O Preço do Pecado
29 O Eco do Futuro
O retorno para Chicago teve o sabor de uma vitória absoluta. A Land Rover preta cruzou os portões de ferro da mansão Laurentis sob o céu cinzento da cidade, mas, do lado de dentro das paredes blindadas, a atmosfera de morte e isolamento havia desaparecido por completo. Viktor Petrov era apenas uma mancha apagada no passado, e a segurança, agora totalmente reformulada por Enzo e Marco sob a supervisão implacável de Heitor, operava com precisão milimétrica.
No andar superior, as portas de vidro da oficina particular haviam sido limpas, e o cheiro de tinta a óleo e verniz damar misturava-se novamente ao aroma de café fresco.
Maite — que agora alternava entre o nome da nova identidade e o carinho com que Heitor a chamava de Natasha — caminhava pelo corredor de tapetes persas da ala leste. Ela vestia um vestido leve de malha cinza que moldava suas curvas de forma suave. Um sorriso sereno desenhava-se em seus lábios enquanto ela empurrava a porta pesada de jacarandá do quarto imediatamente ao lado da suíte master.
O cômodo estava vazio. Era uma suíte ampla, iluminada por uma imensa janela que dava vista para o lago nos fundos da propriedade. As paredes eram revestidas com um papel de parede clássico em tons neutros, e o piso de madeira nobre brilhava sob a luz da tarde. Era um quarto de hóspedes sem uso, intocado pela fúria ou pelas marcas da guerra da máfia.
Maite parou no centro do espaço, cruzando os braços e olhando ao redor. Ela imaginava a disposição dos móveis, a entrada da luz e o silêncio protetor que aquele canto da casa oferecia.
Passos pesados e firmes ecoaram no corredor. Heitor surgiu na porta, a silhueta massiva quase preenchendo o batente. Ele havia acabado de subir do escritório; usava uma calça tática preta e uma camiseta cinza justa que destacava os ombros largos e os braços tatuados, agora livres das bandagens. O olhar castanho dele, antes focado na brutalidade dos negócios, suavizou-se instantaneamente ao encontrá-la.
Ele caminhou até ela com passos lentos, a ignorância mansa que adotava apenas quando estavam a sós transbordando de sua postura. Heitor parou logo atrás dela, colando o peito largo nas costas de Maite e envolvendo a cintura dela com as duas mãos grandes, puxando-a contra o seu corpo quente.
— O que você está fazendo aqui neste quarto vazio, boneca? — ele perguntou, a voz grossa e rouca vibrando contra a nuca dela. Ele distribuiu uma sequência de beijos lentos no pescoço de Maite, subindo até a curva da orelha. — O nosso quarto é ao lado. E a nossa cama está com saudades de você desde que chegamos do aeroporto.
Maite inclinou a cabeça para o lado, apreciando o carinho e o peso possessivo dos braços dele ao redor de seu corpo. Ela se virou devagar dentro do abraço, ficando de frente para o marido, apoiando as mãos no peito rígido dele. O sorriso dela era enigmático e brilhante.
— Eu estava apenas observando o espaço, Laurentis — ela respondeu, o tom de voz mansa e divertido. — Pensando em como esse quarto é bem localizado. Ele recebe o sol da manhã, é silencioso e fica bem do lado do nosso.
Heitor franziu o cenho de leve, uma ponta de confusão rústica surgindo em seus olhos castanhos. — E para que você quer espaço para o sol da manhã aqui? Se quiser pintar, a sua oficina é três vezes maior do que este cômodo.
— Não é para pintar, seu rústico — ela riu baixinho, subindo as mãos até os ombros dele, brincando com o colarinho da camiseta de Heitor. — Eu estava pensando em reformas. Coisas para comprar. Este lugar precisa de móveis novos... móveis bem específicos. Um berço de madeira maciça, talvez no estilo vitoriano para combinar com a casa. Uma poltrona de amamentação confortável perto da janela, uma cômoda grande para organizar roupinhas bem pequenas... e alguns brinquedos. Muitos brinquedos.
Heitor estancou. Seus braços, que seguravam a cintura dela com força de posse, tencionaram-se. A mente do Don de Chicago, acostumada a processar carregamentos, rotas e estratégias de eliminação, travou por um segundo inteiro diante das palavras dela. Ele olhou para o rosto sorridente de Maite, depois desceu o olhar de forma lenta e instintiva para o ventre dela, escondido sob o tecido cinza do vestido.
— Do... do que você está falando, Natasha? — Heitor gaguejou sutilmente, a voz caindo para um tom rouco, quase sem fôlego. A blindagem do mafioso desfazia-se por completo.
— Eu estou falando que a casa vai precisar de um quarto de bebê, Heitor — ela confessou, os olhos verdes brilhando com lágrimas de pura felicidade. Ela pegou uma das mãos grandes e calejadas dele e a guiou lentamente até o próprio ventre, espalmando os dedos dele contra a pele morna através do vestido. — Eu tive certeza no Brasil, logo depois daquela confusão com o Gabriel. O cheiro dele me deu uma náusea horrível, e eu percebi que o meu ciclo estava atrasado. Eu fiz os exames com o médico da família assim que pousamos... Heitor, eu estou grávida. Nós vamos ter um filho. O lobo de Chicago vai ser pai.
O silêncio que se instalou no quarto foi quebrado apenas pelo som da respiração sôfrega de Heitor. O homem que não piscava diante da mira de um fuzil sentiu os joelhos fraquejarem de leve. Ele olhou para a própria mão espalmada na barriga dela, os dedos grandes cobrindo quase toda a extensão do ventre ainda liso de Maite.
Um turbilhão de emoções invadiu o peito do Don. Ele pensou em sua linhagem, no império que construíra com sangue, mas, acima de tudo, pensou na pureza daquela vida que crescia ali dentro, fruto do amor selvagem e inquebrável que ele sentia por aquela mulher. Romeu e Vanessa haviam conseguido o milagre deles, e agora, o destino entregava a Heitor a redenção definitiva.
Heitor ergueu os olhos para Maite. Havia uma mansa e profunda devoção brilhando em seu olhar castanho. Ele não segurou as lágrimas que marejaram seus olhos. Com um movimento lento, ele caiu de joelhos no chão de madeira, ficando na altura do ventre dela. Ele abraçou os quadris de Maite com força, colando o rosto contra a barriga dela, respirando fundo o cheiro dela.
— Um filho... porra... um filho nosso — Heitor sussurrou contra o tecido do vestido, a voz trêmula de pura emoção e orgulho. — Eu vou proteger vocês com a minha vida, boneca. Ninguém... nunca mais... vai chegar perto da minha família. Eu vou construir um santuário para esse pequeno. Ele vai ter tudo o que eu nunca tive.
Maite sorriu, acariciando os cabelos curtos e escuros do marido, sentindo o peito dele subir e descer contra as suas pernas. — Eu sei que vai, meu amor. Você é um bruto, mas eu sei que vai ser o melhor pai do mundo.
Heitor levantou-se lentamente, a postura de comando retornando, mas agora banhada por uma felicidade possessiva e vibrante. Ele segurou o rosto de Maite com as duas mãos, colando a testa na dela.
— Nós vamos comprar tudo o que você quiser para este quarto, esposa. O melhor berço, as melhores roupas, tudo do bom e do melhor — ele decretou, o tom de mafioso orgulhoso transbordando. Ele deu um sorriso cafajeste e rústico de canto, roçando os lábios nos dela. — Mas agora que eu sei que tem um herdeiro Laurentis crescendo aí dentro... eu vou fazer questão de cuidar muito bem da mãe dele. Vamos para o nosso quarto. Você precisa descansar, e eu preciso te lembrar, do meu jeito, de quem você é dona.
Maite soltou uma gargalhada limpa, abraçando o pescoço dele enquanto Heitor a erguia no colo com facilidade, carregando-a para fora do futuro quarto do bebê em direção à suíte principal, selando o início de uma nova e indestrutível era para a dinastia Laurentis.
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