O Preço da Magia

14 Episódio 14: ...Torture-moi De 'Autre...


Notas iniciais
*...Tortura-me com a outra... Salut, mes amours! Que saudade que eu estava de postar aqui! ♥ Me esforcei bastante para conseguir postar até hoje porque minha semana será atribulada, e eu não sei se terei tempo de escrever até o fim do ano, então pelo menos já deixo mais um capítulo a vocês antes que todo mundo se atole com Natal e Réveillon (acho essa palavra tão esquisita, mas enfim... Foco! :v). Eu dedico esse 14º episódio ao leitor Míguel Salieri, que comentou nos 3 primeiros capítulos! Voltando ou não a ler a história, eu já te agradeço imensamente por ter dado uma chance à fic, e espero que você se anime a continuar acompanhando, seu lindo! ^^ É, gente, estamos cada vez mais próximos de unir "Hércules" com "O Corcunda de Notre Dame". Logo logo esse momento chega, e aí a treta será toda unificada, que beleza! *-* Boa leitura, espero que gostem! ♥

Quasímodo, desnorteado, foi tropeçando pelo campanário enquanto suas pernas desproporcionais tentavam a todo custo — e à mercê de um passo manco — levá-lo para longe daquela visão, que ao sineiro foi um verdadeiro massacre.

Ainda não podia acreditar na cena que acidentalmente flagrara. Se manteve preso a contemplar aquele momento de intimidade entre o padre e a cigana não por alguma necessidade de bisbilhotá-los, mas simplesmente para tentar compreender o episódio incoerente que se desdobrou diante de seus olhos cheios de mágoa. Por mais que tentasse se desvencilhar daquela cena, seus orbes se mantiveram fixos e teimosos sobre ela até que não pudesse mais suportar.

Frollo e Esmeralda, as duas maiores devoções de sua vida além da própria Notre Dame — aqueles por quem ele sacrificaria tudo sem ao menos pestanejar ou considerar a si mesmo —, trocando beijos apaixonados em plena catedral, como uma forma de escancarar ao sineiro o quanto ele fora estúpido, de tantas formas, em tantos níveis... por acreditar que poderia ser ele a ter algum tipo de relacionamento mais íntimo com a cigana... por nutrir em seu ser a tola esperança de fazer brilhar sua luz celestial, que até então nunca fora nada além de uma chama apagada...

...Por se permitir encarar sua imagem com um pouco mais de compaixão ao invés daquele ódio tão pulsante de si mesmo.

Com grossas lágrimas banhando seu rosto, correu para longe do campanário, atingindo o limite de Notre Dame ao passar por uma das janelas e escalar sua alvenaria cheia de frestas, como já estava habituado a fazer com inegável habilidade. Suas mãos, dessa vez trêmulas, não detinham a mesma destreza costumeira, e chegou a se desequilibrar algumas vezes antes que alcançasse um dos telhados mais altos da construção, enfim se deparando com aquela visão ampla de Paris.

Uma paisagem que normalmente lhe trazia algum mínimo conforto em momentos de angústia, mas não hoje.

Hoje vislumbrava aquela grandiosa vista através do embaçar das próprias lágrimas, sentindo-se o ser mais tolo da França.

Como pudera ser ingênuo ao ponto de fantasiar que a egípcia tão doce e bela seria capaz de se envolver amorosamente com aquela aberração corcunda? Com o monstro que, por mais que Esmeralda insistisse em negar, fazia parte de sua mais arraigada essência?

Quasímodo ergueu as mãos à altura dos olhos, prestando atenção nas inúmeras calosidades que marcavam suas palmas e desfiguravam o trajeto das linhas que ali se desenhavam, aquelas deformidades concedidas não apenas pela sua feiura típica, mas também pelo trabalho árduo com os sinos.

“As únicas damas que terei nos braços... Aquelas forjadas em ferro, frias como tudo que é morto...” — Fechou os punhos, desviando o olhar ainda encharcado pela umidade que não cessaria tão cedo.

Pensou também em Frollo, seu mestre, aquele que um dia o corcunda julgou como alguém incapaz de amar. Ou, ao menos, de demonstrar tal sentimento. Nem mesmo o próprio Quasímodo, no convívio com o padre desde sua mais tenra infância, conseguira quebrar uma única barreira de sua personalidade dura, impetrando por vezes migalhas de um afeto que sequer parecia legítimo quando vinha a si.

Não sabia qual daquelas rejeições doía mais, se fosse possível mensurá-las.

“Sempre haverá limitações para aqueles que se aproximarem de mim. Ninguém pode amar uma aberração como eu sem suas próprias reservas, sem se protegerem em várias ressalvas. Nunca deixarei de ser o corcunda de Notre Dame, o aborto da catedral, e amor algum pode transpor essa mancha.”

Quasímodo permitiu-se alongar um pouco mais o pranto, não conseguindo tirar a imagem perturbadora de Frollo e Esmeralda juntos, tão íntimos quanto o sineiro jamais conseguiria ser de nenhum deles. Queria, acima de tudo, aquele toque apaixonado da cigana, assim como também almejava por qualquer demonstração de apreço que pudesse vir de seu mestre...

...E, agora ele sabia, jamais poderia ter nenhum dos dois, por mais simplórios que seus desejos fossem.

Sentindo-se um verdadeiro prisioneiro dentro daquele corpo amaldiçoado pelos deuses, Quasímodo pôs-se a correr ao longo do telhado, percebendo em si uma forte necessidade de se distanciar daquele lugar o quanto antes.

“Como o mundo é injusto...” — Conjecturou, tentando distrair-se com seus pulos a vários metros do chão, certo de que não haveria grande perda se por acaso se desequilibrasse e encontrasse com seu próprio fim ali mesmo — “Jesus veio a nós como uma imagem humilde, pregando igualdade entre os filhos de Deus. Mas até mesmo ele tem seus preferidos. E não são os pastores nem as ovelhas. São os reis magos e seu ouro...*”

Esmeralda fugiu do sacerdote ainda com o coração acelerado em seu peito, tentando entender o que acabara de acontecer. Como chegara a tal ponto, se sequer era capaz de explicar desde quando se sentia atraída por aquele homem, que numa ironia cruel representava todos os males que recaíam sobre seu povo. Todo o rechaço sofrido pelos ciganos poderia ser concebido naquilo que o arquidiácono representava, e ainda assim ele se mostrava a ela como um dos raros parisienses que ainda se permitiam algum tipo de gentileza com os egípcios.

Tocou os próprios lábios, ainda incrédula, capaz de sentir os últimos rastros dos toques de Frollo sobre si, sem saber se aquelas lembranças aceleravam sua frequência cardíaca por medo ou algum tipo depravado de prazer. Ou ambos.

Sim, havia medo. Um temor diferente de todos os que já sentira em vida. Pela forma como aquelas últimas carícias mais urgentes do padre revolveram na mente de Esmeralda o trauma vivido com Phoebus, e como sua cobiça pela cigana se mostrara abertamente pela primeira vez, semelhante em rudeza aos desejos de seu estuprador.

“...Mas foi ele quem te salvou do capitão, e não uma única vez!” — Sua mente rebateu em meio às reflexões que queriam acusar o arquidiácono, fazendo aumentar ainda mais a confusão de seus pensamentos.

Começou a associar aquele anseio urgente que existia em Frollo com seu próprio jeito de agir perante a estrangeira.

A imagem recorrente do sacerdote sempre parecendo demandar um esforço enorme para se conter em sua presença começou a fazer sentido, a forma como ele sempre tentava evitá-la e até o empenho visível que fazia para se manter rude em cada momento de suas interações...

...Com exceção daquele último encontro, em que de fato pôde vê-lo.

“Isso não está certo...” — Repreendeu-se, escorando o corpo à parede enquanto ainda tentava despistar a memória marcante do beijo, de seu perfume mais intenso naquela proximidade. Das mãos que a prendiam contra ele em movimentos sôfregos de desespero, denunciando abertamente a cobiça do padre.

Acusando também as vontades compatíveis e abruptas de Esmeralda, que ela até então não conhecia.

Fechou os olhos, obrigando-se a respirar fundo na tentativa de clarear um pouco os pensamentos tão bagunçados. Poderia até mesmo prejudicá-lo se permitisse que aquela insanidade fosse adiante. Não eram, afinal, os sacerdotes proibidos de se relacionarem amorosamente?

“Talvez tenha sido por isso que ele se deixou levar... Apesar de tudo, é um homem, e por maior que seja sua fé também deve ter suas necessidades, adormecidas ou não...” — Cogitou, um pouco mais calma, arrependida por sempre procurá-lo de alguma forma... por sempre instigar conscientemente sua proximidade. Desde o pior de seus acidentes com o capitão Phoebus, culpar-se vinha se tornando uma rotina muito recorrente à jovem estrangeira.

Esmeralda sentou-se na cama, acariciando Djali de uma forma ainda atordoada, grata por estar sozinha naquele momento. Simplesmente adorava a companhia de Quasímodo, porém, naquele instante, precisava colocar em ordem suas aturdidas reflexões.

“Eu preciso ir embora...” — Deliberou sem mesmo cogitar que aquela decisão, tomada por impulso, poderia se tratar de uma tentativa de reprimir suas verdadeiras vontades, que até aquele momento sequer desconfiava possuir. Completamente avessa àquela sensação desconcertante de segurança que Frollo, de alguma forma, passou a despertar em si após o crime do qual fora vítima. Conseguindo sentir que suas dores se amainavam num estado quase latente sempre que o padre estava por perto, já que fora ele o seu salvador. Aquele que se arriscara por uma cigana violada, quando era tão mais fácil dar as costas ao sofrimento de seu povo, ou até mesmo vangloriar-se dele e das tragédias que o marcavam.

Esmeralda caminhou até o parapeito da catedral, encurvando-se sobre suas pilastras em busca da clareza que vinha do sopro das brisas, as pálpebras bem fechadas para que seus outros sentidos pudessem se aguçar com o agradável toque de ar fresco. Conseguiu acalmar-se um pouco ao se deixar dominar pela lucidez da natureza, que se manifestava a si através de um vento gentil, como se aquela mesma rajada viesse em seu consolo.

De nada adiantaria, afinal, aquele sofrimento antecipado.

Um ditado muito pronunciado por seu povo veio à sua cabeça, capaz de abrandar suas maiores dúvidas em relação aos sentimentos alterados, e limpar sua mente para novas decisões. Lembrando-a que o novo sempre tinha potencial para assustar. Mas no fim, tudo se resumia a novos aprendizados, ainda que envoltos por adversidades. Feri ando payi sitsholpe te nauyas**!

Sim. Estava certa ao decidir ir embora. Deveria mesmo partir o quanto antes pudesse, mas não com tamanha afobação.

A cigana deixou que se passassem mais alguns dias permitindo que seu corpo se fortalecesse um pouco mais, a cada manhã percebendo-se evoluir em disposição, despistando a dor e nunca deixando de ponderar sobre o que acontecera. Quanto mais refletia acerca do assunto, mais confusa se sentia naquele aspecto.

Como ela chegou a prever, em nenhum desses dias posteriores ao beijo o sacerdote apareceu. Mal chegara a ver Quasímodo, porém estava com a cabeça tão dominada por suas próprias dúvidas que acabou não estranhando o distanciamento do amigo.

Numa manhã Esmeralda dedicou-se a vislumbrar o belo cenário que a vista do campanário proporcionava, não sabendo quando o veria de novo daquele topo privilegiado. Chegara a hora. Estava pronta para deixar a catedral, e voltar ao Pátio provavelmente significaria ser alvo da preocupação de todos — em especial de Clopin —, o que por certo a prenderia por algum tempo no acampamento cigano.

O confronto com seus irmãos e irmãs, que ela tanto tentara se esquivar, mas que sabia ser inevitável cedo ou tarde. E o momento era esse.

Queria encontrar Quasímodo para se despedir, contudo não vira qualquer sinal do sineiro em toda a catedral. Chegou a temer que ele novamente fosse vítima de Paris ao se aventurar pela cidade, mas a preocupação não durou por muito tempo. Seu amigo não poderia deixar de viver sua vida da maneira que achasse mais adequada em função de outros. Apenas lhe entristecia não poder se despedir do doce sineiro naquele momento em que percebia em si a coragem para retomar sua rotina no Pátio dos Milagres.

— Em breve eu volto para lhe agradecer por tudo, meu amigo. Eu prometo! — A estrangeira certificou, como se direcionasse a ele aquela jura — Vamos, Djali. Já passamos tempo demais longe de casa...

A boêmia desceu as escadas com muito mais segurança e firmeza, as dores em seu corpo já abrandadas pelos cuidados que recebera ali, assim como os movimentos mais naturais de sua cabra, que da mesma forma demonstrava menos incômodo a cada dia transcorrido.

Quando venceu os degraus, escondeu-se por instinto no início da escada ao perceber o sacerdote caminhando de uma forma estranhamente lenta até o confessionário que se dispunha dentro da catedral, logo à direita de sua entrada. Esmeralda mordeu o lábio, sentindo a mesma taquicardia invadir seu peito com o pensamento súbito que a invadiu.

Sem refletir sobre o que fazia, seguiu-o, criando coragem para se despedir do homem que a salvara do capitão. Respirou fundo quando abriu a singela portinhola do confessionário do lado oposto ao que Frollo entrara, precisando se agachar brevemente para adentrar aquele pequeno cubículo escuro, feito de uma madeira tão elegante quanto todo o conjunto de Notre Dame.

Seus lábios desenharam um “Eu já volto” silencioso para Djali, que não parecia minimamente interessada em se espremer com a humana naquele lugar diminuto e escuro.

Quando a estrangeira fechou a porta, percebeu a sombra de Frollo se empertigar, como se esperasse que a recém-chegada se manifestasse primeiro. Como ela não o fez, a voz grossa do sacerdote invadiu todo o espaço, dominando-o com aquele timbre de todo acentuado.

— A que vem buscar conforto, minha filha? — Questionou de forma automática, percebendo apenas pela silhueta embaçada tratar-se de uma mulher. Quando reconheceu a voz que lhe respondeu, o padre imediatamente se sentiu fraquejar.

— Acho que, na verdade, venho trazer algum conforto, monsieur... Vim apenas me despedir. Não acharia certo ir embora sem antes agradecer.

Frollo enrijeceu, deixando de lado até mesmo a respiração naquele silêncio prolongado que se seguiu. Esmeralda esperou por algum tempo, e quando já cogitava se deveria sair dali e tomar seu rumo, Frollo finalmente se pronunciou.

— Não acha que ainda é muito cedo para partir? — Tentou camuflar seu pânico o melhor que pôde, não conseguindo levar adiante a ideia de ferir Djali para prorrogar o tempo de Esmeralda em Notre Dame, pelo simples fato de que a cabra jamais se afastava da cigana — Seria adequado que eu continuasse acompanhando o progresso da cicatrização de suas feridas por mais algum tempo.

— Eu me sinto muito melhor. Tenho certeza que serei capaz de tratar de meus ferimentos a partir de agora. Mas, de qualquer forma, queria dizer que...

Um baque na porta ao lado da boêmia interrompeu a fala de Esmeralda, que por puro reflexo empurrou-a de volta quando esta ameaçou se escancarar. Uma voz fina veio de fora, abafada pela madeira que os isolava.

— Padre? O senhor está aí? Gostaria de me confessar...

Frollo sentiu-se gelar. Se vissem uma cigana ali, profanando a catedral com sua presença pagã, o arquidiácono estaria em maus lençóis perante os membros da igreja, e por certo seria exaustivamente questionado sobre a egípcia. Poderia dizer que a cabine estava ocupada, para que a mulher voltasse mais tarde, contudo possuía ciência de que o risco de Esmeralda ser vista no confessionário apenas aumentaria quanto mais se demorasse ali. Logo mais fiéis chegariam em busca de confissão. E aquela idosa, que ele de imediato reconheceu pelo timbre rouco, era implacável. Esperaria por sua vez o quanto fosse necessário.

— Estou aqui! — Ele respondeu antes que a mulher tentasse abrir a porta de novo — Me dê apenas um minuto, senhora Chevalier... — Pediu, abrindo a comunicação que havia entre os dois compartimentos do confessionário, sentindo um arrepio pouco apropriado quando finalmente vislumbrou sua Esmeralda, a egípcia segurando a porta com as duas mãos se impelindo contra a madeira em meio a um semblante alerta, provavelmente ela também não querendo ser flagrada na catedral — Você terá que entrar aqui! — Frollo sussurrou, sua voz urgente.

— Vai ficar meio apertado, não? — Apesar do receio em seu tom, o sacerdote ainda viu o relance de um sorriso esperto, que o contestava em vários níveis de desafio.

“Não tanto quanto eu gostaria...” — Pegou-se pensando, Esmeralda fazendo renascer no padre aquela recorrente sensação do inferno se abrindo sob cada um de seus passos falhos.

— Poderá sair por este lado, para que ninguém a perceba.

— Terá que me ajudar a passar por essa abertura... Parece pequena demais... — Comentou, ainda mantendo a porta bem fechada ao seu lado, incerta se seria capaz de esgueirar o corpo por aquela diminuta passagem, imprópria àquele intento.

Apesar de suas dúvidas a boêmia espremeu-se pelo orifício, agora os pés forçando a porta enquanto tentava deslizar para o outro lado. Frollo a segurou sem jeito pelos braços, ajudando-a conforme a menina pagã conseguia adentrar seu espaço, que ficou absurdamente pequeno na presença da cigana.

Mal acomodada de frente ao arquidiácono, a egípcia respirou com mais força, a dor na região de suas costelas um pouco mais pronunciada após a pequena acrobacia vir testar sua integridade física, que ainda não estava de todo plena. Agachou-se da forma que o pouco espaço permitia, tentando aliviar aquele espectro de dor.

— Entre, senhora Chevalier — Frollo a chamou, não percebendo que era possível ver a cigana através da comunicação ainda aberta entre os dois compartimentos do confessionário.

No mesmo instante em que a porta do outro lado se escancarou com força, Esmeralda fechou de forma enérgica o orifício pelo qual passara, arrastando a madeira num movimento frenético. O alívio a invadiu ao se dar conta de que a parisiense nada percebera quando se acomodou do outro lado.

Abençoe-me, senhor padre, pois eu pequei. — Ela disse, parecendo muito à vontade, sem ao menos desconfiar que não estava exatamente a sós com o arquidiácono.

— Confesse a Deus seus pecados, minha filha. — Frollo respondeu, ainda sem conseguir tirar os olhos de sua Esmeralda, tão próxima que era capaz de perceber o ar que se agitava à mercê de sua respiração um pouco pesada.

A cigana fez menção de que diria algo, mas no último instante se conteve, com medo de ser descoberta. A mulher do outro lado pôs-se a tagarelar, palavras que nem Esmeralda e nem Frollo chegaram a ouvir.

A egípcia murmurou, tão baixo que até mesmo o padre teve que se esforçar para conseguir entender.

— Eu nunca vou esquecer tudo o que fez por mim... — Proferiu, relanceando um olhar para onde a mulher confessava seus pecados rotineiros, tentando captar qualquer sinal de que ela a escutara. Tranquilizou-se quando percebeu o falatório prosseguir com naturalidade, e voltou a fitar Frollo, as covinhas que ele tanto amava querendo ganhar espaço no belo rosto egípcio — Espero que entenda o quanto eu sou grata. Sei que se arriscou me abrigando esse tempo aqui, e sei também que nunca poderei retribuir tudo isso. Acho que já abusei demais da hospitalidade... Melhor ir, antes que mais alguém resolva aparecer na catedral e eu acabe ficando presa aqui por mais tempo.

— Ainda não... — Frollo replicou com sua voz grave, aquele mesmo olhar intenso prendendo Esmeralda como se ela fosse tragada por algum tipo de armadilha elaborada, onde cada rota de fuga se mostrava uma nova emboscada — Ainda não. — Repetiu, aproximando-se o quanto pôde da cigana, a mão pousando no pescoço moreno e trazendo-a para si.

Não mais se importando com as questões que o haviam freado antes, simplesmente por já compreender e aceitar que Esmeralda o vencera. Desde que se mostrou a ele, a egípcia o derrotara sem nem ao menos saber.

Sem empregar nenhum mínimo esforço naquela batalha, a qual Frollo já estava fadado a fracassar.

Beijaram-se mais uma vez, de um instante a outro afoitos por mais aquela aproximação. Frollo, que estava sentado na única cadeira destinada ao padre, precisou encurvar-se ligeiramente para alcançar a cigana que se agachava sem muito espaço diante de si. Por um instante, o arquidiácono achou que ela iria repeli-lo quando uma de suas mãos cobriu a dele sobre seu pescoço, contudo ela pousou a outra em suas pernas, tentando impelir-se um pouco mais em sua direção.

O padre a trouxe pela cintura, acomodando-a em seu colo para abrandar o pouco espaço da cabine. Esmeralda aceitou de bom grado, cada uma de suas coxas se encaixando sobre uma lateral diferente do tronco de Frollo à medida que se aproximava, seus lábios ainda deslizando sobre os dele, sem nenhuma culpa envolvida.

Esta chegaria mais tarde, quando a dádiva da reflexão novamente a brindasse com sua presença.

Frollo pressionou suas costas, aprofundando ainda mais o beijo que já o consumia em corpo e alma, disposto a senti-la mais arraigada em si, ansioso por tê-la o mais próxima que fosse permitido, por tê-la mais sua, acima de tudo. A outra mão do sacerdote passava pelas pernas voluptuosas da egípcia, explorando o cetim de sua pele por baixo do vestido.

Ela mordeu de leve sua boca, pressionando um pouco mais a pélvis contra o padre à medida que deslizava a ponta da língua por seus lábios finos, como se tencionasse levá-lo ao ápice de sua própria loucura.

Sem conseguir se conter, Frollo soltou um imprudente e alto rugido, pronto para lançar-se ainda mais insaciável contra sua Esmeralda, quando uma voz fina o despertou, vinda do outro lado do confessionário.

Padre, é tão preocupante assim? — A idosa perguntou com uma entonação estridente, carregada de profundas apreensões. Assustada por associar aquele brusco rugido com algum tipo de reprovação severa ao que contava, sem sequer conjecturar que nenhuma de suas palavras chegou a ser ouvida.

Frollo fechou os olhos, profundamente desagradado por aquele banho de realidade, engolindo em seco enquanto sentia a egípcia se distanciar de seu rosto, preocupada com a possibilidade de serem descobertos, embora ao mesmo tempo parecesse suprimir a vontade de rir.

— Abominável, senhora Chevalier... — Tentou controlar a respiração que percebeu ofegante, irritado por se lembrar de que a idosa ainda estava ali — Jamais ouvi tamanha injúria contra nosso senhor... Sugiro que vá para casa e reze quantas Ave-Marias e Pais-Nossos for capaz... — Aconselhou, notando Esmeralda tapar a boca, evitando deixar que uma risada incrédula escapasse.

Óh, meu bom Deus, se eu soubesse...! — Ela lamuriou-se, soltando um uivo surpreso ao se dar conta do que acabara de proferir — Minha nossa, e ainda disse Seu nome em vão! Acha que isso me afastará do reino dos céus, padre?

— Eu não me preocuparia tanto com isso, contudo precaver-se nunca é demais.

— Irei para casa então, buscar pelo perdão de Deu... de nosso senhor. — Corrigiu-se a tempo, fazendo o sinal da cruz.

— Faça isso, minha filha. Vá em paz... — Dispensou-a, esforçando-se de modo inimaginável para disfarçar o profundo desagrado em seu timbre já normalmente brusco.

Ouviram-na sair, apressada, e apenas quando a cigana teve certeza de que a mulher não poderia mais ouvir o que se passava ali dentro, permitiu-se rir baixinho, os antebraços sobre os ombros do arquidiácono, agora acariciando algumas mechas de seu cabelo.

— Que maldade, monsieur... Ela nunca mais vai fazer nada na vida que não seja rezar... — Olhou-o com alguma reprovação divertida.

— Não haverá grandes mudanças. Ela já vive em função de suas orações.

Esmeralda sorriu, a mão de Claude ainda a envolvendo pelo pescoço, retirando dali os cachos volumosos da cigana e dedicando-se a beijar sua pele macia, tão cheia de convites. Os dedos do arquidiácono pressionaram as coxas da egípcia de forma inconsciente, por completo inebriado por sua presença tão próxima, disposto a avançar por aquele corpo que tanto o ensandecia.

A porta do confessionário mais uma vez se escancarou em meio a um ruído alardeado, a mesma voz falha propagando seu timbre idoso para dentro da cabine em que o arquidiácono e a cigana estavam.

Padre... — A idosa de sobrenome Chevalier principiou ao retornar ao seu lado do cubículo, fazendo Frollo trincar os dentes de raiva e um ligeiro sorriso brotar nos lábios da estrangeira, que apesar de tudo achava graça da situação — Não queria perturbá-lo, mas acredito que devo cumprir meu dever cristão! — Proferiu, como se aquele comentário por si só lhe fizesse angariar alguns pontos extras com Deus — Estou quase certa de que vi uma cabra circulando pela catedral. Ouvi dizer que são animais promíscuos, criados pelo próprio Lúcifer para confrontar a criação casta de Deu..., nosso Pai. Por isso sempre estão entre os ciganos.

— Não se preocupe, senhora Chevalier. Cuidarei disso imediatamente... — O sacerdote mentiu, não sabendo quanto tempo mais poderia fingir qualquer tipo de cortesia à mulher, seu ódio por ela ainda bem camuflado.

Após alguns resmungos indiscerníveis da idosa, ela finalmente foi embora, e o padre suspirou, já sem muita paciência.

— Mulher insistente... — Esmeralda sorriu, dessa vez o gesto demonstrando evidente tristeza — Eu preciso mesmo ir... — Ela avisou, parecendo tão instigada com a despedida quanto o próprio Frollo.

Ele alcançou sua boca, beijando-a longamente, disposto a nunca mais enclausurar seus desejos. A jamais se colocar naquele escuro tão desesperador que quase o enlouquecera em vão, já que todos os seus meios para se livrar do controle que Esmeralda tinha sobre si falharam, um a um. Não só fracassaram como se voltaram ainda mais potentes contra ele.

— Não, não precisa. Não agora pelo menos... — Disse, seus lábios ainda unidos enquanto se encaravam, os orbes transbordando significado e intensidade — Eu quero você, menina... — Confessou, selando aquela verdade com um novo beijo, este mais violento, urgente, seu próprio corpo se erguendo um pouco mais em busca do calor da cigana. “Eu preciso de você!”, corrigiu-se em pensamento, e aquele fato o fez estremecer. Foi Esmeralda quem, dessa vez, arfou, apenas perpetrando o deleite de Frollo.

— Cheguei a notar, monsieur... — Ela sorriu, contudo logo desviou o olhar, seus traços transformados numa súbita gravidade quanto voltou a falar — Eu descobri que também quero... Mas não sei se consigo... — Disse com o máximo de honestidade que lhe cabia, ainda com a violência de Phoebus muito presente em sua lembrança, fazendo questão de atormentá-la nos mais cruéis detalhes.

— Conhece o covil da ponte Saint-Michel? — Inquiriu, notando certo reconhecimento nos olhos que, contra sua vontade, amava — Na Falourdel?

— Sim, sei onde fica... — Anuiu, refreada por um misto de expectativa e receio.

— Vou apenas deixar alguns assuntos em ordem aqui, e logo ao cair da noite irei até lá e alugarei um quarto. Estarei esperando por você, Esmeralda. — Avisou com pesar. Queria levá-la naquele exato segundo para seus próprios aposentos, mas seria arriscado demais. Não podia se permitir mais deslizes.

Um instante um pouco mais duradouro de silêncio se interpôs entre eles, e Esmeralda enfim respondeu, sentindo-se impelida a desviar o olhar do homem.

— Eu não posso prometer que vou encontrá-lo, monsieur... — Preveniu-o, agora completamente séria.

— Não importa. Vou esperá-la da mesma forma... Ficarei lá até um pouco antes do amanhecer. — Instruiu, achando extremamente árduo sentir o corpo quente da cigana sobre si sem avançar em suas pretensões. Ainda. — Se até lá não aparecer, saberei que escolheu voltar ao Pátio dos Milagres — Concluiu, perfeitamente convicto de que a encontraria no lugar marcado. Reconhecia o desejo da cigana em seus verdes olhos, e apesar de também testemunhar a mesma intensidade de dúvida neles, sabia qual sentimento acabaria por se provar mais forte.

Se até mesmo sobre a fé antes inabalável de Frollo aquele desejo prevalecera, não seria diferente com a egípcia.

“Ela almeja isso tanto quanto eu. Posso ver, assim como ela também reconhece isso em mim.” — Pensou, tentando convencer a si mesmo de que partilhavam sentimentos minimamente semelhantes.

— Entendi. — Ela replicou, parecendo infeliz — Vou pensar...

Saiu de cima do arquidiácono, deixando o confessionário no mesmo instante, abalada. Vivia o pior de todos os seus conflitos internos, poucas vezes experimentando um sentimento tão forte de impotência como aquele. Não sabia o que fazer, e sequer podia prever como agiria no momento em que decidisse ou não encontrá-lo.

Frollo conquistara um espaço no mínimo estranho em seus pensamentos, verdadeiramente atormentador pela rapidez com que se manifestara. Foi o tipo de anseio que se instalou de forma insidiosa em Esmeralda, avançando nas pequenas coisas, porém sua percepção se deu de forma tão abrupta que não deixava de assustá-la.

“Era para ser uma despedida rápida, apenas isso... Demonstrar alguma gratidão, no máximo. Agora fui colocada no meio de uma decisão que deveria ser cedo demais para sequer me permitir cogitar!” — Pensou, enquanto novamente se direcionava ao quarto que o sineiro cedera para sua recuperação.

Chegou ao campanário com ainda mais dúvidas do que quando saíra dali, apenas em questão de alguns minutos atrás plenamente decidida a regressar à morada cigana e retomar sua vida junto dos seus. Agora, contudo, parecia perdida naquelas opções tão simples que lhe foram apresentadas.

Uma parte de si queria aquele momento com Frollo. Uma parte inclusive grande demais, algo que a desagradava e surpreendia. A outra parcela de sua consciência, no entanto, alertava o quão imprudente tudo aquilo havia sido, fazendo questão de recordá-la do capitão Phoebus, e no quanto os parisienses costumavam ser cruéis com os estrangeiros.

A corda, afinal, sempre cedia para o lado mais fraco, enroscada aos pescoços ciganos antes de se romper.

Esmeralda suspirou, um arrepio percorrendo seu corpo ao notar o sol já avançando pelo horizonte, pouco se compadecendo de seus questionamentos. O astro se poria em questão de uma ou duas horas, talvez.

— Isso é ridículo... Eu não posso ficar... E tampouco posso ir até lá... — Virou-se, pela segunda vez naquele dia decidida a partir, quando percebeu Quasímodo afastado, observando-a de forma séria, numa postura atipicamente distante — Quasi! Que bom te ver aqui! Precisava mesmo falar com você. — Comentou, sentindo-se mais leve apenas pela presença reconfortante do amigo — Vou voltar para o Pátio, e não queria ir embora sem antes me despedir.

— Esmeralda, você o ama? — O rapaz perguntou com indiscrição, sem rodeios, embora seu timbre baixo e ligeiramente rouco demonstrasse algum embaraço. Sequer pareceu ouvir alguma palavra do que a cigana disse sobre sua partida.

— O quê? — Inquiriu, confusa, seu semblante perdido em desentendimento.

— Meu mestre. Você o ama? — Explicou ainda de forma sucinta, retomando a pergunta com um pouco mais de firmeza. Encarou-a com seus olhos límpidos e dóceis, esperando por alguma sinceridade na resposta da egípcia.

— Por que está perguntando isso? — Ela se esquivou, totalmente na defensiva, por mais que estivesse ciente que fosse um tanto cedo para falar de qualquer coisa que se assemelhasse a amor. Contudo, em meio à sua confusão mental, aquele questionamento tão direto veio em péssima hora.

— Eu vi vocês... juntos... — Enrubesceu, sentindo-se extremamente infeliz — há alguns dias no púlpito do altar, após a missa.

A egípcia estagnou em qualquer tipo de movimento ou reação, não sabendo por qual motivo aquilo a incomodava tanto. Talvez, pensando no seu próprio povo, que provavelmente a veria como uma criatura traiçoeira por se relacionar com alguém que representava infindáveis anos de morte cigana.

Ela caminhou até o amigo, ainda tentando encontrar as palavras certas enquanto sequer sabia que tipo de resposta daria. Viu a doçura em seu olhar triste, e um sorriso de canto pousou nos lábios de Esmeralda, honesto como suas palavras.

— O que eu realmente amo é sua inocência, meu amigo... Sua fé inflexível nas pessoas... — Segurou com ternura as mãos do sineiro, encarando-o com o mesmo tipo de afeto que havia em seu toque. Um carinho fraterno, que jamais se aprofundaria para além da forte amizade que já compartilhavam — Frollo e eu somos protagonistas de lados opostos de uma guerra árdua. Não existe a menor possibilidade de qualquer sentimento mais profundo nascer disso, Quasi, por mais que ele seja um bom homem. As feridas que meu povo carrega são antigas demais.

O corcunda baixou o olhar, parecendo medir aquilo que diria logo em seguida.

— Eu sei que ele a ama. — Atestou, incapaz de retornar o olhar a ela.

Percebeu os dedos da boêmia enrijecerem sobre os seus, e imaginou se aquela reação significava algum tipo de agrado ou repulsa. Mal sabia o corcunda que nem ela mesma parecia saber distinguir.

— Por que acha isso, Quasi?

— Eu conheço meu mestre. Ele jamais trairia suas obrigações sacerdotais por alguém que não amasse de todo o ser. Sem mencionar que... — Quasímodo parou de falar, parecendo de súbito arrependido por ter iniciado aquele assunto.

— Sem mencionar o quê? — Esmeralda o pressionou, sem mais certeza de absolutamente nada.

— Naquele mesmo dia, Frollo se castigou. Puniu a si mesmo com múltiplos açoites, eu sei porque tenho ajudado meu mestre a lidar com os curativos, ele não conseguiria tratar-se sozinho. Nunca o vi tão atormentado para se flagelar daquela forma... — Quasímodo comentou com pesar, mal sabendo que quem sentia um profundo golpe agora era Esmeralda. O gosto amargo daquela declaração a fez retroceder em passos lentos, dando as costas ao amigo enquanto se afastava. — Esmeralda? Está tudo bem? — Perguntou, preocupado.

Ela soltou um riso amargurado, negando algo com a cabeça.

— Tudo ótimo. — Declarou, finalizando aquela conversa. Por mais que o sineiro fosse uma das melhores pessoas que já conhecera ao longo de toda sua vida, sabia que ele jamais conseguiria compreender o que significava ser um estrangeiro em Paris — Eu realmente preciso ir. De verdade, meu amigo, muito obrigada por tudo! — Agradeceu, não conseguindo prolongar sua presença ali.

Precisava sair daquele lugar o quanto antes. Retomar sua realidade no Pátio, onde suas relações com os outros não trariam tamanho nojo que os fizesse recorrer a algo tão drástico quanto a automutilação. Onde encontraria relacionamentos saudáveis.

Dessa vez não se preocupou em ser discreta ao passar pela catedral, e tanto Esmeralda quanto Djali saíram pela entrada principal sem ao menos se esforçar para disfarçar sua presença ali. Começava a sentir que era dominada por uma raiva potente de si mesma, perguntando-se como pudera ter sido tão burra por idealizar que, de alguma forma, viam-na como algum tipo de equiparidade naquela catedral.

Atravessou a praça em frente à Notre Dame com passos pesados, a respiração falhando em meio à própria fúria cada vez mais indomada.

Já se preparava para tomar o caminho que a levaria até o Pátio dos Milagres, voltando a praguejar o instante em que abandonara seu lar, quando mudou de ideia numa percepção repentina dos fatos.

“Não vou deixar que fique por isso mesmo... Quis me humilhar, padre, então vamos até o fim.” — Tomou outro rumo, redirecionando seus passos à Falourdel, o local marcado pelo arquidiácono.

O dia já estava prestes a escurecer quando chegou ao ponto de encontro, e apesar de ser relativamente cedo, a egípcia não tinha a menor dúvida de que o arquidiácono já estaria lá, a postos, esperando pela oportunidade de usá-la da forma que lhe fosse mais prazerosa, mesmo que a considerasse repugnante demais em seguida e voltasse a se ferir. Era, afinal, uma cigana, digna apenas do asco dos parisienses.

Digna de ser expiada com chibatadas.

Entrou no covil, direcionando-se à dona do local.

— Tem um homem aqui à minha espera. — Anunciou-se, apática, por um momento tentada a usar o nome de Claude Frollo naquela apresentação, apenas para colocá-lo em maus lençóis — Talvez ele já tenha falado de mim para a senhora.

— Sim, de fato. Um homem encapuzado que não quis identificar-se... Ele chegou há algum tempo. — Confirmou, seu sorriso de poucos dentes tentando soar malicioso assim que a encarou — Siga pelo corredor, segunda à esquerda.

Sem mais esperar, a egípcia acatou a recomendação, entrando tão silenciosa no recinto que o homem sequer a percebeu ali, estando de costas para a cigana enquanto observava atentamente a paisagem através da janela, parecendo procurar por algum sinal da boêmia. Esmeralda reparou que sua postura parecia levemente encurvada para frente, como se tentasse proteger as costas da dor. Um longo capuz negro cobria seu rosto, e somente no instante em que Djali baliu, entediada, o sacerdote notou a presença de Esmeralda, virando-se imediatamente em sua direção ao mesmo tempo em que baixava o capuz. Ao contemplá-la, seu rosto perdeu um pouco da rigidez.

Havia um brilho intrigado em seus olhos castanhos quando se dedicou a fitar Djali, que agora explorava a pobreza daquele aposento.

— É necessário levar sua cabra a todos os lugares que for?

— Djali é livre para ir aonde bem entender. Ela jamais conhecerá cordas ou grilhões enquanto estiver sob os meus cuidados. — Replicou de imediato, pouco afável em suas palavras se comparado à última conversa que tiveram.

— É só uma cabra... — Frollo disse, confuso diante da reação dura da estrangeira. Começou a perceber sua feição pouco amigável, e imaginou o que poderia ter havido para explicar aquela súbita mudança.

— E eu sou só uma cigana... — Pontuou com calma, e ambos se encararam por vários segundos. Frollo, à contragosto, foi obrigado a discordar daquele comentário ácido da egípcia. Quem dera, para ele, ela fosse apenas mais uma cigana. O silêncio sorumbático se arrastou, quebrado apenas pelo ar risonho de Esmeralda ao observar o semblante perdido de Frollo — Não se preocupe, monsieur! Não precisa ficar sem jeito. Eu sei muito bem como me vê.

O arquidiácono se aproximou com cautela, colocando-se à frente da estrangeira e sustentando o peso de seu olhar atrevido, tão verde quanto a pedra de seu nome. Ele passou os dedos por entre os cachos da cigana, e seu rosto — normalmente austero e carregado — adquiriu traços mais sinceros, perturbados em essência.

— Meu medo é que um dia realmente saiba como eu a vejo.

Esmeralda sorriu de uma forma quase cruel, não se deixando levar pela intensidade de seus gestos e palavras. Já muito habituada pelas corriqueiras ojerizas de que era alvo.

— Mostre-me suas costas então. — Sussurrou, pouco disposta a perder mais tempo ali, de leve satisfeita com o passo que Frollo deu para trás, totalmente surpreso com aquele conhecimento que a cigana demonstrara de seus flagelos. Esmeralda refez aquele passo na direção do padre, seu olhar em nada misericordioso — Compartilhe comigo a verdadeira visão que tem de mim, por favor, ficaria encantada em saber. O que seria? Desprezo? Intolerância? Ódio? Remorso? Aversão?

— Você não compreende...

— Acredite, disso eu entendo muito bem. Meu povo é tão repulsivo para pessoas como você que basta aproximar-se um pouco mais para nos tratar como um de seus pecados hipócritas. É exatamente assim que me vê. Como algo nocivo que precisa ser pago com seu próprio sofrimento. Fui mesmo muito ingênua, muito estúpida, por pensar que o fato de eu ser cigana não o incomodava.

— O pecado do qual eu tentei me redimir com esses flagelos nunca foi a respeito de suas origens. — Disse a meia verdade, em seu íntimo ciente de que o sangue egípcio de Esmeralda tornava aquela situação ainda pior para suas convicções afetadas — Você me condenou por aquilo que despertou em mim, não por quem é... — Acusou-a, quase não conseguindo suportar o olhar ofendido da cigana, agora levemente apertado por baixo das pálpebras.

Eu não o condenei a nada, monsieur. Não culpe a mim por suas próprias luxúrias! — Rebateu, afastando-se do homem ainda com aquele mesmo ar injuriado e incrédulo.

— Eu sempre fui fiel às minhas crenças, até conhecê-la. Não deveria ser você a responsável por me afastar daquilo que eu costumava ser? Por plantar em mim tal semente?

— Sementes só vingam em solos férteis. — Redarguiu, irredutível, o semblante agora endurecido diante daquela acusação estapafúrdia — Um homem letrado como o senhor deveria saber disso.

A egípcia saiu do aposento acompanhada de Djali — não antes que a cabra encerrasse o assunto com um enérgico balido, saltitando atrás da humana em seguida —, deixando Frollo completamente perdido com os rumos tomados por aquele encontro.

Amaldiçoando a si e à garota por aquele desfecho.

Notas finais
* Sugiro que se deleitem com uma das cenas mais intensas de Quasímodo no musical (exceto a Anánke, que assim como eu tem esse musical decorado na cabeça e certamente pegou a referência xD). Caso queiram ver, podem colocar a partir dos 50 segundos, porque esses primeiros segundos fazem parte de outra cena: https://www.youtube.com/watch?v=3TcyGUgc8cU **É na água que se aprende a nadar. Espero que tenham aproveitado a leitura! Desejo a todos ótimas festas de fim de ano e um 2017 pra lá de porreta xD Beijos, beijos, e até ano que vem pra maioria de vocês, hehehe! ^^