O Preço da Magia

21 Episódio 21: Je T'appartiens De Tout Mon Être


Notas iniciais
*Eu te pertenço de todo o meu ser. Olá, minhas lindas, como vão? Gostaria de me explicar aqui, sei que essa foi provavelmente a minha demora mais longa na fanfic, e espero que ninguém resolva abandonar a história por isso. Me esforcei MUITO para conseguir postar esse capítulo nessa época tão caótica para mim. Esse semestre foi muito atribulado, gente, tive que conciliar minhas horas de estágio com o TCC, que apresentarei dia 5 de dezembro (torçam por mim!). Por conta disso, tudo o que eu escrevia nesse meio tempo era relacionado ao TCC, e quando surgia um tempinho livre, a última coisa que eu conseguia fazer era ficar de frente a um computador escrevendo. Até porque, confesso que por um tempo (longo, até) eu não aguentava mais ler absolutamente NADA de minha autoria, haushaushuash! Fiz tantas revisões no TCC que fiquei muito saturada e enjoada da minha escrita, true story. Espero que ninguém se sinta assim lendo meus escritos xP Espero que entendam esse meu sumiço do Nyah (tanto nas postagens quanto nas histórias que acompanho), e que não desistam da fic. Ela é meu grande xodozinho por aqui, e por nada no mundo eu a abandonaria. Mas também sei que é um saco ficar esperando tanto tempo por atualizações, quebra inclusive o clímax da história, por isso entendo se alguém preferir debandar. Ficarei triste, mas não guardarei rancor ^^ Aliás, estou em falta com alguns autores daqui, mas não se preocupem. Lerei e comentarei em tudo o que postaram, só preciso que tenham paciência p

Seus pés clamavam por algum repouso, um pouco mais doloridos ao fim de cada passo.

Os músculos envolvidos não só no caminhar — como também dos braços e abdômen — ardiam numa determinação fervorosa, opositores ao avançar inflexível da egípcia. Da jovem que, outrora, pertencera a um clã. A uma família feita de muitos.

À unidade cigana que a rejeitara, incapaz de vê-la como igual após seus atos de traição.

“Nunca mais nos procure, Esmeralda. Não é mais bem vinda entre nós...” — A voz de Clopin, naquele tom peculiar que mesclava frieza e desamparo, dardejou afiada em sua mente, e foi como se a boêmia escutasse aquela ruptura pela primeira vez, novamente dando-se conta de sua permanência.

Percebendo que, após tal veredicto, fora lançada sem volta a um mundo desconhecido, repleto apenas de lacunas vazias.

A jovem limpou a garganta, tentando sem muito sucesso dissipar o nó que ali se firmara, sufocante. Ajeitou uma Djali adormecida em seus braços, imaginando quantas horas restariam antes do amanhecer. Vagava aleatoriamente pelas ruas de Paris, incapaz de calcular o tempo investido naquela jornada a lugar nenhum... Sequer entendia o que buscava com a incessante marcha travada por seus pés, ou mesmo se de fato procurava por algo que pudesse encontrar.

Apenas estava ciente do inchaço em seus olhos, assim como da frouxidão em seu peito. Seus cílios, ainda umidificados pelas lágrimas antigas, agora adornavam olhos inertes, entorpecidos pelos últimos acontecimentos. Orbes desgastados de tal forma que pareciam incapazes de refletir o presente.

Apenas quando percebeu aonde seus passos haviam lhe conduzido, despertou para a raiva que brotou em sua essência, desacreditando que ela mesma parecia disposta a se sabotar daquela forma tão atroz.

Viu-se diante dos escombros de Notre Dame, e algo colérico se agitou dentro de si. A catedral estava tomada por fuligem e desmoronando no caos de sua própria destruição, porém ainda mantinha o aspecto inconfundível. Ainda era capaz de alardear as maldições que lançara à jovem cigana.

Trazendo à tona tudo o que ela mais queria esquecer. Ou, ao menos, superar.

“— Está brincando com fogo, menina...” — Frollo novamente a alertou quando Esmeralda imergiu por completo na lembrança, que ocorrera logo antes de se beijarem pela primeira vez. Estremeceu diante das sensações díspares que aquela memória lhe trouxe, capaz de sentir em sua pele o desejo experimentado no dia, assim como a fúria que a movia naquele instante.

“— Ciganos são famosos por amar o fogo, monsieur.” — Aquela havia sido a sua resposta, fazendo com que agora se sentisse ainda mais estúpida. Por julgá-lo tão errado. Por deslumbrar-se por um facínora, um monstro que não se importara em brincar com os sentimentos daquela que tornara órfã.

Colocou Djali no chão, não chegando a ouvir o protesto por acordá-la. Uma nova película raivosa de líquido se formava abaixo de suas íris verdes, prestes a verter. Esmeralda foi se aproximando devagar da assolada catedral, embora não soubesse explicar o motivo de seu interesse.

“— Gostaria de fazer um pedido a você, Esmeralda...” — O arquidiácono reapareceu como uma assombração nos confins de sua mente, uma imagem tão nítida que a boêmia quase pôde sentir seu perfume almiscarado rodeando-a — “Sinto muita falta de vê-la dançar.”

— Cínico... — Surpreendeu-se com o soluço fraco que abarcou o timbre da própria voz, e os músculos enrijecidos de suas pernas a fizeram mancar pelo resto do trajeto. Até que alcançasse aquilo que restara de Notre Dame. A esplêndida catedral, o orgulho de Paris, que agora se resumia a nada mais do que um apanhado de entulhos.

Sua mente, ainda insatisfeita com o desolamento que lhe provocava, trouxe à tona uma nova fala, esta pertencendo à própria cigana. Era possível reconhecer cada mínima nuance de sua voz. A intensidade. O breve tremular causado pela confissão. O volume que, mesmo baixo, acentuava-se na relevância de cada palavra dita. Palavras que agora lhe soavam duras, difíceis de rememorar, acima de tudo. Quase tão desesperadoras quanto ouvir a última fala que seu clã lhe alvejara.

Mas foram aquelas palavras, articuladas pela própria Esmeralda, que mais a feriram naquele momento.

“— Talvez, monsieur, num mundo que fizesse algum mínimo sentido, uma cigana jamais devesse se apaixonar por um sacerdote...”

— Estúpida! — Rangeu os dentes à medida que algumas lágrimas faziam questão de escapar, talvez na tentativa de expurgar o que havia de errado em si. Nunca se julgara uma pessoa ingênua, até viver aqueles últimos momentos no Pátio dos Milagres, em que descobrira o real Claude Frollo e todas as atrocidades que fora capaz de cometer. Aquele novo sentimento de incapacidade, de tolice extrema, era ainda mais aterrador do que a percepção de seu absoluto isolamento num mundo que a desprezava...

...Como se acabasse descobrindo que sequer podia confiar em si mesma. O tipo mais íntimo, mais irreparável, de solidão.

Cada passo para mais perto do edifício em ruínas a feria um pouco mais, porém Esmeralda se mantinha decidida naquele curso, não ousando alterar a rota de sua marcha claudicante. Ao mesmo tempo em que queria distância da catedral, experimentava uma necessidade mórbida de comprovar os mínimos detalhes de sua destruição.

A cabra de pelagem alva escoltava sua humana, ainda de mau humor pelo sono interrompido. A boêmia sentiu o animal roçar em seu calcanhar, apesar de tudo carinhosa. Djali sempre fora muito perspicaz a respeito dos estados de espírito da cigana.

— Não existe mais nada para nós duas neste lugar, minha pequena... — Atestou ao finalmente alcançar seu intento, percebendo nascer em seu íntimo um sentimento de cruel satisfação ao contemplar a amplitude dos destroços. Lembrou-se da forma com que o arquidiácono relutou em abandonar Notre Dame quando os ciganos vieram atacá-la, e quase se alegrou por imaginar que tamanho estrago em seu lar pudesse feri-lo em algum grau. Ainda que mínimo. — Paris nunca foi nossa casa.

A estrangeira estava prestes a se afastar, quando ouviu um esgar alto ecoar de dentro das paredes destruídas. Um lamento tecido da mais autêntica angústia, chegando aos seus ouvidos com uma nota de reconhecimento.

“Quasímodo...”, constatou, sentindo-se ainda pior. Apenas naquele instante se deu conta do quanto o rapaz devia estar assustado e igualmente ferido pelo estrago de seu lar.

Por um instante mínimo, cogitou partir naquele exato segundo, incapaz de definir se saberia lidar com um adeus definitivo ao amigo que tanto prezava. Provavelmente, o único que lhe restara após ser banida do convívio com seu clã. Apesar de não querer encarar o sineiro em suas tantas vergonhas, sentiu como se o atraiçoasse apenas por cogitar tal hipótese, ainda que num breve pensamento.

Por mais que seus instintos mais enraizados lhe dissessem para ir embora, Esmeralda aventurou-se por dentro da derrocada, levando a mão às narinas quando sentiu a poeira se erguer à sua mera passagem. O breu da madrugada parisiense — em que a própria luz da lua se escondia atrás de nuvens espessas — quase a fez tropeçar uma ou duas vezes, porém não tardou a encontrar aquele que sua visão limitada esquadrinhava.

E o que viu estilhaçou ainda mais seu coração boêmio, já habituado ao aperto.

O corcunda da antiga Notre Dame estava ainda mais disforme do que o normal, esforçando-se para encaixar todo o corpo parrudo dentro de um sino caído, de proporções medianas. Em sua pele enegrecida por poeira e fuligem destacavam-se vários cortes e também queimaduras. De tanto tentar, o sineiro conseguiu esconder-se totalmente dentro de sua amada dama de ferro.

Marie... — Esmeralda o ouviu sussurrar enquanto acariciava o pêndulo, as mãos grosseiras se movendo num afago de delicadeza incoerente. Percebeu nele o pesar típico de sua alma, esta já acostumada a colecionar as mais profundas angústias. O nó voltou a se firmar na garganta da menina pagã, que mais do que tudo queria livrá-lo dos últimos acontecimentos.

Antes que pudesse decidir se interromperia a manifestação de luto de Quasímodo, e como o faria, Djali soltou um balido ranzinza pela falta de atenção em si, anunciando a presença das duas de forma brusca.

A esperança que viu nos orbes do amigo quando seus olhares se encontraram foi a única coisa boa em seu dia. Arrependeu-se ainda mais por quase fugir de sua presença.

— Você está machucado... — Ela venceu a distância até ele, tocando com cuidado o braço envolto por cortes rubros, abandonando boa parte de sua raiva por preocupação.

— De várias formas... — Abaixou o rosto no mesmo gesto subserviente que lhe era tão característico, seus traços contorcidos não pelas assimetrias, mas pelo reflexo de uma tristeza profunda — Os sinos... O campanário era o único lugar em que ser eu mesmo não parecia um problema.

A estrangeira suspirou longamente, sentando ao lado do rapaz dentro da campânula e o fitando com consistência.

— Isso não é verdade, Quasi. Não tem nada de errado em ser você, já lhe disse. Mas sim, eu te entendo... Tudo isso foi longe demais... — Permitiu-se olhar à sua volta com mais cuidado, compadecendo-se do sofrimento de seu amigo. — Meu povo — parou, de súbito percebendo que não pertencia mais àquela unidade. Não havia mais um povo que pudesse chamar de seu — Os ciganos foram longe demais.

— Se havia algum limite, foram os soldados a ultrapassá-lo primeiro — O sineiro a defendeu com considerável maturidade, mal sabendo disfarçar seu embaraço — Não se culpe por isso.

— Mesmo assim eu sinto muito por tudo o que aconteceu aqui. Você não merecia passar por isso... Não é justo que tenha perdido tanto... — Entrelaçou suas mãos às dele, de fato presenciando a culpa crescer em si. Quasímodo ruborizou no mesmo instante, ainda pouco preparado para quaisquer amostras de intimidade. Olhou ao redor, parecendo procurar por algo.

Por alguém.

Antes mesmo que a pergunta do sineiro fosse verbalizada, Esmeralda já fora capaz de ouvi-la.

— Não vejo meu mestre... Onde ele está?

— A caminho do inferno que tanto teme, eu espero... — Esmeralda resmungou baixo, uma nova onda de asco e frustração se revolvendo na altura de seu estômago vazio.

— Como? — O sineiro perguntou uma segunda vez, verdadeiramente confuso, sem conseguir discernir o que a cigana dissera.

— Nada. Não se preocupe, ele está bem. Temos que dar atenção a você agora. Não gosto da aparência desses arranhões... — Alertou, vislumbrando toda a sujeira que permeava os cortes em seus braços e mãos, imaginando como aquilo poderia ter-lhe acontecido, se quando deixaram a catedral Quasímodo estava íntegro.

Como se pudesse ler a dúvida no brilho verde de seus olhos, o sineiro titubeou, enrubescido pelo embaraço de sua pequenez e impotência.

— Depois que fugimos do ataque, eu... Eu voltei para cá — contou, sentindo-se o menor dos seres. Naqueles termos, seu corpo parecia menos disforme do que a alma alquebrada que se aprisionava por debaixo de todos os calombos de sua aparência — Mas já era tarde. Parte do prédio já estava desabado, e os sinos... — pausou o discurso, sem saber como prosseguir. Os lábios se mantiveram entreabertos, tremulando as falas que estavam presas em sua garganta, e grossas lágrimas começaram a entornar dos olhos expressivos — Os sinos caíram. Todos eles. Estão soterrados debaixo da catedral. Só tive tempo de encontrar Marie no meio de tudo isso...

— Notre Dame significava muito para você, não é? — A culpa novamente atingiu com força a menina pagã, achando difícil suportar tamanha dor em uma criatura tão doce.

— Foi o único lar que conheci. O único lugar em que não precisei esconder o monstro — referiu-se à sua aparência daquela maneira que Esmeralda tanto detestava, ferido em todos os graus. — O único lugar que pude pertencer.

— Com o tempo você vai perceber que tudo isso não passava de pedras, meu amigo. Um punhado morto de concreto — tentou convencê-lo, porém ela mesma não conseguia acreditar nas próprias palavras. Tentava, mas não conseguia. Assim como Quasímodo, acabara de perder seu lar e o porto seguro de sua família, e entendia o quão desesperador era lidar com esse sentimento. Era um norte que se apagava, tornando a bússola inútil, desorientada. — Eu estou feliz que esteja bem. Podemos recomeçar em qualquer outro lugar, vai ver. Você não está sozinho, Quasi.

Esmeralda pressionou a mão do sineiro num aperto caloroso que o confortou, chegando a anuviar seus traços pesarosos. A cigana sorriu para ele, massageando-lhe a palma com grande afeto. Deixou que seus olhos caíssem na direção de seus dedos, como se fossem magneticamente atraídos para aquela região. Assim que o fez, o sorriso esmoreceu de seu semblante, e um arrepio de mau agouro se estendeu por seu corpo quando vislumbrou a palma da mão do amigo.

No lugar que deveria ser ocupado pela linha da vida via-se apenas um corte escarlate. A ferida perfazia com perfeição até mesmo os cursos mais sinuosos daquele tracejado, ocultando-o por completo em sangue.

Engolidos pela imensidão da noite, uma dupla de seres amorfos tocou novamente o solo mortal.

Sob a fatídica inscrição grega que denunciava a fatalidade naquele mundo, Pânico e Agonia esperavam, ansiosos, pelo fim de um antigo tormento. Finalmente haviam encontrado a alma aflita referida pelas moiras, e logo não seriam mais o foco raivoso de Hades. O pobre mortal por certo absorveria aquela função, ao menos por um tempo, e as duas criaturas do submundo poderiam desfrutar de uma eternidade sem tantos castigos.

Agonia olhou em volta, atento.

— O humano já deveria estar aqui com os outros... — reclamou, preocupado que algo estivesse atrapalhando o decorrer dos planos.

— Já... — Pânico concordou, também desagradado pela demora. Coçou o nariz pontiagudo, chegando a bufar de impaciência.

— Se amanhecer, o ritual pode ser visto...

— Ninguém passa por aqui — Pânico replicou, certo do que dizia e ao mesmo tempo disposto a dar ouvidos ao comparsa. Entendia aonde Agonia pretendia chegar com aquela conversa, e sentia-se verdadeiramente tentado a ceder. — Os humanos acham que esse beco é amaldiçoado, esqueceu?

O outro soltou um muxoxo desagradado, aproximando-se e chegando a empurrar Pânico de leve com a saliência de seu abdômen.

— Vamos lá, Pânico. A gente acaba com isso num piscar de olhos. Se deixarmos na mão do mortal, sabe-se lá quanto tempo isso ainda vai demorar.

— Você sabe que essa é a nossa última chance com Hades. Se qualquer coisa der errada, somos nós que vamos acabar no estômago daquela besta de três cabeças.

— Se esse humano estragar tudo, acha que Hades vai descontar em quem? — fez a pergunta pertinente, incontestável até. Pânico e Agonia sempre tiveram a função primordial de servir de saco de pancadas ao senhor do submundo, e dessa vez não seria diferente, mesmo que a falha não fosse cometida por um deles.

— Está bem! — Pânico finalmente concordou, derrotado, ainda que ansioso por dar cabo daquela tarefa — Vamos logo atrás desse padre então. Sinto falta de quando nossa única missão era atormentar Hércules. A vida era tão mais fácil...

— Bons tempos... — concordou Agonia num tom saudoso à medida que abandonavam seus postos. Numa sincronia silente, ambos transmutaram-se para a forma de insetos voadores, permitindo que vagassem livremente pela cidade, sem serem flagrados pela irritante curiosidade dos mortais.

Pânico tomou a forma de uma vespa, enquanto que Agonia tornou-se um besouro roliço, quase incapaz de se sustentar no ar tamanha a dimensão exagerada de sua nova silhueta.

Voejaram por Paris sem nenhum comentário, ouvindo somente os ruídos agudizados de suas asas. Por todo o trajeto mantiveram-se focados apenas em rastrear a alma que vagava em tormenta, e que muito em breve pertenceria de vez a Hades. Era praticamente possível perceber o odor da angústia profunda daquele humano, guiando-os com precisão rumo ao paradeiro de Frollo. Ao que tudo indicava, o sacerdote havia se afastado do centro da cidade, o que representava um enorme perigo à sua condição atual.

Pânico enrijeceu-se ao perceber o risco que corriam, e pela primeira vez quebrou o silêncio que pesava entre ambos.

— Este asno veio para perto do Pátio dos Milagres... — constatou, incrédulo de seu próprio azar.

— Se matarem o humano, Hades nos fará picadinho...

Cérbero nos fará picadinho — corrigiu o comparsa, querendo trincar os dentes de nervoso.

Por mais cansados que estivessem, aumentaram a velocidade de seu voo, sentindo o alívio preencher seus diminutos corpos assim que obtiveram um vislumbre de Claude em meio à escuridão. O sacerdote pareceu-lhes desnorteado, mais torturado do que jamais o perceberam em sua busca pelo mortal de alma corrompida.

Alcançaram-no, a vespa e o besouro ficando bem à frente do campo visual do padre. Este sacudiu a mão diante do rosto, tentando espantar a estranha dupla de insetos que planava bem na altura de seus olhos.

— Saiam da frente, criaturas inúteis! — Pestanejou, agindo como se aquela ínfima alteração de seu campo visual pudesse atrapalhar na busca pelo paradeiro de sua Esmeralda.

— Algo me diz que esse mortal e Hades vão se dar bem... — Agonia comentou após o insulto, sentindo-se quase maravilhado ante a semelhança com seu mestre — Compartilham o gosto pelos mesmos xingamentos, até me arrepiei.

Frollo estancou ao ouvir aquela vozinha ignóbil lhe respondendo, imaginando se sua mente continuava disposta a pregar certas peças em si. Resolveu ignorar aquilo que julgara ser um delírio e desviou dos insetos, retomando sua busca pela egípcia.

— Eu tenho mais o que fazer — afirmou como uma réplica à interrupção dos dois animais, tentando retomar o foco do que verdadeiramente importava. Precisava encontrar tanto Esmeralda quanto Quasímodo, e não fazia a mais remota ideia de onde pudessem estar.

Sem ter para aonde ir, considerou que a cigana poderia voltar às proximidades de seu lar, arriscando reconciliar-se com os pagãos. Contudo, apenas gastara um tempo precioso naquela busca sem conseguir qualquer resultado positivo em troca.

— Nós sabemos como encontrá-los! — Dessa vez foi Pânico quem se manifestou, e novamente os músculos do arquidiácono se enrijeceram. Voltou-se na direção dos insistentes insetos, apenas fitando-os com dúvida e gravidade. Pareceu igualmente sobressaltado quando a voz diminuída voltou a falar — Fomos mandados para ajudar na sua travessia — o demônio asseverou, já sem muita paciência.

— Vocês são...? — Claude principiou, sem saber exatamente como terminar aquele questionamento. Várias palavras vieram à sua mente, porém nenhuma delas parecia boa o bastante.

— Somos as criaturas que Hades mencionou. Estamos camuflados para que outros humanos não nos percebam.

Com seu voo tortuoso, Agonia delineou um trajeto ondulante no ar, pousando por fim no ombro do mortal sem qualquer constrangimento. Frollo fitou o besouro com desprezo e uma porção ainda alta de descrença.

— Ah, pelas barbas de Zeus, preciso descansar... Voamos metade da cidade à sua procura... — Justificou-se, agora acomodado no tecido negro do mortal.

— Temos que nos apressar — Pânico alertou, esvoaçando enérgico à frente de Claude. — Não podemos perder tempo com suas dúvidas agora. Hades quer esse assunto resolvido o quanto antes.

Ao escutar aquele nome pela segunda vez, percebendo que não o ouvira errado da primeira, Frollo pareceu despertar para as palavras da criatura. Recordou-se do absurdo que a imagem do deus grego lhe parecera — dentes serrilhados, pele acinzentada como se tocada pela própria morte, fogo de um azul bem intenso no lugar dos fios de cabelo, altura de dois homens —, e de repente aquele peculiar quadro lhe pareceu um pouco mais plausível.

Recordou-se também da promessa feita para convencê-lo a aceitar sua proposta, lembrando das palavras exatas.

Ela será completa e totalmente sua. Sem quaisquer reservas.

O sacerdote que desertara das crenças cristãs foi dominado por uma pressa abissal, de súbito ainda mais sedento pelo calor de sua menina pagã. Pedinte até mesmo por um sinal da egípcia que lhe roubara a alma.

— Levem-me até ela, então! — Ordenou com urgência, agora pouco se importando com a loucura de tudo aquilo. Se o preço por Esmeralda incluísse o fim de sua sanidade mental, então assim seria. Arcaria com o que fosse preciso para reparar a fissura imposta entre eles.

Obedeceram-no de pronto, voando à frente para conduzir o caminho. Frollo, apesar da dificuldade em enxergar as duas pequenas criaturas, se manteve num ritmo apressado, o peito ribombando fortemente diante da expectativa de encontrar a boêmia e, de uma vez por todas, acertar-se com ela.

Seu perfume egípcio de repente invadiu os sentidos do padre, como uma promessa do que retomaria. A textura aprazível de seus cachos envolveu-o num toque inventado, porém convincente.

Já podia imaginar a pele macia e bronzeada novamente contra a sua, tocando-o em semelhante anseio. Os lábios cheios se roçando contra os seus, desenhando aquele sorriso travesso que tanto o alucinara, desde que o vira pela primeira vez. Seios, mãos e coxas trabalhando no mesmo propósito de abrasá-lo, de mostrar-lhe o paraíso sob a óptica dos portões do inferno.

O sacerdote arfou, ciente de que não o fazia pela corrida.

Mais do que tudo, precisava do vislumbre de sua cigana. Imperava em si a necessidade de atestar que sua musa era real, e não apenas um de seus tantos desvarios. E, uma vez que a comprovasse autêntica, sabia que seria necessário corroborar a reciprocidade de tal sentimento. Que a paixão da cigana de fato existira, não como um fruto trapaceiro de sua mente para lidar com sua rejeição.

— Mais rápido! — Frollo demandou, não mais suportando todas aquelas novas questões a lhe afligir.

Tanto Agonia quanto Pânico esforçaram-se para aumentar o ritmo de suas asas, conseguindo um afastamento um pouco maior do padre, que não tardou a alcançá-los.

Mantiveram aquela cadência por minutos que pareceram intermináveis aos lacaios do submundo, até que por fim foram diminuindo o bater de asas à medida que as ruínas da catedral se aproximaram.

— Estão aqui... — Pânico resfolegou, o trajeto de seu voo ainda mais torto por conta do esforço. — Lá dentro, no meio do desabamento.

— Notre Dame...? Não pode ser! — Frollo pensou alto, imaginando que aquele seria o último lugar que Esmeralda optaria se aproximar...

...O mesmo lugar em que vivera os momentos mais intensos consigo.

“Talvez ela tenha se dado conta de que tudo não passou de um terrível engano... Que apesar do que houve no passado, estamos destinados ao futuro!”

Afobado, Frollo foi adiante, alimentando suas esperanças de que tudo pudesse se resolver entre eles, sem que para isso fosse necessária a intervenção de um ser mitológico que se intitulava deus dos mortos.

Quando finalmente encontrou a pessoa que tanto buscara, contudo, seu corpo se enregelou num arroubo de fúria. Quasímodo e Esmeralda adormeciam abraçados, dividindo o interior de um sino que tivera as cordas arrebentadas. Os músculos do arquidiácono se retraíram por completo, totalmente estáticos pelo animalesco ciúme que o penetrava.

O corcunda passara de todos os limites.

Ainda tentando processar aquela cena de pura intimidade, Frollo sequer percebeu a dupla de insetos que novamente se prostrara ao seu lado, e nem mesmo deu atenção ao comentário de um deles.

— Temos um problema... — Agonia anunciou ao contemplar o animal de pelagem alva que dormia recostado à cigana, a cabra exalando um leve ronco em meio ao sono pesado — O último que tentou entrar na barca na posse de um bode foi rejeitado*, e até hoje Hades o ignora.

— Ela não vai me seguir... — O que despontou dos lábios de Frollo foi um fiapo ensandecido, um mero espectro de sua antiga voz cheia de propriedade. Deixou-se cair de joelhos, exausto. Naquele contemplar abrasivo, onde paixão e ciúmes pareciam desconhecer limites, o sacerdote demonstrava-se alheio a todo o ambiente que não compunha a imagem da estrangeira entregue ao sono — ...Nunca mais. Não por sua própria vontade.

— Se chegarem até Hades, ele cumprirá o acordo — A voz do demônio nunca lhe pareceu tão agradável, e Frollo o encarou com súplica nos olhos, implorando para que ele fosse capaz de convencê-lo daquilo — Quanto a levar a humana até lá... Nós podemos cuidar para que ela vá ao local. Só não teremos poder sobre o outro. Não conseguimos transpassar sua aura divina com nossos truques. Pode levar o filho de Hércules? — Pânico inquiriu, arrancando uma expressão desentendida de Frollo diante daquela referência desconhecida a ele — O rapaz corcunda... — explicou-se, por fim se fazendo entender.

— Sim, posso. Quasímodo fará o que eu disser — atestou sem ao menos duvidar daquilo que dizia.

— Vá com ele então. Nós nos encarregamos da cigana.

As íris castanhas de Frollo de repente cintilaram, analisando as pérfidas criaturas num ultimato perigoso.

— Não ousem machucá-la! Se tocarem num único fio de Esmeralda...

— É, é, já sabemos. Mais um que vai alimentar Cérbero com nossas cabeças... — Agonia fez pouco caso daquele princípio de ameaça, já habituado a todos os tipos de intimidação que a eternidade ao lado de Hades lhe reservara. Mais uma vez Frollo o fitou com dúvida, sem compreender a fala do servo do mundo inferior — Ela nem vai nos ver aqui.

Ainda sem mover-se, desconfiado dos métodos que os nefastos seres utilizariam naquele escopo, Frollo sequer demonstrou que seguiria adiante. Não enquanto não soubesse exatamente o que esperava sua menina se ficasse a sós com os servos daquela estranha versão do inferno.

Pânico suspirou, dando-se por vencido. A cada novo segundo era dominado pela urgência de concluir a missão, mas o mortal não parecia nem um pouco disposto a colaborar com sua pressa.

— Vamos entrar no sonho da humana. Criar imagens que deixem claro para onde ela deve ir — Pânico explicou, tentando satisfazer a curiosidade do padre da maneira mais sucinta possível.

— Ela acordará e perceberá que foi apenas um sonho... — Claude replicou, não vendo como aquele plano levaria ao desfecho esperado.

— Humanos normais, sim, mas ciganos não ignoram o poder do sexto sentido. É o que existe de mais próximo da magia em seu mundo, e eles a ouvem. Só precisamos descobrir a motivação certa para que ela se apresse ao local.

— E é isso o que fazemos — Agonia complementou, quase demonstrando orgulho dos próprios dizeres — Fomos criados para farejar aquilo que mais atormenta cada alma, e às vezes manipulamos os humanos a partir disso... — Contou com certa malícia, mudando sua forma para a imagem da robusta cigana que, anos atrás, convencera Claude Frollo a sair em busca da criança deformada.

Que indiretamente fora o responsável pela matança que se seguiu ao povo egípcio, afastando sua Esmeralda de si. Jamais esqueceria aqueles traços, e revê-los, mesmo após todos aqueles anos, reacendeu a mágoa e desespero que vivera nas últimas horas, quando ainda se afundava na convicção de que nunca retomaria o apreço de sua menina pagã.

— Foram vocês! — Frollo rugiu, erguendo-se de um salto e circundando com ambas as mãos o pescoço da falsa cigana, apertando-o com fúria enlouquecida — Por causa da premonição estúpida daquele dia, perdi Esmeralda!

Agonia arquejou perante a falta de ar, adotando sua verdadeira forma quando precisou de toda sua energia para respirar. Diante de sua real aparência, os pés deixaram de tocar o chão, e o demônio ficou suspenso no ar, tentando livrar-se das mãos que comprimiam suas vias aéreas. Abriu a bocarra quando a constrição em seu pescoço se intensificou, mas nada passou por ali; nem ar e tampouco palavras.

— Foi por causa daquela profecia que você encontrou a humana, para começar... — Pânico interviu, ele mesmo também reassumindo sua real forma — E mais uma vez somos nós que vamos reaproximá-los. Se gosta tanto assim dessa mortal, você nos deve em dobro.

O arquidiácono afrouxou a força que destinava aos dedos, irritando-se por enxergar veracidade naquele argumento. Os demônios o fizeram perseguir o rastro da criança deformada anos atrás, e fora por intermédio de Quasímodo que vislumbrara Esmeralda pela primeira vez, despertando todas as sensações desconhecidas que hoje não era capaz de abandonar. Largou o demônio no chão, limpando as mãos em sua própria veste como se a consciência daquele toque subitamente o enojasse.

— Levem-na em segurança, aberrações! — Alertou pela última vez, por fim concordando em deixar a egípcia temporariamente a cuidados que não fossem os seus.

— Humanos... Tão sensíveis... — Agonia resmungou, massageando o pescoço — Estamos prestes a deixar um "segundo Hades” entrar no mundo inferior... Já percebeu?

— Se não o levarmos será pior, sabe disso! — O outro replicou, ambos se escondendo à medida que o humano ia de encontro ao semideus.

O homem sacudiu de leve a perna que se projetava para fora do sino, sentindo que no mesmo instante seu protegido despertava. Sinalizou para que o corcunda fizesse silêncio assim que seus olhares se cruzaram, temendo que qualquer movimento brusco acordasse a boêmia ao lado, e em seguida gesticulou para que Quasímodo saísse dali.

— Mestre... — a voz trôpega do filho de Hércules se fez ouvir pela primeira vez aos demônios, e o brilho de sua aura em muito lembrava-lhes o pai. Repleta das mesmas cores dinâmicas, tal parentesco se tornava incontestável.

— Preciso de sua ajuda, Quasímodo. Vamos, temos muito a fazer antes que amanheça.

— Algum problema, mestre? — A adoração em seu timbre se tornou ainda mais evidente conforme a voz acompanhava o despertar de seu dono, tão profunda quanto a devoção irrestrita de seu olhar.

— Não há tempo para isso. Entenderá tudo no seu devido tempo. — Frollo pôs-se a caminhar, porém Quasímodo não o acompanhou de imediato, a expressão vacilando em incerteza. O sacerdote parou, virando-se para encará-lo com uma pontada de desagrado em suas sobrancelhas arqueadas — Está surdo, rapaz? Não ouviu o que acabei de dizer?

— Vamos deixar Esmeralda aqui? — A pergunta soou baixa, tímida apenas por contestar a ordem do homem que o criara. Que o protegera de todos os males daquele mundo amargo.

— Esmeralda deve estar exausta. Deixe-a descansar mais um pouco, em breve ela nos encontrará — Após dizê-lo, Frollo direcionou um olhar tão intenso quanto sombrio na direção em que Pânico e Agonia se esconderam, destinando a próxima fala como uma ameaça velada às duas criaturas — Ela estará segura aqui, estou certo disso. Agora vamos.

Dessa vez o sineiro o seguiu sem mais nenhuma ressalva, comprometido em lealdade com o arquidiácono da mesma forma que o mais fiel dos cães.

Sob o ritmo manquejante da marcha de Quasímodo, o humano e o rapaz corcunda sumiram da vista dos demônios, dando espaço para que pudessem agir em sigilo. Ambos suspiraram de alívio, pensando que talvez não conseguissem se livrar de Frollo tão cedo, tamanha a obsessão do mortal pela mulher egípcia.

— É a nossa deixa! — Pânico esfregou as mãos, entrando sem dificuldade no interior do sino em que Esmeralda se abrigava, dando uma boa analisada na mulher que fugia aos padrões parisienses — Pobre e tolo humano. Vai se comprometer a uma eternidade com Hades por causa de um rabo de saia...

— Que nem é lá essas coisas — Agonia juntou-se ao companheiro, também avaliando a mulher que fizera nascer os mais profundos tormentos no arquidiácono — Honestamente, eu prefiro a cabra... — Foi se aproximando do animal também adormecido com um sorriso galante, levando em resposta um cutucão doloroso de Pânico.

— Volte aqui! Não podemos acordá-las ainda! — Ralhou, tirando de Agonia aquela expressão boba — É nosso último serviço no mundo mortal. Temos que nos concentrar!

À contragosto Agonia cedeu, voltando sua atenção para a humana vestida em trapos e sem graça. Os asseclas de Hades se concentraram na mente da menina, buscando por toda informação que pudessem usar a favor do plano. Surpreenderam-se com a facilidade com que encontraram sua isca.

A nítida imagem da palma sangrenta de Quasímodo, rasgada no exato trajeto que antes era ocupado pela linha da vida, estava entre as maiores preocupações da cigana naquele momento. A sensação do mau pressentimento não a abandonara nem mesmo ao ultrapassar o plano onírico, onde a realidade pode ser substituída por fantasias mais gentis.

— É isso! — Pânico comemorou baixinho, já compreendendo qual abordagem deveriam seguir.

— O filho de Hércules! — Agonia entendeu, mirando o comparsa num olhar cúmplice.

Empolgados pelo progresso de rapidez inesperada, deram início ao procedimento, incutindo diversas imagens que por certo seriam perturbadoras à mente da egípcia, ciente de que ela as via em tempo real no contorno de um pesadelo nítido.

Nítido demais para que pudesse ignorar quando reabrisse os olhos para sua realidade.

Começaram reproduzindo a cena em que Esmeralda pressentiu o perigo rondando o sineiro após vislumbrar sua linha da vida destruída, extinguida por um corte a lhe imitar o formato com exatidão. O corpo da humana respondeu num breve tremor ao reviver aquela cena. Em seu sonho induzido, a mão ferida foi se aproximando, ganhando dimensões absurdamente grandes e perdendo o foco em transparência, até que deu lugar à imagem completa de Quasímodo.

Esmeralda se debateu com um pouco mais de força quando o seu subconsciente a forçou a testemunhar o sineiro de joelhos, suas faces contorcidas em sofrimento à medida que uma sombra lhe cortava a garganta num gesto rápido e tão profundo quanto. A cigana do pesadelo gritou com todas as suas forças à medida que o sangue escorria em profusão para longe do corpo de seu amigo, abandonando-o assim como o sopro valioso de sua vida.

Já caído e inerte, Esmeralda obrigou-se a desviar o olhar do sineiro, em busca das feições daquele que o assassinara. Houve um descompasso em sua frequência cardíaca assim que percebeu o ar misterioso que revolvia o homicida em escuridão. Seu aspecto não passava de um espectro indiscernível, como numa aparição fantasmagórica de aparência nebulosa.

A egípcia correu até a criatura maléfica, percebendo o quanto seu rosto se umidificara diante de visão tão horrível. Queria agarrar o assassino e fazê-lo pagar, de alguma forma desconhecida, pelo que fizera ao único amigo que lhe restara. À mais valiosa alma naquela terra de desvalidos. Quando conseguiu alcançar a aparição, contudo, esta se desfez com a mesma facilidade de um nevoeiro dissipado.

Esmeralda olhou em volta, incapaz de assimilar todos aqueles eventos que iam muito além de sua compreensão. Tentou reencontrar o corpo largado de Quasímodo, contudo não havia mais nada ali. Sua mente apenas enquadrava a inscrição que fora talhada sobre o concreto de uma ruína antiga, que de imediato orientou a cigana do lugar em que se encontrava. Reconheceu os símbolos, sem conseguir lê-los.

ANÁΓKH

Vauvert. Era lá que o sineiro deixara de existir.

QUASÍMODO! — Esmeralda acordou em meio ao próprio berro, sentindo o peito ofegar em oscilações descontroladas. O ambiente interno do sino fez com que o nome proferido ainda ecoasse algumas vezes, se perdendo em intensidade após algumas repetições. Djali despertou de imediato, quase tão assustada quanto sua humana.

Com o terror instaurado em seu peito, a boêmia olhou ao redor, esperando encontrar qualquer indício do amigo. Sem muita paciência, espantou dois insetos que zumbiam perto de seu rosto, saindo do abrigo provisório em busca do rapaz.

O pavor em si tornou-se quase sólido quando não viu nenhum sinal daquele que lhe era tão caro. Ele se fora, e o sentimento de mau agouro apenas a engoliu ainda mais.

— QUASÍMODO! — berrou com redobrado fôlego, esperando mais do que tudo que o sineiro surgisse em seu alcance visual, portando o típico olhar inocente e aparentando confusão com o estardalhaço criado pela cigana. Contudo, não houve nenhuma resposta. Nada que pudesse acalmar seu coração daquela agonia. — Onde você está, meu amigo? — Murmurou para si mesma, tentando organizar os pensamentos caóticos em algo útil. Foi quando a localização de seu sonho se fez clara, pela segunda vez surgindo à sua mente com extrema precisão de detalhes.

“Ele está em Vauvert. E corre perigo!” — Elucubrou, incapaz de duvidar por um único instante da legitimidade daquela terrível sensação que a consumia. De alguma forma seu amigo se colocara em risco e ela, exausta como estava, sequer percebeu o momento em que ele saiu do seu lado.

Pôs-se a correr num ritmo alucinado, pressentindo que qualquer segundo de hesitação representava uma chance a menos para o sineiro. Não importava se seus pés já não aguentavam mais o esforço. Não importava se os músculos ardiam como se estivessem em contato com brasa incandescente. Não importava mais nada. Quasímodo e Djali eram os únicos que restaram de sua antiga vida, e não podia dar-se ao luxo de mais uma única perda.

Não permitiria!

Notou que Djali a acompanhava num bom ritmo, e ao menos por isso foi grata. Se ainda precisasse carregá-la, como fizera mais cedo, não sabia se seria capaz de fazer todo o trajeto que ainda tinha pela frente.

Forçou-se a desprezar as pontadas em seu abdômen, disposta a manter a corrida fluindo num mesmo compasso, independente do quanto seu corpo sofria com tamanho esforço. Apesar da escuridão densa, foi conseguindo vencer rua por rua, quarteirão por quarteirão, até que seu destino final não parecesse mais tão inalcançável.

Arfando como nunca, reduziu um pouco sua velocidade, odiando-se por não conseguir mantê-la até o fim. Foi quando o viu, bem no ponto de referência de seu sonho, analisando com atenção os dizeres que não compreendia.

— Quasi! — Ela não evitou o sorriso, sentindo o alívio transbordar por cada um de seus poros. Ele estava vivo. Estava bem, e provavelmente seus últimos momentos histéricos não passaram de um terrível efeito à carga de estresse que viveu nas últimas horas.

Encontrou novas forças para correr ao encontro do sineiro, necessitada pelo abraço que lhe daria. Quando enfim o alcançou, sentiu a surpresa dominá-lo, percebendo a cigana apenas quando ela o envolveu fortemente nos braços. Ele corou de felicidade e vergonha, ficando preocupado assim que a examinou com o olhar.

— Aconteceu... — enrolou-se, pigarreando sem jeito conforme sentia o corpo da cigana comprimir o seu — Está tudo bem?

— Temos que sair daqui! Tive uma visão de que você estava em perigo, neste mesmo lugar.

— Perigo? — O sineiro quase achou graça. Estava, afinal, junto de seu protetor. Do homem que lhe devolvera a vida, quando outros facilmente a renegariam — Não, está tudo bem! Meu mestre me trouxe aqui. Disse que precisava de minha ajuda.

— Frollo...? — A egípcia enrijeceu com o mero som daquela pronúncia, afastando-se alguns passos do corcunda — Ele está aqui?

Antes que qualquer palavra pudesse ser dita, sucedeu algo totalmente inusitado aos olhos da cigana e do sineiro, calando-os de espanto. Duas criaturas baixas — uma magra portando longos chifres e a outra gorda de chifres diminutos — simplesmente se materializaram atrás de Esmeralda, ambas arquejando audivelmente enquanto as mãos buscavam apoio em seus respectivos joelhos.

— Maldita hora... — Pânico começou a dizer, mas precisou interromper-se para uma longa puxada de ar — ...que eu me candidatei para esse emprego...

Agonia anuiu, apenas capaz de se jogar no chão após todo o esforço de seguir a humana em seu ritmo frenético. Seu avantajado abdômen subia e descia repetidas vezes, numa cena por certo hipnótica.

— O que...? — A cigana balbuciou, sem acreditar em seus próprios olhos. Em seus dedos já portava o punhal que fora presente de Clopin, disposta a usá-lo ao menor sinal de necessidade.

— Aí está ela, Frollo. Viu? Segura, como prometemos. Vamos acabar de vez com isso... — Pânico limpou a testa enquanto o companheiro ainda encontrava sérias dificuldades em recuperar o fôlego, completamente largado.

A estrangeira virou-se na direção em que os demônios encaravam, pela primeira vez enxergando o arquidiácono no meio do cenário escuro.

— O que significa isso? — Ela perguntou a ninguém em específico, temendo a resposta. Os dedos suados escorregaram pela extensão do cabo de sua adaga, e a cigana levou a outra mão ao objeto, visando reforçar aquele brandir inseguro.

— É a nossa chance de resolver tudo, ma belle! — Disse com a voz repleta de afeto e expectativa, aproximando-se aos poucos da menina pagã, como se temesse assustá-la, mas ainda assim incapaz de evitar ir ao seu encontro — Eu encontrei uma maneira... Descobri uma forma de superarmos isso! Juntos!

Juntos? Você não entendeu nada do que eu disse antes? — Aproximou-se também, para sua própria surpresa, movida pela fúria. Arrastada até ele pela forma com que o padre a fizera se sentir estúpida, diminuída perante todos aqueles que amava, chegando a torná-la uma traidora de seu próprio povo. A lâmina que segurava passou a ostentar um peso incrivelmente tentador.

— Você está confusa... Foi tudo um mal entendido, sei que podemos consertar esse equívoco, minha menina! Recomeçar de onde paramos...

— Por Júpiter... Realmente acha que ainda existe alguma chance de se aproximar de mim? Já sabia que era um assassino, mas louco é novidade!

— Não fale assim, mon cœur. — Claude segurou os ombros da boêmia, desesperado para se fazer entender. Pouco se importando com o objeto cortante que ela erguera no mesmo segundo, exercendo certa pressão sobre o vestígio de barba que agora crescia no rosto clerical — Tudo o que arranjei aqui foi para que pudéssemos ajeitar nosso futuro.

— Isso não vai acontecer. Não existe nenhum jeito mais claro de dizer isso.

— Precisa acreditar no que digo, Esmeralda. Não sou mais o homem daquela época. Sou melhor, por sua causa. Me volis tu, romi**! — Fez a declaração no idioma cigano que ele parcamente recordava de seus dias vividos no Pátio, esperando ter acertado na pronúncia.

— Ousa mesmo usar o Romani*** comigo? Depois de tudo? — Esmeralda exaltou o tom de voz, empurrando o arquidiácono com tanta fúria que ele caiu ao chão, despreparado para aquele golpe — O idioma do meu povo, que você me fez abandonar? Se atreve a usar o mesmo dialeto que me deu as costas, por sua culpa...?

— Esmeralda, cuidado! — Quasímodo se expressou pela primeira vez desde o início daquela loucura, sem apreender nada do que se passava ali. Contudo, assim que os demônios novamente mudaram para uma forma perigosa, o sineiro reencontrou sua voz.

Mas já era tarde.

Pânico e Agonia, agora na silhueta de duas serpentes de corpo longilíneo, investiram pelas costas de Esmeralda. Enroscaram-se aos membros da cigana até que a pressão quase não permitisse a passagem de sangue, imobilizando-a totalmente. Agonia tratou de circundar as pernas, enquanto Pânico se encarregou dos braços, ambos afastando os ataques de Djali com ameaças de suas compridas presas.

— Eu queria que pudéssemos fazer isso de outro modo... — Frollo novamente ergueu-se, amargo consigo mesmo — Mas você ainda está confusa com tudo que houve... Precisa da minha ajuda para enxergar as coisas como elas realmente são! — O arquidiácono pegou o punhal que Esmeralda acidentalmente deixara cair quando os serviçais do submundo a imobilizaram, e por um tempo Claude Frollo analisou o brilho de seu reflexo, pensativo — Mas não se preocupe, ma belle. Estou aqui para fazer o que for preciso por nós. Para tomar as decisões difíceis.

Dizendo isso, o padre virou o corpo com notória velocidade, aproveitando o giro para intensificar o golpe da adaga. A lâmina acertou com fereza a altura do maxilar de Quasímodo, que fitou seu amo com o olhar mais desacreditado possível. Levou as mãos ao corte, sentindo-o despejar seu sangue com vigor.

— Mestre...?

Não! — Esmeralda gritou, buscando em vão se desvencilhar do aperto em suas articulações, conseguindo apenas machucá-las ainda mais com o esforço — Quasímodo, fuja! Pelo amor de tudo o que é sagrado a você, fuja!

O sineiro, contudo, manteve-se estático, vislumbrando o aproximar comedido do padre, portando em seus traços dóceis a expressão mais ferida de toda a sua vida.

— Mestre... Por quê?

— Porque eu salvei sua vida tempos atrás, quando ninguém o queria. Agora, eu preciso que faça o mesmo por mim.

Diante dessa fala, o sineiro apenas manteve o encarar profundo no homem que tanto amava. Devia tudo e ainda um pouco mais ao arquidiácono, e jamais poderia pagá-lo por todo o bem que ele lhe ofertou. Não precisou sequer de um segundo de hesitação. Assim que Frollo pôs os termos daquela forma, Quasímodo assentiu devagar, apenas algumas lágrimas se contrapondo ao término precoce de sua vida.

Não havia muito para si naquele mundo, de qualquer forma. Para ele — a aberração que se escondia no campanário de Notre Dame — tudo havia se resumido a dores e tristezas além da conta. O arquidiácono representava um dos únicos motivos de contentamento, e sua devoção a ele desconhecia fronteiras.

Pertencia a Claude Frollo de todo o seu ser, e se a vida de seu mestre dependia do término da sua, o preço lhe parecia até muito baixo.

Ajoelhou diante de seu protetor e carrasco, permissivo. Consentiu-se um último olhar à cigana que trouxera o que havia de mais belo aos seus dias miseráveis, e o coração despedaçou-se em seu peito ao observar seu desespero. Ela continuava implorando para que ele fugisse, para que se salvasse.

Mas como poderia, se quem demandava o sacrifício era o seu salvador?

Sentiu o quanto o gume do punhal parecia afiado quando o objeto se alocou em sua garganta, rasgando-a fundo, sem pestanejar. Isso o entristeceu. Gostaria de perceber que Frollo ao menos titubeara naquele golpe, mas ao contrário, foi firme como o poder de uma antiga convicção.

Demonstrando aquilo que ele sempre soubera em seu íntimo... Não valia grande coisa.

Aceitando o seu destino, o filho de Hércules e Mégara apenas fechou os olhos, disposto a não captar mais nada daquela terrível vida. Por muitas vezes cogitara dar fim à própria existência malograda, e agora era grato por nunca ter ido além de conjecturas. Sua partida teria algum propósito, afinal.

Foi com esse último pensamento que Quasímodo, o corcunda de Notre Dame, partiu daquele plano que não o merecia. Quando seu corpo foi de encontro à imundície do chão, o baque pareceu ainda mais elevado aos ouvidos da estrangeira, que sofria mais uma perda incomensurável naquele dia.

— FROLLO! — Esmeralda soluçou, maldizendo tudo o que aquele homem representara para si. Tudo o que permitiu que ele se tornasse, independente de sua falta de conhecimento — Maldito! Assassino! Você... Você o matou... — O corpo de Esmeralda pendeu para frente, sacolejando com violência à medida que o pranto se descontrolava.

— Vão! — O sacerdote dispensou os demônios, ordenando que soltassem a cigana — Façam logo sua magia profana, antes que o sangue esfrie e tudo tenha sido em vão. — Ordenou, ajoelhando-se ao lado da menina que tanto desejava, devastado pela forma com que ela se encolhia no próprio choro, sequer se importando com a liberdade de seus braços e pernas, apenas entregue à dor lancinante. O olhar verde repousou no corpo sem vida de Quasímodo, incapaz de desviá-lo para um alvo menos doloroso — Esmeralda... eu não queria que isso fosse necessário. Mas era o preço. O preço para que pudéssemos reconstruir nossas vidas. Juntos, como deve ser. Je t'aime. Je t'aime, ma belle. — Afastou os cachos dos olhos de sua egípcia, o verde dentro deles torturados de tal forma que o padre jamais vira, mesmo no contexto de sua indigência pagã.

Tu vas me détruire, prêtre****. — Afirmou-lhe o óbvio, apesar de toda a dor conseguindo encará-lo no fundo dos olhos amendoados. Olhos que a cativaram, fascinaram, para em seguida aniquilá-la com ainda mais pujança — Que pecado tão terrível eu cometi para merecer ser amada desse modo, monsieur?

Frollo nada disse, repleto de temor. Esmeralda demonstrava-se ainda mais afastada e enojada com a imagem do sacerdote, mesmo após tudo o que arriscara por ela. Se o método ainda obscuro de Hades não funcionasse, estaria perdido. Para sempre renegado do amor de sua menina.

— O fogo de Hades. Passe para cá, camarada — Pânico pediu repleto de um bom humor totalmente insensível ao luto da menina. Já sentia os ventos de uma liberdade parcial com o término daquela tarefa, e a euforia era visível em si. Agonia, em igual estado espirituoso, tirou de suas dobras salientes o frasco que continha a chama do mundo inferior, oferecendo-a a Pânico com uma breve mesura.

— Faça as honras, meu caro.

Despejaram o fogo por cima da extensa poça de sangue que apenas se alargava, e de imediato uma labareda alta dominou toda a extensão delimitada pelo líquido viscoso, inclusive o corpo. Esmeralda sentiu o choro intensificar-se, ciente do desrespeito que tudo aquilo representava. Seu amigo era cristão e, de acordo com os costumes de sua crença, deveria ser enterrado, não cremado. Mas até mesmo essa cortesia lhe fora negada.

Do tom azul, as chamas tornaram-se púrpuras, apenas o cerne que continha o corpo do sineiro resvalando um tom mais próximo do real, de um dourado intenso. A terra que era tocada pela mistura entre fogo e sangue foi se abrindo do centro para as periferias, criando uma extensa passagem que logo pôde ser observada em totalidade.

O corpo de Quasímodo foi o primeiro a ultrapassá-la, caindo do outro lado com um estalido distante.

O aroma insuportável do enxofre atingiu a realidade dos mortais com uma lufada do ambiente mortífero, seguida por um rosnar que devia pertencer à mais faminta das feras. Pânico e Agonia encolheram-se perante o conhecido rugido, esperando que Hades jamais cumprisse suas ameaças a respeito de Cérbero.

Esmeralda estancou, temendo o significado daquela espécie fétida de portal. Tentou erguer-se para se afastar do que quer que aquilo significasse, contudo Frollo conseguiu ser mais ágil, circundando o corpo da cigana com braços extremamente convictos.

— Não se preocupe, minha menina. Muito em breve ficaremos bem, como antes. Vamos para longe de tudo o que nos afastou nesse mundo, e finalmente nos será permitido um pouco de felicidade. Você verá! — Contou, dono de um entusisamo intenso ao se aproximar do portal.

Nada lhe trazia mais confiança e plenitude do que sentir a egípcia tão perto de si. E estava a meros passos de distância de acertar-se com ela.

— Frollo, me deixe sair! Me solte! — Conforme se aproximavam daquela estranha passagem, Esmeralda se entregava ao pânico, debatendo-se, socando, chutando. Nada, contudo, surtiu o menor efeito desejado. O sacerdote parecia imune à dor.

— É tudo novo, eu sei, mas podemos nos acostumar. Tendo um ao outro, tudo será possível, ma belle! Tudo!

Chegaram à margem do portal, e Djali começou a balir, reclamando pela humana em perigo. Mordeu a barra de sua saia, tentando puxá-la para longe da beirada. Quando Esmeralda percebeu que Frollo daria o impulso para jogá-los naquela nova dimensão, a cigana chutou a cabra para longe de si, desejando que Djali tentasse voltar aos ciganos quando a humana sumisse de vez. Sabia que Clopin, ou mesmo Sara, cuidariam com todo zelo do animal tão esperto e espirituoso.

Com o golpe desesperado de sua humana para livrá-la daquela mesma sina — cujas únicas certezas seriam as agruras de ser prisioneira de um assassino — Djali foi arrastada vários metros da abertura. A cigana lançou-lhe um olhar de despedida, esperando não tê-la machucado seriamente.

Quando Frollo e Esmeralda desapareceram para dentro da passagem, a cabra correu como nunca em busca da cigana. Baliu, indignada por tal tratamento, não desistindo de seu intuito mesmo quando a fissura começou a se fechar rapidamente. Ao invés disso, aumentou a velocidade com que seus membros a impulsionavam, disposta a seguir Esmeralda para onde quer que o destino a levasse.

Percebendo que não conseguiria ser rápida o bastante, o animal pulou a distância que faltava, em desespero, porém seu último esforço de nada serviu. O focinho de Djali colidiu com a terra novamente restaurada, uma pancada dolorosa que por um momento a atordoou.

Entendendo estar separada de Esmeralda, dedicou-se à única providência que lhe fez algum sentido. Com os membros dianteiros começou a cavar em busca daquele portal. Cavou até criar fendas em seus cascos. Cavou até que um pouco de seu sangue se misturasse ao de Quasímodo. Até a exaustão completa...

...Até finalmente compreender que nunca mais veria sua humana.

Notas finais
*Referência à obra "Auto da Barca do Inferno", de Gil Vicente, em que o personagem judeu é impedido de embarcar até mesmo na barca do diabo por causa do bode que carrega (acho o simbolismo disso super pesado, mas enfim, vocês sabem que eu não tenho maturidade pra lidar com referências) **Me volis tu, romi: Eu te amo, cigana ***Romani é como se chama o dialeto próprio dos ciganos ****Tu vas me détruire, prêtre: Você vai me destruir, padre. No musical "Notre Dame de Paris", essa frase é dita pelo Frollo numa de suas contemplações à Esmeralda (só que sem o "padre" que eu inseri, claro), e achei interessante colocar aqui nesse contexto inverso. Os dois, afinal, têm alto potencial para se destruírem mutuamente, embora no caso da cigana ela não tenha a menor parcela de culpa nisso. O destrutivo da história é o Frollo, nos dois casos. Vocês podem não acreditar, mas eu tô mal com esse capítulo, gente. Fiz inclusive uma montagenzinha escrota com uma música que me remete bastante ao Quasímodo, caso queiram ver: https://www.youtube.com/watch?v=-1TvJWKnNqY&feature=youtu.be E tem uma cena do musical que foi minha grande inspiração para a escrita dos últimos momentos do nosso amado Quasi. Sugiro que vejam também, se não for pedir muito. https://www.youtube.com/watch?v=evams48SoiY Beijos, beijos, minhas lindas! Espero encontrá-las nos reviews, apesar de todos os pesares :'(