O Preço do Pecado
30 Multiplicado por Dois
O consultório do obstetra da família Laurentis, localizado na ala VIP do hospital particular no centro de Chicago, era silencioso e excessivamente branco. O único som no ambiente era o clique suave dos botões que o médico apertava no console do aparelho de ultrassonografia de última geração.
Natasha estava deitada na maca de exame, com o vestido puxado até a altura do peito e o ventre, que agora começava a exibir uma sutil e linda curvatura de quase três meses, coberto por um gel transparente e frio. Ela segurava a mão esquerda de Heitor com força.
Heitor estava de pé ao lado da maca, parecendo um gigante deslocado naquele ambiente médico. Ele usava sua habitual calça escura, botas e uma camisa polo preta que marcava seus braços musculosos. Seus olhos castanhos estavam fixos na tela escura do monitor, tentando decifrar as manchas cinzentas e brancas que apareciam ali. Ele estava tenso, a mandíbula travada, com o coração batendo mais rápido do que em qualquer tiroteio no porto.
— Muito bem, vamos ver como está o nosso pequeno herdeiro... — o médico comentou com um tom profissional, deslizando o transdutor pelo ventre de Natasha.
Na tela, uma imagem arredondada e escura se formou. Dentro dela, uma pequena silhueta arqueada piscava com um ponto brilhante no centro — o coração.
— Ali está o coraçãozinho. Batendo forte e ritmado. Perfeito — o médico sorriu, ajustando o foco. No entanto, o homem de jaleco branco franziu o cenho por um breve segundo, movendo o aparelho um pouco mais para a esquerda. Ele soltou uma risada curta, balançando a cabeça. — Ora, ora... vejam só isso.
Heitor deu um passo à frente, a ignorância protetora estalando em sua voz. — O que foi, doutor? Tem alguma coisa errada? Fala de uma vez, caralho.
— Pelo contrário, Don Laurentis. Olhem bem aqui — o médico apontou para a tela, dando um zoom na imagem.
Ao lado da primeira bolsa gestacional, colada sutilmente à parede do útero, havia uma segunda mancha escura idêntica, com outro pontinho brilhante piscando no mesmo ritmo alucinante.
— Parabéns ao casal. Não temos apenas um bebê — o médico anunciou, virando o monitor na direção de Heitor com um sorriso imenso. — São dois. Vocês estão grávidos de gêmeos. Dois corações batendo perfeitamente bem.
Natasha soltou uma lufada de ar, os olhos verdes arregalando-se em puro choque misturado com uma alegria avassaladora. — Gêmeos... Meu Deus, Heitor! Dois!
Ela virou o rosto para olhar para o marido, esperando ver o sorriso orgulhoso e a pose de Don inabalável. Mas o que ela encontrou foi uma cena impagável.
Heitor Laurentis havia travado por completo. Seus olhos castanhos estavam fixos na tela, estáticos, as pupilas dilatadas. Suas mãos calejadas, que seguravam as dela com tanta firmeza, afrouxaram a pegada. A mente do chefe da máfia de Chicago simplesmente entrou em curto-circuito. Um bebê ele conseguia planejar; um herdeiro ele conseguia imaginar protegendo. Mas dois? Dois choros de madrugada, duas fraldas, duas crianças correndo pela mansão, duas vidas dependendo dele ao mesmo tempo.
Ele ficou ali, parado, mudo, perdido em um redemoinho de pensamentos e pânico genuíno que nenhuma arma no mundo conseguiria causar.
A Recepção na Mansão
A viagem de volta para a mansão foi feita em um silêncio sepulcral por parte do motorista. Heitor dirigia a Land Rover preta com as duas mãos fixas no volante, os olhos cravados na estrada, mas a mente dele claramente estava em outro planeta. Natasha o observava de lado, segurando as fotos impressas do exame, segurando o riso diante do desespero silencioso do marido.
Quando cruzaram os portões e entraram na imensa sala de estar da mansão, foram recebidos por vozes familiares. Romeu e Vanessa estavam ali. Vanessa, que já exibia uma barriga grande e redonda de quase sete meses de gestação, estava sentada confortavelmente no sofá de veludo, com as pernas para cima, enquanto Romeu paparicava a esposa com uma taça de água.
— Finalmente chegaram! — Vanessa exclamou, sorrindo e tentando se ajeitar no sofá com a mão na lombar. — E então? Como foi a primeira consulta oficial? Queremos ver as fotos do nosso sobrinho!
Romeu levantou-se, caminhando até eles com as mãos nos bolsos da calça de alfaiataria. — É, Heitor. Deixa eu ver a cara do carinha que vai herdar esse teu mau humor.
Natasha não aguentou mais. Ela soltou uma gargalhada gostosa, estendendo o papel do exame direto para as mãos de Romeu. — Olhem vocês mesmos. O médico deu a notícia agora há pouco.
Romeu pegou o papel, estreitando os olhos para a imagem. Ele olhou uma vez, olhou duas, e então um sorriso imenso e debochado rasgou seu rosto de orelha a orelha. Ele olhou para Heitor, que havia acabado de sentar-se na poltrona de couro individual, com os braços apoiados nos joelhos e o olhar fixo no tapete persa, completamente desorientado.
— Não brinca... — Romeu soltou uma gargalhada alta, limpa e ruidosa, que ecoou por todo o teto de mármore da sala. Ele caminhou até o sofá, mostrando o papel para a esposa. — Olha aqui, Vanessa! Olha o que o destino aprontou com o grande lobo de Chicago!
Vanessa pegou o papel, os olhos brilhando antes de soltar um gritinho de alegria e começar a rir junto com o marido. — Gêmeos! Ah, meu Deus, Natasha! Dois de uma vez só! O Heitor vai enlouquecer!
— Olha para a cara dele, Vanessa! — Romeu apontava para o irmão mais velho, dobrando o corpo de tanto rir, a ignorância dos Laurentis transformando-se em pura zombaria fraternal. — O homem que mandou o clã russo inteiro para o inferno está com medo de duas fraldas! Dois, Heitor! Duas bocas chorando ao mesmo tempo às três da madrugada! Se um já dá trabalho, imagina dois correndo com armas de brinquedo pela casa!
— Cala a boca, Romeu — Heitor resmungou, a voz saindo grossa, mas sem a habitual autoridade. Ele passou as duas mãos grandes pelo rosto, esfregando a testa com um desespero cômico. — Dois bastardinhos... caralho. Como é que se cuida de dois bebês ao mesmo tempo? E se eu quebrar um deles? Eles são pequenos demais.
— Você não vai quebrar ninguém, seu rústico — Natasha disse, aproximando-se da poltrona dele e sentando-se no braço de couro, envolvendo os ombros massivos do marido com os braços, deixando um beijo carinhoso na têmpora dele. — Nós vamos dar um jeito. Nós temos o Enzo, o Marco, a mansão inteira... e nós temos um ao outro.
— O Enzo vai ter que aprender a trocar fralda, isso sim — Romeu provocou, limpando uma lágrima de tanto rir, sentando-se ao lado de Vanessa e acariciando a barriga grande da esposa. — Eu achei que eu ia ter trabalho com esse pequeno aqui, mas o Heitor foi abençoado em dobro. O Don de Chicago foi multiplicado.
Heitor tirou as mãos do rosto, olhando para a barriga ainda discreta de Natasha, e depois para o riso solto de seu irmão e de Vanessa. Aos poucos, o pânico congelante em seu peito começou a se dissipar, dando lugar a um orgulho possessivo, bruto e avassalador. Um sorriso de canto, tipicamente Laurentis, rústico e convencido, começou a desenhar-se em seus lábios.
Ele estendeu a mão grande, puxando Natasha para o seu colo de uma vez, fazendo-a sentar sobre suas coxas firmes. Ele espalmou a mão enorme sobre o ventre dela, os olhos castanhos brilhando com uma nova intensidade.
— É... dois de uma vez — Heitor aceitou o desafio, a voz grossa voltando a ter aquele tom de comando absoluto, arrancando um sorriso de Natasha. Ele olhou para Romeu com desdém divertido. — Pelo menos a minha linhagem vem forte, Romeu. Eu faço o trabalho completo de uma vez só. Se o Viktor Petrov achou que ia acabar com os Laurentis, a minha resposta para o mundo vai ser dois novos lobos mandando nesta cidade.
Natasha sorriu, selando os lábios dele com um beijo terno no meio da sala, enquanto Romeu e Vanessa continuavam rindo do desespero inicial do Don. O futuro da máfia de Chicago estava garantido, e ele viria em dose dupla, sob a proteção do amor mais selvagem e inquebrável daquela cidade.
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