O Preço da Magia
15 Episódio 15: ...Fais-moi Expier Ma Faute !
Notas iniciais
Esmeralda retornou ao Pátio dos Milagres ainda naquela noite, não mais suportando sequer cogitar voltar a Notre Dame, e esperar pela maior segurança de um novo amanhecer para realizar a agonizante caminhada até seu verdadeiro lar. Sentira-se profundamente magoada com o fato de Frollo, após compartilhar com ela algum contato mais íntimo, responder a isso através de castigos em sua carne, como se a boêmia não passasse de algo sujo. Como se apenas pudesse limpar os rastros de seus toques lavando-se no próprio sangue.
Ao que parecia, o sacerdote não era tão diferente dos demais parisienses como Esmeralda ingenuamente julgou. À sua maneira mais velada, Claude Frollo também desprezava os ciganos com a mesma intensidade, por mais que parecesse disposto a ajudá-la nos momentos em que demonstrou maior precisão.
Esmeralda adentrou os domínios do Pátio, dominada pela vergonha, sem saber como explicaria seu prolongado sumiço. Sem, na verdade, querer explicar-se e acabar relembrando todo o mal que recaiu sobre si, desde a última vez que resolvera abandonar a morada cigana.
Nunca, em todos os seus anos de vida, chegou a se sentir tão estúpida como naquele momento em que logo confrontaria seus irmãos com a verdade de sua ausência.
Contudo, assim que reparou melhor no lugar, aquela tornou-se a menor de suas tantas preocupações.
— Por Júpiter, Djali... — A cigana olhou ao redor, desconsolada com a cena que presenciou, um tanto abrupta à sua visão. Várias casas caindo em destroços inabitáveis, ainda com o cheiro de queimado rodeando suas cinzas. A horta, assim como o chão gramado de uma forma geral, pisoteada por cascos, desfeita numa escassez ainda maior de seus recursos já em falta. O tom rubro do sangue se mesclava à gramínea seca, e o Pátio cheirava à morte — O que houve aqui? — Lançou a pergunta a ninguém, sentindo uma terrível falta de ar conforme se dedicava a absorver todos os horrores que recaíam sobre sua visão.
Após uma caminhada hesitante pela morada cigana, Esmeralda avistou Clopin que, acompanhado de uma pequena aglomeração, conduzia um ritual que a egípcia logo reconheceu, destruindo ainda mais o seu emocional já em frangalhos.
Uma longa fileira de piras ciganas, recheada pelos corpos de vários de seus irmãos, estava prestes a ser acesa.
Esmeralda se aproximou devagar do cerne daquela agitação, percebendo as lágrimas começarem a rolar por seu rosto à medida que reconhecia todos aqueles que haviam morrido. Quando notou Carmen, inerte, acomodada no monte de palha junto à filha que acabara de nascer — a linda menina para quem Esmeralda dançara pedindo sorte e prosperidade —, a estrangeira desabou num pranto aflito, atraindo para si a atenção do líder do Pátio.
Clopin limitou-se a encará-la com angústia, descendo a tocha que tinha em mãos. Fazendo o fogo se espalhar por entre os que morreram à mercê daquela intolerância tão injustificada contra seu povo.
A egípcia caminhou devagar para mais perto dos corpos, os olhos marejados se revezando sobre cada semblante mórbido, encerrados em expressões que revelavam os últimos instantes de sofrimento. Ajoelhou-se ao lado da criança de Carmen antes que a menina morta fosse consumida pelo fogo, sentindo-se a criatura mais confusa e infeliz de toda a França.
“Sequer cheguei a saber qual seria seu nome, petite...” — A cigana acariciou o rosto imaturo com alguns dedos trêmulos, totalmente despreparada para lidar com aquele cenário...
...Por mais que carregar nas veias o sangue cigano significasse um constante convívio com o sofrimento da perda, da injustiça e da miséria.
Clopin foi até Esmeralda, erguendo-a pelos cotovelos com cuidado à medida que enlaçava a menina num abraço protetor, aliviado por finalmente saber que ela havia sobrevivido ao que quer que a tenha tirado do alcance de seus olhos paternais. A cigana aceitou aquele carinho de bom grado, ela mesma se aprofundando nos braços cálidos que a envolvia.
— Sofremos vários ataques dos soldados do rei. — O líder explicou, seu timbre ao mesmo tempo embargado e endurecido, também emocionado por tantas baixas — Graças a Júpiter você voltou sã e salva para nós! — Pousou um beijo em sua testa, agradecendo por aquela bênção no meio de tantas intempéries — Não podemos mais ficar aqui, minha querida. Há muito tempo o Pátio dos Milagres não é mais seguro para nós... Para nossas crenças e costumes.
— Por quê...? — Esmeralda se afastou daquele enlace, não sabendo como elaborar aquela simples pergunta, porém ciente de que Clopin entendera perfeitamente bem seu questionamento. Seus olhos o exprimiam sem a necessidade de sofisticá-lo em palavras.
— Quando você sumiu, os soldados vieram buscá-la sob a acusação de ter matado aquele maldito capitão. Disseram que, enquanto não a entregássemos, continuariam vindo até o Pátio e matariam nossos irmãos até que não restasse mais nenhum egípcio.
— Esmeralda! — Sara veio apressada em sua direção, também a puxando para um abraço caloroso. Seu rosto úmido pelas lágrimas difundia algum nível de consolo em meio à tristeza — O que houve com você, minha querida? Foi aquele homem obcecado que li na sua sorte?
A cigana mais nova assentiu com pesar, ainda convencida de que a chama se referia a Phoebus no dia em que Sara predisse seu destino. Mal desconfiando de que aquele aviso, na verdade, era direcionado ao homem que a salvou do capitão.
— Foi ele. — Esmeralda reafirmou, percebendo os poucos ciganos que ainda restavam com vida virem em sua direção, querendo compreender o que acontecera. Apenas Artemio, o egípcio mais idoso, manteve-se observando a cena ao longe, estudando os esclarecimentos de Esmeralda à distância — O capitão conseguiu me encontrar desprevenida nos limites do Pátio e me estuprou — Anunciou com brutalidade, não se permitindo fraquejar diante daquele relato, por mais que ainda lhe afligisse falar sobre. Praticamente todos os membros de sua comunidade estavam mortos, e Esmeralda sentia a culpa sobre todas aquelas inúmeras perdas recair sobre si de um único golpe. Nada do que aconteceu consigo poderia se equiparar ao terror vivido por seus irmãos e irmãs naqueles dias de guerra, em que se manteve escondida e segura na catedral, e por esta única razão a egípcia conseguiu manter sua cabeça erguida enquanto tentava discorrer com firmeza sobre aquele assunto que tanto a machucava em feridas ainda abertas — Durante o abuso, ele me violentou fisicamente de várias formas para me manter dominada, e eu precisei de um tempo para conseguir me recuperar. Por isso não voltei antes ao Pátio. Eu sinto muito!
Concluiu seu rápido relato, notando ainda mais lágrimas se acumularem abaixo de seus olhos. Entremeada à feição de Clopin, a fúria conseguiu espantar o luto.
— Gajôs covardes! — Esbravejou o líder, ainda mais convicto de seus planos após imaginar o sofrimento ao qual a jovem cigana fora submetida. A forma injusta com que haviam pago por aquele abuso com o valor de seu próprio sangue, num acerto de contas desproporcional, o enfurecendo num nível afoito por justiça — Estejam preparados, meus irmãos! Hoje ainda nos permitiremos chorar por nossos mortos, mas amanhã, ao primeiro nascer do sol, vamos contra-atacar. Se querem tanto nos ver pelas costas, antes daremos a eles motivos reais para tal. Responderemos a esse massacre até o fim de nossas forças, se preciso.
— Notre Dame! — Sara exclamou de súbito, chamando a atenção curiosa de todos. Um sentimento gélido atravessou a espinha de Esmeralda, tirando de si qualquer reação minimamente raciocinada — A catedral é o símbolo máximo de nossa opressão, da chacina que vem acontecendo contra o nosso povo desde que pisamos nessas terras. Deveríamos derrubá-la. Abrir em Paris uma ferida que realmente doa. Que fique marcada na cidade por um bom tempo.
Clopin a fitou com indisfarçada admiração, não só pela coragem ímpar que Sara vinha demonstrando diante daquele momento tão adverso, como também pela astúcia afiada de sua mente. Aquela ideia arguta de imediato renovou todas as suas esperanças. Tinha plena ciência de que aquele era um plano fadado ao fracasso, dado o número ao qual os ciganos foram reduzidos. Contudo, se conseguissem atacá-los por meio da catedral — o prédio mais idolatrado dos parisienses e ao mesmo tempo o grande símbolo de todas as torturas físicas e psicológicas recaídas aos estrangeiros —, até mesmo a derrota se tornaria vitória.
“Se algo acontecer a mim no meio dessa guerra, gostaria que essa mulher tomasse meu lugar!” — O cigano refletiu, vendo em Sara não apenas uma líder nata, mas sim a líder que aquele grupo precisaria para seguir adiante caso ele falhasse. A líder que os faria sobreviver com alguma dignidade. Por mais que aquele posto de comando tradicionalmente fosse ocupado por homens, Clopin percebia que nem mesmo todos os egípcios juntos poderiam almejar competir com a força e bravura que residiam naquele par de olhos negros.
Nem mesmo ele.
— Sim. Notre Dame! — Clopin concordou, entusiasmado com aquele novo norte — Quem quiser se juntar a essa expedição, sairemos do Pátio antes do alvorecer. — Lançou um olhar agradecido à Sara, logo voltando sua atenção para Esmeralda e a percebendo completamente atônita, um tanto fora de si — Você ainda me parece abalada, minha querida. Precisa descansar. Peço que não nos acompanhe amanhã. Até porque, os soldados demonstraram um interesse especial por você, não sabemos que tipo de barbaridades farão caso a encontrem.
A cigana o fitou com uma expressão aérea, parecendo esquecer-se por um momento de que não estava só. Ela limitou-se a assentir da mesma forma quase inconsciente, naquele exato instante assumindo sua decisão. Talvez a mais difícil de todas que já tenha tomado.
Após os rumos esclarecidos daquele dia seguinte, irremediavelmente os olhares acabaram se voltando aos mortos que crepitavam com todos os seus pertences em meio ao fogo. Suas labaredas, cada vez mais alçadas rumo à imensidão do céu, ajudando na passagem daqueles que se foram.
Que, diferente dos vivos, estavam agora em paz.
O novo silêncio, abalado apenas pelo estalido das chamas, recuou mediante à voz baixa que se arrastou melancólica por aquela melodia igualmente triste. Aquele lamento musical se propagando com um pouco mais de força a cada palavra cantada, num último adeus do cigano à sua esposa e sua filha nascida há tão pouco tempo.
Um nó angustiado se formou na garganta de Esmeralda, que ainda não se sentia capaz de acreditar em tudo o que acontecera. E também no que estava prestes a fazer.
— Yehali na troyke s bubentsami, a vdali mel’kali ogon’ki. Mne b seichas, sokoliki, za vami, dushu bi razveyat’ ot toski. Dorogoy dlinnoyu, da noch’yu lunnoyu, da s pesney toy, chto vdal’ letit, zvenya, i s toy starinnoyu, toy semistrunnoyu. Chto po nocham tak muchila menya… Tak zhiv’a bez radosti, bez muki pomnyu ya ushedshiye goda I tvoi serebryanie ruki v troyke, uletevshey navsegda… Dorogoy dlinnoyu, da noch’yu lunnoyu, da s pesney toy, chto vdal’ letit, zvenya, i s toy starinnoyu, toy semistrunnoyu. Chto po nocham tak muchila menya… Dni begut, pechali umnozhaya, mne tak trudno proshloe zabit’. Kak-nibud’ odnazhdi, dorogaya, vi menya svezete horonit’. Dorogoy dlinnoyu, da noch’yu lunnoyu, da s pesney toy, chto vdal’ letit, zvenya, i s toy starinnoyu, toy semistrunnoyu. Chto po nocham tak muchila menya…*
Ficaram ali por mais algum tempo, depositando suas últimas despedidas e preces às chamas que ascendiam parte de suas famílias. Nenhum dos ciganos remanescentes parecendo dispostos a falar e quebrar a solenidade daquele adeus emudecido.
Sabendo que teriam um longo dia pela frente, não tardou que começassem a se recolher aos aposentos que ainda não haviam sido destruídos, para que se preparassem para o assalto à catedral que já estava confirmado com o início da alvorada. Esmeralda esperou que a maioria se retirasse para se aproximar mais uma vez do líder, tentando soar apenas levemente curiosa em sua pergunta.
— O ataque a Notre Dame foi mesmo uma ótima ideia, mas... fiquei me perguntando... Se não me engano lá vive um padre e um sineiro. A presença deles não será um empecilho?
— Não temos tempo para nos preocupar com isso. Qualquer um que se puser no nosso caminho amanhã será atacado, Esmeralda, é o único meio aceitável de resposta. Precisamos começar a agir como eles, se quisermos sobreviver a isso, e tenho certeza de que a perda de dois servos de Notre Dame não será grande coisa. São todos representantes da intolerância truculenta ao nosso povo.
Esmeralda engoliu em seco, acenando afirmativamente como se estivesse de total acordo. Sob alguma desculpa pouco formulada de mal estar, a cigana despediu-se, indo em direção à sua casa — uma das poucas que ainda permanecia em pé.
Abrigou-se ali até que percebesse o Pátio dos Milagres adormecer, ciente do transcorrer de cada minuto, estes parecendo se arrastar numa lentidão que facilitava sua ansiedade. Sequer se permitiu algum momento mais refinado de reflexão, temendo se arrepender daquilo que faria.
Indisposta a chamar qualquer atenção para si, Esmeralda trocou o vestido que Quasímodo lhe presenteara por um mais simples de seu próprio guarda roupa, jogando sobre os ombros um manto de cor neutra, do qual se destacava um capuz largo, vasto o suficiente para esconder cada traço de seu rosto.
Mais cedo do que julgara, tornou a deixar o Pátio dos Milagres, sentindo um calafrio quando passou pelas proximidades de seus limites em que Phoebus a abordara. Esmeralda prestou total atenção em Djali ao travar aquele caminho até a catedral, atenta a qualquer sinal de temor ou receio da cabra. Contudo, o animal avançava pelas ruas de Paris sem nenhum entrave, e logo a cigana conseguiu sentir-se um pouco mais calma quanto aquele trajeto.
Quando sua caminhada novamente a levou defronte à Notre Dame, suspirou, baixando o capuz para se permitir contemplar melhor a estonteante construção. Titubeou por um instante diante da catedral já fechada, sentindo-se dominar pelas dúvidas que tanto tentara repelir durante o rumo tomado. Chegou a cogitar dar meia volta e retornar ao Pátio, porém até mesmo esse lapso de bom senso chegou a si sem convicção alguma. Simplesmente precisava fazer aquilo.
Não podia dar as costas a Quasímodo e Frollo, por mais que ainda fossem pulsantes as mágoas que sentia pelo sacerdote, e em algum nível menor pelo sineiro também, por ele se mostrar condescendente àquela prática de seu tutor.
Percebendo que não poderia mais perder tempo do lado de fora, a cigana bateu com força na porta, esperando que algum dos dois ouvisse e se desse ao trabalho de ir conferir. Esperou longos segundos pela resposta, já preparando o punho para esmurrar a madeira com ainda mais força quando percebeu a cabeça de Quasímodo se projetar para além das pilastras de seu aposento, seu olhar soando confuso até mesmo naquela noite escura.
— Esmeralda? — Ele a chamou com incerteza, nem mesmo a presença de Djali parecendo convencê-lo daquela visão que tinha de sua amada cigana — É você?
— Sim, sou eu, Quasi! — Confirmou, estranhamente tentando sussurrar uma resposta que precisou soar alta. Como se o gesto fosse ajudá-lo a reconhecê-la, ela desprendeu o manto de seu corpo, evidenciando as cores vibrantes de seu vestido — Preciso entrar rápido, antes que me vejam aqui...
O sineiro guardou suas perguntas, totalmente eficaz perante aquele pedido. Esmeralda teve certeza de que o amigo corria da melhor forma que podia para alcançar a entrada da catedral, e num tempo recorde a egípcia já ouvia Notre Dame mais uma vez se abrindo para si.
Quasímodo a recebeu com um olhar confuso quando permitiu que ela e a cabra entrassem, fechando a porta e tornando a trancá-la o mais depressa possível. Ela o abraçou antes mesmo que ele concluísse aquele dever, um tanto aliviada por saber que conseguiria dar o seu recado antes que os ciganos invadissem o lugar.
— Que bom que consegui entrar! Tive medo que nenhum de vocês me escutasse chamar! — Soltou uma expiração pesada que havia se prendido em seus pulmões sem que ela ao menos se desse conta, permitindo que parte da tensão se extinguisse.
— Seria impossível não ouvi-la. Essas paredes fazem qualquer som reverberar, ainda mais em meio ao silêncio da noite. — Explicou algo que Esmeralda já havia percebido por experiência própria no período em que se hospedou ali, mas que no momento do desespero acabou esquecendo — O que houve? Alguém a machucou de novo? — Inquiriu com evidente preocupação, dedicando-se a analisar cada perímetro da amiga em busca de novos ferimentos. Contudo, antes que Esmeralda pudesse responder, sentiu seu corpo retesar à visão de Frollo descendo as escadas de seu aposento, fitando-a com aquele mesmo semblante austero que era tão característico de sua postura, dessa vez sem conseguir camuflar também o tormento melancólico em suas íris castanhas.
— Comigo está tudo bem, Quasi. — Tranquilizou-o com a meia-verdade, embora não conseguisse desviar o olhar do arquidiácono por muito tempo — Vim até aqui porque preciso dar um aviso... a vocês dois! — Esclareceu, reproduzindo passos decididos até o pé da escada, onde Claude ainda a observava com indiscutível surpresa. O corcunda a seguiu em meio ao arrastar manco de sua perna, curioso pelo que a boêmia teria a dizer — Vocês precisam sair daqui. Agora!
— Como disse? — Frollo franziu o cenho, mal disfarçando a decepção.
— Os dois estão correndo sério perigo. — Tentou explicar com urgência, intuindo que cada minuto era precioso — Meu povo está tramando um ataque a Notre Dame ao amanhecer, e isso inclui passar por cima de vocês.
— Por quê? — O corcunda perguntou, seu timbre tomado de espanto.
— O Pátio dos Milagres vem sendo atacado pelos soldados reais. Muitos de meus irmãos e irmãs foram mortos por essas invasões, e agora os ciganos estão dispostos a revidar naquilo que Paris mais ama. Sua catedral.
Os dois homens pareceram de leve impressionados com aquele comunicado, de fato não demonstrando qualquer reconhecimento ante a notícia das agressões que vinham assolando a morada cigana. Esmeralda empertigou-se, incomodada com aquele silêncio, por mais que ainda fosse considerado breve.
— Eu posso levar os dois a um lugar seguro, ao menos até que todo esse conflito se acalme! Mas temos que ir o quanto antes, do jeito que Clopin é ansioso pode estar cogitando aparecer por aqui ainda durante a noite! Não me surpreenderia se já estivesse a caminho.
— Agradeço o alerta, mas não podemos abandonar a catedral. — O arquidiácono contestou, polido — Não existe a menor possibilidade de deixarmos Notre Dame à mercê de saqueadores.
— Eu seguiria meu mestre aonde quer que fosse, mas ele tem razão em querer ficar! — Quasímodo advertiu, e de repente o rapaz parecia uns bons anos mais velho — Nosso dever é aqui. Nosso lar é aqui, e não deixaremos que ninguém o ameace sem resistência.
— Vocês não estão entendendo... — Ela revezou o olhar entre os dois, alarmada com aquela recusa e temendo o pior — Se algum dos ciganos sequer cruzar com o caminho de vocês, vão matá-los, sem pestanejar. Sem antes se perguntar se são boas pessoas ou não! Meu povo está tão ferido pelas perdas, que sequer terão discernimento. Eles verão nos dois os motivos de nossas misérias, e não terão remorso algum em descontar essa raiva sobre os representantes de Notre Dame. Acho que alguns até gostariam disso.
— Entendi perfeitamente a situação. — Frollo replicou, parecendo querer se aproximar, contudo contendo-se no último segundo — Mas isso não muda o fato de que temos que honrar com nossas obrigações aqui. E entre elas, inclui-se zelar pela integridade do lugar.
— Por favor, me escutem... vocês não têm a menor chance...
— Se deixá-la mais tranquila, tomaremos nossas providências. Amanhã a catedral permanecerá fechada. — Frollo decretou, decidido. Lançou um olhar breve ao corcunda, que se mantinha acabrunhado entre a necessidade de agradar tanto a cigana quanto o seu mestre — Vamos, Quasímodo. Preciso da sua ajuda. — Determinou, sem mais qualquer palavra voltando a subir os degraus até seu quarto.
Esmeralda olhou desconsolada para o sineiro, esperando que ele pudesse convencer o arquidiácono a tomar outra decisão. Contudo, viu em Quasímodo uma aprovação total pela deliberação do sacerdote, fazendo crescer ainda mais o desespero da cigana.
— Você não pode estar de acordo com isso...
— Sinto muito, Esmeralda... — Baixou os olhos, parecendo constrangido por ousar contrariá-la, algo que nunca imaginou ser capaz — Notre Dame é nossa vida, e devemos defendê-la como for preciso... Eu terei que auxiliar meu mestre com seus ferimentos agora, mas logo estarei de volta no caso de ainda querer conversar.
— Não! — A estrangeira se pôs à frente do corcunda, não permitindo que ele avançasse — Eu vou. Talvez ainda consiga convencê-lo da loucura que estão prestes a cometer permanecendo aqui. Além do mais, sou eu a culpada por essas chibatadas, não é mesmo? — Constatou, repleta de amargura naquele comentário sarcástico, e já se pôs a subir a escadaria espiralada, não esperando por qualquer reação do amigo.
Conforme vencia os degraus, a egípcia perguntava-se se havia agido certo. Naquele mesmo instante conseguia sentir-se uma grande traíra de seu povo, que já era tão martirizado pela mera existência, e em contrapartida se deixava levar também pela sensação de ser uma inútil, incapaz de resguardar aqueles que, independente dos pesares mais recentes, haviam feito de tudo para protegê-la quando ela mais precisou de abrigo.
Diante do recinto privado do padre, a cigana deu leves batidas na porta, questionando a si mesma a respeito de sua identidade, esta ameaçando se comprometer naquela escolha desgarrada. Poderia colocar o que restara de sua família em perigo com a decisão de procurar Frollo e Quasímodo, mas ao mesmo tempo sabia que não podia deixá-los à própria sorte naquele ataque.
Com a falta de resposta perante a anunciação de sua presença, Esmeralda arriscou abrir uma fresta da porta, vislumbrando o sacerdote vestindo apenas a calça negra que era própria de seu indumento sacerdotal. As costas se mostravam nuas, evidenciando vários flagelos avermelhados que contrastavam com sua pele pálida. O arquidiácono manuseava um pano úmido contra as poucas feridas que conseguia alcançar, na altura de seus ombros.
Aquela visão fez renascer com ainda mais potência a mágoa que a boêmia passou a sentir do padre ao descobrir aqueles açoites, e sem delicadeza escancarou a porta do quarto, entrando no aposento a passos grosseiros e sem qualquer consideração pela privacidade do homem. O padre virou o corpo de forma abrupta, apenas naquele instante a percebendo ali e não conseguindo ocultar o desejo que se misturava à angústia.
— Eu o ajudo com isso! — Ela prontificou-se, rude tanto nas palavras quanto ao tirar o pano úmido das mãos de Frollo. Em silêncio começou a limpar a pele inflamada do arquidiácono, sentindo-o estremecer a cada toque propositadamente mais bruto.
— Por que fez isso? Por que veio nos avisar? — Claude virou de leve o rosto cansado em sua direção, tentado a compreender suas motivações — Por que simplesmente não deixou que os ciganos nos encontrassem desprevenidos amanhã?
— Porque sou estúpida. Pensei que podia remediar a situação ao pelo menos tirar vocês daqui. Porque não seria justo depois de tudo o que fizeram por mim. — Disse, ainda descortês à medida que mantinha sua atenção naquela tarefa de limpar as feridas, que dominavam toda a extensão de suas costas — Não me surpreende que não entenda isso... — Alfinetou, sem perceber colocando ainda mais força naquela fricção entre o pano e a pele machucada do arquidiácono.
— Você merece uma explicação quanto a isso... — Murmurou, baixando de leve a cabeça numa reflexão atormentada. Como era difícil a ele manter um raciocínio lógico naquela presença...
— Não tenho interesse por qualquer explicação, padre. Vim até aqui na esperança de que pudesse ajudá-los, mas até isso parece indigno a vocês quando vem de um cigano.
Frollo se virou na direção da egípcia, segurando a mão que brandia o tecido úmido de forma a fazê-la prestar total atenção naquilo que diria.
— Deixe que eu ao menos tente esclarecer minha posição. — Pediu, perdendo-se nas nuances daqueles olhos que tanto o tornaram dependente de seu brilho — Sei o que tudo isso parece, e compreendo que tenha se ofendido... Mas você não pode abranger os reais motivos por trás dessa minha atitude... estúpida, eu admito.
— Está enganado, padre. Entendi muito bem o recado que quis passar com esses cortes. O mesmo recado que Paris passa ao meu povo todo dia... o de que não nos tolera.
— Não é simples assim, Esmeralda. Desde que a vi dançando pela primeira vez diante da catedral, algo dentro de mim começou a mudar. Minha fé se tornou abalada e fraca, meus anseios foram para rumos que antes eu desconhecia. Tudo se modificou, e me deparar com essa nova realidade que me abarcava foi assustador. Eu não tinha quaisquer meios para lidar com tudo o que você despertou em mim, e por conta disso fui resistente a cada uma dessas transformações que comecei a perceber, que se manifestavam totalmente fora do meu controle e da minha vontade. — Frollo desviou o olhar, não conseguindo lidar com aquela confissão que sabia ser verdadeira em cada aspecto — Você tirou-me da razão sem ao menos saber, e a razão era tudo o que eu tinha. O que eu mais prezava. — Deixou-se levar por uma respiração mais longa e ruidosa, como se revivesse cada angústia que passou no convívio da cigana desde que a vira pela primeira vez — Precisei usar de cada artifício que conhecia para tentar voltar a ser o homem que era... o sacerdote fiel que existia antes de você aparecer. — Voltou a encará-la, os orbes castanhos se fincando, perdidos e pedintes, nos verdes — Nenhum desses açoites foi feito para humilhar sua origem ou para desprezar quem você é. Me perdoe se dei a entender isso. Foi, na realidade, uma última tentativa desesperada de minha parte para recordar a mim mesmo quem eu fui. Nada do que eu fiz para tirá-la dos meus pensamentos funcionou, tudo chegou a se voltar contra mim com ainda mais força, e só então eu finalmente compreendi que não existia mais volta. Que eu nem mesmo queria que houvesse um retorno. — Levou a mão esquerda ao rosto da boêmia, deixando que o toque o munisse da coragem necessária para prosseguir — Esmeralda, mesmo que essa possibilidade me fosse oferecida agora, eu não aceitaria. Jamais me contentaria novamente com a vida vazia que a precedeu.
— Pardon, monsieur, mas eu não posso acreditar nisso. — Afastou-se daquele contato físico, em contrapartida aprofundando o visual que os unia — Eu sei que nunca deixará de detestar o fato de eu ser cigana. Nunca será capaz de ver além da cultura pagã. Das crenças que ainda nos levam à fogueira, que ainda amarram cordas ao redor dos nossos pescoços. A pessoas como você, somos menos do que proscritos e renegados. Somos a sujeira de suas ruas. A mancha que enfeia Paris.
— Depois do que viu de mim, sei que tem motivos para desconfiar. Mas não precisa acreditar no que eu digo. Poderá testemunhar com seus próprios olhos... — Frollo constatou, oferecendo à estrangeira a palma de sua mão para que a mulher pudesse lê-la. Para que, através das linhas tortuosas que a marcavam, Esmeralda fosse capaz de comprovar tudo o que ele já sabia. A cigana o contestou com o olhar, cheia de dúvidas quanto àquele consentimento — Vamos, leia. Veja por si mesma.
Ainda o encarando de modo desconfiado, Esmeralda acabou cedendo, segurando a mão do padre com a sua própria, incapaz de resistir à tentação daquele convite. Só então permitiu que suas íris se desviassem do homem, ávidas pela interpretação que faria de seu destino a partir do traçado em sua palma.
Analisou com cuidado o padrão que se desenhava ali, não evitando o assombro ao começar a desvendar aquela leitura subjetiva. Seu olhar às vezes se desviava à procura dos orbes castanhos de Claude, procurando neles qualquer evidência de zombaria. Porém eles se mantinham assisados, apenas contemplando a cigana com genuína exaustão. Suas íris verdes se esconderam de leve naquele típico semicerrar das pálpebras, que sempre denunciava seus momentos mais intensos de reflexão. Os olhos retornaram à palma de Frollo, agora todos os dedos de Esmeralda servindo de suporte à mão do padre naquela interpretação de suas linhas.
— O que diz meu futuro? — Questionou, mesmo que já pudesse prever sua própria sorte. Já a conhecia desde o momento em que pôs os olhos em sua Esmeralda pela primeira vez...
...Dançando naqueles passos descontraídos e belos sob um sol poente, esbanjando uma felicidade que agora parecia escassa em seu rosto. Tão distante da menina alegre que lhe foi apresentada.
— Suas linhas são dúbias. Não estou certa de que vi com clareza. — Esquivou-se, encerrando aquele toque de modo brusco, indisposta a prolongar aquele assunto. Contudo, no verde de seus olhos, estava nítido que vira alguma coisa clara o suficiente para mexer com a boêmia.
— Todos os destinos são dúbios e duvidosos... Não estou certo? — Frollo trajou um meio sorriso astuto, usufruindo o olhar desconfiado e igualmente charmoso que sua cigana lhe lançara àquele comentário — Conte-me o que viu.
— Eu não menti, monsieur... sua sorte é realmente mais incerta do que o normal. Vi apenas reviravoltas. Nenhuma estabilidade, por isso nada está seguramente traçado.
— E chegou a ver o que causou essa instabilidade? — Perguntou com astúcia, arrancando um olhar hesitante da estrangeira.
Esmeralda novamente segurou a mão do arquidiácono, voltando sua atenção ao que fora capaz de ler.
— Haverá um momento, muito em breve, em que será necessário fazer uma escolha decisiva. Essa escolha parece conflitar entre suas linhas do coração e da cabeça. — Divagou, passando o polegar de leve pelos dois vincos referidos — A do coração é mais pronunciada e longa, o que indica que é a escolha que vai prevalecer. Que já prevaleceu, provavelmente... — Corrigiu-se, compenetrada a tal ponto que não se percebia mais qualquer resquício de raiva ou ansiedade em seu timbre naquele momento — A mudança que eu vejo será radical... — Seus lábios tremeram, como se falar aquilo em voz alta fosse desconfortável a ela — ...A vida que conhece deixará de existir. Pelo amor a uma cigana.
Suas mãos se afastaram da de Frollo como se o contato subitamente passasse a doer, e seu olhar consternado não ousou buscar o do sacerdote.
— Eu sei a que se refere essa mudança, Esmeralda. Eu mesmo já fiz todas as reflexões possíveis acerca dela. Trata-se de largar o sacerdócio. Abandonar o que for preciso para poder tê-la ao meu lado, sem mais nenhum empecilho.
— Não zombe ainda mais de mim, monsieur. — Murmurou num tom triste, ainda incapaz de fitá-lo.
Claude Frollo se aproximou, erguendo o queixo da egípcia até que pudesse firmar algum contato visual. Esmeralda, por mais que evitasse, viu apenas verdade nas íris castanhas que se focavam com certa veneração em si. Ainda perturbadas, como se não pudesse mais sustentar aquele impasse.
— Cabe a você dizer o que é preciso, e eu farei sem questionar. Abandonar Paris... Viver no Pátio dos Milagres junto aos renegados, como parte deles... Nada mais me importa, desde que esteja ao meu lado, ma belle... — Segurou-a com delicadeza pelo pescoço, sentindo a menina pagã estremecer de leve diante da rápida carícia, tentada a acreditar.
Afinal, tudo aquilo estava escrito na linha de sua mão. Um destino que, apesar de duvidoso, ela mesma interpretara.
E mesmo que não testemunhasse a leitura daquele futuro incerto, o brilho nos olhos do sacerdote era perturbadoramente legítimo. Donos de uma autenticidade que o arquidiácono jamais se permitira até aquele instante.
— Se tudo o que te importa é me ter ao seu lado, prove. Fuja hoje comigo. Não deixe que meus irmãos o encontrem aqui pela manhã. Me ajude a proteger Quasímodo!
— Por você eu não hesitaria em abandonar Notre Dame, Esmeralda. Mas não posso deixar a catedral sabendo que ela corre perigo. Sabendo que pode sucumbir a um ataque. — Explanou, detestando a tristeza que reconhecia em sua bela menina diante daquela recusa — Este foi meu único e verdadeiro lar, e eu jamais poderia me perdoar se o abandonasse nessas condições. Pode entender isso?
— Não, não posso. Sei da importância de lutar por um espaço, de defendê-lo com unhas e dentes. Meu povo vive dessa motivação, da busca pelo lar... Da busca pela aceitação. Mas não posso entender quando um prédio feito apenas de materiais mortos é colocado à frente de vidas. Frollo, se os ciganos conseguirem entrar, vocês estarão mortos, vi isso nos olhos de Clopin. E assim que o caminho estiver livre de vocês, a catedral ficará à mercê deles da mesma forma.
— Mas ainda há chances de impedi-los, se Quasímodo e eu pudermos evitar essa invasão. O mínimo que eu posso fazer é tentar.
— Espero que sim... — Rendeu-se, cabisbaixa, ainda atônita com o futuro que Frollo estava disposto a compartilhar consigo. Se não visse com seus próprios olhos na sorte de sua palma, jamais acreditaria — Então que seja. Eu também vou ficar. Não posso permitir que machuquem Quasímodo... que machuquem você... — Fitou-o com desamparo, ainda tentando equilibrar os dois anseios antagônicos que conflitavam entre si, querendo proteger tanto Frollo e Quasímodo quanto o seu povo já tão sofrido. Temia, mais do que tudo, que não fosse possível resguardar os dois lados. Deu um passo na direção do padre, segurando o rosto do homem com uma das mãos em meio a um último apelo angustiado — Só tome cuidado. Por favor.
Frollo não mais suportou se conter, tomando a estrangeira nos braços à medida que buscava pelo conforto de seus lábios. Esmeralda se permitiu encaixar sobre o tronco despido do homem mais velho, também agradada pelas carícias que ele oferecia, finalmente convencida de que eram legítimas. Seguiu-se um beijo longo, pela primeira vez calmo apesar de sedento.
— Se te encontrarem aqui amanhã, terá problemas... — Disse, por mais que a quisesse por perto não deixando de se preocupar com as consequências daquela escolha.
Viveu no Pátio dos Milagres tempo suficiente para conhecer os métodos que utilizavam perante um traidor.
— Você tomou sua decisão, e eu tomei a minha. Nós dois teremos que conviver com isso, independente do que aconteça amanhã.
O padre a envolveu com mais intimidade, passando os dedos por sua cintura e pescoço quando retomou o beijo, sempre extasiado ao sentir a reciprocidade de seu desejo na mulher. Não compreendia por que aquela alma tão vivaz acabara se interessando pelo homem mais velho, todo moldado em amarguras. Tão diferente da menina que se aconchegava de bom grado em seus braços.
Mas ali estava a cigana, também entregue a Frollo como ele jamais pudera fantasiar além de seus sonhos. Esmeralda impulsionou-se sobre o sacerdote ao apoiar os antebraços nos ombros despidos do padre, tomando cuidado para não encostar-se aos vários cortes expostos que ainda ardiam em suas costas. O arquidiácono desceu a mão que antes repousava sobre o pescoço de sua cigana, deslizando-a pela frente do vestido com alguma pressa, parecendo incomodar-se com o tecido.
Esmeralda recuou, de súbito assustada ao cruzar os braços sobre o tronco, sendo transportada ao momento em que Phoebus rasgara sua blusa na noite em que a estuprara e reagindo por puro impulso àquela lembrança. O medo em seus olhos logo deu espaço à vergonha, e por mais que os instintos mais arraigados de Frollo pedissem para que ele prosseguisse, sequer poderia cogitar perder a correspondência que sentia na egípcia. Não bastava mais simplesmente tê-la. Precisava daquele sentimento de que ela o queria tanto quanto ele.
Jamais poderia suportar que sua bela cigana o olhasse com o mesmo terror que dispensou ao maldito capitão. Não depois de provar o desejo também existente na mulher.
Frollo caminhou devagar até ela, vencendo a pouca distância que havia se firmado entre eles, aconchegando-a com cautela num abraço despretensioso.
— Está tudo bem, ma belle! — Sussurrou, beijando o alto de sua testa com inegável carinho.
— Ainda é difícil para mim... — Ela confessou, aquele mesmo nó ingrato querendo se formar em sua garganta.
— Eu sei. — Abraçou-a com mais força, a raiva por aquela lembrança do capitão violando sua Esmeralda vindo com total ímpeto a ele. Frollo sabia que ainda encontraria Phoebus nas profundezas do inferno, e novamente o faria pagar quando esse dia chegasse. Dessa vez lentamente. — Gostaria de fazer um pedido a você, Esmeralda... — Frollo disse, sabendo que aquilo a acalmaria. Chegou a sorrir quando a boêmia se desenlaçou de seu abraço, fitando-o com desconfiança — Sinto muita falta de vê-la dançar.
Os músculos da cigana relaxaram, e o brilho intenso que cobriu suas íris fez um conjunto apropriado ao sorriso arteiro que surgiu em seu rosto. Frollo teve que dominar cada um de seus muitos demônios internos para não revidar da forma como gostaria, sanando cada luxúria provinda daquele desejo perene, tão corrosivo a si quando ignorado.
— Quer que eu dance agora? Sem música? — Ela tentou contestar, porém o arquidiácono já percebia o consentimento àquele pedido na expressão instigada de sua menina. Tirou alguns cachos mais rebeldes da proximidade de seus olhos verdes, sentindo que era tragado por eles a cada minuto que se aventurava em observá-los.
— É só para mim. Não preciso de nada além da contemplação dos seus passos.
— Nada disso, senhor padre. Terá o espetáculo completo! — Piscou à medida que desamarrava o lenço preso em sua cintura, afastando-se brevemente de Frollo para dar início ao show particular. Divertiu-se ao reparar no olhar incitado do sacerdote sobre si quando iniciou uma cadência ritmada em seu quadril, já tendo na cabeça o compasso exato da música que não tardou a cantar — Danse tout contre moi, danse. Laisse aller les pas, la cadence, fait couler des gouttes de sueur sur mon cœur. — Iniciou num timbre afinado, puxando-o de leve com o lenço para mais perto, não chegando a reparar na expressão de extremo pesar do arquidiácono, que imediatamente reconheceu aqueles versos de dias distantes — Danse tout contre moi, danse. Que tes jambes mouillées s’avancent, que je sente battre la fureur de ton cœur.
Suas mãos se ergueram altas acima da cabeça, tilintando com as várias pulseiras em meio aos trejeitos de seus pulsos ao acompanhar o frenesi da canção cigana. Esmeralda deu um sorriso discreto, percebendo que várias tensões se dissipavam de seu corpo ao sentir a dança dominá-la...
...Carregá-la rumo àquele torpor maravilhoso do aspecto mais marcante da cultura egípcia, que por si só era capaz de curar várias de suas dores.
Esmeralda estava prestes a enunciar o próximo verso do cântico, quando o timbre sussurrado de Frollo a surpreendeu ao cantá-lo baixo junto ao ouvido da mulher, quase como uma confidência de seu timbre grave.
— Belle Andalouse. Fruit dangereux du sud de l’Espagne, fidèle et jalouse, fais balancer ton corps de gitane. — O sacerdote completou num tom melancólico, percebendo a cigana se enrijecer, o espanto parando por um instante seus movimentos sensuais. Frollo prosseguiu, uma de suas mãos acariciando o rosto pasmo de sua menina, que ainda o encarava com verdadeiro choque — Belle Andalouse. Quand le feu dévore tes yeux d’animal, brune et jalouse, pour le chasseur la proie idéale.
Esmeralda deixou o tecido cair ao lado dos seus pés, mirando o arquidiácono com um magnetismo inédito ao passar as mãos pelo pescoço do homem, praticamente selando seus lábios naquele roçar convidativo de seu canto.
— Danse tout contre moi, danse. Ne crains pas ce que les autres pensent, pose ta main tout en douceur sur mon cœur. — A cigana cantou com a mesma potência baixa do padre, comprimindo seu corpo contra o de Frollo, sentindo-o estremecer junto a si — Danse tout contre moi, danse. Ne prends pas cet air d’innocence. Tu sais très bien que tout à l’heure, je prendrai ton cœur.
Claude a prensou com um pouco mais de força, seu êxtase por aquela menina pagã apenas crescendo. Desviando-o cada vez mais de seus caminhos tão solitários.
— Belle Andalouse. Fruit dangereux du sud de l’Espagne, fidèle et jalouse, fais balancer ton corps de gitane. Belle Andalouse. Quand le feu dévore tes yeux d’animal, brune et jalouse, pour le chasseur, la proie idéale... — Avançou sobre ela, tentado a concluir aquilo que haviam começado. Contudo, Esmeralda o empurrou com um sorriso travesso, afastando-se e batendo palmas no ritmo da música à medida que seu corpo a traduzia naqueles passos cheios de arte. Cheios daquela feitiçaria que desde o princípio arrancou Frollo de seus trilhos. O sacerdote novamente a alcançou no meio de sua dança, abraçando-a agora com a mulher de costas para si, notando-a largar um pouco do seu peso contra o padre à medida que ele beijava seu pescoço, agora incapaz de se controlar. Alcançando o ouvido da egípcia, finalizou a música ainda aos sussurros — Belle Andalouse. Fruit dangereux du sud de l’Espagne, fidèle et jalouse, fais balancer ton corps de gitane. Belle Andalouse. Quand le feu dévore tes yeux d’animal, brune et jalouse, pour le chasseur la proie idéale. Belle Andalouse...**
Esmeralda concluiu seus passos num giro elegante, novamente de frente ao padre, arfando não só pela dança, mas também pela intensidade daquela presença.
— De onde conhece essa música, monsieur? — Deixou que suas mãos descansassem no peito pálido do homem, admirando-o com notório fascínio, incapaz de desviar o olhar para qualquer outro lugar que não tivesse o sacerdote por foco.
— Dos meus dias de garoto... — Respondeu, de início vago, mordendo os lábios de sua cigana antes de beijá-la com certa urgência, pouco interessado naquele assunto. A egípcia se deixou levar por um momento, logo recobrando sua curiosidade.
— Sua infância? Não me diga que...
— Que vivi meus primeiros anos no Pátio dos Milagres, cigano assim como minha mãe. — Confidenciou, pouco habituado àquela expressão deslumbrada que o tinha por alvo — Era a música que ela mais gostava de dançar, por isso a lembrança permaneceu até hoje, creio.
— É mesmo um homem surpreendente, Claude Frollo. Não me canso de descobri-lo...
Foi Esmeralda quem, dessa vez, deu início ao beijo, tão necessitada quanto o homem por aquela proximidade. Arrepiou-se por completo quando a mão esquerda do padre subiu por suas costas, erguendo vários centímetros da barra do seu vestido, embrenhando-se ao corpo de sua cigana na medida de todo possível.
— Me ajude com esse vestido, monsieur... Ou só eu acho que ele está nos atrapalhando terrivelmente? — Esmeralda lançou um sorriso jovial e um tanto peralta ao padre, não escondendo sua respiração pesada. Nenhum indício de medo ou hesitação em seu semblante, apenas uma expectativa límpida.
Frollo imediatamente pôs-se a desatar a tira de pano que prendia a vestimenta às costas da egípcia, alargando o tecido nas curvas da mulher. Ela despiu-se em movimentos rápidos, deixando completamente à mostra o corpo moreno que tanto ensandecia o arquidiácono, ainda com alguns resquícios dos hematomas causados por Phoebus. O padre grunhiu, puxando-a para si pela cintura enquanto a outra mão, sozinha, o livrava da inconveniente calça negra de sacerdote.
Tirou-a às cegas, mais alucinado do que nunca pela mulher que o mantinha enclausurado em cada uma de suas heresias. Aprofundou o beijo, cada perímetro de sua pele ardendo em brasas naquele contato mais íntimo com sua egípcia.
A maior de todas as suas perdições.
Ao mesmo tempo, sua única redenção.
Conduziu-a à cama singela de seu aposento, mal compreendendo como ainda não se descontrolara ao ponto de tomá-la ali mesmo, de pé contra a parede fria. Ajoelharam-se sobre o acolchoado, e antes mesmo que pudessem se acomodar, Frollo introduziu-se nela, afetado em cada nível por aquele desejo que apenas crescia.
Esmeralda soltou um arquejo curto, ajeitando o quadril contra o padre, pressionando suas pernas fartas ao redor da pelve masculina. O sacerdote correu seus dedos com urgência pelos seios e glúteos da menina, arfando à medida que também se ajustava à posição que ocupavam.
Esmeralda o enlaçou num abraço pouco cuidadoso, as mãos o segurando pelas costas feridas enquanto o sentia estocar com vontade sobre si, arqueando o corpo que se retorcia em deleite. Frollo sequer notou as unhas de Esmeralda pressionando um de seus cortes num aperto inconsciente, permitindo que um filete de sangue escapasse dali.
O arquidiácono a comprimiu ainda mais com seu próprio corpo, necessitado a senti-la contra sua pele, instigado a vê-la também pulsante naquele desejo compartilhado. A cigana elevou o rosto de olhos fechados e boca entreaberta, vivenciando ao máximo a sensação abrasadora de Frollo dentro de si. Ofegou ainda mais alto quando percebeu os lábios do homem sobre seu queixo, deslizando com suavidade até o pescoço, o toque úmido de sua língua contribuindo às ondas de arrepio que faziam conjunto àquele frenesi em comum.
Ergueu o rosto de Claude à altura do seu, beijando-o mesmo com o ar já escasso à sua volta, aumentando o ritmo e a intensidade com que seu quadril se movimentava de encontro ao padre. Gemeram num conjunto sincrônico, criando ali, naquele cubículo desordenado, os novos sons de Notre Dame.
Mantiveram-se naquele arranjo de seus corpos por menos tempo do que gostariam, paulatinamente desacelerando a cadência do sexo até que ela cessasse por completo, e restasse apenas os arfares de suas vozes distintas. Não ousaram desatar a proximidade de suas peles quentes, ainda saboreando em conjunto as últimas notas de prazer daquele instante.
Esmeralda tentava organizar os pensamentos para falar, mas antes que fosse capaz de exprimir alguma palavra em voz alta, o sacerdote a buscou para um novo beijo, todo ousado nos lábios que se escavavam aos da boêmia com sofreguidão, como se o momento recém compartilhado não pudesse bastar.
Deitou-a através do próprio corpo que ia se colocando acima do dela, sem ousar interferir no beijo que ainda partilhavam cheios de afã. Apenas quando Esmeralda sentiu o peso de Claude deitado contra si, o padre permitiu-se afastar de leve, admirando sua cigana com verdadeira adoração nos olhos amendoados, o brilho castanho dos orbes completamente perdidos dentro das íris verdes.
Ela se despediu daquele momento pousando um beijo doce nos lábios finos de Frollo, em seguida afundando o rosto contra a curva lívida de seu pescoço, aspirando com enorme satisfação o aroma que naturalmente se desprendia de sua pele.
— Amo o seu cheiro... — Confessou, aquele mesmo sentimento gentil de segurança se apossando dela sempre que o tinha naquela proximidade irrisória. Sempre que estava perto o bastante para que pudesse sentir seu perfume da própria fonte.
— Já eu amo tudo em você, menina! — Replicou, deslizando para o lado e a trazendo para mais perto, os dedos resvalando pela cintura feminina bem marcada.
Esmeralda analisou com total empenho os olhos do sacerdote, procurando por qualquer falsidade que desmentisse aquela afirmação. Porém, deparou-se apenas com verdades e certezas naquele contemplar.
— E eu sou boba o suficiente para acreditar nisso... Para me deixar ludibriar com sua intensidade...
— Nada do que eu disse é mentira, ma belle. — Acariciou o rosto astuto que o fitava atentamente, como se jamais parasse de ponderar cada uma de suas palavras — Estou mesmo disposto ao que for preciso para tê-la ao meu lado. Isso se ainda lhe parecer conveniente continuar a me desvendar...
Esmeralda riu com graça, beijando o peito do homem e pendendo a cabeça ali para que pudesse descansá-la. Fechou os olhos, sentindo sua energia física completamente esgotada após aquele longo dia corrido.
— Farei o possível para isso, meu bom cigano. — Respirou mais profundamente ao senti-lo acariciar suas costas com as pontas dos dedos, deliciada por renovar sua certeza de que sua origem era o menor dos problemas entre eles — Se importa se eu passar o resto da noite aqui, monsieur? A cama é pequena, mas não acho que isso seja um problema para nós... — Sorriu com malícia, acomodando suas pernas entre as do arquidiácono conforme ajeitava o corpo para mais perto do homem, como se ilustrasse seu ponto de vista.
— Fala como se eu fosse tolo em deixá-la partir... — Apertou-a ainda mais em sua direção, notando o peito de sua egípcia tremer num novo riso satisfeito. Queria mais uma vez tomá-la a seu bel prazer, mas percebia o quanto ela parecia exausta.
Ficaram algumas respirações em silêncio, a cigana cada vez mais entregue ao torpor. Espantava-se com a facilidade com que seria fácil adormecer naqueles braços. Ela acariciou a nuca do padre em movimentos lentos de quem está prestes a se deixar levar por um sono pesado.
— Se ainda confia em seu deus, reze para que nada aconteça pela manhã. Os meus já pararam de atender minhas preces há tempos, talvez o seu ainda te escute.
— Não creio que nenhum deus esteja disposto a me ouvir. Não mais. — “Se ouvisse, não estaria nessa situação com você...”, pensou, naquele aspecto um tanto grato por se tornar um pária religioso.
A estrangeira já parecia dormir, e Frollo sequer sabia dizer se a mulher chegara a escutar sua resposta. O ventre feminino oscilava com regularidade à mercê da respiração profunda, tranquila.
Invejou a egípcia pela capacidade de descansar naquelas circunstâncias. Frollo sentia-se totalmente desperto, cada sentido alerta na presença do corpo feminino despido junto ao seu. Queria-a novamente. Quantas vezes fosse capaz de tê-la, se possível até o fim de seus dias.
Tentou fechar os olhos e se distrair da boêmia que ressonava contra si, mesmo naquele momento inocente ainda capaz de fazê-lo arder em brasas, consumido pela cobiça mais bestial que já sentira em vida. Logo reabriu as pálpebras, percebendo que seu esforço em se tornar indiferente à Esmeralda seria inútil.
Se continuasse ali, não conseguiria se conter por muito mais tempo, sabia.
Tomando todo o cuidado para não despertá-la, o padre desvencilhou-se das curvas convidativas de sua menina pagã, tomando um rumo oposto no quarto. Foi até a janela circular, abrindo-a em busca de algum ar que lhe trouxesse conforto.
Escorou-se ali, tentando desvencilhar-se das imagens recentes e perturbadoras que vieram atormentá-lo já naquela madrugada. Sua Esmeralda dançando contra si, sedutora. Seus passos intrépidos programados para enlouquecê-lo, assim como os verdes olhos que sorriam para o homem. Sua Esmeralda despida, compartilhando com ele uma necessidade igual. A pele morena de encontro à sua, tão macia como se Frollo estivesse diante do cetim mais caro da humanidade.
Sua Esmeralda firmando com ele a mesma sincronia do sexo, tomados por volúpia. Dando voz às paredes frias da catedral.
Sua Esmeralda. E apenas sua.
O arquidiácono forçou o tronco para fora da abertura da janela do recinto, pela segunda vez naquela noite tomado por um desejo indomável. A respiração estava novamente carregada, e algumas gotículas de suor evidenciavam o esforço que retomar o próprio controle havia se tornado.
Forçou-se a prestar atenção na paisagem que adornava a vista dali, realmente assustado ao perceber que aquela noite com Esmeralda apenas o atiçara por mais. Muito mais. Não havia satisfação alguma pelo fato de finalmente prová-la. A plena exultação fora alcançada apenas durante o tempo em que se manteve dentro da egípcia, sentindo-a com plenitude como parte de si.
— Nem assim... — Sussurrou de olhos fechados, a cabeça baixa numa rendição alarmada — Nem mesmo tendo-a ao meu lado, como quis desde o início, encontrarei alguma paz... Alguma misericórdia... — Esfregou os olhos, não conseguindo tirar aquelas imagens perturbadoras da cabeça — Meu inferno já começou, sem esperar pelo juízo final... Antes mesmo que me veja compelido a pagar por meus pecados, no tempo justo.
Gastou um pouco menos de uma hora se obrigando a manter distância, sequer se permitindo um rápido relance de sua boêmia. Contava as respirações como uma forma de tentar retomar o controle, em vão. Durante cada segundo chegava a ser capaz de sentir Esmeralda contra si, provocando-o com seus olhos cheios de intenções ambíguas .
Em algum momento daquela batalha interna o arquidiácono não resistiu, voltando o olhar para a estrangeira que ainda era levada por um sono sereno. Toda a potência de seu desejo voltou ainda mais forte com a nova visão daquele corpo.
Agora de costas para si, Esmeralda era banhada pela luz da lua que adentrava de sua janela, as curvas se insinuando ainda mais em meio ao contraste que se criou quando o brilho alvo do astro encostou-se à sua pele morena.
O padre avançou até o singelo leito com sofreguidão, dominado por tantas luxúrias que raciocinar se tornou um estorvo penoso. Novamente se posicionou ao lado da mulher deitada de costas para si, beijando seu pescoço altivo à medida que a mão se enchia com seu seio direito, massageando-o.
Esmeralda, num sobressalto, abriu os olhos no mesmo instante, por um rápido momento acreditando que estava nas cercanias do Pátio dos Milagres, no exato minuto em que despertara da violência sexual de Phoebus. Enquanto perdurou aquele pensamento repleto de angústia, imaginou que logo gritaria de dor ao sentir a mão do capitão beliscando seu mamilo de forma maldosa, até perceber que os toques em si eram os mais gentis possíveis. Prazerosos, até.
Relaxou num profundo alívio ao relembrar os acontecimentos da noite, soltando uma expiração pesada quando se deu conta de que estava em segurança na catedral. Nos aposentos privados de Frollo.
Pousou a mão por cima da dele, que ainda apertava seu peito com cuidado, a respiração rápida tentando dissipar o enorme pavor que a fez acordar. Virou de frente para o homem, pronta para algum comentário que se perdeu na sede do arquidiácono. Mais uma vez seus lábios encontraram os dela, abrasivos naquele deslizar urgente, que logo fizeram a confusão da cigana dar espaço à mesma ambição que o movia.
Claude se colocou acima dela, segurando uma de suas coxas de forma que a perna da mulher se flexionasse junto à lateral de seu tronco, a percepção de tê-la daquela maneira tão íntima e completa fazendo crescer seu tormento pessoal, assim como sua visão do mais alto nível de prazer já alcançado.
Seu membro viril rígido novamente estocou contra o órgão genital da cigana, penetrando nele como se o encaixe entre ambos fosse perfeitamente complementar.
Deleitou-se com o atrito criado entre seus corpos naquele movimento carnal, querendo prolongá-lo até o término de seus dias. Aceitando de bom grado habitar os domínios de Lúcifer se aquela mulher pudesse compartilhá-lo com ele.
“Ao seu lado, o inferno será meu paraíso!***” — Percebeu aquilo que já sabia, invadido por um êxtase ainda maior.
Esmeralda arfou, pondo-se a beijar a veia saltada que marcava o pescoço do padre, alcançando numa trilha o lóbulo de sua orelha, a perna que Claude ainda segurava com uma das mãos se constringindo com mais força sobre o corpo do sacerdote, como se tencionasse aprofundar aquela união o máximo possível.
A mão livre de Frollo foi vencendo distância pela extensão do braço da cigana, entrelaçando seus dedos aos dela assim que suas palmas se alcançaram. Diante daquele toque mais carinhoso, a boêmia segurou a nuca do homem, escavando os dedos nos fios não tão organizados de seu cabelo nos primeiros tons grisalhos, subindo por sua cabeça.
Arqueou o tronco em sua direção, o embalando num beijo necessitado pelo toque de sua língua, deixando cada vez mais claro a ele que sua cigana também o desejava com força semelhante. Talvez não na mesma intensidade alucinada que ele conhecia, mas grande o suficiente para acompanhá-lo naquela jornada.
— Você me cega, menina... — Arquejou, ainda junto de sua boca, escavando os dedos na carne da perna feminina, delineada num arco sobre seus glúteos. Ela respondeu aumentando a urgência do beijo, a mão que se mantinha intrincada à dele se emaranhando com ainda mais firmeza naquele enlace.
À medida que a egípcia o notava dentro de si, o suor por sobre seu corpo crescia proporcionalmente ao prazer das investidas contra seu sexo, alerta apenas às sensações que aquela união provocava.
O ritmo de seus quadris novamente foi ficando mais espaçado após o ápice, e por mais que Frollo resistisse contra o derradeiro fim, acabou deitando ao lado da mulher, ambos disputando em seus estados ofegantes.
Esmeralda acariciou o rosto do sacerdote, retirando de sua testa salpicada de suor os fios mais desgrenhados. Os verdes orbes o miravam com certo arrebatamento, o tipo de deslumbre que Frollo jamais fora capaz de despertar em ninguém. Algo para tirar ainda mais o ar de seus pulmões...
...Algo para que, a cada instante, ele tivesse uma noção um pouco mais ampla da paixão desenfreada que albergava dentro de seu íntimo perturbado. Disposto a tudo por novos momentos como aquele. Por mais da doçura de Esmeralda para abrandar os aspectos tão amargos de sua existência.
— Não conseguiu dormir? — Ela inquiriu assim que reencontrou a voz, ainda mantendo o mesmo olhar abrasador sobre o padre.
— Com você aqui, repousar se mostrou muito além das minhas capacidades...
— Deveria me sentir culpada por isso? — Estreitou os olhos daquela forma desafiadora e charmosa que Frollo tanto amava, um sorriso de canto o provocando.
— Sua única culpa foi ter demorado tanto a se mostrar a mim. Esta falta é imperdoável, mademoiselle! — Troçou, arrancando de sua cigana uma expressão arteira diante daquele seu atípico bom humor, tão raro à sua personalidade mais rigorosa.
— Sei que ainda posso me redimir, monsieur! — Atestou, um enorme sorriso fazendo vir à mostra as covinhas que se tornaram mais raras no rosto egípcio.
Ela aconchegou-se contra o arquidiácono, encostando com leveza os lábios nos dele, conduzindo aquele novo beijo numa lentidão serena, bem diferente dos toques urgentes que haviam trocado há pouco tempo. Frollo se deixou levar pela destreza daqueles lábios fartos, habilidosos quando se propunham ao ofício de ensandecê-lo. Mantiveram o sincronismo daquele roçar pelo que pareceram minutos inteiros, apenas parando quando um baque seco chegou aos seus ouvidos.
Afastaram-se de pronto, aguçando os sentidos a fim de definir a fonte distante daquele ruído brusco. Não demorou mais do que um segundo completo até que ele novamente se propagasse pela catedral, ainda mais decidido e forte.
Esmeralda fitou o sacerdote com pesar, os verdes olhos temerosos quando anunciou aquilo que o próprio Frollo já parecia compreender por si só.
— Os ciganos... Eles chegaram!
Fale com o autor