​O silêncio nos aposentos reais era mais assustador do que os gritos de Giulia no salão. Adrian caminhava de um lado para o outro, a túnica de gala jogada em uma poltrona, as mãos ainda trêmulas de uma fúria que recusava-se a diminuir. Ele parecia um predador enjaulado, e Mellyssa sabia que qualquer palavra errada poderia fazer aquela jaula explodir.

​Ela estava parada perto da lareira, os braços cruzados sobre o vestido de prata, observando-o. O choque inicial passara, substituído por uma inquietação profunda. Ela odiava Giulia com cada fibra de seu ser, mas a imagem do menino, Lucca, tremendo diante da crueldade de Adrian, não saía de sua mente.

​— Você ia matá-los — Mellyssa disse, sua voz quebrando o silêncio, baixa e cortante. — Se eu não tivesse intervindo, você teria manchado o chão do baile de dez anos dos seus filhos com sangue diante de toda a corte.

​Adrian parou abruptamente, virando-se para ela. Seus olhos ainda estavam obscurecidos pela raiva, uma névoa escura que Mellyssa raramente via.

— Você está defendendo-a, Mellyssa? Depois de tudo o que ela nos fez? Depois de ela ter ousado trazer uma criança estranha para questionar a legitimidade dos nossos filhos?

​— Eu não estou defendendo a Giulia! Eu a quero morta tanto quanto você! — ela rebateu, dando um passo à frente, a voz subindo. — Mas eu estou falando da criança, Adrian! O menino tem doze anos. Ele não tem culpa das loucuras da mãe. E você o tratou como se ele fosse o próprio demônio incarnado.

​— E ele é! — Adrian rugiu, aproximando-se dela, a aura de ameaça emanando dele. — Ele é o sangue dela! Ele é uma arma que ela construiu e esperou doze anos para lançar contra nós. Você viu o modo como ele olhou para o Alexander? Houve inveja ali, Mellyssa. Inveja e ódio. Eu não quero aquela corja no meu palácio. Eu não quero o cheiro dos Lâfrer perto da minha família.

​Mellyssa recuou um passo, não de medo físico, mas impressionada com a força bruta daquela raiva. Ela sabia que Adrian era passional, que sua juventude fora marcada por explosões, mas ela achava que dez anos de reinado e paternidade o haviam acalmado. Ela estava errada. O ódio por Giulia não diminuíra; ele apenas fora enterrado, fermentando e tornando-se mais letal.

​— O seu ódio por ela é tão grande que te cega — Mellyssa sussurrou, olhando-o como se visse um estranho. — Você baniu um menino inocente para a morte certa nas mãos dos guardas na fronteira apenas para ferir a mãe dele. Isso não é ser um Rei justo, Adrian. Isso é ser o monstro que ela te ensinou a ser.

​Aquelas palavras atingiram Adrian como um soco. Ele estacou, a mandíbula travando, o rosto ficando pálido. O insulto mais doloroso que alguém poderia lhe fazer era compará-lo a Giulia ou ao que ela representava.

​Ele caminhou até a janela, apoiando as mãos no parapeito de pedra, olhando para a escuridão do jardim onde a festa terminara em desastre.

​— Eu não sou ela — ele disse, a voz rouca, quase sumindo. — Eu protejo o que é meu. Giulia Lâfrer é uma infecção. E para curar uma infecção, às vezes você tem que cortar a carne sadia ao redor. Eu não vou pedir desculpas por manter meus filhos seguros, Mellyssa. Nem para você, nem para o conselho, nem para Roma.

​Mellyssa olhou para as costas dele, sentindo uma dor profunda. Ela percebeu que a volta de Giulia não era apenas uma ameaça política; era uma ameaça à alma de Adrian. A guerra que começara no salão de baile estava longe de acabar, e o preço da liberdade de Aethelgard poderia ser, mais uma vez, a sanidade do seu Rei.

​— Eu sei que você quer nos proteger — ela disse, aproximando-se e colocando a mão, hesitante, nas costas dele. — Mas tente não nos perder no processo.

​Adrian não respondeu. Ele apenas continuou olhando para a escuridão, sabendo que, em algum lugar lá fora, Lucca Lâfrer, o menino que ele rejeitara com tanta crueldade, estava começando a aprender a odiar. E esse ódio, nascido da rejeição de um Rei, seria mais perigoso do que qualquer exército que Giulia pudesse reunir.