O Preço da liberdade livro 2
4 O Lobo com Pele de Cordeiro
Oito anos se passaram como um sopro de ventos prósperos sobre Aethelgard. As feridas abertas pela visita de Giulia pareciam ter cicatrizado sob a opulência de um reino que não parava de crescer. Naquela noite, o palácio não era apenas um prédio de pedra; era um monumento à glória da linhagem Kane.
O baile de dezoito anos dos gêmeos era o evento do século. Aethelgard estava em festa, e o Grande Salão brilhava com o esplendor de milhares de cristais.
Adrian, agora com alguns fios de prata nas têmporas que lhe conferiam um ar ainda mais imponente, observava o salão do alto do estrado. Ao seu lado, Mellyssa exalava a elegância de uma rainha que conquistara o respeito absoluto de todos. O Rei Alexander e a Rainha Carolina (chamada carinhosamente de Catarina pelos netos) sentavam-se em poltronas de honra, observando com orgulho os frutos de sua linhagem.
— Eles cresceram rápido demais — comentou Saullo, aproximando-se com uma taça de vinho, acompanhado por Sarah, que ostentava joias que rivalizavam com as da rainha.
— Rápido o suficiente para serem perigosos — Adrian brincou, embora seus olhos estivessem fixos em Alexander, que conversava seriamente com generais, e em Diana, que era o centro das atenções.
De repente, o mestre de cerimônias anunciou um novo convidado:
— Conde Marcos Delavga, das Províncias do Norte!
Um homem de aproximadamente vinte anos entrou no salão. Ele era alto, de ombros largos, com cabelos escuros perfeitamente alinhados e um sorriso que parecia irradiar confiança e nobreza. Seus traços eram finos, aristocráticos, e ele vestia um traje negro com detalhes em ouro que gritavam sofisticação.
Ninguém ali reconheceu o menino trêmulo e sujo de oito anos atrás. Lucca Lâfrer morrera no exílio; em seu lugar, nascera Marcos Delavga, um nome forjado com o ouro que Giulia conseguira esconder e com o ódio que servira de combustível para cada uma de suas lições.
Adrian desceu para recebê-lo.
— Conde Delavga! Ouvimos falar de suas contribuições nas rotas comerciais do Norte. É um prazer recebê-lo em nossa casa.
— A honra é toda minha, Majestade — Marcos disse, curvando-se com uma perfeição milimétrica. — O esplendor de Aethelgard só é superado pela hospitalidade de seu Rei.
Mellyssa aproximou-se, analisando o jovem com seu olhar clínico.
— Suas terras são prósperas, Conde. Espero que aprecie nossa hospitalidade.
— Já estou apreciando, Majestade — Marcos respondeu, sua voz sendo um veludo perigoso.
Enquanto Adrian o apresentava formalmente a Alexander, os olhos de Marcos — que agora eram de um azul profundo e calculista — desviaram-se para o canto do salão.
Diana estava lá. Ela usava um vestido de seda escarlate que realçava seu espírito indomável. Ela ria, segurando as mãos da avó Catarina, que contava alguma história de sua própria juventude. A luz dos candelabros refletia nos olhos de Diana, tornando-a a criatura mais vibrante que Marcos já vira.
Por um segundo, o plano de vingança que ele cultivara por quase uma década vacilou. Ele fora enviado para seduzir, trair e destruir. Ele viera para ser o veneno no cálice dos Kane. Mas, ao olhar para a filha do homem que o humilhara, Marcos sentiu algo que não estava no roteiro de sua mãe: uma curiosidade avassaladora e um desejo que não tinha nada a ver com coroas.
— Uma família admirável, não é, Conde? — Alexander perguntou, notando o olhar do convidado.
— Sim, Alteza — Marcos respondeu, sem desviar os olhos de Diana. — Absolutamente fascinante. Mal posso esperar para conhecer cada um de vocês... profundamente.
O baile continuou, regado a risadas e esquecimento. Ninguém percebeu que o lobo estava sentado à mesa, bebendo do seu vinho. E Diana, em sua alegria radiante, não fazia ideia de que o homem que agora cruzava o salão em sua direção era a sombra que seu pai tentara apagar, voltando para reclamar muito mais do que apenas um trono.
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