O Preço da Perdição
1 Lugar Incerto
Notas iniciais
Abri os olhos, e me coloquei sentado em um movimento brusco, o que fez com que minha cabeça doesse. Levei a mão a cabeça e notei um ferimento; passei levemente a unha sobre o local e trouxe-a diante dos olhos, com a penumbra que se estendia pelo local. Era quase impossível ver alguma coisa. Levei então a mão à boca; era sangue seco, o que deixava claro que eu estava ali a algum tempo. Tentei forçar minha mente a se lembrar de algo, mas só conseguia me recordar de sair da casa de Devdas, acompanhado de Thamy e de nosso bebê, que parecia crescido. Diria que estaria com um ano, na idade dos humanos. Todos sorríamos, e nos despedíamos de Devdas. Mas Thamy estava com o olhar longe, preocupado talvez, ela me fitou e forçou um sorriso; beijei-lhe a fronte e disse palavras de conforto a ela.
Essas lembranças então se extinguiram, como fumaça soprada pelo vento. Um arrepio gélido percorreu meu corpo, como se dedos acariciassem minha pele. Um cheiro de Jasmim impregnou minhas narinas, que inflaram em resposta. Eu sentia sua presença, sabia que ela estava lá.
— Enfim acordou, querido! — A voz carregada de ódio e sarcasmo de Thamy ressoou pela escuridão.
Eu estava confuso, ao ponto de nem conseguir ser capaz de formular uma resposta a ela. Há meses não a ouvia usar esse tom. Haveria eu causado algum mal a ela? Onde estávamos? Por que ela se escondia de mim assim?
— Amor? — Gritei com todo o ar que se encontrava disponível em meus pulmões. — Onde você está?
— Estou aqui. — Uma brisa forte atingiu minha face esquerda como um tapa. — E aqui. — Agora a face direita havia sido atingida.
— Thamy, o que eu fiz? Por que se esconde? — Voltei a gritar, agora totalmente desesperado.
Sua risada voltou a ecoar como um trovão. Sua presença me encurralou, soprou, trovejou, como tempestade; até que se extinguiu por completo, ao ponto de eu não senti-la mais por perto, e uma brisa leve de verão voltar a soprar. Desabei no chão, aproximei as pernas de meu peito e, envolvi os joelhos em um abraço, enquanto apoiava a cabeça sobre eles. Esforcei ao máximo a minha memória, mas a única resposta que tive foi uma sequencia de quatro números, a risada doce de Mōkṣa, um beijo caloroso e ardente de Thamy acompanhado de uma mordida que arrancará sangue de meu lábio inferior e, seus olhos verde esmeralda completamente confusos.
Eu não era capaz de me recordar de nada, só trechos sem nexo e perdidos. De repente como que em um estalo, lembrei-me que os números que e recordara há pouco, era de uma casa de fachada branca, em uma rua principal. Expirei um pouco mais confiante, afinal saberia por onde começar a procurar assim que o dia clareasse. Mas a calmaria durara pouco, pois só agora eu me preocupara em olhar a volta de onde eu estava.
Encontrava-me em uma clareira pequena, grandes árvores de troncos fortes e grossos se erguiam até o céu, que não tinha nuvens, nem lua, nem estrelas, apenas escuridão. Mirando à frente, vi olhos grandes e vermelhos me espiando por trás das árvores; era um lobo. Meu corpo retesou-se, senti minhas mãos queimarem. Desviando minha atenção delas, percebi que as marcas de hena que Devdas havia feito, se acendiam como fogo; me aqueciam sem queimar. Voltando a olhar para onde o lobo estava antes, não avistei nada. Ouvi uma movimentação atrás de mim, e por reflexo me levantei e virei-me para ver o que se aproximava. Para meu espanto era um homem, alto, moreno e forte, de aproximadamente meia idade; tinha o corpo coberto por peles de animais e um tom avermelhado incomum irradiava de seus olhos.
— Não tenha medo. — O Homem disse ao se aproximar mais de mim, havia levantado as mãos na altura da cabeça e sorria expondo presas assustadoras. — Me chamo Tarcísio, e você?
— Meu nome é Kabir. — Receoso por dizer meu nome verdadeiro, optei pelo que Devdas havia me dado. Pensar no velho me trouxera um sentimento de saudade e pesar.
— Não deveria estar aqui a essa hora, garoto. — Tarcísio parou a três passos de mim, colocou as mãos sobre os bolsos da calça e balançou a cabeça negativamente.
— Se pudesse escolher, eu não estaria. — Assumi, afinal o que poderia dizer? — Não me lembro de como vim parar aqui.
— Venha, vou te levar a um lugar seguro... Há muitos lobos rondando por aqui ultimamente. — Ele me olhou pelo canto dos olhos e sorrindo de lado, voltou a expor sua presa.
Eu estremeci e evitei manter contato visual com ele por todo o caminho. E andamos por um longo tempo...
Depois de muito tropeçar e adquirir alguns machucados, chegamos a uma pequena cabana de madeira. O sol surgia entre as árvores e pude ver que a cabana era coberta por folhas secas e, ao lado da porta, que mal dava para entrar de frente, havia uma pequena janela sem vidros. Tarcísio baixou a cabeça ao passar pela porta e, temeroso, eu o segui.
No interior da casa havia poucos móveis: apenas um armário de canto com quatro portas, uma poltrona e uma pia. Tarcísio tirou dos ombros um cachorro do mato, o atirou ao chão e foi até os armários apanhar uma faca.
— Me alimento com o que caço. — Ele fitou-me por sobre o ombro. — Espero que não se incomode com isso.
— De onde eu venho também caçamos para matar nossa fome. — Pronunciei cada palavra com o máximo de raiva que poderia empregar a elas.
Ele deu de ombros, passou por mim, apanhou o animal e se direcionou para o exterior da casa. Eu o segui e, em poucos minutos, uma pequena fogueira ardia ao lado da casa. Tarcísio tirara a pele do animal e o colocara em um espeto sobre a fogueira. Sentei-me na outra extremidade da fogueira e me coloquei a admirar as labaredas.
— Tenho uma história para contar a você, garoto. — Ele pigarreou para chamar minha atenção, me lançou um pedaço de carne mal passado e se acomodou.
“Há alguns séculos atrás meus antepassados, que moravam nessas regiões, receberam a visita do que consideravam ser um Deus. Ele surgiu do céu, carregado por outras criaturas, incrivelmente belas como ele. Era um dia comum e monótono naquela vila, então, todos paravam seus afazeres para observá-los descerem dos céus.
Pousaram no centro da aldeia e todos correram para poder vê-los de perto. O “Deus” obtinha apenas um pano lhe cobrindo a cintura, sandálias nos pés, anéis e correntes de ouro ornamentavam suas mãos e pescoço. Seus olhos verde-esmeralda observaram nossa pequena população, demorando-se em nossas belas mulheres. Tinha um porte físico invejável, com músculos bem delineados sobre a pele e era incrivelmente alto. Seus súditos eram de igual beleza, porém eram mais baixos e de suas costas projetavam-se asas de pelugem negra. Diferente Dele, as criaturas evitavam o olhar das pessoas.
— Tragam-me seu mestre. — Sua voz grave pode ser ouvida por toda a aldeia e logo Lucio foi trazido.
— Quem és tu para invadir minhas terras desse modo? — Lucio encheu seu peito de ar e lançou sua fúria contra o intruso.
— Eu sou Enzo. Desculpe-me por invadir seu território. — Ele reverenciou Lucio e, sorrindo, voltou a encará-lo. — Podemos conversar em outro lugar?
— Claro, siga-me.
Logo chegaram a uma casa distante do vilarejo, porém não muito diferente das casas dos aldeões. Foi nesse momento que Enzo mudou seus planos iniciais e tocou no ponto fraco de todo chefe: a ambição.
— Vejo que tens uma moradia simples como de seus súditos. — Enzo disse, enquanto inspecionava a casa com cuidado.
— Sim… É… — Lucio pigarreou e sentou-se em sua cadeira. — Estamos em tempos difíceis. Como um bom líder, não é justo que eu tenha muito quando meus súditos tem nada.
— Eu posso mudar isso, Lucio. — Posso ensiná-los a cultivar, a encontrar e lapidar pedras preciosas, posso dar-lhes… — Enzo se aproximou do rosto de Lucio e quase soletrou. — Riquezas.
— Como seria isso possível? — Ele levou uma mão a cabeça e colocou-se a pensar. — Não há nada aqui, nada! — Lucio se levantou e pôs-se a andar pela casa. — Já inspecionaram cada centímetro de meu território.
— Eu posso… — Enzo colocou-se em sua frente.
— Mas, como? — Lucio estava atordoado e não conseguia compreender.
— Basta… — Enzo estalou os dedos e um de seus subordinados veio até ele, tirando uma espécie de pergaminho da bainha e entregou-lhe. — Que me dê isso.
Lucio pegou o pergaminho de suas mãos e, voltando a sua mesa, esticou-o sobre ela, colocando-se a inspecioná-lo. Se tratava de uma espécie de representação de uma pedra, na qual haviam escritas runas antigas.
— Ah, sim… — Seu rosto iluminou-se. — Já vi isso antes.
— Então entregue-o para mim. — Enzo socou a mesa com o punho, esquecendo-se das cordialidades por um momento, pois tinha pressa em obtê-las.
— Não as tenho comigo agora. — Seu semblante mudou e, como um bom líder, ele se colocou a negociar. — Peça que seus súditos ensinem aos meus as coisas as quais me disse, enquanto tento me lembrar e procurar a velha pedra.
— Não brinque comigo, Lucio. — Ele havia apoiado as mãos espalmadas e se inclinava sobre a mesa.
— Você precisa das runas e eu dos ensinamentos. Façamos então uma troca. — Lucio sentou-se e, sorrindo, prosseguiu. — Ambos precisamos de algo, basta nos ajudarmos.
— Assim será feito. Dou-lhe um prazo de sete dias e sete noites para que me traga as runas.
— E depois? — Lucio teve que gritar para ser ouvido, pois eles já saiam da casa.
— Eu voltarei para o céu. — Se tudo correr como combinado.
Enzo saiu da casa sem dar tempo para Lucio lhe dar uma resposta. Ele suava com as investidas de Enzo e sabia que com aquele ser não teria conversas. Certificando-se de que ele estava longe, Lucio desceu até seu sotão, abriu um pequeno baú de madeira completamente coberto de poeira, tomou as velhas pedras que tinham runas gravadas em si e suspirou, afinal, aquele seria o preço pela salvação de seu povo.
‘Meu filho, esses são escritos importantíssimos, certifique-se de que não caiam em mãos erradas.’ A voz de seu falecido pai, ecoou em seus pensamentos.
— Me perdoe, pai... É pelo bem de nosso povo.
Os dias se seguiram e o povoado havia saido da pobreza. Por todos os lados via-se alegria e fartura. Agradecidos levavam oferendas para Enzo; começaram com frutas e verduras e, a pedidos, já lhe ofereciam animais. Aquilo dava ao Deus imenso prazer.
No quinto dia Lucio lhe entregou a pedra, confiante que então ele iria embora, mas não foi o que ocorreu. Enzo pediu mais oferendas, mais animais. Ele havia decifrado as runas e, com elas, absorvia as almas do que lhe era oferecido. Com isso, ele se tornava mais forte a cada dia.
No sexto dia, ele pediu uma mulher jovem e pura, mas os aldeões ficaram horrorizados em ofertar tal coisa. Irritado Enzo queimou suas plantações e algumas casas em demostração de seu poder.
— Tragam-me, agora! — Seus olhos ardiam como chama viva e, com medo, os aldeões fizeram o que lhes fora ordenado.
Ao cair da noite todas as mulheres haviam sido entregues a ele; cada um de seus súditos, que totalizavam trinta, tomaram para si uma mulher, enquanto seu Deus tomava a alma das outras. Os aldeões pediam ajuda para Lucio, que se sentia incapaz e culpado pois não podia fazer nada a respeito.
O fim do prazo havia chegado, Lucio estava temeroso, pois receava que Enzo não cumprisse com suas palavras; e ele estava certo. Seu povo havia aprendido bem e poderia ser próspero, recuperando o que lhes fora tirado nos dias que se seguissem. No entanto, o pior aconteceu.
Lucio aproximou-se de Enzo e lhe implorou que fosse embora, lhe agradeceu pelos ensinamentos e disse que o prazo havia se extinguido. Enzo, então, foi tomado pela ira. Agarrou-o pelo pescoço e levantou-o no ar.
— Pensa que eu sou tolo? — Ele cuspiu sua ira em Lucio. — Era para haver mais dessas pedras. Onde estão?
— Só… há… essas aqui. — Lucio disse com dificuldade, pois o ar se esgotava em seus pulmões.
— Disse para não brincar comigo. — Ele o chacoalhou com violência e foi nessa hora que uma pequena chave brilhou na corrente em seu pescoço. — Eu li as runas, falta partes nela, me dê. — Ele esbravejou.
Com a outra mão Enzo pegou a chave e ordenou que seus capangas vistoriassem sua casa e lhe trouxesse o baú. Não demorou muito e eles voltaram. Ele lançou Lucio contra a multidão e, por causa da força daquele Deus não conseguiu parar seu corpo sem sofrer ferimentos. Enzo então abaixou-se e tomou o baú em mãos, girou a chave e olhou atordoado o interior vazio. Enzo tinha em mente que aquele baú era grande para que fosse armazenado apenas uma das pedras, a qual ele sabia que deveriam haver três delas. Estava claro que Lucio escondera as outras.
Antes que pudesse alcançá-lo, Enzo ouviu a prese do pequeno homem, a qual julgou ser inútil naquele momento.
— Miguel… — Lucio gritou. — Oh príncipe glorioso São Miguel, chefe e comandante das hostes celestiais, guardião das almas, vencedor dos espíritos rebeldes, servo na casa do Rei Divino e nosso maestro admirável, você que brilha com excelência e da virtude sobre-humana nos livrar de todo o mal… Miguel, socorrei-nos.
— Seu tolo! — A risada de Enzo ecoou como trovão. — Ele nunca virá para salvá-los.
Assim que as palavras deixaram os lábios de Enzo, o céu tornou-se negro como em uma tempestade. Trovões ecoaram e iluminaram os céus, enquanto raios atingiram a terra. Então, o céu se abriu e o anjo Miguel, junto com sua melícia celeste irromperam para cima de Enzo e seus capangas.
A luta demorou pouco e, logo todos estavam sobre o controle de Miguel, que dizendo algumas palavras, fez o chão se abrir. Labaredas de fogo atingiram a superfície e gritos de agonia podiam ser ouvidos, além do cheiro de carne queimada.
— Arranquem as assas e os atirem para as chamas! — Miguel ordenou e assim foi feito.
Depois do último anjo ser lançado às chamas, o chão voltou a se fechar e todo o povoado colocou-se a adorar os anjos do céu.
— Por terem ajudado esse terrível ser, serão amaldiçoados a andarem sobre a terra, sobre quatro patas; seus corpos serão cobertos de pêlos e comerão o que a terra lhes der; chorarão suas esposas e filhas por eras sem fim. — Miguel levantou voo e, brandindo sua espada para o céu, concluiu: — Assim será feito!
Tomou então o baú e as runas em mãos, juntamente com a chave, e sumiu entre as nuvens. Nesse momento, todos os aldeões restantes, caíram sobre os joelhos e assumiram a forma de um lobo, que é o modo como vivem até hoje.”
Quando ele terminou de contar a história, percebi que não havia comido nada. Estava tão inerte em sua história que o fitava de olhos arregalados e boca aberta.
— Isso aconteceu mesmo? — Disse após me recompor.
Tarcísio riu, deixou a cabeça cair de lado e me fitou com olhos curiosos.
— São apenas lendas! — Voltou a endireitar-se. — Agora coma.
Apenas assenti com a cabeça e devorei o pedaço de carne que ainda estava em minha mão.
Quando fiz menção em falar, Tarcísio se levantou, espreguiçou-se e foi para sua casa sem dizer nada. Dei de ombros.
Colocando a mão atrás da cabeça, deitei-me na grama. Pus-me a admirar o céu. As estrelas tinham um dom calmante poderoso sobre mim. Logo dormi e naquela noite tive diversos pesadelos com lobos. Despertei com os primeiros raios de sol, não havia sinal de Tarcísio ainda.
Ouvi barulho de água e resolvi segui-lo. Achei uma fonte bem próxima, lavei o rosto e bebi água até não aguentar mais. Em seguida, outro barulho me chamou atenção: eram de galhos sendo quebrados. Concentrei-me em escutar melhor e percebi que parecia um animal. Imaginei que tivesse vindo por causa da água. Eu estava certo. Era um porco do mato mas, como estava sem armas, eu não iria conseguir capturá-lo. Fiquei imobilizado, apenas observando o bicho se aproximar calmamente da margem e, saciar sua sede. Ele estava a poucos metros de mim, parecia não sentir minha presença. Eu com toda certeza o acertaria.
De relance vi algo passar com muita velocidade por mim, e acertar em cheio o animal, que caiu na água.
— Iria ficar ai, só olhando. — Tarcísio esbravejou, ao desviar de mim para ir em direção ao animal.
— Não poderia caça-lo com os dentes, não é mesmo? — Ironizei.
— Poderia tentar. — Disse ao colocar o bicho sobre as costas. — Vamos hoje será um longo dia.
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