tiago percebeu e foi logo me empurrando

— Vai lá falar com ela, cara!

— Não, não! – Resisti, com medo de parecer um idiota na frente dela como faço sempre.

— Que foi? Vai peidar agora, covardão? – Depois disso eu tive que encarar.

Desafio aceito, marchei até ela, parecendo que atravessei um estado até lá.

— Ei, quero dizer, e aí, quero d-dizer, hm, oi. – Depois dessa eu prometi bater minha cabeça na parede 100 vezes quando chegar em casa.

— Ah, Oi! – Seu rosto se iluminou ao me ver e meu ao vê-la. — Senta aqui.

— T-tá. – Obedeci. — Você vem sempre aqui? Perguntei depois de um silencio nervoso.

— Mais ou menos... Hm! Brigada mesmo por hoje cedo, eu ia me machucar sem você. – Disse, o olhar doce, depois me deu um beijo na bochecha de surpresa. Perdi uma batida do coração. — Nossa, desculpa! Está virando mania eu te beijar toda hora. Mas o que eu posso fazer? Você fica tão lindo quando vermelho.

— E-eu não ligo! Você pode me beijar o quanto quiser, quero dizer... Hãm, foi mal, eu sou um idiota! – Falei, fechando os olhos com força.

Tive medo de virar e olhar pra ela. O que será que ela estaria pensando? "Qual o problema desse retardado? Abri os olhos. Lavínia estava me encarando, surpresa e ligeiramente corada também. Nenhum dos dois soltou a respiração. Por impulso, fui chegando mais perto dela, agora hipnotizado por aqueles lábios. Meu Deus, como eu queria tocá-los! E aposto minha coleção de carrinhos colecionáveis que ela também estava vindo na minha direção! Pude sentir sua respiração no meu rosto, mas aí Sara estragou tudo.

— Que bizarrice está acontecendo aqui? – Perguntou, devolvendo meu olhar fulminante.

— Nada! – Graças a você.

— Nada! – Lavínia negou, balançando a cabeça exasperadamente.

— Hum, muito estranho. Aqui a o Refri amiga, desculpa a demora. – Sara disse, entregando uma latinha para a outra.

— E você pirralho, se manca. – Continuou, me encarando como se eu fosse um inseto.

— Tá, tá, eu já estou indo. – Falei, levantando do banco.

— M-mas se quiser pode ficar. – Lavínia disse apressadamente.

— N-não posso, Tiago está me esperando. – Bateu uma pontada de arrependimento por eu ter trago o meu amigo. Tá, isso não é muito amigo da minha parte.

— Ah, ok, então...

Ela ficou decepcionada ou foi coisa da minha imaginação fértil? Fui recebido com aplausos pelo meu amigo, que jurou que o beijo ia rolar. Droga, faltou pouco!

***

Em casa, fiquei jogando vídeo game com Tiago. Eu consegui acalmar minha mente, quando Sara chegou em casa e veio na minha direção como um furacão furioso.

— Lucas.

— Fala. – Respondi, olhando para a Tevê.

— O que está acontecendo entre você e a Lalá?– Perguntou.

— Lalá? – Retruquei para ganhar tempo.

— A Lavínia, não se faça de idiota.

— Nada, ué. Não posso nem conversar com as pessoas?

— Nada mesmo? – Perguntou, encarando agora Tiago, que olhava para e depois para mim, nervoso.

— Nada! – Ele conseguiu dizer.

Ufa, essa foi por pouco! Se ela descobre que eu gosto da Lavínia, fará da minha vida um inferno! Vai dizer tudo que que eu já sei, que sou um pirralho, criança e um idiota. Mas... e se ela gostar mesmo de mim? Estranho Tiago ainda não ter aparecido, vou lá chamá-lo para a aula. Fui.

16/10, Quarta às 20:00

Meu Pai do Céu, é impossível eu estar mais feliz! Sinto que poderia voar! Hoje quando cheguei na praia, não vi a Lavínia, mas isso foi bom porque me ajudou a me concentrar mais na pranchar e conseguir ficar em pé nela mais de uma vez. Quando terminamos, vi que ela estava sentada num canto, atrás da pedra e recostada nela. A minha pedra. Olhei para os dois lados, estranhando ela estar sozinha e não rodeada da sua galera. Dessa vez eu não precisei de incentivo, mandei Tiago para casa e fui até ela.

— Oi.– Comecei, dessa vez sem gaguejar.

— Ui, que susto! – Disse, depois de um gritinho feminino.

— F-foi mal, e-eu não queria te assustar.

— Não, está tudo bem. – Ela inspirou e expirou duas vezes para acalmar o coração e fiquei me sentindo culpado.

— Você está sem o pessoal. – Disse o óbvio.

— É, eu quis ficar um pouco sozinha para pensar.

— Opa, então eu já vou. – Falei, virando para a outro lado.

— Não! E-eu gosto da sua companhia. – Abriu o seu lindo sorriso e eu sentei ao seu lado.

— Mesmo? — Perguntei.

— Com toda certeza.

— Ei, você está bem? – Perguntei, depois de um tempo, notando que o sorriso não chegava até os olhos.

— Nossa, é tão óbvio assim? — Perguntou, ajeitando nervosamente o cabelo.

— Não, mas eu sei porque estou sempre te observando. – Mas o que eu disse foi: — Na verdade, não.

— Que bom, não? Odiaria que as pessoas ficassem me perguntando o tempo todo qual o problema. Relaxa, tudo bem se for você... é que estou com uns problemas lá em casa. – Disse, agora encarando seus pés e o mar atrás deles.

— Quer me contar?

— Assim, não grande coisa sabe, só umas brigas por causa da mudança. Meus pais.

— Entendo.

— Duvido, sua família é incrível.

— É sim, mas eu entendo porque meus pais também brigam. Acho que todos o fazem. Minha mãe é psiquiatra sabe, ela vive dizendo discutir e brigar é melhor do que guardar rancor.

— É certo, mas não tanto quanto os meus pais... Desculpa, estou sendo chata, hein? Tagarelando sobre os meus problemas.

— Não! Eu gosto!

— Dos meus problemas? – Perguntou, brincando, escondendo o sorriso.

— Não disso. G-gosto de conversar com você.

— Eu também! – Agora ela riu abertamente, os olhos brilhando. — Você é engraçado, sabia?

— Eu sei, sou um palhaço! Não precisa jogar na minha cara. – Falei, rindo também. — Quer saber? Vem cá!

Num impulso, peguei sua mão e a levei para para longe da praia. Ela se deixou levar, sem nem reclamar. Isso foi um alívio, porque eu estava tão nervoso que quase não reparei na maciez das delicadas mãos da lavínia. Pequenas e com dedos um pouco gordinhos. Chegamos no meu lugar preferido. Um pequeno bosque um pouco afastado, perto da praça Bandeirantes. Paramos no meio da ponte, observando o lago parado em baixo.

— Gente, que coisa mais linda! – Exclamou, sorrindo genuinamente. Vê-la assim foi o suficiente para fazer o meu dia.

— Eu gosto desse lugar, por motivos óbvios. Venho aqui, quando estou chateado.

— Sei.

— O que?

— É que você só tem onze anos, não deve ter muito com o que se preocupar. Muito menos ficar chateado.

— Hum... – Essa alfinetada doeu. Então ela está bem ciente da diferença de idade.

— Oh, desculpa, eu...!

— Deixa pra lá, sei que sou só um pirralho.

— Ui, que vento gelado veio agora! – Disse, se abraçando.

— Foi mal! Te arrastei para cá com você ainda de biquíni. – Ela vestia um short, mas a parte de cima era apenas a parte de cima do traje.

— Está tudo bem. – Ela tentou me acalmar.

— Mas você está com frio! Droga, eu não tenho nada pra colocar em você! – Fiquei mesmo aflito;

— Bem... Você pode me abraçar.

Juro pelo cachorro do vizinho mortinho que meu coração parou por dois segundos inteiros! Ficamos calados por um tempo, sem conseguir dizer nada. Eu queria muito aquilo, tocar nela. Mas e se Lavínia não gostasse? E se vi o quanto sou pirralho? Mesmo com todas essas questões na minha cabeça, não dispensei a oportunidade e a abracei. Bom eu não sou tão pequeno quanto você acha que eu sou, mas ela é sim maior que eu, então ficou um pouco esquisito. Minha mãe é bem alta e ruiva e meu pai é baixinho e moreno, Sara e eu puxamos a minha mãe, somos altos e ruivos. Mesmo sendo um pouco maior do que devia pros meus 11 anos, ainda sim sou menor que Lavínia. Fui até ela olhando para o chão, a abracei por trás, encostando minha testa no meio de suas omoplatas. Comecei a tremer, mas não de frio. Ficamos assim por uns minutos (os mais assustadores de toda a minha vida!), até ela se desvencilhar e me encarar.

— Nossa, você está bem?!

— T-t-tô, por que?

— Você está mais vermelho que uma pimenta malagueta! – Ela estava começando a ficar mais aflita que eu.

— Ei, está t-tudo bem. Tentei soar o mais tranquilo possível, mas não deu.

Primeira vez que não me importei com o que ela estava dizendo. Idaí que eu estava vermelho? Eu sempre estou! Meu Deus, como ela é linda, como ela é gostosa! Quer dizer, no bom sentindo. Eu acho. Estou até agora nas nuvens!! Cheguei em casa ainda tremendo e quando entrei no meu quarto, pensei no que tinha acontecido e gritei com o travesseiro na minha cara. Eu a toquei. A barriga dela tem uns pelinhos ralinhos acima do umbigo e sua cintura é larga e macia. E seu cheiro? É doce e delirante! Droga, chega até ser irritante estar apaixonado. Meu peito dói, esquece os carrinhos, dos os doces de São Cosme e Damião! Isso é melhor que todos os presentes de Natal! Maneiráassooo!!!