O Preço da Magia

20 Episódio 20: À Quoi Me Sert Encore De Prier Notre-Dame ?


Notas iniciais
*De que me serve ainda rogar à Nossa Senhora? Pouco mais de UMA SEMANA depois da última postagem, venho com o 20º capítulo da história, minha gente, é emoção demais pra uma Arrriba só! Por essa ninguém esperava, né não? ahushaushuahs xD Minhas lindas, essa rapidez atípica se deve a alguns fatores. 1º) Estou empolgadíssima pra saber a opinião de vocês nesse novo episódio (que de fato é a junção entre "Hércules" e "O Corcunda de Notre Dame"), que como todos sabem, devia pertencer ao capítulo passado; 2º) Julho está acabando, e junto com esse mês maravilhoso, também minhas férias :( Passarei por um dos semestres mais pesados da faculdade, em que não só terei que cumprir longas horas em estágios como também criar a minha apresentação do TCC para apresentar lá por meados de novembro (que as divindades se apiedem de mim nesse momento caótico). Com isso, realmente não faço ideia se darei conta de postar mais do que alguns poucos capítulos até o fim do ano, então levem essa linda rapidez como um presente antes que tudo piore pro meu lado xD 3º) É a semana da FLIP (pra quem não conhece; Festa Literária Internacional de Paraty) e eu sempre me sinto muuuito inspirada nessa época! Foi, inclusive, na FLIP do ano passado que eu organizei um roteiro de cada capítulo dessa história, enquanto esperava entre uma palestra e outra. É provável que se eu não tivesse que ajudar meus pais de manhã e assistir às palestras à tarde, mais capítulo novo ainda saísse por aqui, mas devido às circunstânci

Há tempos Hades não sorria como naquele inusitado momento.

Pânico e Agonia sequer eram capazes de recordar qual havia sido a última vez que o deus da morte exalava alguma mínima satisfação em seus traços tão propensos à fúria. Partilhando um atípico bom humor enquanto observava o mundo dos mortais — plenamente agradado com os eventos que transcorriam por lá, totalmente a seu favor —, o solitário deus questionou, sem qualquer traço de ameaça ou raiva permeando seu timbre.

— É este o escolhido? Estão certos disso?

— Só pode ser ele, mestre! — Pânico respondeu de pronto, apreensivo com o sorriso ainda mais largo de seu amo. Interagir com Hades era tão incerto quanto aventurar-se a caminhar num campo minado. Por maiores que fossem os movimentos de calmaria, as explosões eram apenas uma questão de tempo, tão certas quanto o possível — Jamais houve tamanho tormento numa alma.

Hades anuiu enquanto ainda observava o evidente desespero vivido pelo mortal, ele mesmo convencido de que finalmente encontrara a primeira parte de sua profecia. Aquele que o levaria ao encontro de um poderoso mago, sendo capaz então de reivindicar o poder que lhe fora roubado.

— Deseja que nós o busquemos, vossa malignidade? — Agonia tentou fazer-se eficiente, disposto a alimentar o bom humor de seu mestre. Quase decepcionou-se quando Hades gesticulou desinteressado em resposta, dispensando a oferta sem nem mesmo considerá-la digna.

— Eu mesmo irei. Este humano requer um pouco mais de competência. — Alfinetou, porém não realmente irritado. Mal conseguia abandonar o brilho exultante em seus orbes gélidos, e o espectro do último sorriso ainda se percebia em seu semblante arrojado.

— Irá o senhor mesmo ao mundo humano? — Agonia arregalou os olhos em assombro, de súbito irrequieto com aquela declaração. Não queria abusar do anômalo bom momento de Hades, contudo temia que o deus estivesse empolgado demais, esquecendo-se de suas próprias limitações. Parecia um tanto hipnotizado pela imagem projetada de Claude Frollo para que pudesse refletir acerca do que dizia — Perdoe a intromissão, mestre, mas por acaso se esqueceu do aviso das moiras?

Diante daquele lembrete, uma parcela perigosa da habitual intolerância de Hades retornou ao seu rosto, porém Agonia nada percebeu, e prosseguiu naquele discurso arriscado. Tomando a forma da senhora do destino que vaticinara tal maldição, o demônio repetiu o final da profecia — que o próprio senhor do mundo inferior já sabia de cor:

Enquanto permanecer no submundo, a contagem de seus dias cessará. Saia, e um mortal se tornará. — O demônio recitou com perfeição aqueles últimos versos, sem se dar conta dos olhares urgentes de aviso que Pânico lhe direcionava, este já percebendo o desagrado de seu mestre com o levantar daquele assunto. Agonia deixou o alerta do amigo passar despercebido, e retomando sua forma avantajada, continuou a importunar Hades com seu falatório — Posso ter entendido errado, vossa ruindade, mas acho que se tentar sair do mundo inferior, o que resta de seus poderes irá se perder...

— Não preciso que me lembrem dia após dia deste maldito prenúncio! — Interrompeu a fala do lacaio, este se encolhendo cheio de temor ao perceber só naquele instante a irritação na voz de seu amo — Sei muito bem o que estou fazendo. Drenarei mais do poder dela, e creio que com isso minha aura ficará protegida dos efeitos nocivos da Terra. — Avisou, disposto a arriscar-se, retomando o clássico mau humor diante da mudança de assunto. O simples fato de mencionar aquela a quem logo encontraria, em busca de um sopro externo de poder, já fora capaz de azedar o temperamento de Hades, que não mais sorria. Sua atenção se perdera do humano que há poucos minutos observava com entusiasmo, para agora se focar em conjecturas amargas à medida que mais uma vez remexia naquele anel de gema azul. A força vital nele estava quase esgotada, e por mais que o deus da morte se irritasse com o que estava prestes a fazer, julgou por bem não prorrogar aquela tarefa desagradável — Não ousem ir atrás do humano. Eu mesmo o farei! Entenderam? — Bramiu com severidade, e apenas quando contemplou o assentir afobado e temeroso dos dois, deu-se por satisfeito.

O senhor do submundo retirou-se dali com pressa e algo daquela raiva que era sua companheira tão recorrente. Caminhava com afinco por seu reino de morte, detestando mais do que o normal o trajeto que seus pés travavam. Tal caminho teria por fim a mais repugnante companhia. Num silêncio sepulcral e já sem qualquer sombra do antigo bom humor, Hades alcançou a cela que abrigava uma prisioneira de longa data, a presença da deusa lhe causando pontadas de ódio a cada vez que a vislumbrava.

Mas não poderia negar o quão útil aquele desprezível ser vinha se mostrando para si e seus propósitos. E hoje seu valor seria mais uma vez ratificado.

Totalmente largada no espaço diminuto do cárcere, parecendo adormecida, a deusa da primavera não mais fazia jus àquele título. Esquálida e sem grandes vestígios de força, pareceu a ela um verdadeiro tormento quando tentou munir-se de alguma dignidade ao arriscar erguer as pálpebras. Sentia-se como se estivesse prestes a experimentar o próprio fim. Sua cor se perdeu ainda mais quando viu o senhor dos mortos vindo em sua direção, obstinado com o mesmo anseio que sempre o trazia à sua presença.

— De novo não... — Perséfone o fitou com desalento, mal conseguindo manter-se em pé — Nesse ritmo, conseguirá me matar...

— Acha realmente que me importo? — Hades retrucou, arisco. Era preciso uma grande força para controlar-se diante daquela que merecia o título de górgona*, jamais de deusa. Daquela que, junto com Zeus, quebrou-o ao ser patético que hoje ele era — Já sabe de que se trata minha visita, e não pretendo alongá-la mais do que o necessário. Alimente-o! — Ordenou secamente, entregando-lhe o anel de gema azul, o brilho da pedra tão morto e pálido quanto a face da própria Perséfone.

— Hades, eu imploro! Não tenho mais forças para isso! — Segurou-se às grades, posicionando-se o mais perto do deus que aquela barragem física e espiritual permitia — Nunca será capaz de perdoar-me? Tudo o que fiz...

— Cale-se... — O deus a advertiu num murmúrio pernicioso, não admitindo ouvir aquelas mesmas lamúrias tão recorrentes a cada encontro. Ofereceu-lhe novamente o anel, e desta vez a deusa não ousou desobedecer, segurando-o com dedos trêmulos — Preciso de mais poder do que tem me dado. Muito mais.

— Sabe que não disponho de muito mais a oferecer... — Ela hesitou, ainda o contemplando com súplica no olhar. Aquele rogo velado trouxe novamente um sorriso maldoso aos lábios de Hades, que apesar de detestar colocar-se na presença daquela deusa, deliciava-se com a percepção cada vez mais recorrente do quanto ela estava subjugada. Fraca. Esmorecendo, dia após dia.

— Tem sim, minha querida, e sabe disso tão bem quanto eu. Enquanto estiver consciente, tem ainda muito a me oferecer!

Perséfone pareceu tremer, ciente de que contestar Hades apenas o faria ainda mais perverso diante daquele comando, já cruel por si só. Engolindo em seco, deu início ao procedimento que a tornaria ainda mais mortiça, depositando na joia do anel a sua própria centelha divina.

O poder externo que vinha alimentando Hades, à mesma maneira de um parasita que é incapaz de prover as suas necessidades mais básicas.

Quando sentiu que estava à beira do desmaio, a deusa cessou a transferência de sua mágica, provinda do próprio Olimpo, oferecendo de volta o anel ao senhor do submundo. Gemeu baixinho quando se deparou com o sorriso trocista no rosto do deus, que negou num movimento leve de cabeça, sequer fazendo menção de que aceitaria o anel de volta à sua posse.

— Mais! — Ordenou simplesmente, aparentando algo que lembrava diversão no modo como falou. Os olhos faiscaram um lampejo profuso, prazerosos pelo sofrimento daquela que já o minara de tantas dores. Não havia nada mais doce do que testemunhar a aflição daquela deusa. Apenas a aflição do próprio Zeus lhe seria ainda mais aprazível.

Perséfone doou-lhe um pouco mais de sua força vital, e o medo a fez parar quando pela segunda vez sentiu que era demais. Hades, contudo, manteve-se desprezando o objeto, deixando claro não ser o suficiente. Perséfone então entendeu que ele falara sério. Queria mesmo que ela transferisse à joia tudo o que fosse capaz, até que literalmente desmaiasse, sem forças para manter-se alerta.

Os olhos se embargaram de raiva e temor, mas não permitiu que lágrima alguma caísse. Não o divertiria ainda mais ao libertar o choro que prendia dentro de si. Num arroubo de ódio, lançou ao anel cada gota que pôde acessar do próprio poder, esperando nunca mais acordar ao terrível pesadelo que vivia como cativa no mundo inferior. A tontura a dominou no mesmo instante em que se desfez de tanta energia, já tão escassa em si, mas antes que perdesse de vez a consciência lançou um último olhar acusador ao deus da morte, ainda tentando manter-se ereta junto às barras que segurava sem o menor vigor.

Hades sorriu com enorme satisfação, apenas naquele instante retirando o anel da deusa, degustando em seu íntimo o momento em que ela caiu. Desmaiada daquele modo, parecia nada além de um corpo já morto, e tal pensamento lhe trouxe genuíno deleite.

Tomou seu caminho para longe da cela, observando o brilho intenso da joia que novamente rodeava seu mindinho. Nunca antes aquele artefato cintilara tanto poder. O azul da gema — mais intenso e dinâmico do que as próprias chamas que invadiam seu couro cabeludo — pareceram-lhe suficientes para seu escopo. Tinha de ser!

Bastava agora ir de encontro ao mortal que, sem saber, aguardava por sua aparição.

Frollo apenas caminhava.

Seu passo quase trôpego o levava por vielas abarrotadas, sem rumo predestinado, e por mais que o arquidiácono conhecesse a Île de La Cité como a palma de sua mão, não era capaz de distinguir aquele caminho diante do tormento interno que vivia.

A escuridão densa da noite brumava sua visão, mas tampouco se importava. Eram as imagens internas que seus olhos captavam, e ainda que tentasse despistá-las, tornou-se um prisioneiro de sua própria angústia.

Esmeralda fugira de si, parecendo decidida a nunca mais voltar para seus braços.

Um suor frio se apoderou do sacerdote à medida que explorava em pensamento seus maiores temores, incapaz de aceitá-los como verdade. Jamais poderia voltar a ser a criatura patética, estúpida e vazia que havia sido antes do convívio com sua cigana.

Esmeralda pertencia a si, assim como ele mesmo também pertencia à egípcia, de corpo e alma. De mente e coração.

Todo o físico do padre estremeceu, sem prévio aviso rememorando a primeira vez que a sentiu por inteiro. O corpo de curvas suntuosas insinuando-se para junto de si, acompanhando o intenso deleite de Claude e correspondendo-o nos níveis mais baixos de seu desejo. Abrasando-o à mera visão de sua nudez, e o enlouquecendo ao toque.

Sem fôlego, o arquidiácono freou seus passos, apoiando-se na estrutura da primeira casa que conseguiu alcançar. Aquele breve amparo ainda não foi suficiente para sustentar tamanho desconforto, e quando percebeu, Frollo já se encontrava ajoelhado sobre o chão, afoito pela busca de ar.

Novamente viu o olhar repleto de aversão que sua menina lhe lançara há pouco, e uma náusea arrebatadora o acometeu em cada átomo de seu ser, fazendo-o vomitar a pouca comida que tinha ingerido.

Quase caindo junto ao próprio vômito, o sacerdote escorou todo o corpo à parede fria, lutando para organizar os pensamentos que corriam por seu cérebro numa torrente desordenada.

“Farei-a entender, ainda que à força!” — Pensou, desesperado com a possibilidade de perder para sempre sua cigana. Sua, e tão somente sua, como o destino em sua mão lhe prometera.

Ergueu-se ainda vacilante, disposto a prosseguir sua caminhada a lugar nenhum. Precisava encontrá-la, pelo bem de si mesmo. Como um ataque cruel à sua sanidade comprometida, Frollo relembrou cada nova sensação que a mulher de sorriso arteiro despertou em si ao longo de seus encontros.

O desejo arrebatador que se instalara no cerne de seu peito apenas por vê-la dançar, ainda que ao longe. Jamais o abandonando, desde então.

A loucura que, dia após dia, mesclava-se à cobiça por seu cheiro, sua voz, seu corpo. Seu canto e sua dança, tão doces quanto sedutores. Capazes de acalentar e perturbar sua alma em igual intensidade, numa contradição absurda daqueles novos sentimentos que vinha experimentando.

Lembrou-se da barreira e do medo que foram vencidos um pouquinho por dia, até que a boêmia se portasse com maior conforto em sua presença. O primeiro beijo, que demonstrou a ele tratar-se de um bel-prazer recíproco, e o afundou ainda mais naquela luta perdida pela posse de sua alma.

Os toques correspondidos, tão fartos de luxúria quanto os seus próprios anseios — evoluindo cada vez mais para algo que ia além da pretensão carnal.

O desespero que sentiu ao ouvir o asco na voz da menina, acusando-o de ser um assassino, e então fugindo de vez de seu abraço, para nunca mais retornar. Para mostrar-lhe que Claude Frollo nada podia almejar ser longe daquela que clareou as trevas em sua vida.

Sem Esmeralda, era apenas uma concha vazia.

Após aquela conjectura por inteiro verdadeira, sua mente veio atordoá-lo com um comentário inesperado, o tom de todo acusador.

“E foi por esta pagã ingrata que renunciou sua fé. Arque agora com suas consequências!” — O som daquele delírio veio perturbá-lo, dispondo-se a ensandecê-lo.

Não ligava para o castigo que o aguardava após sua morte. Mereceria todos e ainda mais, muito provavelmente, e podia aceitá-los um a um. Apenas não podia suportar uma existência em que provara o delicioso néctar do próprio paraíso para logo em seguida perdê-lo, ainda em vida.

— Esmeralda... — Claude tentou chamar no meio da noite, porém ouviu-se apenas um fiapo de sua voz, tão pequena quanto ele mesmo se percebia.

“Ela não o aceitará de volta.” — Aquele mesmo brado independente tornou a aturdi-lo, mesclado aos seus próprios temores — “A menos que a force. A menos que se torne para ela o mesmo que foi o capitão Phoebus.” — Contestou sem qualquer nota de emoção, causando verdadeira revolta ao sacerdote.

— Jamais! — Ele replicou a ninguém, não se importando se pareceria louco ao contestar sua maior angústia, contrapondo a si mesmo naquele diálogo solitário — Esmeralda cairá em si sem que eu precise feri-la!

Como que redarguindo sua própria ingenuidade, a mente de Claude Frollo reproduziu com exatidão e repetidas vezes uma das últimas falas da cigana direcionada a si, trazendo à memória do sacerdote cada mínimo detalhe da expressão enojada de sua menina pagã, assim como seu tom de voz baixo e consciente, muito firme daquilo que dizia e disposto a nunca retroceder naquelas palavras:

“Fique longe de mim, padre.”

O arquidiácono sentiu a cabeça rodopiar, transitando à beira de seu próprio abismo. Um precipício sem volta, que não se via, mas que o tragaria à queda certa. Cada lufada de ar que puxava para si parecia mais escassa do que a última, e seu mal-estar apenas se nutria daquelas conjecturas cruéis.

Esmeralda jamais o aceitaria por sua espontânea vontade. Percebera tal fato claramente nos orbes verdes, tomados de ojeriza, quando os viu pela última vez. Frollo estava acabado. Condenado à mesma existência esdrúxula que precedeu o convívio com sua musa cigana. Sem Esmeralda, nada mais restava para o padre naquele mundo de dor e sofrimento, onde apenas a luz de sua egípcia poderia mostrar-lhe o caminho certo a trilhar.

O único caminho que ele aceitaria percorrer.

“Vauvert...**” — A voz em sua cabeça objetou, mais piedosa do que soara até então — “Lá ainda poderá encontrar sua última chance de reparar o que se rompeu.” — Aconselhou, e só diante daquele fato exposto o padre permitiu-se acalmar, tentando usar o raciocínio lógico ao seu favor.

Se aquele pensamento — ou delírio, já não distinguia mais a diferença entre um e outro — viesse assombrá-lo antes que sua vida tivesse cruzado com a de Esmeralda, o padre de imediato afastaria tal conjectura de sua mente com um rígido sinal da cruz e algumas chibatadas para retomar o juízo perdido. Hoje, contudo, tomaria aquela perigosa sugestão como sua investida principal.

Como sua maior e mais concreta esperança.

Vauvert era temida por suas ruínas mal-assombradas, alongadas ainda mais pelas ruas desérticas. Nela continha a famigerada rua do Inferno, de onde acreditava-se ocorrer a aparição de demônios, vindos a este mundo para atormentar quem ousasse utilizar tal caminho em sua rota.

Mais consciente de sua única opção, o sacerdote observou o ambiente à sua volta, decidido a encontrar-se no apinhado de ruas que o cercava. Assim que percebeu sua localização, pôs-se novamente em movimento, munido de um novo e renovado vigor em seus passos ainda cambaleantes.

Não desistiria de Esmeralda sem antes ir até as últimas consequências que fosse capaz. Era ela, afinal, quem detinha cada pedaço alquebrado de seu espírito, e nada poderia ser mais vital do que recuperá-la.

Independente de como o faria.

Mais ansioso e apressado do que há tempos não se sentia, Frollo adentrou na temida rua de péssima fama, esta ainda dominada pela escuridão lúgubre que acompanhava o cerne daquela fria madrugada. Com o coração batendo a mil — mesmo em seus estilhaços incompletos —, o homem olhou ao redor, sequer temendo a arquitetura abandonada e puída. Sua visão foi atraída de forma providencial a um dos prédios danificados, desamparados pelo transcorrer do tempo, em que se lia a mesma inscrição riscada da catedral, as letras gravadas a mão e donas da mesma grafia impetuosa que fora entranhada numa das pedras de Notre Dame. O rabisco imprimia uma força profunda, exalando certo desespero naquele desabafo de uma só palavra.

ANÁΓKH

Frollo conhecia o significado de tal inscrição, e mais... Frollo se identificava com a denotação da palavra estrangeira.

Os caracteres gregos, unidos daquela maneira, formavam o termo que parecia imperar pela extensão daquelas terras brutais. Fatalidade.

Claude tocou suas linhas de um profundo baixo relevo, sentindo que a frente do prédio seria o lugar apropriado para tentar realizar seu intuito pecaminoso. Imaginou se seu antigo deus era capaz de espiá-lo agora, prestes a se desvirtuar ainda mais dos preceitos de uma crença que não mais o representava. Movido pela breve reflexão, e ciente de que Esmeralda lhe era muito mais cara do que a promessa incerta de um Deus que até então só brincara com sua fé, Frollo adquiriu toda a coragem que precisava encontrar dentro de si. Sentiu-se tolo ao proferir as palavras que se desprenderam de seus lábios, mas ao mesmo tempo realizado por romper de modo mais definitivo com os dogmas de sua antiga religião.

Sua mão ainda pousava sobre a inscrição grega quando finalmente deu voz aos pensamentos.

— Venho às ruínas de Vauvert apelar às lendas que tornam mal afamado esse lugar... — Principiou num timbre alto e claro, apenas entrecortado por uma nota clara de nervosismo, pouco condizente com a intensidade de seu martírio interno. Por mais tolo que se sentisse naquela posição, não conseguiria refrear seu discurso após iniciado. Era, além de tudo, um desabafo que tinha por finalidade expiar um pouco daquela dor que o assolava, e buscar por alguma justiça que se colocasse além dos homens — No ápice de meu desespero, tentei buscar conforto em Deus e na divindade representada por Notre Dame, encontrando apenas mais obstáculos para derrubar-me. Busquei o caminho da fé pelo tempo que pude suportar, sem obter com isso nenhuma recompensa! — Bradou com certa revolta, relembrando as falhas tentativas de ignorar a forte cobiça que sentira por sua cigana desde o primeiro dia. Desde o primeiro segundo. Elevou seu discurso com os termos de sua verdade única, perfeitamente adepto ao que propunha — Eu recorro agora às forças opostas. Que Lúcifer tome posse daquilo que restou de minha alma se puder me devolver o amor e estima de Esmeralda. Que leve minha vida até antes do tempo, se lhe aprouver.

Esperou, inquieto, por alguma resposta em meio ao silêncio agonizante que o engolfava. Apurou os ouvidos em busca de alguma réplica mais sutil, ou mesmo de algum anúncio da chegada daquele que fora renegado do paraíso, e permaneceu inerte, no mesmo estado por segundos que lhe pareceram eternos.

Dominado novamente pelo desespero de ser ignorado, o padre caiu de joelhos, vivenciando o ápice de sua agonia mais intensa. Compreendia que aquele era um mundo que demandava das pessoas uma jornada trágica, e ele estava só, assim como todos que buscavam qualquer tipo de consolo em seres superiores. Porém, ainda via naquela medida radical sua melhor chance de retomar a cigana que perdera. A estrangeira que lhe era tão preciosa, tão vital a ele quanto o ar que oxigenava seus pulmões e corpo.

Sua garganta ameaçou fechar para o mundo, e os olhos que sempre demonstraram frieza e praticidade agora se embargavam com derrota líquida. Suas mãos se fecharam em torno de seus braços, comprimindo-os com cada vez mais força, mais desalento. De repente, toda a tolice de suas ações lhe veio à tona num golpe doloroso, acusando-o por perder tempo com tais sandices.

Frollo era medíocre. Um ser rejeitado tanto pela divindade que cultuara durante cada dia de sua vida, quanto pelas forças opostas, maléficas, que sempre buscavam profanar almas de valor. Mas a dele já era de todo manchada. Não havia a necessidade de ser conquistada por Lúcifer, porque já pertenceria a ele no momento em que o padre deixasse aquele plano terreno e tivesse que acertar suas contas com as existências mais elevadas.

Era um espírito aniquilado, preso a um corpo cheio de necessidades impuras, que apenas contribuíam para condená-lo ainda mais.

Já com aquela percepção em mente, o arquidiácono ergueu-se com alguma dificuldade, disposto a se afastar de mais aquela demanda que lhe fora ignorada, tão cruelmente. Perturbado, acima de tudo, por imaginar como conseguiria trazer sua boêmia de volta a si apenas por seu próprio mérito. Sequer compreendia por quais razões sua menina pagã o correspondera durante o tempo em que se aproximaram, e agora que ela conhecia a vergonha de seu passado, o monstro que era, já não havia mais qualquer esperança. Nada poderia redimi-lo daquela mágoa profunda que incutira na egípcia. Sua bela e talentosa menina... Ainda cambaleando em seus movimentos, virou-se na intenção de partir, porém logo foi freado por uma voz pujante — que dessa vez não pertencia à sua mente atribulada — demonstrando que desta vez seria atendido .

— Eu aceito sua proposta. — A fala chegou aos ouvidos incrédulos do arquidiácono. Devagar, Claude virou o rosto na direção do timbre imponente, sua feição agora estupefata pela imagem louca, desprovida de qualquer sentido, que seus olhos o obrigavam a ver. Enlouquecera de vez, não havia outra explicação plausível... Prostrava-se perto do sacerdote uma criatura alta, de pele azulada com o mesmo tom da morte, ostentando um sorriso pontiagudo e largo. Vestia uma túnica de tecido negro e simples que parecia esfumaçar-se quando alcançava a barra, um enfeite no formato de crânio prendendo a roupagem na altura de sua escápula esquerda. No couro cabeludo estendia-se uma fileira alta de fogo que quase lhe alcançava os ombros. Frollo distanciou-se alguns passos por puro instinto, e a criatura tornou a falar — Na verdade, aceito-a com algumas ressalvas.

— Lúcifer...? — O padre inquiriu bobamente, ainda desconcertado com o que via. Estaria sua mente assim, tão perdida, tão danificada?

— Lúcifer? — A criatura pareceu inicialmente em dúvida, por fim demonstrando reconhecimento àquele nome e rindo com a tola conclusão — Sou chamado de muitos nomes no Olimpo, isso é certo, mas creio que “diabo” seja uma alcunha inusitada até mesmo para mim. Sou Hades, deus da morte. “Lúcifer” não passa de uma invenção cristã para manter os fieis dessa nova religião na linha. Mas sinto acabar com sua ilusão. O inferno que lhe incutiram à mente não existe.

O padre o analisou em dúvida sincera, ainda tentando compreender se aquilo de fato acontecia, ou se não passava de uma ilusão pregada por sua mente, até mesmo ela disposta a destruí-lo. Por um novo instante duvidou também da veracidade de suas palavras, contudo um forte cheiro de enxofre o acompanhava, e Claude sabia que não detinha imaginação o suficiente para criar todo aquele cenário.

— Isso significa que Deus... é também um mito? — Perguntou antes que pudesse controlar tal dúvida que há muito tempo habitava seu peito, direcionando alguma esperança na resposta que tanto queria ouvir.

— Ah, não. Deuses e deusas existem aos montes, eu mesmo sou um deles. Creio que você se refira a Jeová, contudo... O deus cristão, certo? — Conferiu, de fato divertido com aquela breve interação — Ele existe sim, e é um tanto famoso até mesmo entre os deuses gregos. Tornou-se bem conhecido por seu temperamento louco, sem mencionar sua vigente necessidade de manter o controle com uma dose excessiva de megalomania patológica. Por acaso já leu o Antigo Testamento? — Perguntou com um sorriso zombeteiro, como se quisesse irritá-lo com tais palavras, que facilmente levariam qualquer humano a uma morte dolorosa — Bom, mas isso não é relevante a nós. Jeová acabou perdendo nosso interesse e virou motivo de chacota quando seu filho hippie e comunista começou a pregar amor incondicional pela Terra. Não foi à toa que o Altíssimo, como gostava de ser chamado, permitiu que o crucificassem...*** — Tentou novamente tirar o cristão do sério, contudo ele parecia impassível às ofensas, até mesmo ignorante a alguns termos utilizados, ainda desconhecidos à sua época.

Não havia mais nenhuma divindade a quem Frollo era devoto para se indignar com tais comentários. Seu mais novo e intenso alvo de veneração era feito de carne e osso, assim como ele.

— Está disposto então a aceitar minha alma? Pode me trazer novamente o apreço de Esmeralda?

— Como eu disse, aceito a sua proposta se estiver aberto a algumas ressalvas. Estou disposto a negociar. Almas eu tenho aos montes, isso não me interessa. Até porque, quando o fio de sua vida for cortado, seu espírito já me pertencerá naturalmente.

— O que posso oferecer então? — Uma faísca vívida despontou daqueles orbes castanhos, instigados em sua obsessão. Hades sorriu ainda mais largamente ao perceber com clareza que preço algum seria alto demais para aquele humano.

— Quero que me pertença ainda em vida. Se aceitar vir comigo ao submundo e se tornar meu servo, mostrarei como poderá ter sua humana de volta.

— Poderei levá-la comigo? — Questionou de pronto, não suportando imaginar-se longe de sua menina. Ao seu lado, qualquer inferno, qualquer submundo, seria seu mais doce paraíso.

— Certamente. — Anuiu, satisfeito em reconhecer a aceitação irrestrita nos olhos marcantes de Claude.

— E ela será minha? Pode fazer com que me queira novamente, da mesma maneira com que me correspondia antes?

Hades aproximou-se ainda com aquele mesmo sorriso enviesado, encarando-o com profundidade quando inclinou-se na direção do sacerdote e murmurou a resposta que o arquidiácono tanto desejara ouvir.

— Ela será completa e totalmente sua. Sem quaisquer reservas.

Os orbes castanhos cintilaram, já mais apaziguados diante daquela possibilidade. Hades afastou-se novamente, caminhando num passo absorto. Seu olhar foi atraído pela inscrição grega talhada à parede, demonstrando por ela alguns átimos de segundo de notório interesse. Após aquele breve lapso contemplativo, retomou a fala:

— Contudo, temos um pequeno problema. Estou fraco. Meus poderes estão limitados. — Relanceou um olhar rápido para o brilho azulado no anel, este já mais opaco, indicando que o poder da joia era consumido rapidamente para mantê-lo incólume no mundo mortal — Não disponho de força suficiente para transportar dois humanos encarnados. Apenas espíritos e deuses podem atravessar essa barreira invisível entre os mundos.

— Não irei a lugar algum sem Esmeralda! Sem ela, não existirá qualquer acordo — Frollo contestou, em nada agradado com o novo rumo da conversa.

— Não se trata disso, rapaz. Você irá com sua humana, isso é certo. O que estou dizendo é que seu mundo é insípido, não contém a magia necessária, e meu poder se encontra um tanto... Precário! Mas sei como poderá driblar esse impasse para que nosso pacto se firme sem desvantagem a nenhum dos lados.

— O que devo fazer?

— Existe um menino... Um homem, a essa altura — Corrigiu-se, achando difícil acompanhar a contagem de tempo dos mortais — Que é muito mais do que aparenta. Em suas veias corre um sangue divino, o mais poderoso de Paris. Deverá encontrá-lo.

— Como posso reconhecer esse homem?

— Não conheço suas feições, mas sei que é inconfundível à vista. Possui uma aparência distorcida e leva uma enorme corcunda às costas. Seu aspecto o distancia da humanidade, ouvi dizer.

“Quasímodo!” — Frollo compreendeu, abismado e ao mesmo tempo receoso.

— Acha que pode encontrá-lo?

— Sim. É meu protegido. — Avisou com certo alarme na voz, percebendo uma expressão de leve surpresa no semblante do deus, que numa tentação incontrolável desviou rapidamente o olhar para a inscrição que significava “fatalidade”, enxergando a ironia da situação.

— Ótimo. Traga-o exatamente aqui, junto com sua humana.

— E depois?

Hades resolveu não respondê-lo com palavras, temendo abrir margens para o erro ou a má interpretação do que deveria ser feito. Já percebia a sagacidade e esperteza impecável daquele mortal, porém não estava disposto a arriscar a sua única chance de levá-lo ao mundo inferior sem gastar todo o seu poder já escasso. Ao invés de verbalizar, pousou o anel sobre a testa do humano, mostrando-o em imagens exatamente como deveria proceder, ciente de que a cena projetada em sua mente não o abandonaria até o momento de agir.

Claude Frollo demonstrou-se perturbado, fitando Hades com alguma pitada de dúvida em suas intenções.

— Isso é mesmo necessário? Não existe outra forma?

— Não. A menos que abra mão de levar a humana consigo. Apenas um eu consigo transportar. Dois está além de minhas capacidades atuais.

Diante daquela resposta, Frollo novamente enrijeceu-se em certeza, sequer titubeando numa escolha que lhe era tão simples.

— Certo. Farei como diz.

O novo sorriso amplo de Hades trouxe uma onda de calafrios ao padre, porém Claude se manteve firme em suas convicções.

— Vá buscá-los então, o mais rápido que puder. Quanto antes acertarmos essa negociação, tanto melhor.

— Eu não sei onde os dois se encontram no momento. Precisarei de algum tempo para localizá-los.

O deus da morte demonstrou desagrado pela primeira vez desde o início daquele encontro, algo que não passou despercebido ao arquidiácono. Com o poder de Perséfone sendo consumido tão rápido, não dispunha de tempo hábil para esperar no mundo mortal. Teria que voltar o quanto antes, e incumbir seus asseclas boçais do término daquele serviço.

Só esperava que Pânico e Agonia não conseguissem estragar tudo dessa vez.

— Então vá e dê início à sua busca. Quando retornar, haverá dois seres do mundo inferior aqui para auxiliá-los com a passagem.

Tomado por uma urgência muito semelhante à ansiedade de Hades, Frollo deu-lhe as costas e partiu em sua procura, muito mais confiante a respeito de seus anseios. Poderia, afinal de contas, recuperar o amor e apreço de sua bela estrangeira, que tanto o fascinava e ensandecia em semelhante grau. Logo o deus da morte perdeu de vista o sacerdote, e mais uma vez atentou-se à gema azul de seu anel, que paulatinamente tornava-se mais opaca com a insistência de Hades em se manter por lá.

O deus da morte, agora completamente a sós com seus próprios pensamentos, voltou o olhar para a inscrição grega que ocupava boa extensão da arquitetura em ruínas, muito curioso acerca de sua origem. E possuía um palpite realmente intrigante de quem pudesse ter escrito tal verdade naquela pedra.

“Fatalidade...” — Refletiu, sem resistir sentindo a textura baixa daquele escrito, que parecia ter sido reproduzido por um desespero honesto. Genuíno, como se emergisse da própria fonte de todas as desesperanças humanas. Achou deveras curioso aquela manifestação do dialeto grego ocupando terras parisienses. — “ANÁΓKH... Que mórbida escolha de se expressar...”

Instigado e sem se importar se mais aquele tempo perdido no mundo mortal fosse imprudente, o senhor do submundo esquadrinhou novamente o poder do anel, direcionando-o a mostrar-lhe quem seria o autor, ainda que Hades estivesse quase certo de sua suspeita.

Viu — a partir do poder que roubara de Perséfone — a humana que imediatamente reconheceu como sendo Mégara, vagando sozinha pelas ruas que desconhecia, tanto em época quanto em espaço. A julgar por seu estado imundo e de aparência faminta, devia viver em Paris há algumas semanas. O ventre já despontava certa saliência, apesar de a moça parecer um tanto desnutrida e desidratada.

A mulher escorou-se sobre o mesmo prédio que Hades analisou há pouco, porém de anos atrás. Aparentava estar exausta, tanto física quanto emocionalmente, castigada por todas as intempéries que desconhecia na Grécia.

Fome. Sede. Frio.

Solidão.

Os olhos da amada de Hércules recaíram rumo ao chão, fitando longamente uma pedra pontuda e de aspecto cortante ao seu lado. Trouxe-a para mais perto dos olhos, analisando o objeto com minúcia, sentindo que era invadida por pensamentos que antes reprovaria. Não duvidara de que o próprio Zeus incutira aquela dúvida em sua mente, disposto a se livrar para sempre da mortal sem ter que sujar as mãos com uma reles humana — embora não se importasse em fazê-lo, certamente.

Posicionou a ponta mais afiada da pedra sobre o pulso direito, imaginando se o corte lhe traria uma morte rápida. Ao menos um pouco mais gentil do que a vida. Pressionou gradativamente o objeto em sua pele suja, não parando nem mesmo quando de si começou a brotar volumosas gotas de sangue, viscoso demais, mal parecendo tratar-se de um líquido. Estendeu um pouco mais a ferida, sem qualquer intenção de parar.

Foi quando Mégara sentiu, pela primeira vez, o chute despretensioso de seu filho. O filho de Hércules. A criança que já amava de todo o coração, mesmo sem nunca tê-la visto ou tocado. A criança que dependia intimamente de si...

Num ato de profundo arrependimento, jogou a pedra para o lado, descartando aquele fim tão grotesco que quase dera a si mesmo e à vida que sequer tivera a oportunidade de nascer. A humana pressionou o corte recém aberto com toda força que ainda lhe cabia, soluçando um pranto indigesto à medida que esforçava-se em estancar o sangramento. Toda frustração, raiva e medo não se comparavam ao turbilhão que ela experimentava naquele instante, em que quase desistira da existência de seu filho — em sua mente, a criança que carregava seria um menino de traços fortes, assim como seu pai. Esperava, na verdade, que o bebê não herdasse absolutamente nada de si, tamanha a inferioridade que experimentava naquele estranho lugar.

Desesperou-se num âmbito ainda mais íntimo quando começou a imaginar como seria capaz de sustentar o próprio filho, se nem mesmo ela conseguia dar conta de suas necessidades mais triviais. Que dirá as de uma criança, que demandava tantos cuidados especiais.

Não estava habituada a nada naquele país de hábitos tão incomuns. Desconhecia por completo a linguagem, mal era capaz de compreender os modos dos parisienses, e estava certa de que ninguém olharia por si para auxiliá-la no momento do parto. E havia também aquele momento em que seu filho, ainda no ventre, fora amaldiçoado pelos poderes do próprio avô — algo que constantemente trazia à Mégara uma onda pesarosa de preocupação, por não saber a gravidade do que o senhor do Olimpo havia feito ao neto.

Zeus conseguira condená-la de todas as formas possíveis e imagináveis.

Com a fúria abrasando seus sentidos, a humana novamente segurou a pedra com ainda mais firmeza, erguendo-se num salto raivoso. Empunhando-a contra a parede, riscou com profundidade a palavra que perduraria por quase duas décadas à frente, no tempo de seu filho.

ANÁΓKH.

A mesma inscrição que Mégara talhara na catedral e em outros prédios isolados da cidade. Contando, naqueles traços sólidos do único idioma que conhecia, cada aspecto de sua miséria.

Notas finais
*Górgona: criatura da mitologia grega que tinha o poder de transformar a todos que olhassem para si em pedra. O melhor e mais conhecido exemplo é a Medusa. **Segundo as notas do próprio livro do Hugão - ruínas mal-assombradas de Vauvert: Havia ali a chamada rua do Inferno, de onde podiam sair demônios que infernizavam quem por lá passava. ***Acho sempre bom ressaltar que eu não tenho qualquer preconceito religioso, e com essa passagem não tive a intenção de ofender ninguém. Lembrem-se que essa é uma história que trata de deuses pagãos, e se até entre o núcleo de deuses gregos existe toda aquela treta por aqui, imagina entre núcleos diferentes, haushausha! Deve ser um eterno FlaxFlu pela supremacia divina xD E apesar de concordar com boa parte do que o Hades disse, realmente não quis ofender a religião e crenças de ninguém, espero que entendam isso ^^ Espero também ter acertado com esse episódio! No aguardo das suas opiniões, suas lindas! ♥ P.S.: Quem poderia imaginar que nossa querida Meg ainda faria algumas participações especiais pela fanfic, não é mesmo? ♥ ♥ ♥