O Preço do Pecado

19 Calibre e Sintonia



​A adrenalina do treino de combate no tatame ainda parecia correr pelas veias de Natasha na manhã de terça-feira. Ela acordou disposta, mas o visual do dia exigia algo diferente. Seguindo as instruções que Heitor havia deixado bilhetadas no espelho do banheiro, ela vestiu uma calça jeans justa, botas de cano curto e uma blusa preta de gola alta. Prendeu o cabelo em um coque firme e desceu.

​Heitor a esperava na garagem, encostado na Land Rover preta. Ele usava uma calça tática escura, botas e uma jaqueta de couro por cima de uma camiseta cinza. No banco de trás do carro, uma maleta rígida de polímero preto denunciava o programa do dia.

​— Hoje o buraco é mais embaixo, boneca — Heitor comentou com um sorriso de canto, abrindo a porta do passageiro para ela. — Vamos para o estande de tiro subterrâneo do galpão cinco. Você vai aprender a usar o melhor amigo de um Laurentis.

​A viagem até a zona portuária foi descontraída, embalada por provocações leves. Natasha já não se acuava diante da imponência dele; ela havia aprendido a ler os espaços entre a grosseria e o cuidado do marido.

​O Abafador e o Peso do Aço

​O estande de tiro era uma galeria subterrânea blindada, com paredes revestidas de isolamento acústico cinza-escuro e uma linha de alvos motorizados que podiam ser controlados por botões. O cheiro de pólvora queimada e óleo de armas impregnava o ar.

​Heitor colocou a maleta preta sobre a bancada de metal e a abriu, revelando duas pistolas impecáveis: uma Glock 9mm preta, leve e prática, e um imenso revólver Magnum .357 cromado, que brilhava sob as luzes fluorescentes.

​— Primeiro, a segurança — Heitor disse, pegando um par de abafadores de ruído eletrônicos e óculos de proteção transparentes.

​Ele se aproximou por trás de Natasha, colocando os óculos nela com cuidado e, em seguida, ajustando o abafador sobre os cabelos castanhos dela. Suas mãos grandes demoraram-se um segundo a mais em seu pescoço, acariciando a pele macia antes de ele se afastar e colocar os seus próprios equipamentos.

​— Pegue a Glock. Ela é mais leve e tem menos recuo — ele ordenou, a voz soando sutilmente abafada pelo equipamento de proteção.

​Natasha estendeu a mão e ergueu a pistola preta. O peso do metal frio a fez tencionar os músculos do braço. — É mais pesada do que parece nos filmes.

​— Esquece os filmes, Natasha. Isso aqui tira uma vida em um segundo ou salva a sua — Heitor mudou o tom para a seriedade tática, colando o corpo dele ao dela por trás para ajustar a postura, exatamente como fizera no tatame. Suas mãos calejadas cobriram as mãos dela, posicionando os dedos na empunhadura. — A mão direita segura firme, o indicador fica fora do gatilho até a hora de atirar. A mão esquerda envolve por fora, dando o suporte. Flexiona os braços de leve para absorver o impacto.

​Ele apertou um botão e o alvo de silhueta humana correu pelo trilho do teto, parando a sete metros de distância.

​— Alinha a alça e a massa de mira bem no centro do peito do alvo. Respira fundo, solta metade do ar e, quando estiver pronta, puxa o gatilho devagar. Não dá um soco no gatilho, ou o tiro vai para o chão. Destrava aqui — ele orientou, movendo o polegar dela para a trava de segurança.

​Natasha fixou os olhos verdes no papel à distância. O coração batia forte. Ela seguiu as instruções: mirou, prendeu a respiração e pressionou o gatilho.

​BUM!

​O estrondo ecoou forte, mesmo com o abafador, e um pequeno estalo de fogo saiu do cano. O recuo jogou os braços de Natasha para cima, e ela deu um passo para trás, chocando-se direto contra o peito firme de Heitor, que a segurou pela cintura com uma risada baixa.

​— Puta que pariu! — ela exclamou, os olhos arregalados, rindo do susto enquanto a fumaça azulada subia da arma.

​Heitor olhou para o alvo e apertou o botão para trazê-lo de volta. O projétil havia atingido a borda branca do papel, completamente fora da silhueta humana.

​— Passou longe, boneca — Heitor debochou, com os olhos castanhos brilhando de diversão cafajeste. — Se fosse um rival correndo atrás de você, ele teria morrido... de rir.

​— Cala a boca, Laurentis! Foi o meu primeiro tiro! — ela protestou, dando uma cotovelada leve nas costelas dele. — Quero ver você fazer melhor.

​Heitor deu um sorriso perverso. Ele pegou a mesma pistola da mão dela com uma facilidade irritante, esticou o braço direito com desleixo e disparou três vezes seguidas, em um ritmo ensurdecedor.

​BUM! BUM! BUM!

​Quando o alvo voltou, havia três buracos perfeitos, colados uns aos outros, exatamente no centro do peito da silhueta vermelha.

​— Exibido de merda — Natasha resmungou, cruzando os braços, embora estivesse secretamente impressionada com a precisão letal do marido.

​— É a prática, esposa — ele piscou para ela, devolvendo a arma para as mãos dela. — De novo. E agora foca na mira, não no barulho.

​A Competição e a Aposta

​Depois de cinquenta cartuchos queimados, a precisão de Natasha melhorou drasticamente. Ela já conseguia agrupar os tiros dentro da área de pontuação do alvo, o que inflou o orgulho competitivo que ela herdara do próprio temperamento forte.

​— Muito bem. Você já sabe o básico — Heitor disse, limpando os resíduos de pólvora da bancada. — Agora vamos deixar isso mais interessante. Uma competição. Dez tiros cada um. Quem pontuar menos, paga uma prenda hoje à noite.

​Natasha arqueou uma sobrancelha, interessada. — Que tipo de prenda, Laurentis?

​— O vencedor dita as regras na cama, sem direito a reclamação — ele propôs com uma vulgaridade charmosa, os lábios roçando na orelha dela por trás do abafador. — E eu sou um homem de ideias muito pervertidas, boneca.

​— Fechado — ela aceitou o desafio com um sorriso audacioso. — Mas se eu ganhar, você vai passar uma semana inteira sem rosnar ordens para mim e vai me ajudar a limpar os pincéis na oficina.

​Heitor soltou uma gargalhada rústica. — Você sonha alto, Natasha. Vamos lá. Novas silhuetas a dez metros.

​Natasha foi primeiro. Ela assumiu a postura perfeita que ele havia ensinado, concentrada, os olhos verdes focados. Disparou os dez tiros com calma. O resultado foi excelente: todos no peito, com dois deles acertando a zona máxima.

​— Quero ver superar isso — ela provocou, limpando uma mecha de cabelo do rosto.

​Heitor assumiu o posto. Ele olhou para ela, deu aquela piscadela cafajeste e começou a disparar. No entanto, no quinto tiro, Natasha deu um passo sutil para o lado e deslizou a mão livre pela lateral da cintura dele, apertando a carne firme ali em uma cócega inesperada.

​O dedo de Heitor escorregou no gatilho. O tiro foi direto no teto do estande, arrancando um pedaço de gesso que caiu no chão.

​— Que porra é essa, Natasha?! — ele exclamou, parando o exercício e olhando para ela com uma fúria fingida, enquanto ela dobrava o corpo de tanto rir.

​— No meu mundo, Laurentis, o perigo não avisa quando vai chegar — ela repetiu as palavras dele, imitando perfeitamente o tom de comando dele. — Você se distraiu. Perdeu o foco.

​Heitor olhou para o alvo, onde o tiro perdido havia estragado sua pontuação perfeita, e depois olhou para a esposa, que exibia o sorriso mais lindo e vitorioso do mundo. A ignorância dele desfez-se em uma admiração profunda. Ele guardou a arma na bancada, travando-a, e caminhou até Natasha, encurralando-a contra a parede de isolamento acústico do estande.

​Ele puxou os óculos e o abafador dela para o pescoço, colando o corpo quente ao dela. Suas mãos grandes seguraram a cintura de Natasha com força e posse.

​— Você é uma trapaceira, boneca — ele sussurrou contra os lábios dela, o hálito quente preenchendo o espaço. — Usou táticas sujas.

​— Eu usei as armas que eu tinha — ela rebateu, com a respiração acelerada pela proximidade. — Então... eu ganhei?

​— Ganhou a competição, mas perdeu o juízo se acha que eu vou te dar uma semana de folga — Heitor calou-a com um beijo intenso, profundo e necessitado ali mesmo, em meio ao cheiro de pólvora e metal. A língua dele dominou a dela com uma voracidade que fez as pernas de Natasha fraquejarem. Ele a apertou contra a parede, as mãos descendo para erguer o quadril dela de leve, fazendo-a sentir toda a sua rigidez por cima do jeans.

​Ele se afastou devagar, dando um tapa firme e estalado na bunda dela que a fez soltar um gritinho. — Vamos voltar para casa. Você venceu os tiros, mas eu vou fazer questão de te ajudar a limpar aqueles pincéis... do meu jeito.

​Natasha riu, abraçando o pescoço dele enquanto caminhavam de volta para o carro. O treino de tiros havia terminado, mas a cumplicidade que crescia entre o chefe da máfia e sua restauradora mostrava que, no alvo do amor, ambos haviam acertado a mosca.