O Preço do Fogo
4 O Primeiro Acordo
O sol mal se ergueu sobre a floresta, e o nevoeiro ainda dançava entre os troncos altos e silenciosos. Elira sentia a dor na perna cada vez mais intensa, mas a determinação que crescia dentro dela era mais forte. Ao seu lado, o demónio caminhava com passos silenciosos, cada gesto controlado, quase mecânico, mas a presença dele provocava-lhe uma ansiedade que misturava medo e algo novo estranho, curiosidade, fascínio, talvez confiança.
Arden mantinha-se a alguns passos atrás, observando cada movimento do demónio com desconfiança, cada olhar que ele lançava à princesa parecia pesar como uma sentença silenciosa. Elira podia sentir a tensão entre os dois homens, uma corrente invisível de rivalidade que carregava mais emoção do que qualquer batalha que já presenciara.
— Elira — começou Arden, com a voz firme, mas carregada de preocupação — não sei se deves confiar nele assim. Não conheces o alcance do que ele é capaz.
Elira respirou fundo, olhando de Arden para o demónio.
— Eu sei. Mas… — hesitou, incapaz de expressar completamente o turbilhão dentro de si — não posso apenas fugir. Não agora. Preciso enfrentar isto, de alguma forma.
O demónio interrompeu, com a voz baixa e grave, carregada de uma intensidade que fez Elira tremer: — Não é uma escolha fácil confiar em mim. Nem devia ser. Mas há um caminho. Um acordo.
Ela franziu o cenho, confusa.
— Um acordo? Que tipo de acordo?
Ele aproximou-se, a presença dele preencheu o espaço de forma quase sufocante.
— Um acordo de sobrevivência. Tu fazes o que eu disser. Eu protejo-te. Até ao fim. — Os olhos dele, escuros como brasas, fixaram-se nos dela, e por um momento Elira sentiu o tempo parar. — Se quebrar a promessa… pagarei o preço. Mas até lá, tu viverás.
Arden engoliu em seco, claramente irritado com a ideia, mas Elira sabia que, de alguma forma, aquele era o único caminho para continuar.
— Muito bem — disse ela, com a voz firme, mesmo com a incerteza a apertar-lhe o peito. — Mas quero algo também. Quero saber por que estás a fazer isto. — Olhou-o nos olhos, tentando encontrar algum vestígio de humanidade. — Quero compreender, mesmo que seja só um pouco.
O demónio desviou o olhar por um instante, como se essas palavras tivessem atingido algo dentro dele que raramente deixava transparecer. Depois voltou a fixá-la com intensidade. — Não faças perguntas que te possam destruir.
Ela respirou fundo, sentindo a mistura de medo e excitação percorrer-lhe o corpo.
— Talvez eu queira mesmo ser destruída, se isso significar compreender-te.
O silêncio caiu, pesado, quase palpável. Arden deu um passo à frente, mas Elira levantou a mão, impedindo-o:
— Arden… confia. Confia que sei o que faço. — A voz dela tremia, mas havia determinação.
O demónio deu um passo mais perto, e Elira sentiu a presença dele como um calor estranho, íntimo, carregado de poder e promessa.
— Então está feito. O acordo está selado. Mas lembra-te: não há garantias. Apenas consequências.
Elira assentiu, engolindo o nó na garganta.
— Eu aceito.
E, naquele instante, algo mudou entre eles. Não era apenas sobrevivência, não era apenas medo. Era o início de uma ligação silenciosa, de confiança inesperada, de sentimentos que começavam a germinar, mesmo que ambos tentassem ignorá-los.
Enquanto avançavam pela floresta, Elira tentava compreender as emoções que o demónio despertava nela. Havia medo, claro, mas também uma estranha sensação de segurança que nenhum outro humano conseguia oferecer. Cada toque, cada gesto dele, mesmo involuntário, parecia penetrar-lhe na pele e na alma.
— Não entendo… — murmurou ela num sussurro. — Como consegues ser tão frio e ainda assim… assim capaz de me fazer sentir segura?
O demónio ergueu uma sobrancelha, um gesto quase humano, e respondeu: — A segurança não é um dom que ofereço. É uma escolha. E escolhas têm sempre um preço.
Elira engoliu em seco.
— Então… qual é o teu preço? — perguntou, sem perceber que cada palavra a deixava mais vulnerável.
Ele desviou o olhar, momentaneamente, antes de responder com um tom grave e silencioso.
— O meu próprio coração. E talvez mais do que isso.
O silêncio caiu sobre eles, pesado e carregado de significado. Elira sentiu uma pontada de medo, mas também de fascínio. O mundo parecia ter diminuído à volta deles, deixando apenas a floresta enevoada, o demónio à sua frente e o turbilhão de emoções que não conseguia controlar.
Arden, percebendo que não tinha espaço ali, deu um passo atrás, murmurando para si mesmo:
— Espero que saibas o que estás a fazer… Elira.
Elira fechou os olhos, sentindo o peso das suas escolhas. Sabia que estava a arriscar-se, mas também sabia que, pela primeira vez desde a queda da sua aldeia, sentia algo que a fazia sentir viva. Um fio de esperança, frágil, mas real.
O demónio tocou-lhe ligeiramente o braço para chamar a atenção, e Elira sentiu o coração disparar.
— Lembra-te: — disse ele, com a voz grave e baixa — ninguém disse que isto seria fácil. Mas juntos, talvez possamos sobreviver.
Ela assentiu, engolindo a ansiedade que subia pelo peito.
— Juntos…
Enquanto continuavam a avançar pela floresta, o nevoeiro parecia abrir-se apenas para eles, como se o mundo reconhecesse o pacto silencioso que haviam feito. Mas Elira sabia que a verdadeira prova ainda estava por vir não apenas contra os perigos exteriores, mas contra os sentimentos que começavam a crescer silenciosamente entre eles.
E naquele momento, ela percebeu que o preço do fogo não era apenas a sobrevivência era também a coragem de enfrentar o próprio coração, mesmo quando o demónio ao seu lado parecia tão distante e impossível de compreender.
O acordo estava feito. Mas o verdadeiro desafio apenas começava.
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