O Preço do Pecado
12 A Aliança de Ferro
O sábado passou como um borrão cinzento na mente de Natasha. Ela não saiu de casa, não comeceu direito e passou a maior parte do dia encolhida no sofá, encarando as paredes. O desespero a consumia de dentro para fora. Uma coisa era ceder a um desejo carnal proibido e casual no meio da noite; outra, completamente diferente, era assinar um papel que a transformaria em propriedade de Heitor Laurentis para sempre. Mas a imagem do pai com uma arma apontada para a cabeça não lhe dava escolha.
Perto das dezenove horas, ela se levantou, tomou um banho demorado e vestiu uma roupa qualquer. Arrancou suas malas do armário e colocou o essencial. Quando o relógio marcou exatamente vinte horas, a buzina do carro de Enzo ecoou lá embaixo.
Ao chegar à mansão, o silêncio do lugar parecia ainda mais intimidador. Enzo a conduziu diretamente pelo corredor do térreo até a imensa porta de mogno do escritório principal. O capanga bateu duas vezes e abriu, dando espaço para ela entrar.
Heitor estava sentado atrás de sua imensa mesa, revisando uma pilha de documentos, com um copo de uísque pela metade ao lado do notebook. Ele ergueu os olhos lentamente, e aquele sorriso cínico e vitorioso surgiu em seus lábios.
— Você é pontual quando quer, Natasha — ele comentou, encostando-se na cadeira de couro.
— Eu não vim aqui para brincar, Heitor — ela disse, a voz trêmula de raiva, batendo a porta atrás de si. Ela caminhou até a mesa e apoiou as duas mãos na madeira, encarando-o de frente. — Eu aceito. Eu me caso com você. Mas com uma condição.
Heitor arqueou uma sobrancelha, soltando uma risada curta e anasalada, cheia de deboche. — Uma condição? Você acha que está em posição de ditar termos, boneca?
— Vai ser um casamento de conveniência! — ela exigiu, o peito subindo e descendo. — Eu fico no meu canto, você fica no seu. Nós não somos um casal de verdade. Você tem a sua vida, os seus negócios sujos e as suas vadias da boate, e me deixa em paz nesta casa. Na cama, acabou. Eu não vou ser o seu brinquedo.
Heitor parou de sorrir. Ele se levantou devagar, o tamanho imponente dele fazendo a sala parecer menor. Ele contornou a mesa a passos calmos e parou a poucos centímetros dela, com aquela ignorância rústica que o acompanhava.
— Deixa eu te falar umas verdades para você acordar para o mundo real, Natasha — ele disse, a voz caindo para um tom gélido e pausado. — Você está entrando para a máfia. A partir do momento em que assinar o documento, você carrega o sobrenome Laurentis. Se os meus inimigos desconfiarem por um segundo que o nosso casamento é uma farsa, que eu não durmo com você ou que você fica trancada em um quarto separado, você vira um alvo ainda mais fácil. Você vai dormir na minha cama, vai sentar ao meu lado nas jantas e vai agir como a minha mulher. Suas vontades não valem porra nenhuma aqui dentro. Você entendeu?
Natasha engoliu em seco, o choque da realidade batendo no seu peito. Ela percebeu, com um aperto terrível no estômago, que estava completamente encurralada. Não havia espaço para negociação.
— O casamento vai ser no próximo fim de semana — Heitor decretou, pegando o copo de uísque e dando um gole. — Curto e rápido, no quintal. Sem palhaçada de igreja. Agora sobe e arruma as suas coisas no meu quarto.
O Fim de Semana: A Cerimônia
O sábado seguinte chegou com um céu cinzento e uma brisa fria. A cerimônia foi montada de forma rápida e discreta nos jardins dos fundos da mansão, com vista para o imenso lago que cercava a propriedade. Não havia flores excessivas, nem música romântica. Apenas um juiz de paz corrupto pago pela família, Romeu, Vanessa e cerca de trinta homens de terno escuro e feições duras.
Natasha vestia um vestido de noiva simples, de alças finas e cetim branco, sem véu ou grinalda. Ela parecia uma boneca de porcelana perdida em um ninho de lobos. Durante a recepção rápida que se seguiu nos salões da mansão, Heitor a manteve firme ao seu lado, com a mão espalmada na base das suas costas de forma possessiva enquanto a apresentava aos principais chefes das famílias aliadas de Chicago.
— Esta é a minha esposa, Natasha Laurentis — Heitor dizia a cada um deles, o tom ríspido deixando claro que qualquer olhar torto seria punido com a morte.
Natasha sorria amarelo, sentindo o peso dos olhares calculistas daqueles homens perigosos. O que ela mal sabia, escondida atrás da sua fúria e desespero, era que aquele casamento era uma fortaleza para protegê-la. Depois do escândalo que fizera na boate, esbanjando ciúmes, três clãs rivais já haviam colocado espiões para descobrir quem era a garota do museu. Casar-se com ela publicamente era a única forma que Heitor encontrara de colocar o exército da família ao redor dela antes que fosse tarde demais.
A Noite, no Quarto Principal
Passava da meia-noite quando a mansão finalmente silenciou. No quarto principal, Natasha estava sozinha. Ela caminhou até o banheiro, tirou o vestido branco simples com movimentos mecânicos e lavou o rosto, tentando tirar a sensação de sufocamento daquele dia. Ela vestiu uma camisola de seda preta que ia até o meio das coxas e voltou para o quarto.
A suíte estava na penumbra. Natasha caminhou até a imensa janela de vidro e olhou para fora. À noite, a vista do lago era de uma beleza melancólica e hipnotizante. A lua cheia se refletia na água escura, criando um rastro de luz prateada que parecia o único ponto de paz naquele lugar.
Na sacada do quarto, Heitor terminava uma ligação tensa no celular. Pelo vidro, Natasha conseguia ver os gestos duros dele e a fúria na sua mandíbula enquanto dava ordens ríspidas sobre a segurança do perímetro da mansão. Ele desligou o aparelho com força, guardou-o no bolso e entrou no quarto, fechando a porta de vidro atrás de si.
Ele jogou o paletó cinza do casamento em cima da poltrona, desabotoou os primeiros botões da camisa com pressa e ignorância, e foi direto para o banheiro. Dez minutos depois, ele saiu usando apenas um short de moletom cinza, com o peito coberto de tatuagens exposto e os cabelos pretos ainda molhados da ducha, pingando levemente nos ombros largos.
Assim que ele se aproximou da cama, Natasha deu dois passos rápidos para trás, afastando-se em direção à janela, os braços cruzados sobre o peito.
— Fica longe de mim, Heitor — ela disse, a voz carregada de uma barreira defensiva.
Heitor parou no meio do quarto, bufando de irritação. A paciência dele, que já estava desgastada pelas ligações de segurança, esgotou-se.
— Qual é a porra do seu problema agora, Natasha? Nós já casamos, os papéis estão assinados. Deixa de criancice e deita nessa cama — ele rosnou, o jeito bruto de mafioso estalando no tom de voz.
— Eu já te disse que não vou ser a sua puta de conveniência! — ela gritou, a fúria explodindo após o dia inteiro engolindo o choro. — Você me obrigou a casar com você, ameaçou o meu pai, destruiu a minha vida e me jogou no meio daqueles monstros lá embaixo! Você acha que só porque me deu um sobrenome eu vou abrir as pernas e sorrir para você? Você é um monstro egocêntrico, Heitor! Um cafajeste sem alma!
Heitor deu três passos rápidos, a expressão injetada de raiva, parando bem na frente dela, encurralando-a contra o vidro da janela.
— Cala a boca antes que eu perca a minha cabeça com você! — ele esbravejou, o rosto colado ao dela, a voz grossa vibrando no peito. — Você não sabe de porra nenhuma do que acontece no meu mundo! Você acha que eu te trouxe para cá por capricho? Você fez aquela merda de cena na boate, se expôs para a cidade inteira e virou um alvo! Se eu não coloco uma aliança no seu dedo e o meu nome na sua certidão, você estaria morta ou sendo torturada por um rival meu antes do amanhecer! Então para de agir como se eu tivesse destruído a sua vida, porque eu acabei de salvar a sua pele de boneca!
Natasha estancou, os olhos arregalados com a revelação brutal, mas a soberba e o orgulho ferido não a deixaram recuar.
— Eu prefiro correr o risco na rua do que ficar trancada com você! Eu tenho nojo do seu toque, tenho nojo do seu cheiro! — ela mentiu, desferindo as palavras mais duras que conseguiu encontrar para feri-lo. — Você pode ter o meu corpo quando usar a força, mas eu vou te odiar cada segundo por isso!
A mandíbula de Heitor travou com tanta força que os músculos do seu pescoço saltaram. Os olhos dele faiscaram de puro ódio e frustração diante das palavras venenosas dela. Ele a encarou por longos e sufocantes segundos, a respiração pesada batendo no rosto de Natasha.
Em vez de avançar e tomá-la à força como das outras vezes, a ignorância dele transformou-se em uma frieza cortante. Ele deu dois passos para trás, soltando uma risada sarcástica e rústica.
— Quer saber? Vá para o inferno, Natasha — ele disse, a voz mansa e perigosa. — Eu não preciso implorar por buceta de mulher nenhuma, muito menos da filha de um rato como o Marston. Durma com o seu ódio.
Heitor deu as costas, caminhou até a cama de casal e deitou-se do lado esquerdo, cobrindo-se e virando de costas para ela, ignorando completamente a presença da jovem no quarto.
Natasha continuou parada junto à janela, o peito arfante, as lágrimas de raiva finalmente descendo pelo rosto. Pela primeira vez desde que aquela guerra de gato e rato havia começado, a noite terminou em um silêncio sepulcral, sem o calor dos corpos, sem o som dos gemidos e sem sexo, deixando apenas o eco de uma discussão feia e a frieza de uma cama compartilhada por dois inimigos.
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