O Preço do Fogo
3 A Dúvida e o Medo
O frio da manhã parecia cortar a pele de Elira enquanto caminhava ao lado do demónio, cujo olhar permanecia fixo no horizonte. O silêncio entre eles era pesado, carregado de palavras não ditas e de promessas que pesavam como pedras no peito da princesa. Arden seguia alguns passos atrás, atento a qualquer movimento suspeito da floresta, a mão firme sobre a espada. Mas Elira estava demasiado ocupada com os próprios pensamentos para reparar nos perigos exteriores.
A queda da noite anterior ainda a assombrava: o sangue na lama, o medo que percorreu cada músculo do seu corpo, e o toque quase acidental do demónio enquanto a ajudava. Esses momentos, tão breves, tão furtivos, não podiam ser ignorados. Algo dentro dela despertava, misturando medo, fascínio e uma confusão que a deixava sem fôlego.
— Elira… estás bem? — a voz de Arden quebrou o silêncio, carregado de preocupação. — Sei que doeu, mas consegues andar?
Ela engoliu em seco, forçando um sorriso. — Sim… estou bem. Só… cansada.
Arden olhou para ela com desconfiança. — Cansada? Elira, a tua perna ainda dói-te. Não finjas que não.
Elira desviou o olhar, sentindo uma pontada de frustração.
— Eu não posso depender sempre de ti, Arden. Tenho de conseguir sozinha.
Ele hesitou, respirou fundo e deixou a espada por um momento.
— Eu sei. Mas não posso simplesmente ficar parado enquanto tentas enfrentar tudo sozinha. Não posso… não depois de tudo.
Ela não respondeu. O peso da sua própria dúvida esmagava-a. Cada passo ao lado do demónio era um lembrete silencioso de que havia algo que não compreendia completamente. Por que alguém tão sombrio, tão distante, estaria disposto a protegê-la? E, pior ainda, por que sentia um calor estranho, quase conforto, perto dele?
O demónio finalmente falou, interrompendo o silêncio pesado.
— Não confundas o meu ato com compaixão. Não salvo por bondade. Apenas quero pago a dívida. Apenas isso, nada mais.
Elira engoliu em seco, sentindo o coração apertar-se.
— Eu… sei. Mas… é difícil não sentir algo. — A sua voz tremia ligeiramente. — Não sei se devo confiar em ti ou se apenas me deixo levar pelo medo.
O demónio parou e virou-se lentamente, olhos sombrios fixos nos dela.
— Confiança é uma escolha perigosa, Elira. — Cada palavra carregava o peso de eras de solidão. — E ainda assim, se me deres um momento, se me permitires, talvez eu possa proteger-te de algo que nem tu consegues ver.
O silêncio seguiu-se, pesado e carregado. Elira sentiu o calor subir-lhe às faces. Por um instante, desejou que Arden não estivesse atrás dela, que estivesse só com ele, para poder explorar aquele turbilhão de sentimentos sem medo do julgamento. Mas Arden estava lá, e a sua presença lembrava-lhe de que não podia ceder completamente.
— E se falhar? — murmurou ela, quase para si mesma. — E se, por confiar, acabar ferida de novo… ou pior?
O demónio aproximou-se, cada passo era calculado, silencioso, mas suficientemente perto para que ela sentisse o ar a vibrar ao redor dele.
— Então sofrerás. Mas isso é parte da escolha. — Ele inclinou ligeiramente a cabeça, com os olhos fixos nos dela. — Sofrer é inevitável. Mas também pode ensinar o que a segurança nunca revela.
Elira sentiu um nó na garganta. Não queria admitir, nem para si mesma, mas havia algo nas palavras dele que a tocava profundamente. Não era apenas a promessa de proteção, era o peso da verdade que ele carregava. Cada gesto, cada palavra, era uma ponte entre eles que ela não podia ignorar.
Arden, percebendo a tensão entre eles e tentou interceder.
— Elira, não te deixes perder em pensamentos. Não sabes o que ele realmente é… o perigo que representa…
Ela respirou fundo, olhando de Arden para o demónio.
— Eu sei… mas também sei que não posso viver apenas com medo. — A voz dela estava mais firme, mais decidida, mas carregada de emoção. — Talvez seja isso… talvez eu deva tentar confiar, mesmo sabendo que dói.
O demónio desviou o olhar por um instante, como se o coração dele também tivesse sido tocado por aquela confissão silenciosa.
— Então escolhes arriscar-te. — Ele disse, mais baixo, quase num sussurro que apenas ela poderia ouvir. — Escolhes viver apesar do medo.
Elira engoliu em seco. Cada palavra dele parecia penetrar-lhe na alma, despertando sentimentos que não compreendia totalmente. Medo, fascínio, desejo, confusão… tudo misturado numa tempestade silenciosa que a deixava exausta e viva ao mesmo tempo.
— Por favor… — murmurou ela, sem perceber que estava a pedir mais do que segurança. — Por favor, não me deixes sozinha.
Ele aproximou-se ainda mais, e o ar ao redor deles tornou-se quase eléctrico. Por um momento, o mundo pareceu desaparecer, deixando apenas os dois, presos num instante onde a confiança, a dúvida e o medo se entrelaçavam.
— Não estou aqui para te abandonar. — A voz dele era firme, mas suave, carregada de uma promessa silenciosa que fazia o coração de Elira disparar. — Não enquanto eu puder pagar a minha dívida.
Arden, percebendo o momento, respirou fundo e deu um passo para trás, respeitando o espaço deles, mas os olhos continuavam fixos no demónio, cheios de alerta e desconfiança.
Elira fechou os olhos por um instante, sentindo a tensão desvanecer-se apenas um pouco.
— Então… vamos continuar. — A voz saiu quase como um sussurro, mas firme o suficiente. — Mas desta vez… juntos.
O demónio apenas assentiu, e Arden soltou um suspiro silencioso, preparando-se para o que viria a seguir. A jornada ainda estava no início, mas algo tinha mudado entre eles. Algo que nem o medo, nem a dor, nem os fantasmas do passado poderiam apagar.
E enquanto avançavam pela floresta enevoada, Elira sentiu pela primeira vez que a escolha de confiar poderia ser tão perigosa quanto libertadora. E que, talvez, esse risco fosse o único caminho para descobrir não apenas quem ela era, mas também quem ele podia ser ao seu lado.
Fale com o autor