O Preço do Pecado
3 Entre a Fome e o Veneno
O silêncio que se instalou no quarto após a tempestade na cama era denso, quase sufocante. Heitor estava encostado na mesa de mogno, observando a fumaça do seu segundo cigarro subir em espirais cinzentas. Seus olhos castanhos e calculistas estavam fixos em Maite. Ela continuava na mesma posição: encolhida entre os lençóis de seda desalinhados, os cabelos castanhos bagunçados caindo sobre os ombros, e os olhos fixos na parede, recusando-se a olhar para ele.
Heitor soltou o ar pelo nariz, uma risada anasalada e sem humor. Ele apagou o cigarro no cinzeiro de cristal e caminhou até o telefone fixo na parede.
— Traga o jantar. O risoto de aspargos com filé mignon. E mande duas garrafas daquele Brunello de Montalcino. Agora — ordenou ele, com a voz ríspida, desligando sem esperar resposta.
Maite nem sequer se moveu, mas sua voz saiu afiada como uma lâmina de barbear:
— Eu não vou comer nada que venha de você. Pode guardar o seu banquete para os seus cães de guarda.
Heitor caminhou até o closet, vestiu uma calça de moletom preta e uma camiseta escura, abandonando a formalidade do terno. Quando voltou, parou na beira da cama, olhando para ela de cima para baixo com sua habitual ignorância arrogante.
— Você vai comer porque eu estou mandando, Natasha. Não quero que você desmaie no meu chão e eu tenha que carregar o seu corpo estragado daqui de dentro. O trato é até amanhã cedo, e eu pretendo aproveitar cada hora. Vista isso — ele jogou uma camisa social branca dele, de algodão egípcio, em cima das pernas dela. — Suas roupas viraram lixo.
Maite encarou a camisa e depois olhou para Heitor, o cenho franzido de puro asco.
— Você adora dar ordens, não é? Sente-se o rei do mundo nesse seu castelo.
— Neste quarto, eu sou — ele rebateu com um sorriso de canto, cínico e frio. — Vista a camisa. Anda.
Com movimentos deliberadamente lentos, mantendo o lençol cobrindo o corpo para não dar a ele o gosto de olhá-la, Maite vestiu a camisa. Ficou enorme, as mangas cobrindo suas mãos e a barra caindo até o meio de suas coxas. Ela se levantou da cama com as pernas ainda um pouco trêmulas, mas manteve a postura erguida, os pés descalços tocando o chão frio.
Poucos minutos depois, duas batidas discretas na porta anunciaram a comida. Um dos capangas entrou, empurrando um carrinho de prata com pratos cobertos por cúpulas de metal e as garrafas de vinho. O homem manteve os olhos estritamente fixos no chão, sabendo que olhar para a mulher do chefe Laurentis era uma sentença de morte. Assim que ele saiu, Heitor destampou os pratos. O aroma da carne bem selada e do queijo parmesão preencheu o ambiente.
— Senta — Heitor apontou para uma das cadeiras de couro estofadas diante da pequena mesa de centro do quarto.
Maite não se moveu.
— Eu já disse que não...
Antes que ela terminasse, Heitor deu dois passos rápidos, segurou-a pelo braço com firmeza e a forçou a sentar na cadeira. Ele se sentou logo em frente, servindo o vinho em duas taças limpas.
— Eu não tenho paciência para criancice, garota. Come. Se o seu pai estivesse aqui, ele estaria implorando pelas sobras. Pelo menos você está recebendo um prato de cinco estrelas.
O estômago de Maite traiu seu orgulho, roncando timidamente. O estresse e a adrenalina das últimas horas haviam drenado suas energias. Com os lábios cerrados, ela pegou o garfo e cortou um pedaço da carne, levando à boca. Estava delicioso, mas ela mastigou como se estivesse engolindo vidro, apenas para manter a força.
Heitor deu um gole no vinho, observando-a comer. Havia algo nela que o intrigava, algo que ia além do corpo curvilíneo e do rosto bonito. As mulheres que passavam pela sua cama geralmente choravam, imploravam ou tentavam agradá-lo por medo. Maite parecia querer arrancar os olhos dele com o garfo.
— O que uma garota como você faz da vida, além de carregar os erros daquele velho imprestável? — Heitor perguntou do nada, encostando-se na cadeira, girando a taça de vinho entre os dedos compridos.
Maite engoliu o risoto, sustentando o olhar dele com deboche.
— Por que a pergunta, Laurentis? Vai colocar no meu relatório de execução?
— Responde à pergunta, Natasha — a voz dele engrossou, o tom de aviso estalando no ar. — Eu faço as perguntas aqui.
— Eu sou restauradora de arte — ela respondeu com rispidez, dando outra garfada na comida. — Trabalho no museu de Chicago. Trato de peças antigas, quadros rasgados, esculturas quebradas. Coisas que têm valor e história. Tudo o que você provavelmente destrói com os seus capangas no porto.
Heitor soltou uma risada sarcástica, soltando uma lufada de ar pelo nariz.
— Arte? Que poético. Uma salvadora de relíquias. E como uma restauradora de arte inteligente se deixa levar pela conversa de um pai que joga a própria filha num ninho de cobras? Você sabia das dívidas dele?
— Eu sabia que ele estava com problemas financeiros, mas não que estava envolvido com a máfia — ela rebateu, a voz subindo um tom, a raiva brilhando fresca. — Meu pai cometeu erros, muitos. Ele é fraco, ganancioso. Mas você... você é um parasita. Você se alimenta da fraqueza de homens como ele para arrancar o que eles têm de mais precioso.
Heitor inclinou-se para a frente, apoiando os antebraços na mesa, aproximando o rosto do dela. O cheiro de vinho e tabaco dele invadiu o espaço pessoal de Maite.
— Deixa eu te explicar uma coisa sobre o mundo real, Natasha, já que você vive trancada em museus cheirando a tinta velha — ele falou, a voz mansa, o que a tornava ainda mais assustadora. — O seu pai veio até mim por livre e espontânea vontade. Ele queria dinheiro fácil para cobrir apostas fuleiras de baralho e carregamentos clandestinos que ele perdeu por incompetência. Ninguém colocou uma arma na cabeça dele para assinar os promissórios. Eu apenas cobrei o que era meu por direito. Se a moeda de troca acabou sendo você... culpe o sangue dele, não o meu.
Maite sentiu as lágrimas queimarem o fundo de seus olhos, mas engoliu o choro com força, recusando-se a desmontar na frente daquele homem. Ela largou o garfo no prato com um baque estridente.
— Você fala como se tivesse alguma moralidade, Heitor. Você herdou esse império de cadáveres do seu pai. Você não é um homem de negócios, é só um garoto mimado com uma arma na mão e um complexo de Deus.
O silêncio que se seguiu foi cortante. Nenhum capanga ousaria dizer aquilo para Heitor Laurentis e sair vivo daquela sala. O olhar de Heitor congelou. A mandíbula dele travou, os músculos do pescoço tensos. Ele colocou a taça de vinho na mesa de forma deliberada, o estalo do vidro ecoando no quarto.
Maite prendeu a respiração, achando que tinha ido longe demais e que ele avançaria contra o seu pescoço.
Em vez disso, Heitor se levantou lentamente. Ele caminhou até ela, parando logo atrás de sua cadeira. Suas mãos grandes desceram pelos ombros de Maite, apertando de leve, os dedos deslizando pelo tecido fino da camisa branca dele que ela vestia. Ele se inclinou, sussurrando perto do ouvido dela, seus lábios quase tocando a pele sensível do seu pescoço.
— Você tem a língua muito afiada para alguém que está completamente à minha mercê, boneca — ele murmurou, a voz rouca e carregada de uma promessa perigosa. — Esse seu complexo de heroína é excitante, admito. Mas não se esqueça de onde você está. A janta acabou. E a noite ainda está na metade.
Maite sentiu um arrepio violento correr por sua espinha, uma mistura confusa de pavor e uma corrente elétrica que insistia em trair seu corpo toda vez que ele a tocava. Heitor a puxou pela cintura, forçando-a a ficar de pé e a virar de frente para ele, o deboche estampado nos olhos dele ao ver como a respiração dela havia acelerado.
O jogo psicológico estava apenas subindo de nível, e a madrugada seria longa.
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