​A manhã de domingo nasceu cinzenta, condizendo perfeitamente com o clima que se instalou na suíte principal. Não houve bom dia, não houve olhares demorados. Heitor levantou-se antes de o sol raiar, vestiu-se em silêncio e desceu. Quando Natasha desceu para tomar café, ele já estava na cabeceira da mesa, cercado por papéis e com o semblante fechado.

​Durante a refeição, a frieza era quase palpável. Romeu e Vanessa não estavam lá, deixando os dois imersos em um silêncio cortante. Heitor fez questão de ignorar a presença dela até o último segundo, tratando-a como se fosse invisível ou um mero detalhe incômodo na decoração da casa.

​— O motorista vai estar à disposição se você precisar ir ao mercado ou comprar alguma futilidade — Heitor disse de repente, sem erguer os olhos do tablet. A voz dele era desprovida de qualquer emoção. — Só não saia do perímetro da mansão sem os seguranças. Não quero ter o trabalho de recolher os seus pedaços na rua.

​Natasha engoliu a seco, o estômago embrulhando com a crueza das palavras. Ela ergueu o queixo, mantendo a máscara de indiferença.

— Não preciso que se preocupe com os meus pedaços, Laurentis. Sei me cuidar muito bem sozinha.

​— Não pareceu quando você estava histérica na boate — ele rebateu, soltando uma risada anasalada, ácida e cortante. Ele finalmente ergueu os olhos castanhos, lançando um olhar atravessado que desceu como uma lâmina. — Ali, você agiu como uma garota mimada e sem cérebro. Aqui dentro, você é só mais uma responsabilidade que eu sou obrigado a carregar. Não se ache especial porque assinou um papel. Você continua sendo a filha do Marston. Uma moeda de troca que eu decidi guardar na gaveta.

​As palavras dele bateram forte no peito de Natasha. Doeu. Uma queimação fria de humilhação subiu por sua garganta, mas ela cravou as unhas na palma das mãos por baixo da mesa, recusando-se a demonstrar qualquer fraqueza ou deixar que uma única lágrima caísse diante dele.

​— Ótimo — ela respondeu, a voz perfeitamente controlada e gélida. — Então me esqueça nessa gaveta. Vai ser melhor para nós dois.

​Heitor levantou-se da mesa sem dizer mais nada, empurrando a cadeira com rispidez, e sumiu pelos corredores da mansão, deixando-a sozinha com o café amargo na boca.

​A Oficina Oculta

​À tarde, Natasha estava trancada no quarto. Ela andava de um lado para o outro, pensativa, sentindo as paredes da mansão sufocarem sua mente. Ela precisava fazer algo, precisava trabalhar, tocar em suas tintas e vernizes para lembrar de quem era antes de se tornar uma Laurentis.

​De repente, a porta do quarto foi aberta sem que ninguém batesse. Heitor entrou. Ele havia tirado a camisa social e usava apenas uma camiseta preta simples que marcava seus ombros largos. A expressão dele continuava dura.

​— Vem comigo — ele ordenou, ríspido.

​— Para onde? Eu não quero ir a lugar nenhum com você — ela rebateu, cruzando os braços.

​— Eu não perguntei o que você quer, Natasha. Levanta dessa cama e anda — ele aumentou o tom de voz, a ignorância habitual estalando no ar.

​Sem paciência para outra discussão feia, ela bufou e o seguiu. Heitor a conduziu pelo andar térreo, passando por um corredor longo na ala oeste da mansão que ela ainda não conhecia. Ele parou diante de uma imensa porta dupla de madeira clara e a empurrou.

​Natasha congelou na soleira da porta. Os olhos dela se arregalaram.

​O espaço era enorme, uma sala ampla com grandes janelas de vidro que permitiam a entrada perfeita de luz natural. O chão era de porcelanato claro e as paredes eram brancas e limpas. Mas o que a deixou sem fôlego foi o conteúdo: o local estava completamente equipado com cavaletes profissionais, bancadas de mármore para misturas, lupas eletrônicas, solventes importados, pincéis de pelo de camelo de todos os tamanhos, estufas de secagem e prateleiras cheias de telas em branco. Ele havia montado uma oficina completa e de última geração para reconstrução de obras de arte.

​Ela olhou para os materiais e depois para Heitor, a surpresa desarmando sua máscara por um breve segundo.

— Você... você montou isso aqui?

​Heitor encostou-se no batente da porta, os braços cruzados, observando a reação dela com uma frieza calculada.

— O Enzo localizou os seus fornecedores e eu mandei trazer tudo o que havia de melhor no mercado. Eu disse que não queria você solta na rua virando alvo dos meus inimigos. Se quer trabalhar, vai trabalhar aqui dentro, onde os meus homens vigiam as portas.

​Natasha engoliu o orgulho. Por dentro, seu coração acelerou com o gesto, mas a crueza de como ele a tratara pela manhã ainda ardia na sua pele. Ela respirou fundo e o encarou, endireitando a postura.

​— Obrigada, Heitor — ela disse, a voz soando distante, polida e fria. — É um espaço excelente.

​Heitor a encarou por alguns segundos, a mandíbula travando levemente ao perceber que ela não se dobraria facilmente. Ele soltou um som áspero pelo nariz e deu as costas.

— Fique à vontade. Só não suje o chão.

​Ele saiu, batendo a porta dupla e deixando-a sozinha no meio do seu novo santuário.

​A Noite, no Quarto

​Quando a noite caiu, Natasha preferiu avisar os funcionários que não desceria para o jantar. Ela não tinha estômago para encarar Heitor na cabeceira da mesa novamente. Ela permaneceu no quarto, vestindo uma camisola de seda preta, deitada na cama de casal com o notebook apoiado nas coxas, revisando alguns catálogos de arte antiga para tentar ocupar a mente.

​Por volta das vinte e duas horas, a porta se abriu. Heitor entrou, exalando o cansaço de um dia inteiro resolvendo problemas da máfia. Ele não olhou para ela. Caminhou até o closet, tirou o terno e a arma, e voltou vestindo apenas um short de moletom escuro.

​Ele deitou-se do lado esquerdo da cama, mantendo uma distância considerável. Pegou o celular e passou cerca de dez minutos digitando mensagens, o rosto iluminado pela tela do aparelho na penumbra do quarto. Natasha continuou focada no notebook, fingindo que ele era apenas uma miragem ao seu lado.

​De repente, Heitor bloqueou o celular e o guardou na mesa de cabeceira com um estalo seco. O silêncio do quarto mudou. Natasha sentiu o colchão afundar quando ele se moveu.

​Heitor virou-se de lado, apoiando o peso do corpo em um dos cotovelos, e fixou os olhos castanhos nela.

— Desliga essa merda, Natasha — ele ordenou, a voz rouca, cortando o silêncio.

​— Estou trabalhando, Heitor. Me deixa em paz — ela respondeu sem desviar os olhos da tela do notebook.

​Antes que ela pudesse processar o movimento, Heitor estendeu a mão grande, segurou a borda do notebook e o fechou com força, empurrando o aparelho para o lado no colchão.

​— Ei! Ficou maluco?! — ela protestou, virando-se para ele com raiva.

​— Eu disse para desligar — Heitor sibilou. Ele avançou rápido, segurando os pulsos de Natasha com uma das mãos e a prendendo contra os travesseiros, subindo o corpo pesado por cima do dela. O calor da pele dele colou instantaneamente na camisola de seda dela. — Passou o dia inteiro trancada naquela sala de arte e agora vai passar a noite me ignorando? Eu não acho que funcione assim.

​— Me solta, Laurentis! — Natasha tentou puxar as mãos, os olhos faiscando de fúria na penumbra. — Nós tivemos uma discussão feia ontem. Você me tratou como um lixo hoje de manhã na mesa! Disse que eu era só uma moeda de troca na sua gaveta! Esqueceu?

​Heitor deu um sorriso perverso, cafajeste, aproximando o rosto do dela até que seus lábios quase se tocassem. O cheiro de uísque que ele havia tomado antes de subir invadiu os sentidos dela.

​— Eu lembro de cada palavra, boneca. Mas eu também lembro do jeito que você geme quando eu estou dentro de você — ele sussurrou com vulgaridade, a voz arrastada e grossa. Ele soltou os pulsos dela, mas usou a mão livre para apertar a coxa de Natasha por cima da seda, subindo o tecido com pressa até o quadril. — O seu orgulho pode gritar o quanto quiser, Natasha, mas a sua pele está arrepiada. Você está me desejando desde a hora que eu entrei por aquela porta.

​— Você é um convencido... um monstro arrogante... — ela balbuciou, tentando manter a voz firme, mas sua respiração já havia acelerado. O roçar do corpo musculoso e nu dele contra o seu estava despertando aquela traição biológica que ela tanto odiava.

​— Sou o seu marido, Natasha. E você é minha — ele decretou, a ignorância e a possessividade dominando o ambiente.

​Heitor atacou a boca dela com um beijo devastador, raivoso e sedento. A língua dele invadiu a dela sem pedir licença, e Natasha soltou um gemido sôfrego contra os lábios dele. Mais uma vez, a razão perdeu a batalha para o corpo. Ela cedeu. Suas mãos subiram pelas costas tatuadas de Heitor, cravando as unhas na carne firme dele enquanto correspondia ao beijo com a mesma fúria carnal.

​Ele puxou a camisola de seda para cima, rasgando as alças com pressa e deixando-a totalmente despida sob ele. Heitor a tomou de forma bruta, profunda e implacável ali mesmo na cama, ditando um ritmo frenético que fazia a cabeceira bater contra a parede. Natasha jogava a cabeça para trás, os gemidos altos e agudos quebrando o silêncio da madrugada na mansão enquanto ela se entregava completamente ao domínio dele. O suor colava seus corpos na penumbra, e as palavras sujas que Heitor sussurrava em seu ouvido — lembrando-a de quem mandava ali dentro — só faziam o ápice carnal chegar mais rápido e mais violento para ambos.

​Quando o clímax ruidoso e sôfrego finalmente passou, os corpos se separaram devagar.

​Natasha arfava, o peito subindo e descendo na escuridão. A queimação do prazer logo deu lugar ao peso do silêncio e à frieza da realidade. Sem dizer uma única palavra, ela virou-se de costas para ele, puxando o lençol até os ombros e encolhendo as pernas perto do peito, isolando-se no seu próprio lado da cama.

​Heitor continuou deitado de costas, com os braços esticados ao lado do corpo, os olhos castanhos fixos no teto escuro do quarto. Ele ouvia a respiração descompassada dela diminuir aos poucos. Não houve carinho, não houve perguntas, não houve nenhuma palavra de conforto. A guerra de gato e rato continuava viva entre os lençóis de seda, e o muro de gelo que os separava parecia ficar cada vez mais alto, mesmo após terem se consumido em puro fogo.