O Preço do Pecado
1 O Preço do Sangue
O escritório de Heitor Laurentis cheirava a charuto caro e ao couro novo da poltrona que um dia pertencera ao seu pai. Desde que o velho fora assassinado, Heitor assumira o comando da família com uma frieza que assustava até os capangas mais antigos. Ele não negociava; ele ditava.
À sua frente, de joelhos e com o rosto desfigurado pelo medo, estava Martinez Marston.
— Por favor, Heitor... Me dá mais duas semanas — suplicou Martinez, com a voz trêmula e as mãos unidas em prece. — Os negócios no porto atrasaram, mas eu vou conseguir cada centavo!
Heitor nem sequer piscou. Ele girou lentamente o copo de uísque na mão esquerda, observando o gelo bater contra o vidro. O silêncio no aposento era sufocante.
— Duas semanas, Martinez? — A voz de Heitor era mansa, o que a tornava ainda mais aterrorizante. — Meu pai lidava com os seus atrasos porque tinha o coração mole. Eu não sou o meu pai. O prazo venceu ontem. Hoje, eu recolho o que é meu.
Heitor colocou o copo na mesa, abriu a gaveta de mogno e puxou uma pistola preta, pesada. O clique do cano sendo destravado ecoou como uma sentença de morte no quarto. Martinez soltou um soluço desesperado.
— Não, por favor! Eu tenho família!
— Todo mundo tem família, Martinez. A diferença é que a sua vai ter que pagar o seu caixão. — Heitor ergueu a arma, mirando calmamente a testa do homem.
Antes que puxasse o gatilho, Enzo, o braço direito de Heitor que observava tudo da sombra da porta, deu um passo à frente.
— Chefe, espera. — Enzo pigarreou, medindo as palavras para não irritar o patrão. — Matar o Marston não vai trazer os dois milhões de volta. Mas... ele tem um patrimônio que talvez te interesse.
Heitor não abaixou a arma. Apenas inclinou a cabeça milimetricamente.
— Que patrimônio, Enzo? As empresas dele estão falidas.
— A filha dele, senhor. Natasha Marston. Mas todos a chamam de Maite. — Enzo puxou o celular do bolso, digitou algo e estendeu o aparelho na direção de Heitor. — Ela é uma joia pura. Intocada.
Heitor soltou um suspiro de impaciência, mas abaixou a arma por um segundo e pegou o celular. Na tela, a foto de Maite se iluminou. Ela tinha cabelos longos, olhos expressivos e uma beleza magnética, selvagem, que parecia não pertencer àquele mundo podre.
Os olhos frios de Heitor se estreitaram. Um sorriso cruel e de canto de boca surgiu em seu rosto.
— Maite... — Heitor saboreou o nome. Ele olhou para Martinez, que continuava encolhido no chão, trêmulo. — Sua filha é muito bonita, Marston. Quase um pecado deixar uma garota dessas nas mãos de um rato como você.
— O que... o que você quer dizer com isso? — Martinez engoliu em seco, um novo tipo de pavor tomando conta dele.
Heitor guardou a pistola no coldre e se inclinou para frente, apoiando os cotovelos na mesa.
— Vamos fazer um trato. Eu limpo a sua dívida. Dois milhões de dólares esquecidos, e você continua vivo para respirar o ar de Chicago. Em troca, sua filha passa uma noite comigo. No meu quarto. Fazendo absolutamente tudo o que eu quiser, sem direito a reclamações. No dia seguinte, você está livre. O que me diz?
Martinez arregalou os olhos. A moralidade lutou contra o instinto de sobrevivência em seu peito, mas o medo da morte falou mais alto.
— Uma noite...? E a dívida some? — Martinez perguntou, a voz fraca.
— Sumir não some, eu apenas mudo a moeda de pagamento. — Heitor sorriu, frio e implacável. — Temos um acordo ou eu estouro os seus miolos agora mesmo?
— Temos... Temos um acordo — murmurou Martinez, derrotado, deixando a cabeça cair contra o chão.
— Ótimo. Suma da minha frente antes que eu mude de ideia.
Naquela mesma noite, na residência dos Marston
Maite andava de um lado para o outro na sala de estar, o coração apertado de angústia. Quando a porta da frente se abriu e seu pai entrou, pálido e com os olhos fundos, ela correu em sua direção.
— Pai! Graças a Deus! Onde você estava? O que aconteceu? Aqueles homens do Laurentis... eles te machucaram?
Martinez não conseguiu olhar nos olhos da filha. Ele caminhou até o bar, serviu-se de uma dose generosa de conhaque e virou de uma vez.
— Eu resolvi a dívida, Maite — disse ele, com a voz rouca.
— Resolveio? Como? Nós não temos esse dinheiro, pai! O que você fez?
Martinez respirou fundo, as mãos tremendo tanto que o copo de vidro tilintava. Ele finalmente olhou para ela, com os olhos cheios de vergonha.
— Eu não fiz nada. Você vai fazer. Eu tive que negociar a sua presença com o Heitor Laurentis.
Maite deu um passo para trás, o cenho franzido, sem entender.
— A minha presença? O que isso significa?
— Você vai ter que passar uma noite com ele, Maite — disparou Martinez de uma vez, as lágrimas finalmente descendo pelo seu rosto velho. — No quarto dele. Fazendo o que ele quiser. É o único jeito! Se você não for, ele me mata! Ele ia estourar a minha cabeça na mesa dele!
O mundo de Maite pareceu desabar. O sangue sumiu de seu rosto, transformando sua expressão em um misto de choque e puro asco.
— Você... você me vendeu? — a voz dela saiu em um sussurro cortante. — Para aquele monstro? Aquele mafioso psicopata?! Ficou maluco, pai?!
— Eu não tive escolha! — Martinez gritou, desesperado. — É a minha vida, Maite! Por favor, é só uma noite! Depois disso estamos livres dele para sempre!
— Eu me recuso! Eu prefiro ir à polícia! Eu prefiro fugir! — Maite esbravejou, as lágrimas de raiva e humilhação transbordando. Ela chutou uma almofada do sofá, sentindo o peito arder. — Como você teve a coragem de me entregar para um homem daqueles?!
— Se você fugir, ele nos caça e nos mata de qualquer jeito! Não há para onde correr, Maite! O Laurentis manda nessa cidade! — Martinez implorou, caindo de joelhos diante da filha, segurando suas mãos. — Por favor, minha filha... salve a vida do seu pai.
Maite olhou para o homem de joelhos à sua frente. O nojo que sentia da fraqueza dele era quase tão grande quanto o medo do que a esperava. Ela puxou as mãos de volta, limpando o rosto com violência. O orgulho ferido deu lugar a uma determinação fria.
— Levanta daí — disse ela, a voz agora gélida, desprovida de qualquer emoção. — Eu vou fazer isso. Mas nunca mais olhe na minha cara depois que essa noite acabar. Diga para aquele desgraçado do Laurentis marcar o dia e a hora. Eu vou estar lá.
No dia seguinte, Enzo entrou novamente no escritório de Heitor, trazendo a resposta.
— Chefe, o velho Marston ligou. O recado foi dado. A garota aceitou os termos. Ela disse que o senhor só precisa definir o momento.
Heitor, que revisava alguns papéis de carregamento, nem sequer ergueu os olhos, mas um brilho de antecipação cruzou seu olhar. Ele olhou para o calendário de mesa.
— Próximo sábado. Às 18 horas em ponto. Mande o carro buscá-la. E avise que eu não gosto de atrasos.
— Sim, senhor.
Heitor encostou-se na poltrona, acendendo um novo charuto. O jogo estava apenas começando, e ele mal podia esperar para quebrar o espírito da linda Maite.
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