O Preço da Magia
11 Episódio 11: Ton Pays Qui M'apporte Le Malheur Et La Mort
Notas iniciais
O sineiro deslizava com cuidado alguns de seus dedos pelo cabelo todo formado em cachos de Esmeralda, observando aquele semblante de traços tão suntuosos repousarem com intimidade sobre seu colo de pernas tortas, a cigana aconchegada ali de uma forma tão despreocupada e tranquila que apenas fazia a afeição de Quasímodo por aquela mulher crescer. Nunca, em toda a sua vida, fora tão íntimo de alguém.
Nem mesmo de seu mestre, Claude Frollo, a quem alimentava semelhante adoração.
Ali, em seu colo desajeitado e pouco confortável — ele supunha —, a egípcia respirava profundamente num sono regrado, calmo como há dias o sineiro não a via desfrutar... Parecendo de fato tranquilizar-se com sua presença de uma forma que chegava a confundi-lo, uma vez que sabia que o natural seria a visão de suas deformidades causar tormento e asco às pessoas normais.
Mas Esmeralda nunca fora normal para aquele jovem rapaz, tomado por sonhos e doces devaneios com a menina que, por longas horas, repousou sonolenta em suas coxas mal formadas.
O corcunda sentiu-se estremecer quando percebeu a estrangeira revirar o corpo de leve, inspirando com um pouco mais de força antes de abrir os olhos verdes em sua direção e brindá-lo com um pequeno sorriso, sutil, porém tomado de gratidão.
Nenhum indicativo de nojo. Nenhum sinal de assombro. Como se aquela mulher de fato conseguisse ver além do monstro que o sineiro sabia ser.
— Como está se sentindo? — Ele não tardou a perguntar, fitando-a com expectativa — Um pouco melhor?
— Muito... — A estrangeira se ergueu do aconchegante colo, espreguiçando brevemente os músculos do pescoço antes de ajeitar o corpo ao lado de seu amigo, agora também sentada. Olhou-o com ternura, como se agradecesse em silêncio, e aquele era o tipo de expressão que Quasímodo mataria para ver sempre direcionada a si através daqueles verdes orbes — Fazia um bom tempo que não conseguia descansar tão bem assim... Me perdoe por fazê-lo ficar aqui a noite toda, Quasi, ainda mais nessa posição horrível... Eu realmente não esperava dormir tanto — Desculpou-se, sentindo-se culpada ao perceber que quase amanhecia. Que, pela primeira vez em dias, conseguira uma noite completa de sono às custas do descanso de Quasímodo, que se manteve fielmente ao seu lado, zelando por aquele repouso necessitado.
— Eu nem percebi o tempo passar... — Confessou, sincero, ele também surpreso com a madrugada que se tornava paulatinamente mais clara, até aquele instante totalmente perdido no rosto da bela cigana para ousar prestar atenção ao seu redor. Adormecida, Esmeralda exalava um tipo diferente de encanto, porém tão magnético quanto em seus momentos despertos — O importante é que conseguiu descansar.
— Você é um doce, meu amigo. Jamais vou esquecer tudo o que fez por mim! — Beijou-o sobre a mandíbula, acariciando a outra face com a mão, criando no sineiro um arrepio do mais puro deleite com o contato inesperado. Contudo, o prazer de Quasímodo logo se tornou preocupação ao vê-la reclamar baixo de dor, segurando com dedos trêmulos o corpo na altura das costelas, logo abaixo do seio direito.
— Esmeralda... — Ele a auxiliou, ajudando a estrangeira a se acomodar melhor. Num átimo de coragem, fez a pergunta que tanto o incomodava, mas que acabara guardando para si a pedido da própria boêmia — Quem fez essa crueldade a você?
— Isso não importa mais, meu amigo... Aquele que me machucou não tornará a fazê-lo... — Disse, evasiva, recordando-se do momento em que Frollo matou o capitão Phoebus com as próprias mãos, chegando a sentir algum prazer mórbido com a lembrança, por mais que às vezes ela se pegasse pensando que gostaria de ter sido ela a autora do assassinato. Inconscientemente, a cigana se viu aconchegando-se ao manto do arquidiácono que ainda a cobria, experimentando algum conforto com o toque daquele tecido, que mesmo vestindo o corpo da cigana por tantos dias, ainda preservava algum resquício do odor do padre.
Um odor que, assim como o próprio Quasímodo, lhe trazia algum alívio naqueles dias turbulentos.
— Tudo o que eu mais quero é esquecer o que houve e retomar minha vida, Quasi. Estou começando a sentir falta dos meus dias no Pátio... — Pensou com tristeza em Clopin, e o quanto o líder devia estar preocupado com a ausência da boêmia naqueles últimos dias em que se recuperava na catedral.
Mal desconfiando que o cigano também precisava lidar com um cenário nada favorável.
— Meu mestre disse que é importante que repouse aqui por enquanto. Manter-se descansada num lugar sereno como Notre Dame fará bem à sua recuperação.
— Sim, eu sei... Mas queria ao menos poder usar minhas próprias roupas... — Olhou para o manto negro de Frollo com alguma culpa permeando as íris — Sinto que sou um incômodo aqui. O padre não parece muito confortável com a minha presença...
— Não se preocupe com isso. Meu mestre Frollo tem uma personalidade mais sisuda, não significa desagrado... — Comentou, seu tom de voz sempre angariando um timbre mais suave ao se referir àquele homem, por quem daria a própria vida sem ao menos pestanejar. Adorava-o, e jamais tentaria camuflar aquele sentimento de quem quer que fosse — A vida sempre foi muito dura com ele, mas é uma pessoa acima de tudo boa. Muito boa. A melhor que já conheci, além de você... — Enrubesceu em meio àquela confissão, desviando o olhar para os primeiros raios de sol que já queriam invadir o recinto.
Esmeralda segurou a mão do sineiro com afeto, beijando os grossos dedos de seu amigo, verdadeiramente grata por tê-lo em sua vida.
— Tenho certeza que sim. Afinal, ele criou o parisiense mais gentil que existe... — Deu um riso curto ao perceber o olhar exultado do amigo sobre si, mas logo parou, novamente acometida por pontadas incrivelmente dolorosas no lugar em que Phoebus a acertara com o joelho.
— Você está pálida... — Quasímodo constatou, de súbito preocupado. Pousou com cuidado a mão sobre a testa morena da cigana, e seus traços se deformaram ainda mais ao aferir a temperatura de sua pele — ...e quente! Está com febre!
— Não se preocupe, meu amigo. Já estive pior...
Quasímodo, prestativo como sempre se demonstrou com a estrangeira, segurou-a com extremo zelo, conduzindo seu corpo febril a deitar na cama com maior conforto, cobrindo-a logo em seguida. Afastou alguns cachos mais rebeldes do rosto de sua amada, avaliando sua palidez com algum receio.
— Vou chamar meu mestre. Ele saberá o que fazer! — Avisou, deixando a cigana sozinha antes que ela pudesse protestar.
Esmeralda fechou os olhos, sentindo sua respiração se concentrar num ritmo entrecortado, incapaz de aprofundar suas inspirações pela aflição incisiva em seu tórax. Aguardou pelo que pareceram horas sem ousar trocar aquela posição, temendo ser invadida por uma nova onda de dor se tentasse.
Quasimodo retornou o mais rápido que pôde, ajoelhando-se defronte à mulher com seu típico olhar dócil, um olhar que era estranho à cigana não pelas assimetrias que o marcava, mas pela afabilidade que reconhecida dentro dele, algo tão raro de se direcionar aos egípcios.
— Ele logo virá! — Anunciou, terno, acarinhando o rosto da cigana como se visse ali algo valioso e frágil — Enquanto isso, acha que consegue comer? Trouxe pão e algumas uvas...
Esmeralda concordou, dispensando o pão e trazendo para perto um cacho da fruta escura, vistosa naquela cor madura. Ergueu o corpo bem de leve, apenas o suficiente para conseguir engolir com maior comodidade, e mastigou em movimentos vagarosos, apreciando o sabor adocicado que invadiu seu paladar.
Sorriu para o sineiro quando terminou de comer, e embora o corcunda insistisse para que ela se alimentasse um pouco mais, a estrangeira negou, voltando à posição antiga.
— Mais tarde talvez, Quasi. Obrigada.
— Eu preciso tocar os sinos... Acha que ficará bem sozinha?
Esmeralda soltou um riso curto, mas nele não havia qualquer traço da antiga alegria. Não se via ali nada de sua felicidade contagiante desde que chegara a Notre Dame com seus muito machucados, que pouco ela se propusera a explicar.
— Eu não estou à beira da morte, Quasi... Pelo menos eu acho que não... Pode ir. Eu vou ficar bem! — Garantiu, sentindo-se um pouco mais disposta somente por comer alguma coisa, ainda que pouco.
— Eu volto assim que puder! — Murmurou, agora ele pousando um beijo tímido sobre a testa ardente da cigana, que sorriu, agradada pela demonstração de afeto. No minuto seguinte, como se o corcunda fosse dominado pela vergonha de sua pequena ousadia, já deixara o aposento, caminhando com pressa em direção ao campanário.
Os olhos de Esmeralda foram atraídos para a cabra, que se arrastou alguns centímetros até o leito da humana agora que acordara. O animal pousou o rosto sobre o colchão, tocando o focinho úmido sobre o nariz de Esmeralda, como se a saudasse. E por vários minutos se manteve naquela postura, contemplando a mulher que tanto amava enquanto sentia deliciosas carícias passarem por seus pelos, os dedos da estrangeira movendo-se em movimentos suaves, pouco firmes.
— Como você está, Djali? — Perguntou, satisfeita por perceber um olhar mais alerta do animal, um pouco mais próximo do que costumava ser antes que aquele maldito capitão a atacou — Quer subir aqui? — Questionou, dando espaço e a ajudando a se aconchegar na cama, ainda que o esforço piorasse a dor em seu tórax.
E ali permaneceram deitadas, por um bom tempo aproveitando a companhia da outra, até que ambas voltassem a dormir, exaustas mesmo após todo o descanso do mundo.
Foi aquele mesmo odor almiscarado que embalou a cigana numa sonolência letárgica, dando à mulher um pouco de consolo em meio ao desespero que a acompanhava. Algo bom em que se concentrar. Algo que a distanciava dos maus pensamentos como uma distração bem vinda.
Sem que Esmeralda percebesse, ainda envolvida pelo torpor de um sono atrasado, que há tempos não a contemplava, a manhã tornou-se tarde, e a tarde começou a esconder o sol atrás de um horizonte que já ameaçava escurecer. Acordou atordoada, com os últimos raios de luz, apenas por perceber que não estava mais sozinha.
Apesar de enferma, seus sentidos pareciam ainda mais aguçados após o estupro.
Assustou-se ao perceber o padre diante de si, apenas alguns passos distante, encarando-a com aquele mesmo olhar reservado, mas que a ela parecia perturbado em algum nível desconhecido. Eram tantos os mistérios que o envolviam, que mesmo após salvá-la do capitão, não estava certa de que poderia confiar plenamente no arquidiácono.
— Quasímodo mencionou que você está febril... — Ele se adiantou a dizer quando a viu desperta, parecendo conter algum tipo de vontade, seus olhos resolutos também questionadores sobre a cigana. Aquele mesmo brilho intenso marcando suas íris castanhas de uma forma que arrebatava Esmeralda, tamanho o ardor dos olhares que sempre destinava a ela.
— Parece que sim, um pouco... — Concordou, erguendo o tronco de forma a sentar-se sobre a cama, um pouco mais confortável em retribuir os olhares do arquidiácono depois do que lhe aconteceu. Um suspiro dolorido escapou dos lábios ciganos quando a mulher se moveu, algo que o padre percebeu com interesse.
Claude Frollo sentou-se na beirada do colchão, sob os olhares atentos de Esmeralda e Djali, e dono de movimentos cuidadosos, pousou a mão fria sobre a lateral do pescoço da egípcia, que pôde sentir um breve tremor se propagar nos dedos do padre assim que ele encostou em sua pele. Ela mesma sentiu-se agitar de leve, muito cautelosa à proximidade contida do sacerdote.
— Está um pouco quente, de fato... — Constatou, tentando soar indiferente. Tentando, acima de tudo, manter seus demônios apenas dentro de si — Onde dói?
Esmeralda permaneceu calada, porém instintivamente à pergunta seus dedos se moveram ao local que às vezes a arrebatava com uma ou outra pontada de dor, e Frollo de imediato percebeu o que aquele sinal refreado e instantâneo significava.
— Com licença... — O homem pediu, fazendo menção de erguer o manto a fim de verificar a lesão. Bastou segurar na barra do tecido negro para desencadear memórias intensas na estrangeira, que logo pôs-se numa postura defensiva.
Esmeralda agiu por puro instinto, acuando-se com violência contra a parede. Afastou-se o quanto foi permitido naquele espaço limitado, recordando numa onda de pânico o momento em que Phoebus rasgara sua blusa e, por conseguinte, toda a violação que se seguiu após aquela surgiu com uma explosão de vivacidade em sua mente torturada, aumentando ainda mais o seu pavor diante daquela situação que aparentava ser inocente.
A egípcia pouco se importou com a dor vigente em suas costelas após o movimento brusco de seu corpo, alerta apenas ao perigo daquela investida.
— Não se aproxime! — Avisou arredia, a voz trepidante traindo o quanto parecia dominada pelo trauma naquele momento.
Frollo, afastando-se um pouco diante daquela reação violenta, apenas a encarou com um olhar prático, ainda capaz de camuflar seus piores e mais impregnados desejos. Ela tinha razão em temê-lo. Em ver em si uma potencial ameaça, tão ou mais perigosa do que o próprio Phoebus, mas o padre ainda dispunha de um fiapo de controle, que por mais dolorido que fosse, prevalecia em suas ações até o momento.
— Não se preocupe. Quero apenas atestar a gravidade desta dor que demonstra.
— Não vejo por que um religioso se interessaria por isso... De que adianta ver uma ferida se não saberia como tratá-la? — Replicou, tentando soar sensata enquanto ainda se esquivava. Esquecendo-se, por um instante, que fora aquele mesmo homem a cuidar de seus machucados mais urgentes quando a abrigara ali, assim como fizera também com Djali.
— Se é isso que a preocupa, pode acalmar-se então. Depois de dominar a teologia, lancei-me no estudo da medicina — Frollo avisou, calmo como jamais voltaria a se sentir em seus amaldiçoados dias, degustando da surpresa que viu nascer nos verdes olhos da cigana, a dúvida ainda mais incrustada em sua feição agora ambígua — Sou considerado perito em febres, ferimentos, abscessos e contusões. Sou licenciado médico fisicista e médico cirurgião.
— O senhor não é novo demais para ter conquistado dois ofícios em tão alto grau? — Questionou, ainda desconfiada, porém agora com uma centelha de curiosidade permeando em seus traços espertos, receosos.
— Tenho quatro, na verdade. Também me dediquei aos estudos do Decreto e das línguas.
— Fez todas as quatro faculdades de Paris? — Esmeralda lançou-lhe um olhar incrédulo, a curiosidade fazendo o temor quase se dissipar por completo de seus traços agora abismados, ainda mais atraentes com aquela nova fagulha de vívido interesse.
O tipo de olhar que jamais havia sido direcionado ao arquidiácono.
Claude anuiu num movimento de cabeça quase imperceptível, mantendo o intenso contato visual que a cigana se encarregara de firmar com aqueles olhos dissimulados, sem saber de onde tirava suas forças para controlar-se. Ciente apenas de que não poderia calar suas ambições vorazes por muito mais tempo.
— E agora, que já sabe tudo aquilo que é possível a um homem saber, faz o que para distrair-se? — Sem que percebesse, a cigana encurvou-se um pouco na direção do sacerdote, parecendo fascinar-se com a peculiaridade do homem.
— O conhecimento nunca finda. Sempre há o que buscar nos livros. A alquimia é um exemplo da constante evolução da ciência, provavelmente o melhor.
Algo nos olhos da egípcia se acendeu com ainda mais força, e Frollo precisou conter um arfar diante daquela expressão tão intensa que o tinha por alvo. Naquele rápido instante, percebeu seu desejo por Esmeralda irracionalizar-se ainda mais, e o que ele achava não ser possível aconteceu. Sua cobiça tornou-se ainda maior. De uma urgência sufocante, que lhe tirava o ar.
— Aquela ciência que está sempre em busca de descobrir como fabricar ouro? — Questionou, de leve boquiaberta.
— Entre outros conceitos, sim, essa mesma... — Claude franziu o cenho, agora ele impressionado pelo fato de Esmeralda parecer um pouco familiarizada com a principal pretensão da alquimia. Uma pretensão que até o momento fora frustrada.
A cigana deu um breve sorriso, sua expressão agora parecendo divertida. O primeiro lapso realmente legítimo de alegria desde a violência sofrida às margens do Pátio dos Milagres. Lançou um conciso olhar risonho ao arquidiácono, pela primeira vez desde o acidente com Phoebus esboçando uma reação que parecesse condizente com sua personalidade mais leve. Que fosse verdadeira, de alguma forma.
Aquela visão, apesar de lacônica, de imediato aqueceu o peito do sacerdote, percebendo o quanto sentira falta de sua alegria tão espontânea e, principalmente, de seus sorrisos antes costumeiros. Naquele instante lembrou o quanto detestava o capitão por apagá-los do rosto egípcio. Um rosto que, contra todos os seus mais enraizados preceitos, aprendera a amar de uma forma implacável.
— Por acaso acha a ciência digna de risos? — Ergueu uma única sobrancelha, sério, sem saber exatamente o que o movia a suprimir tanto as verdadeiras vontades, a escorraçar para o mais longe que pudesse as reais urgências que sua alma implorava.
— Não, nem um pouco... Mas realmente acho espirituoso que um padre se preste a mexer com conceitos daquilo que sua religião condena.
— Como? — Questionou, agora de fato sem entender.
— Feitiçaria... O motivo pelo qual sua igreja vive perseguindo meu povo... — Explicou, finalmente um pouco mais calma, quase permitindo-se descontrair naquela presença sempre tão aterradora.
— Ciência não pode ser comparada ao sortilégio de seus ritos pagãos... — Rebateu, rígido. Quase testemunhando o seu íntimo destruir-se em ruínas ao perceber um novo sorriso matreiro direcionado a si, a expressão de leve peralta contribuindo para fazer crescer os perjúrios que se alimentavam da pouca fé de Frollo.
“Uma fé extinta, que de nada me vale agora...”
— Quer feitiçaria maior do que tentar mudar a natureza de algo? De criar uma matéria a partir de uma essência tão subjetiva quanto a da luz*? Ou o senhor almeja ser uma espécie de deus, ou se familiariza com conceitos místicos. Creio que qualquer um desses dois casos seriam mal vistos na religião que representa, monsieur... — Concluiu de um modo arguto, que por um momento deixou o sacerdote sem palavras, algo extremamente raro a ele, sua expressão pela primeira vez franca ao demonstrar seu espanto com o raciocínio lógico traçado por Esmeralda — Talvez haja algo de cigano no senhor, afinal... — A egípcia completou, aumentando o transtorno que viu na expressão masculina e se sentindo um pouco mais tranquila por perceber no padre uma reação que não soasse tão comedida e quase artificial. Por testemunhá-lo finalmente humano. Sabia que aquilo que dissera era uma enorme afronta à posição do sacerdote, e que podia ser severamente punida por aquilo se o arquidiácono assim desejasse, ciente de que, por mais inocentes que haviam sido suas palavras, a religião intolerante daquele homem facilmente interpretaria seu comentário como o mais alto perjúrio, contudo não foi capaz de se conter uma vez que o percebera verdadeiro...
...Que uma parcela, ainda que ínfima, de seus mistérios se resolviam perante ela. E por mais que o percebesse sempre naquele porte austero, de poucos amigos, admirou-o profundamente por ver que se tratava de alguém completamente fora dos padrões daquela cidade normalmente cruel. Percebia agora por que Quasímodo era também tão atípico.
Mantiveram-se por um momento naquele silencioso encarar mútuo, cada um disposto a interpretar aquela rápida conversa à sua própria maneira.
Foi Frollo quem se obrigou a retornar à realidade primeiro, pigarreando com algum desconforto enquanto voltava a olhar para o mesmo ponto em que a cigana demonstrara sentir dor.
— Agora que já sabe acerca de minhas qualificações, acha que estou apto a avaliar sua ferida? — Inquiriu, vendo uma porção do medo retornar ao rosto egípcio, o corpo da mulher se retraindo por reflexo no mesmo instante.
Ela, contudo, assentiu, permitindo aquela proximidade por mais que não a agradasse.
Frollo, de forma muito delicada e ainda a fitando nos olhos, ergueu a barra do manto negro, até que se deparou com uma larga mancha roxa de bordas esverdeadas tingindo boa extensão da pele morena da estrangeira, o lado direito de seu tórax praticamente todo tomado por aquele hematoma enorme. Um sentimento raivoso o invadiu de imediato ao pensar em todas as formas com que Phoebus a ferira, e queria poder ter tido a chance de matá-lo mais lentamente. Proporcionar ao capitão a mesma dor. O mesmo desalento...
O arquidiácono tocou a mancha de leve, percebendo Esmeralda se retesar ainda mais, não sabia se por dor ou medo. Seus olhos verdes evidenciavam uma combinação dos dois, mas era o segundo que parecia um pouco mais pronunciado.
— Terei de conferir a integridade de suas costelas. Doerá bastante, na melhor das hipóteses... — Alertou, pouco gentil em sua honestidade, só então pressionando a extensão dos doze ossos longitudinais e palpando-os um por um, em busca de qualquer sinal de fratura.
O contato, apesar de parecer agonizante pelos arfares constantes de Esmeralda, era ainda mais penoso a Frollo, uma vez que sua aflição não chegava a ser física, mas era ainda mais dolorosa de se suportar naquela situação. Quando terminou de averiguar os possíveis danos daquele golpe desferido por Phoebus, deixou que seus dedos descansassem por alguns segundos a mais sobre a pele macia da cigana, precisando se forçar a desfazer o toque, usando para isso tudo o que restara de seu surpreendente autocontrole.
Quando sua vontade mais pujante era, na verdade, aprofundar aqueles toques, torná-los mais íntimos, até que fizesse Esmeralda inclinar-se completamente às suas vontades. Tomá-la como sua, em todos os significados mais amplos de posse.
— Não parece ter costela alguma quebrada... — Avisou, notando que no mesmo segundo em que afastou a mão da mulher, ela tornou a cobrir o corpo num movimento ávido, como se sofresse mais com a exposição parcial dele do que a própria agonia física sentida. — De qualquer forma, é recomendável que se mantenha no leito o máximo de tempo possível... Pode haver alguma fratura pequena que não foi possível identificar, e para que o osso se regenere sem complicações, o repouso é essencial.
Ela assentiu, voltando a deitar e cobrir-se, sentindo o próprio corpo um pouco vacilante pelos tremores.
— Nessas condições a febre não me parece preocupante. Uma defesa natural de seu corpo, que logo deve se abrandar. — Complementou, tentado a tocá-la uma segunda vez com a desculpa de novamente conferir sua temperatura, mas acabou desprezando aquele pensamento, sabendo que ele seria o único afetado caso se deixasse levar por tais impulsos.
Depois seria muito mais difícil freá-los.
O padre fez menção de se erguer, porém Esmeralda segurou sua mão numa velocidade surpreendente para alguém enferma. Claude se manteve estático, os olhos castanhos faiscando como nunca diante daquele contato que não fora iniciado por ele.
— Monsieur, espere... Por favor, me faça um pouco mais de companhia... As horas por aqui são muito solitárias, e Quasímodo deve estar exausto, precisando descansar. Só mais um pouco, por favor... — Pediu, ainda com os dedos firmes sobre os do padre, de fato intuindo que acabaria enlouquecendo se continuasse a maioria de suas horas conversando apenas com Djali, e dando voz às terríveis lembranças naquela condição em que se sentia mais reclusa do que propriamente enferma.
Frollo, sem nada dizer, permaneceu sentado ao lado da cigana, mal ousando mover-se naquela posição em que a egípcia ainda o tocava, sem evidenciar mais o mesmo medo que havia demonstrado por ele no início de sua visita.
Mais calma, em todos os sentidos. Algo que trouxe um contentamento indescritível ao atormentado sacerdote.
— Conte-me mais sobre seus estudos em alquimia... — Ela deu a ideia, de fato interessada sobre o assunto que tanto a surpreendera ser de interesse de um religioso. Curiosa, sobretudo, por aquele homem tão surpreendente que se enviesava para tantos lados distintos de sua real função.
Afinal, era raríssimo se deparar com um parisiense que demonstrasse ter a mente um pouco mais aberta aos enigmas da vida, que não se deixasse curvar pelas respostas fáceis e tão pragmáticas daquela crença. Por essa razão, inclusive, seu povo era tão perseguido.
Por algum tempo Frollo se dedicou a falar sobre, contando superficialmente à estrangeira o avanço quase inexistente que vinha obtendo naquele rumo de suas pesquisas, instigado pelas íris que se mantinham atentas a cada uma de suas palavras. Até que, por mais que ela parecesse relutar, suas pálpebras foram ficando mais pesadas, e cada piscada demorava um pouco mais do que a anterior, até que os olhos por fim se fecharam, rendendo-se mais uma vez ao sono, permitindo-se sossegar aquele corpo tão machucado após os vários estigmas que Phoebus lhe deixara.
Frollo calou-se, admirando a visão privilegiada que tinha da cigana, tão próxima a si. Tão disponível às suas vontades... Permitiu que uma de suas mãos roçasse de leve pelo corpo da mulher, até alcançar o rosto, incapaz de resistir àquela pequena oportunidade.
Os dedos pousaram suaves sobre o pescoço da cigana adormecida, o polegar alcançando o lóbulo arredondado de sua orelha delicada, degustando cada um daqueles toques não consentidos. Imaginando como seria fácil, naquele instante, suprir seus revoltosos anseios. Dar alguma voz às demandas cada vez mais angustiadas de seu corpo, de amenizar aquela flama que se acendera dentro de si numa combustão delirante...
“...Por sua culpa, cigana!”
Frollo, sem se permitir raciocinar sobre o que fazia, começou a afastar devagar a coberta do corpo de Esmeralda, contemplando sua silhueta tentadora. Já estava prestes a deslizar os dedos para dentro do manto negro que a vestia a fim de novamente sentir a suavidade de sua pele, de aprofundar-se em direção a alvos mais pretensiosos, quando ouviu os passos pesados de Quasímodo avançando pelos degraus.
O sacerdote rugiu baixo, travando novamente suas ambições cada vez mais desesperadas. Tornou a cobri-la num contragosto enraivecido, amaldiçoando o sineiro e a si mesmo. Amaldiçoando, acima de todos, aquela menina de traços exóticos que tanto o tirava de seus rumos. Que guardava, sob aquela feição angelical, os ardis mais perigosos do inferno...
...Que ainda o levaria à sua própria ruína, esta chegando ao seu encontro num galope preocupantemente veloz.
Tão inevitável quanto sedutor.

Durante aqueles dias, o Pátio dos Milagres parecia mais silencioso do que de costume.
As ciganas, que sempre encontravam motivos para expressar seu canto e sua dança, pareciam se comportar de uma maneira mais resoluta, até mesmo as crianças portando-se de modo mais passivo em meio àquele comportamento atípico.
Algo na atmosfera que envolvia os egípcios parecia errado, e os membros mais idosos da comunidade cigana, pela sabedoria que acumularam ao longo dos anos, puderam sentir com mais profundidade os maus presságios agourentos que se instalava sobre aquele solo.
Um solo que fora proclamado por estrangeiros, mas que, ao que tudo indicava, não poderia ser mantido por esse mesmo povo por muito mais tempo.
Clopin fitava o horizonte numa contemplação perdida, o líder também afetado pelo clima mais melancólico que rondava aquele povo normalmente tão alegre...
...Como se pudessem prever algo que ainda não eram capazes de vislumbrar a forma.
— Dias difíceis virão! — Artemio, o ancião de idade mais avançada no acampamento, se colocou ao lado de Clopin, suas palavras reverberando como um terrível prenúncio já atestado por todos — Viveremos tempos de intensa dor. De perda incalculável.
— O senhor sabe de onde vem essa aura estranha? — Inquiriu com alguma esperança, apostando todas as suas melhores expectativas na sabedoria daquele homem. A forma como se encararam exalava aflição de ambas as partes, e Clopin soube que a resposta não seria nada agradável aos seus ouvidos.
— Gostaria de saber, rapaz. Mas tudo o que consigo ver é aquilo que todos já parecem perceber de alguma forma... Que estamos à beira de uma época sombria na nossa história.
— Como posso protegê-los, se sequer sei por qual lado virá a tempestade? — Clopin desabafou, detestando aquela sensação de impotência.
Artemio, entretanto, soltou um riso curto, fitando aquele homem que, ele sabia, daria a própria vida para resguardar seus irmãos e irmãs, mas que ainda preservava alguns erros da mocidade em sua maneira de pensar. Típico de almas jovens ansiar por respostas imediatas. Renegar o tempo como seu maior professor, como os anciões já sabiam.
— Já estamos com alguma vantagem apenas por prever que a tempestade virá. Tudo o que precisamos é estar preparados para quando ela se anunciar e nos atingir, não importa por qual lado chegue. — O cigano mais velho dedicou um olhar profundo ao homem que indiretamente os guiava — Não se aflija tanto com aquilo que ainda não pode ser alterado, Clopin. Sua liderança nesse acampamento é benéfica a todos. Precisamos que se mantenha fiel aos seus instintos, porém que jamais perca a calma diante de um impasse como esse que estamos testemunhando hoje.
— O senhor acha que devemos seguir adiante? Partir de Paris e renegar essa terra que a tanto custo conquistamos**? — Consultou-o, cogitando estudar mais a fundo aquela hipótese desde o dia em que Esmeralda lhe confessara sobre as ousadias do capitão Phoebus.
— Talvez... Não estou certo se vale a pena continuar aqui, mas também sei que qualquer outro lugar nos receberia tão mal quanto, ou até mesmo pior. Ao menos Paris está um pouco mais habituada à nossa desagradável existência... — Considerou, um olhar astuto brilhando mesmo com as incontáveis rugas frágeis que o contornavam, criando um complexo paradoxo naquela sugestão de força quebradiça que adornava seu rosto.
— É este o meu impasse... Acabar colocando a perder tudo o que já foi conquistado a duras penas. Deixar-me levar por esse estranho sentimento e nos levar a uma situação ainda pior.
— Saberá o que fazer, Clopin. E, independente do que deliberar, terá o apoio dos sábios. Confiamos no seu julgamento como se fosse velho o bastante para ocupar um lugar entre os anciões... — Elogiou, sem querer aumentando ainda mais a forma com que o líder se sentia pressionado diante de tais circunstâncias.
Observou Artemio se afastar de si, o cigano mais velho sequer chegando a sonhar o quanto Clopin se afligia pelas poucas escolhas que via diante de si, uma pior do que a outra.
Se errasse naquela decisão, poderia acabar condenando a todos.
Conforme foi percebendo apenas crescer a inquietude de seus semelhantes, contudo, acabou por decidir que o melhor seria deixar aquelas terras e buscar sua sorte em outro lugar. Seu povo já havia vivido perigos demais em Paris. Jamais perdoaria a si mesmo se, ao “pagar para ver”, acabasse perdendo um único cigano.
Afinal, aquele era um povo que aprendera a nunca subestimar seus sextos sentidos.
Porém, quando finalmente criou coragem para anunciar sua decisão de partida, percebeu que Esmeralda não se encontrava em canto algum do Pátio dos Milagres...
...E absolutamente nenhum cigano se recordava de vê-la nos domínios da morada egípcia naqueles últimos dias.
Diante daquela percepção, o peito de Clopin se afundou em verdadeira angústia, inevitavelmente imaginando se aquela má impressão geral já fizera sua primeira vítima sem que percebessem. Recordando, com enorme desalento, a sorte perigosa que Sara leu de sua menina.
“Ela estava sob meus cuidados... Como pude permitir que se perdesse de minha vista?” — Acusou-se, mais exausto do que nunca.
O líder cigano estava convicto a revirar Paris à procura de sua Esmeralda, quando tudo aconteceu rápido demais, antes que ele pudesse dar o primeiro passo. Para eles, já era tarde.
O trote sincrônico de vários corcéis anunciou a chegada de inúmeros soldados à dependência do Pátio, ainda com o dia imaturo, sequer alcançando a alvorada. Clopin sentiu-se derrotado quando constatou a invasão, pela primeira vez percebendo-se o maior dos fracassados em sua missão de proteger aqueles ciganos, cada um deles repousando plena confiança em suas capacidades. E até mesmo nisso ele falhara.
Soube que estavam condenados mesmo antes que um dos soldados reais se pronunciasse.
— Egípcios! — Um homem de intensos orbes azuis bradou, seu cavalo o carregando de um lado a outro ao longo da pequena multidão de desvalidos, talvez na tentativa de intimidá-los ainda mais naquela estatura imponente de autoridade — Foi dada a ordem pela Corte de Paris que todo o seu povo será deportado, expulso dos limites de nossos territórios. Por atos praticados contra o capitão Phoebus de Châteaupers, sua raça foi condenada a ser banida permanentemente de nossa terra. — Fez uma pausa, fitando os rostos tomados por miséria e temor, acima de tudo parecendo confusos — Estamos dispostos a deixá-los partir sem qualquer desventura, todavia, para que tudo ocorra de forma pacífica, vocês deverão nos entregar a cigana Esmeralda. Aquela que atentou contra a vida de nosso antigo capitão, matando-o com um golpe de seu punhal. — Concluiu, jogando ao chão a arma de gravuras pagãs.
Clopin, assim que reconheceu o presente que dera à jovem cigana, sentiu o peito se esmagar numa angústia pulsante, viva. Imaginando se a principal vítima desse encontro de fato teria sido o capitão Phoebus.
Diante daquele pronunciamento, os ciganos se entreolharam, acima de tudo surpresos, nenhum deles sabendo como proceder diante daquela intimação. Porque, mesmo que estivessem dispostos a entregar Esmeralda, não faziam a mais remota ideia de onde a jovem egípcia se encontrava naquele instante.
O líder dos ciganos se agachou, segurando o cabo do punhal de forma rude, com os olhos escuros agora se banhando em fúria. Ergueu um olhar insolente aos soldados quando novamente se levantou, sentindo que apertava a arma contra os dedos com imensa força.
— Não teria sido o seu capitão a atacar primeiro a nossa cigana? Como normalmente ocorre, de fato? — Percebeu o questionamento ser feito com mais ousadia do que pretendera, contudo não chegou a se arrepender daquelas palavras. Por Esmeralda, jamais mediria qualquer tipo de esforços.
— Veja como se dirige a nós, cigano! Estamos aqui representando ordens reais, não cabe sequer a um parisiense discuti-las, que dirá um estrangeiro que nada mais é do que um invasor de nossas terras. Onde estão escondendo Esmeralda?
O silêncio se perpetuou entre os egípcios. Seus semblantes deixaram de lado aquele traço assustado, agora exalando força, uma dureza que demonstrava bravura louvável, parecendo já aceitar seus destinos.
Sempre souberam, afinal, que a luta por seu lar invariavelmente culminaria em mais sangue cigano derramado. Era o que mais desejavam os parisienses, aguardando apenas pela melhor oportunidade para dar início àquela guerra há muito tempo declarada. E finalmente encontraram seu motivo. Finalmente o pretexto que tanto ansiaram para levar até o povo egípcio o aniquilamento.
Clopin sentiu um orgulho imensurável ao fitar cada feição resistente e corajosa dos seus irmãos e irmãs, dispostos ao que fosse preciso para protegerem um ao outro, não importando as consequências. Acima de tudo, fiéis à importância que existia em manter firme aquela união, fosse por muitos, fosse por poucos, fosse por um único.
“Uma única...”
O líder do Pátio dos Milagres voltou a encará-los, sentindo em si uma energia renovada quando o fez. Eram poucos se comparado às melhores condições daqueles soldados, mas juntos sempre se mostraram mais fortes.
— Não dirão nada? — O soldado, que agora parecia ocupar o posto de novo capitão, perguntou como se os desse uma segunda chance, apesar de parecer deliciado com a possibilidade de iniciar um conflito.
A resposta dada foi a mesma de antes. Apenas o silêncio dos fortes.
— Ataquem! — Ordenou à medida que empinava brevemente sua montaria, um brilho mais saliente dançando por suas íris cheias de vida, assim como a sombra de um sorriso que pouco era capaz de esconder seu júbilo ao proclamar aquela ordem covarde, contra homens, mulheres e crianças desarmadas. Contra vítimas vulneráveis, que sequer poderiam se defender à altura daqueles que pareciam dispostos a massacrá-los — Transmitam nosso recado, senhores. Uma hora esses malditos feiticeiros hão de entender que reviraremos o lugar do avesso se preciso for, mas teremos a cigana!
Após aquele comando, o Pátio se revolveu em caos. Ainda montado em seus cavalos de raça pura, os soldados os incitaram em direção à população cigana, que resistiu bravamente. Até onde pôde.
Sem armas, sem forças e sem esperanças, sucumbiram ao ataque.
As espadas a serviço do rei de imediato perfuraram alguns dos ciganos, fazendo-os cair em agonia. Alguns, em meio à desordem, sequer tendo aqueles últimos instantes para compreender como sua vida fora tirada. Um dos subordinados do rei surgiu com uma tocha, galopando com um destino focado à frente. Uma egípcia em seu caminho caiu quando o animal veio veloz em sua direção, tendo seu corpo pisoteado pela passagem do equino.
O lamento daquela mulher ao ter partes de si esmagadas ficaria gravado para sempre na mente de Clopin, que não foi rápido o bastante para salvá-la do terrível e agonizante destino.
Sem se preocupar com aqueles à sua frente, o homem que segurava a tocha meramente continuou avançando, parando defronte a uma casa simples, que não tardou a tocar com o fogo. Um sorriso maldoso se abriu em seus lábios quando viu que a madeira rapidamente deu espaço às chamas, o crepitar das labaredas mesclado ao choro daqueles que vinha se controlando para não dizimar de uma vez.
O mais novo capitão dos arqueiros reais desceu de seu corcel negro, a espada empunhada à sua frente apontando para Clopin à medida que se aproximava do cigano que, naquela comunidade, parecia ocupar uma posição mais elevada.
— Você é o líder, suponho... — Disse, parando em frente ao cigano com a ponta da espada encostando no pescoço negro — Isso foi apenas um aviso. Nós voltaremos. E continuaremos voltando até que nos deem a cigana, nem que para isso tenhamos que queimar todo o lugar, ou matar cada um de sua raça imunda. Uma pena que tenham escolhido o caminho mais difícil... — Sorriu, não parecendo de fato se lamentar por absolutamente nada — ...Nenhum de vocês está preparado para os infortúnios que sucederão desta má escolha.
Dizendo isso, voltou a montar em seu cavalo, conduzindo os outros de volta ao centro de Paris. Deixando para trás um rio de sangue egípcio, de um povo que apenas vivia entre as próprias perdas.
E agora, choravam mais algumas.
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