O Preço da Perdição
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Notas iniciais
Segui Tarcísio até sua casa e preparamos as coisas para a viajem. Ele me deu umas peças de roupa suas, que ficaram um tanto grandes em mim. Uma mala com provisões, um arco e algumas flecha. Demorei algum tempo observando o entalhe e a forma peculiar do arco. Suas pontas eram dobradas para frente e uma boca aberta de um lobo estava entalhada na madeira. As flechas eram finas e fortes, ótimas para pegar animais grandes.
— Era da minha filha. Ela era ótima em caçar. Essas flechas foram feitas para percorrer longas distâncias. — Tarcísio acendeu um charuto e mirou o chão.
— São perfeitas. — Passei os dedos sobre a ponta da flecha, que era de um metal muito raro. Tarcísio apenas assentiu.
Após isso, seguimos por uma trilha, a oeste da casa de Tarcísio. Assim que anoiteceu, montamos acampamento e acendemos uma fogueira com galhos que encontramos ao redor. Ele me contou mais algumas lendas e histórias de sua família, mas, cansado, logo adormeci.
Acordei assim que o sol apareceu. Tarcísio já recolhia suas coisas e eu o segui. Mais um dia e uma noite se passaram até chegarmos a cidade.
Construções luxuosas erguiam-se sobre o solo coberto de pedras encaixadas. Andei admirando a paisagem até trombar com alguém.
— Desculpe. — Disse tocando o ombro de um homem encapuzado.
O homem nada disse, apenas levou as mãos a cabeça e retirou o capuz. De imediato fiquei assustado, mas depois o abracei fortemente, pelo menos um rosto familiar naquele lugar onde eu nada conhecia. O rosto de Filipe.
— O que faz aqui? — Questionei-o, assim que o soltei.
— Vim te ajudar. — Ele sorriu.
— Me ajudar!? — Acho que a dúvida transpareceu tanto na minha voz, quanto no meu olhar, pois ele me lançou um semblante carinhoso e bateu levemente em meu ombro.
— Agora não é o momento, mas em breve tudo será explicado.
— Você está estranho, Filipe.
— Quem é esse? — Tarcísio, surgiu carrancudo atrás de mim.
— É meu amigo de infância! — Disse alegremente.
— E por que o chamou aqui? — Ele mirou meus olhos.
— Eu não o chamei. — Parei um minuto para pensar. — Eu o encontrei aqui!
— Olá, sou Filipe. — Ele esticou a mão para cumprimentar Tarcísio, que por sua vez, olhou para Filipe com ar de superioridade e mudou o charuto de lado. — Prazer em conhecê-lo também.
Um silêncio se fez, até que Filipe voltou a quebrá-lo.
— Onde estão indo?
— A um lugar! — Tarcísio continuava mais ríspido do que de costume.
— Então me permita levá-los a um lugar mais importante primeiro. — Eu o olhei confuso.
— Para onde?
Filipe fez um movimento com a cabeça e nós o seguimos. Depois de uns vinte minutos andando, paramos em frente de uma casa de fachada branca. Reconheci os números de imediato, 1647. Eram os números de minhas lembranças. Filipe parou na frente da porta e apertou a campainha. Comecei a não me sentir bem. Apoie-me na parede ao lado da porta e fechei os olhos para tentar controlar minha respiração descompassada.
“Aquele som. Eu o amava quando criança. A primeira vez que minha mãe me levou àquela casa, eu tinha uns oito anos, e apertava aquela campainha sem parar, até que Saruman abria a porta, me empurrava para dentro e sorria para minha mãe.
Naquele dia, uma mulher me recebeu aos prantos, me tomou nos braços e dizia sem parar que estava com saudades. Eu reconhecia sua face e me sentia confortável e seguro ao seu lado, mas não entendia o porque.
‘Caio, venha aqui com o titio’. Saruman me chamou. Então lembrei, que aquela não era a primeira vez. Meus pensamentos ficaram turvos. Seite-me na cadeira a qual ele me indicava e o encarei confuso. Sua voz grave soou pelo lugar, enchendo meus ouvidos. Minhas lembranças se esvaíram, era doloroso esquecer e, aos berros, eu clamei a Sophia que parasse com aquilo.
Logo tudo se tornou escuridão. Minha mãe me tomou no colo, agradeceu ao velho e secou lágrimas de meus olhos. Eu não sabia mais porque estava ali, nem quem era aquele homem. ‘Vai ficar tudo bem’, mamãe sussurrou ao meu ouvido e eu adormeci.”
A porta rangeu ao abrir e, com um imenso esforço eu abri os olhos. Saruman, agora com cabelos grisalhos; enfiou a cabeça pela pequena abertura e fitou sisudo os três estranhos a sua porta.
— O que querem? — Sua voz ainda tinha o mesmo timbre e eu estremeci.
— Um amigo precisa da sua ajuda. — Filipe apontou para mim.
— Eu não o conheço. — Saruman nem bem olhou para mim e já empurrava a porta, fechando-a.
— Deixe-nos entrar e você vai se lembrar dele. — Filipe colocou o pé antes que ele a fechasse por completo.
— Desculpe, minha cota de ajudar estranhos já se esgotou hoje. — Ele ironizou, fitando o pé de Filipe.
Tarcísio se aproximou da porta, se abaixou e fitou o velho nos olhos. Seus lábios se contraíram, no que pensei ser um sorriso.
— É melhor nos atender… — Tarcísio estralou a linguá. — Ou não gostará de me ver com raiva.
Saruman recuou e, empurrando a porta, Tarcísio entrou. Eu e Filipe o seguimos.
A casa era muito mais espaçosa em seu interior, do que o exterior aparentava. Era cheia de cores e fedia a incenso e cigarros.
“ — Sophia. — Eu gritei, com voz infantil.
Uma mão fina segurou a minha e sussurrou em meu ouvido palavras de conforto. Uma dor lancinante percorreu meu corpo, enquanto minhas lembranças iam se tornando fumaça. Aquela mão havia sumido, deixando apenas o sentimento de sua presença e a duvida se aquilo realmente era real”
— Sophia. — Repeti. Sentindo gotas de suor se formando em meu rosto.
Todos olharam para mim, até Saruman, que disfarçou rapidamente a expressão de espanto, ao qual Tarcísio também percebeu.
— Diga, quem é Sophia? — Ele questionou Saruman.
— Eu não sei. — Ele mentiu descaradamente.
— Eu me lembro desse lugar. — Esbravejei. — Você roubou minhas lembranças. — Sequei o suor de minha testa com a palma da mão. — Apagou tudo. — Eu o olhei suplicante e confuso. — Por quê? Por que fez isso? — De repente me sentia sem forças e desmoronei, sentando sobre uma poltrona que havia ao meu lado.
— O feitiço está enfraquecendo. — Saruman murmurou para o chão.
— Desfaça. — Filipe sibilou, ameaçador.
— Acha que é fácil assim? — Ele se direcionou para Filipe. — Se foi dolorido para tirá-las, será muito mais para colocá-las. — Saruman se distanciou um pouco. Apanhou um livro em sua imensa estante, folheou-o e voltou a falar. — Existe uma razão lógica para esquecermos das coisas. — Voltou a fitar Filipe, como se ele fosse uma criança do colegial. — Não temos espaço para armazenar tanta coisa aqui. — Saruman bateu um dedo sobre sua fronte.
— Fazemos isso muito bem sem ajuda. — Tarcísio ironizou, ao encostar na parede ao meu lado.
— Eu tinha uma dívida para pagar, ok? — Saruman encarava o livro. — Não podia dizer não a uma velha amiga. — Inspirou fundo e massageou as têmporas. — Depois do que ela fez por mim... Eu não sou mal e não gosto de causar dor, mas foi para seu bem garoto. — Ele agora me fitou. — Se não, eles já o teriam rastreado há muitos anos atrás e tudo estaria perdido.
— Me rastrear? — Foi minha vez de falar. — Eu não estou entendendo...
— Garoto, sei que já deve ter sofrido demais... — Saruman se dirigiu a sua estante novamente, tocou alguns livros e um pequeno compartimento apareceu. Ele então tirou de lá um frasco preto. — Garanto que devolvê-las será melhor do que tentar te explicar alguma coisa.
Saruman puxou uma cadeira e se sentou a minha frente. Na mesa de centro, depositou o livro e o frasco.
— Vai doer. — Saruman me olhou, piedoso. — Muito. Mas, aguente firme.
Ele destampou o frasco e uma névoa saiu de lá, encobrindo todo o cômodo. Saruman entoou uma canção. A névoa retorceu e estremeceu; aos poucos foi se condensando, até se concentrar no teto acima de nós. Sua voz se tornou mais grave e seus olhos miraram os meus. A névoa correu pelas paredes e encobriu meu corpo em um abraço sufocante.
“Aquela mulher desconhecida sorriu para mim e me chamou de filho. Suas asas me encobriram em seus braços. Seus olhos estavam marejados e outras mãos me tiraram de seu colo. Eu chorei e esperneei, ainda bebê.
— Meu filho, não chores! — Seus lábios tocaram minha fronte. — Iremos nos reencontrar em breve.”
Um grito rasgou minha garganta e a dor que eu sentira naquele cativeiro, nem se comparava com a de agora. Agarrei tão forte o braço da poltrona que senti o sangue abandonando meus dedos, a ponto de começarem a formigar.
“Ela colocou o colar em meu pequeno pescoço.
— Meu tesouro. Meu filho! Perdoa-me pelo que tenho que fazer. — Seus dedos acariciaram meus cabelos. — Você será a salvação deste mundo, será a chave para uma nova era sem dor, sem guerra. — Ela pegou a chave do cordão em meu pescoço. — Isso é muito mais do que um mero colar. Esta é a chave que liberta as runas antigas. Você não é capaz, agora, de imaginar do que elas são capazes. — A mulher apertou minhas bochechas, carinhosamente. — Não se preocupe, seu mentor vai lhe explicar tudo.
E com um sorriso, ela estendeu suas asas; e preparava-se para partir.
— Sophia. — A mulher que me segurava, Mickaela, a chamou. — Quando voltará?
— Quando ele fizer cinco anos, iremos ver um amigo, para que ele possa proteger nosso garoto. — Sophia parou, olhou para ela. Depois, partiu.
Os dias se passaram e eu aprendi a amar Mickaela, vivia como uma criança normal. Até fazer cinco anos. Estava correndo pelo jardim, quando tropecei em algo. Foi a primeira vez que vi minhas asas.”
Cerrei os dentes. Parecia que minha cabeça se distendia para armazenar tanta informação. A dor era insuportável. Tentei me concentrar, mas tudo passava rápido demais. Como em um filme, onde suas cenas são adiantadas. Lembrei então que em todas as vezes Sophia, minha verdadeira mãe, estava lá. Nas vezes que Saruman me obrigava a esquecer, que eu era um anjo, filho de um anjo da mais alta classe, da descendência de Miguel. Que a chave que eu levava em meu pescoço, abria o baú que continha as runas. Aquelas da lenda de Tarcísio.
Só então me dei conta de que Enzo só poderia ser o pai de Kael. Por isso ele e a irmã, minha amada Thamy, queriam tanto a chave em meu pescoço. Sophia havia feito a melhor escolha para me proteger. Se eu realmente tivesse essas memórias, eu as teria contado para Kael, durante a mais leve de suas torturas e tudo estaria perdido.
Senti lágrimas quentes correrem por meu rosto. Todos os músculos de meu corpo estavam doloridos e trêmulos. Eu não sentia mais minhas mãos.
“— Meu amor, espero que possa me perdoar um dia. — A voz sedosa de Sophia, suplicava.
Meus olhos encontraram os seus e abracei sua cintura. Tudo parecia sem sentido, mas eu tinha que fazê-lo. Tinha que mostrar aquela estranha que tudo estava bem, eu só não entendia o porquê. “
Minha vida se seguia em um história cheia de espaços vagos, pedaços sem nexos e desconectados. Por todos os longos dias de meus vinte e um anos, eu me sentia sem importância e um completo inútil. Solitário e abandonado a minha pura sorte, crendo que minha existência havia sido um erro. Pois, aos dezesseis anos, minha mãe, Mickaela, havia sumido sem explicação. Eu a culpara por muitos dias, mas por fim, aceitei que eu não merecia seu amor, muito menos sua presença, e a amei ainda mais por isso; por ter a escolha de abandonar um alguém como eu.
Mesmo me convencendo disso, algo parecia não se encaixar, até agora. Eu havia sido privado de viver com minha verdadeira mãe, de ter o prazer de usar minhas asas, de ser eu. Estava acostumado a deixar a vida me levar, mas agora eu tinha um destino, tinha algo além de mim e de minhas privações. Algo grande, ao qual apenas eu poderia fazer. Protegeria minha herança com unhas, dentes e, se fosse preciso, com minha própria vida.
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