O Preço da Magia

12 Episódio 12: Je Vais Te Maudire Jusqu'à La Fin De Ma Vie


Notas iniciais
*Eu vou te maldizer até o fim da minha vida Capítulo dedicado à leitora Bynes, que comentou pela primeira vez no capítulo passado, me deixando muito feliz pela presença *-* Dedico também à SundaeCaramelo, que comentou no capítulo cinco (não sei se voltará a ler, mas de qualquer forma agradeço por se manifestar). SEJAM BEM VINDAS, GATONAS! Espero que se animem a continuar acompanhando e comentando :v Vou dedicar também ao Phoebus, já que hoje é seu dia (finados, muahahahaha ;D)

Foi Frollo quem, naquele dia, acabou levando algum alimento até Esmeralda. Realizou aquela tarefa a completo contragosto de sua comprometida sanidade, uma vez que Quasímodo parecia ter sumido dos domínios da catedral após cumprir as obrigações matinais com suas damas de ferro.

Encontrou a egípcia sentada no chão, as costas apoiadas com algum desleixo sobre os pilares da catedral. Os olhos fechados degustavam da brisa fresca que tocava seus cachos, parecendo buscar por qualquer sentimento de liberdade no toque breve do vento. Algumas mechas negras esvoaçavam ao comando daquela afável rajada de ar, e tal visão apenas proporcionou mais rachaduras à alma já perdida do arquidiácono.

Djali, a esperta cabra, se aconchegava no vão que as pernas da egípcia formavam na descontraída posição indiana, a cabeça peluda repousando por cima da coxa direita da atraente estrangeira. Por um breve instante, o padre cogitou se a mulher poderia estar adormecida, contudo logo notou os dedos de sua mão deslizando vagarosos pelo queixo do animal, e algo se revolveu dentro de si.

Até mesmo naqueles cenários tão banais, o arquidiácono se percebia totalmente enclausurado por suas cobiças. Como se continuamente a vislumbrasse no auge de sua sensualidade, ainda que não houvesse nada de provocativo em momentos corriqueiros como o que agora apreciava...

...Sempre preso àquele amargo silêncio.

“O que esperar de alguém que carrega em seu ser o próprio pecado original? Que leva nos olhos a chave para os portões do inferno, como se fosse um convite para o Céu?” — Frollo abstraiu, ainda retraído próximo aos degraus que acabara de subir.

O padre, já na reserva de suas forças, havia feito o possível para ignorar a presença da cigana naqueles últimos dias que se seguiram após seu último encontro. Esteve próximo demais de sucumbir a uma tentação que, ele sabia, não lhe daria qualquer possibilidade de retorno uma vez que experimentada.

Frollo tencionava manter aquele mesmo comportamento mais distanciado o quanto se mostrasse capaz de suportar. Contudo, por alguma desconhecida razão o sineiro resolvera desaparecer de Notre Dame, não dando outra escolha ao sacerdote...

E, apesar de jamais admitir isso a si mesmo, de alguma forma sentiu-se satisfeito pela ausência do corcunda. Somente assim não se veria mais tarde como um fracassado — um infiel fraco — quando por apenas uma questão de tempo acabasse sucumbindo à vontade insana de vislumbrar aquela menina pagã, que a cada dia desgraçava um pouco mais sua vida antes tão regrada. Tão correta...

Fechou os olhos por um instante, não tolerando mais aqueles conflitos que apenas o puxavam em direção ao fundo de seu poço. Obrigou-se a terminar de uma vez com aquilo, orando em seu íntimo para que aquele momento em que estivesse na presença de Esmeralda fosse suficiente para sustentar um novo período de ausência.

Por mais que soubesse ser uma esperança vã, de todo incoerente. Queria-a com cada vez mais força, mesmo a despeito de suas crenças cada vez mais obsoletas.

— Vim trazer-lhe algo para comer. — Finalmente anunciou-se, percebendo-a de imediato abrir os olhos em sua direção, e algo fez o peito do arquidiácono se esquentar quando percebeu uma expressão mais serena na cigana, sem aquele medo que sempre demonstrara à sua presença. Pensou até mesmo ter visto o lampejo de um sorriso de canto, tão sutil que não poderia ter certeza. Mas foi suficiente para torná-lo ainda mais preso àquela presença — Deve se alimentar bem caso almeje se recuperar.

Da forma mais doce que Frollo julgou ser possível, a cigana afastou a cabra sonolenta de seu colo, demonstrando ainda alguma dificuldade ao levantar, porém dona de uma firmeza indiscutivelmente maior em seus movimentos desde a última vez que a vira. Assim que o animal foi expulso do aconchego daquele colo, pareceu zangar-se diante de tamanha ousadia.

Baliu o mais ferozmente que o som permitia na direção do padre, entendendo ser ele o culpado por interromper seu estado de torpor diante das carícias que recebia da dona.

— Foi muita gentileza sua se preocupar com isso. Merci, monsieur. — Agradeceu agora com um sorriso um pouco mais evidente, quase próximo o suficiente de formar as covinhas que o padre tanto desejava ver com mais frequência em seu rosto.

Mesmo ainda sob o efeito de suas próprias dores, a estrangeira caminhou com graça até o sacerdote, tirando das mãos do homem a bandeja que usara para carregar a refeição de Esmeralda até ali. Com a proximidade, Claude percebeu que seus verdes orbes ainda eram permeados por algo daquela melancolia que a acompanhava desde a violação em seu corpo, contudo, aquela aflição não parecia mais tão intensa ao padre. Tampouco dava a impressão de ser menor, apenas melhor camuflada.

Amou-a, como se percebesse tal fato pela primeira vez, ao testemunhar nela aquela expressão autêntica de resistência.

— Confesso que era Quasímodo quem eu esperava... — Ela disse num tom casual, sentando-se no modesto conjunto de cadeiras do sineiro assim que pousou a bandeja sobre a mesa. — É bom ver que me enganei... — Encarou-o de forma franca e um tanto séria, e de imediato a frequência cardíaca do padre se acelerou numa arritmia incomum, totalmente surpreso com aquela afirmação — ...desde que o senhor veio aqui pela última vez, sinto que preciso dizer algo.

Claude Frollo a fitou de uma forma interrogativa, não ousando expressar qualquer palavra por medo de acabar traindo suas dissimulações, ciente do quanto estava próximo de atraiçoar-se. Sem que percebesse, uma das mãos segurou a parede atrás de si, como se inconscientemente buscasse por alguma sustentação ao seu corpo, quando na verdade era sua mente que mais carecia de apoio.

— Queria me desculpar sobre o que disse naquele dia. O senhor pareceu muito desconfortável, e não foi minha intenção causar qualquer tipo de constrangimento, muito menos ofendê-lo de alguma forma. — Essa última frase foi dita com algum cansaço, por sempre ver qualquer associação ao seu povo ser interpretada de uma forma pejorativa.

— Não se explique por isso. — Frollo enfim se manifestou, sua expressão um pouco mais rude pela própria tolice de imaginar que aquela conversa poderia tomar outro rumo — Após uma vida inteira de anunciada impopularidade pelos cantos de Paris, é preciso bem mais para que eu me sinta injuriado.

A cigana, sem se conter, soltou um riso rápido, o som saindo por suas narinas ao tentar refreá-lo. Olhou-o em seguida como se fizesse um novo pedido de desculpas, imaginando se ele levaria aquele instante de diversão como algum tipo de zombaria. Quando, na verdade, era justamente o contrário.

De fato, por Paris eram poucos os que escondiam seus desafetos por aquele homem tão tomado por seus próprios meios severos e, por vezes, agressivos. Os parisienses apenas não o evitavam mais abertamente — ou mesmo não chegavam a desrespeitá-lo — pelo fato de Claude representar uma religião de fortes influências sobre aquele povo. Contudo, o padre jamais se inclinara às hipocrisias da parcela nobre da sociedade. Tornara-se famoso ao longo dos anos por sua honestidade inconveniente, e por isso era quase tão desprezado quanto os próprios ciganos. Até mesmo os mais pobres, que viam algo de divino na riqueza, acabavam se ofendendo com a conduta do arquidiácono.

Porém, à cigana, aquele era apenas mais um aspecto a se admirar no inusitado sacerdote. Apenas mais um dentre os tantos que vinha descobrindo.

— Fico mais tranquila por saber que o senhor não se sentiu insultado... — Esmeralda tentou consertar aquele inconveniente arroubo de espontaneidade, não sabendo interpretar pelas feições fechadas do padre o que ele de fato sentia. Todo o seu semblante sempre um enigma à boêmia, exceto pelos castanhos olhos, estes absurdamente expressivos apesar de também exalarem mistério — Se importa de sentar comigo? Meu povo nunca soube lidar bem com a clausura e nem com o isolamento...

A cigana fitou-o com verdadeira expectativa, ansiando por aquilo. A solidão sempre acabava por trazê-la recordações penosas da violência sofrida, sempre tornava maior o vazio que Phoebus abriu em si na noite em que morreu. Remoía, nos momentos quietos de seus dias, as previsões feitas por Sara e o quanto fora estúpida por não dar mais atenção aos seus avisos.

O silêncio a fazia reviver cada toque não consentido com o mesmo pavor. E, cada lágrima que percorreu seu rosto desde então, vinha trazer a ela mais uma vez o seu gosto salgado.

— Parece melhor desde a última vez que a examinei. — Frollo constatou, percebendo sua cor mais saudável, distante da palidez de dias atrás, assim como os movimentos um pouco mais firmes.

Incapaz de negar aquele pedido da menina egípcia, sentou-se à sua frente, agradado por vê-la dispensar algum interesse real pela refeição, já que seu apetite nos últimos dias se mostrou fraco, algo que o sacerdote analisava ao observar a louça — que quase sempre retornava repleta de comida intocada.

Djali, ainda irritada, aproveitou-se para empurrar as pernas de Claude Frollo com seus potentes chifres, querendo afastá-lo de sua humana, porém tudo o que conseguiu foi receber do arquidiácono um olhar desinteressado, pouco disposto a corresponder àquela irritação.

— Pare já com isso, sua cabra ranzinza! — Deu a bronca, afastando-a do sacerdote, e logo em seguida respondendo seu comentário — Me sinto mesmo mais disposta. — Assegurou, lançando a ele um sorriso contido antes de levar aos lábios uma boa porção da sopa líquida, até mesmo os pedaços sólidos de carne se desfazendo em sua boca de tão macios. Muito diferente das refeições sempre escassas no Pátio dos Milagres — Sei que logo poderei partir e deixá-los em paz.

Àquele comentário, Frollo enrijeceu, de uma forma que sequer soube disfarçar.

Via o progresso no estado da cigana, o quanto sua integridade parecia estar progredindo para a cura definitiva, e por mais que testemunhá-la mais disposta fosse de seu agrado, sequer podia imaginar a estrangeira partindo. Havia apenas uma situação mais penosa do que lidar com sua constante presença, que era suportar o desespero gerado por sua ausência. O escuro que restaria à partida de Esmeralda parecia ao arquidiácono ainda pior do que a condenação que sabia esperá-lo no fim de sua vida.

Imaginar-se novamente revivendo aqueles dias em que se punha à frente de sua janela, ansiando por um breve vislumbre de sua dança, observando-a à distância na praça defronte à catedral... Não seria capaz de retornar ao tormento daquela época, que apesar de recente parecia ao padre incrivelmente distante.

O ar tornou-se ligeiramente insuficiente à medida que a observava um pouco mais voraz diante do alimento. Perderia sua cigana mais cedo do que era capaz de suportar. Pouco se importando que, no seu caso, sempre seria cedo demais.

“Fugirá ainda de meus olhos, egípcia. Já tenho tão pouco de ti, e ainda quer tirar-me as migalhas...” — Refletiu, dominado de uma única vez por todos os pesares que Esmeralda lhe significava.

Sem perceber, segurou com força o crucifixo, pouco compreendendo por quais razões ainda se apegava àqueles símbolos de sua religião, quando ela lhe era nada mais do que inútil. Vazia, depois que a boêmia o preenchera por completo, sem deixar espaço para mais nada dentro de si.

Sôfrego, Frollo a observou revezar entre a sopa e a tigela de vegetais frescos, oferecendo à Djali alguma verdura que o sacerdote sequer reconheceu diante de seu mais novo suplício.

“Não posso permitir que ela se afaste...” — O pensamento surgiu de forma incoerente, desesperada. Quase uma súplica de sua mente à cruz que ainda tinha entre os dedos — “Pertencerá para sempre a mim, cigana...!”

— ...Vamos, pegue, monsieur! Vai funcionar. — Claude despertou de seus mais cruéis devaneios, percebendo Esmeralda lhe oferecendo um punhado generoso de alface, o sorriso que tanto idolatrava agora bem aberto, parecendo de leve incitada. A cabra balia com arrogância em sua direção, ainda embravecida — Dê isso à Djali e se tornará o mais novo ídolo dela, tenho certeza... Vai acabar com essa pouca educação com que está lhe tratando hoje. Talvez até me troque pelo senhor! Acho mesmo que ela só me segue pela comida... — Brincou, o olhar afetuoso que lançou ao animal deixando claro que não acreditava em suas próprias palavras.

“A cabra!” — Frollo percebeu de um lapso, aceitando a verdura das mãos da estrangeira, o roçar breve entre seus dedos já capaz de inflamar o sacerdote de uma forma um tanto desproporcional — “Se conseguir feri-la sem que Esmeralda perceba, talvez ganhe tempo. Ela por certo me pedirá para tratá-la...” — Cogitou, um pouco mais convicto de que poderia prorrogar a estada da cigana em Notre Dame.

Aproximou as folhas de alface do rosto desconfiado do animal que, como se conjecturasse golpear o arquidiácono com seus dentes, lançou-se arisca sobre o alimento, abocanhando com avidez boa parte daquilo que Frollo oferecera. Logo em seguida Djali se afastou enquanto ainda esbanjava aquele olhar desafiador. Percebendo que o arquidiácono manteve a mesma posição serena, ainda com alguma alface entre os dedos, a cabra retornou, revezando seu olhar displicente para a comida e o padre.

Foi mais delicada dessa vez ao pegar o alimento, mantendo-se perto do sacerdote. Quando aquela fonte secou, como se já fosse íntima do homem, Djali ergueu-se, colocando os dois membros anteriores sobre o colo de Frollo e farejando-o sem timidez em busca de mais, de súbito não se incomodando com a presença masculina.

— Djali! — A cigana ralhou, não contendo o riso. Aquele som, para Claude, parecia muito mais sagrado do que o badalar dos próprios sinos da catedral. Esmeralda saiu de seu assento, retirando o animal do colo do arquidiácono — Pronto. Ela já o ama de todo o seu ser. — Disse, divertida, sequer ciente do quão atormentado estava aquele homem, e do quanto seria prudente temê-lo ao invés de se aproximar.

A mulher se afastou junto com a cabra, e aquela posição ligeiramente mais encurvada deu ao padre um vislumbre maior das silhuetas que davam forma ao seu corpo, algo que o tirou do rumo em que tanto lutava diariamente para se manter. Não conseguiria mais. Estava condenado a amá-la de uma forma que nem mesmo ele era capaz de domar ou compreender, de uma forma que se tornasse o mais irracional dos animais...

O sacerdote se ergueu de um salto, o movimento brusco empurrando para trás a cadeira, no segundo seguinte já ao lado daquela que de bom grado o conduzia a todos os caminhos de sua própria perdição. Da jovem egípcia que, com ou sem seus ardilosos feitiços, fizera um homem respeitável como Claude Frollo se despedaçar em ruínas.

O padre segurou o braço moreno da menina egípcia, percebendo-a virar o rosto de imediato, a mesma essência assustada de antes de volta aos seus grandes olhos pagãos. Ver aquela onda de temor novamente direcionada a si foi como o mais cruel golpe ao sacerdote, e tão impulsivamente quanto iniciou aquele toque, ele se afastou, difamando a si e a ela.

“Maldita seja, cigana! Sem misericórdia alguma lançou-me ao mais profundo inferno, para agora julgar-me com seus grandes olhos de feiticeira.” — O padre sentiu-se encolhido, pequeno demais diante da intensidade reverberante dos orbes verdes, mais uma vez amedrontados. Testemunhar o receio em sua egípcia após ter finalmente derrubado aquela barreira o fez parecer o menor e mais insignificante inseto — “Não posso machucá-la... Não devo permitir que acabe me tornando mais um capitão em sua vida...*”

Sob aquele olhar alarmado da egípcia, a vontade de Frollo era de ajoelhar-se diante dela, e implorar. Implorar por sua alma, por sua fé, por seu vício. Cada um desses pedidos residindo naquela única mulher — a assombração de seus dias e o tormento constante de suas noites. Implorar por ela, e consequentemente por si.

Contudo, mostrou-se novamente forte na maior de suas fraquezas.

Manteve o timbre calmo, e dissimulou suas intenções, mais uma vez se sufocando com as próprias mentiras, com o fato de tanto se privar de quem tanto queria.

— Seria bom se me permitisse conferir novamente suas feridas. É importante acompanhar a evolução para garantir que tudo continuará correndo conforme o esperado. — Disse, ainda capaz de transparecer uma calmaria falsa.

Os olhos da egípcia se estreitaram de uma forma ligeiramente desconfiada, charmosos, parecendo considerar a abordagem abrupta. Frollo sustentou aquela contemplação analítica sem em momento algum vacilar, e Esmeralda por fim se acalmou.

“Preciso parar de me aterrorizar com tudo... Devo parecer uma criança assustada!” — Ela se repreendeu, tentando tranquilizar-se e já sentindo as batidas de seu coração se amainarem a um ritmo menos galopante — “Se o padre quisesse ter feito algo, oportunidades não faltaram desde que me salvou de Phoebus.”

Esmeralda concordou, sentando no lugar em que o religioso indicava.

Claude tentou evitar os tremores quando passou os dedos por seus cachos, afastando-os da têmpora e analisando os cortes que vieram do ataque que a deixara inconsciente por alguns instantes antes do estupro. Sua aparência estava muito melhor, e já era um ótimo sinal não haver qualquer formação de pus em suas feridas.

Quando pela segunda vez mostrou o hematoma, novamente tomou para si uma postura receosa, toda tensa, detestando expor qualquer parte de seu corpo, contudo não chegando a se recusar. O tom roxo em sua pele também se apresentava um pouco mais saudável, ainda bem alastrado, porém suas bordas já evoluindo para a gradação esverdeada que se esperava.

Frollo ia pronunciar-se a respeito da evolução das feridas, quando uma intensa balbúrdia na praça em frente à catedral chegou aos seus ouvidos, mesmo àquela altura da torre de Notre Dame, alarmando ambos sobre a procedência dos gritos.

Tanto Frollo quanto Esmeralda tendo uma boa ideia de para quem as atrozes hostilidades se destinavam.

Os dois foram com pressa até o parapeito da catedral, Esmeralda conseguindo acompanhar o ritmo rápido do arquidiácono mesmo com os movimentos mais limitados pela dor. E a cena que viu, por mais que já fosse esperada, ainda trouxe uma onda revoltosa ao peito da estrangeira.

Quasímodo tornara-se o alvo da crueldade de Paris. Habitantes que, em sua covardia, esbanjavam uma truculência já bem conhecida na rotina de Esmeralda, a crueldade daquele povo se disseminando com intimidade para qualquer cigano que ousasse viver ali. Para qualquer um que julgassem inferior.

— Eu vou até lá! — A boêmia anunciou, não suportando testemunhar tamanha selvageria. Ainda mais quando direcionada a alguém tão doce e inofensivo quanto o sineiro, cuja maior pretensão era ser aceito naquela sociedade contaminada pela intolerância.

Ela já começava a se afastar em direção à escada quando mais uma vez sentiu os dedos de Frollo sobre seu braço, o aperto agora se propagando com um pouco mais de delicadeza apesar da urgência.

— Não! — Freou-a, tanto as palavras quanto a postura exalando firmeza, dono de uma serenidade racional que naquele momento passava longe das impulsões da cigana — Fique aqui, você ainda precisa guardar repouso. Eu vou.

Claude Frollo desceu os degraus com pressa, a veste negra logo desaparecendo em meio às sombras criadas pelo espiral da escada.

Sem suportar aquele sentimento de injustiça, Esmeralda venceu suas próprias dificuldades e o seguiu apesar da negativa.

Durante aquela semana, Quasímodo deixou por alguns instantes a segurança da catedral por uma causa que julgou da mais alta importância. Algo que valia o risco de ser visto. De, ao sair à luz do dia, perceber a ojeriza acompanhar seu trajeto caso notassem sua presença além dos limites de Notre Dame.

Ainda munido de pouca confiança, o sineiro usava os telhados para se locomover pela cidade. Era um pouco mais demorado e exaustivo, contudo se tratava do único caminho que lhe proporcionava um mínimo de conforto.

Do alto da catedral, o corcunda aprendera a se localizar pela cidade como nenhum mapa jamais seria capaz de instruir alguém nos limites do chão. Tinha a Ile de lá Cité gravada em sua mente, cada rua, cada viela, cada recinto.

Sabia, inclusive, o nome de alguns naquela cidade deslumbrante, apenas por levar a vida inteira observando-a do alto.

Muito consciente de cada um de seus passos sobre as telhas íngremes de Paris, Quasímodo deslocou-se com perfeita confiança àquele seu modo único de atravessar a cidade, recordando com um meio sorriso o dia em que conhecera Esmeralda, o mesmo dia em que a ajudara por aqueles caminhos explorados apenas pelo sineiro.

Precisou pular poucos telhados para chegar aonde pretendia, e quando viu-se no ponto almejado, respirou fundo, dependurando-se de ponta cabeça nas telhas e espiando pela janela o pequeno estabelecimento comercial. Famoso pelas habilidades de quem o conduzia, apesar de modesto.

O sineiro viu a mulher já de alguma idade tratando com outra cliente. Era baixa, os olhinhos sempre se apertando como se encontrasse alguma dificuldade de enxergar pelos anos transcorridos. Seu corpo tinha formas robustas, e os cabelos já brancos — com apenas algumas mechas acinzentadas em evidência — se prendiam sempre no mesmo tipo apertado de coque.

— Está certo, são vinte moedas de cobre. — A idosa disse, entregando a encomenda da cliente com um sorriso fechado, guardando as moedas no bolso do avental antes que pudesse depositá-las junto com o resto de seu dinheiro.

Somente quando Quasímodo percebeu a costureira sozinha em sua loja de confecções, o corcunda revelou-se ao entrar pela janela, desajeitado e tomado por uma antiga vergonha, misturada à culpa. O tipo de constrangimento que jamais o abandonaria enquanto vivesse.

A pobre senhora arquejou de susto, e o sineiro temeu que, naquela idade mais avançada, o coração da mulher não suportasse tamanha visão apavorante. Contudo, muito vívida, a costureira deu passos cambaleantes para trás, sem jamais tirar os olhos claros do ser medonho que surgira naqueles movimentos tão sorrateiros.

— Me perdoe se a assustei! — Quasímodo se adiantou, arrependido por sua entrada tão brusca, sem o menor tato. Porém, o jovem rapaz não era habituado a nenhum tipo de regra social — Sinto muito, não era minha intenção alarmá-la! Entrei pela janela porque não queria correr o risco de ser notado na rua... — Explicou, engolindo em seco, um pouco desabituado àquelas reações aversivas depois que passara a conviver diariamente com a gentileza ímpar de Esmeralda.

— Uma decisão sábia, meu rapaz, a de não querer ser visto! — A idosa contrapôs, ainda afastando-se daquela atormentadora criatura — O que poderia eu ter feito para não receber essa mesma consideração?

— Nada, dame! Eu só... gostaria de fazer uma encomenda! — Quasímodo disse, a quentura em seu rosto indicando que corava, sentindo-se patético — Tenho o suficiente para pagá-la por seus serviços! — Mostrou uma boa quantia de moedas de prata, trazendo alguma cobiça aos olhos idosos da mulher, porém nem mesmo o interesse pelo dinheiro foi capaz de espantar o medo.

Estudou-o numa expressão pensativa, relanceando olhares entre as moedas e o rosto deformado do rapaz, analisando suas opções. Por fim, sua atenção se prendeu mais intimamente na prata, não podendo negar que aquelas moedas lhe seriam de grande ajuda. Suspirou, vencida, insatisfeita com a situação.

— Muito bem então. Será um desafio e tanto tirar suas medidas, mas acho que posso ao menos tentar... — Considerou, inevitavelmente encarando a enorme corcunda nas costas do rapaz.

— Não é para mim! — Alertou de imediato, e a idosa percebeu a nova intensidade que iluminou aquele olhar que, apesar de feio, parecia bondoso em sua essência — É para uma moça.

— Uma moça... — As sobrancelhas da costureira se ergueram numa expressão inevitável de crítica, porém sua feição logo se abrandou, ciente de que a si concernia apenas o pagamento ao final de seu trabalho — Saberá me dizer as medidas dessa moça?

— Em números exatos não, mas se me permitir vir aqui enquanto trabalha em meu pedido, saberei instruí-la dos tamanhos aproximados.

Um calafrio percorreu o corpo da idosa mulher ao imaginar-se convivendo frequentemente com a visão do corcunda, e tal pensamento a desgastou antes mesmo que iniciasse o serviço. Já não gostava de bisbilhoteiros checando seu trabalho enquanto confeccionava as roupas, e não tinha a menor dúvida de que, se tratando de alguém como aquele rapaz, seu incômodo seria ainda mais profundo.

Entretanto, aquele dinheiro seria um tanto bem vindo.

— Está certo... — Ela concordou à contragosto, decidida a dedicar-se àquela encomenda antes de todas as outras com que se comprometera, trabalhando no pedido do corcunda integralmente se fosse preciso, apenas para privar-se o mais cedo possível da atormentadora companhia.

E, daquela maneira, se seguiram alguns dias. Sempre que Quasímodo terminava suas obrigações no campanário, retornava à costureira, a fim de dar-lhe as informações mais precisas possíveis para auxiliá-la na composição do vestido, até mesmo sugerindo alguns detalhes para torná-lo um pouco mais digno da beleza de Esmeralda.

O sineiro sempre tomava cuidado ao se deslocar de Notre Dame até o recinto da idosa, usando sempre os telhados para tal...

...Contudo, naquele último dia, a empolgação pelo resultado o tornou imprudente.

— Creio que esteja pronto. O que achou? — A costureira, que Quasímodo descobriu chamar-se Hélène, perguntou, pouco capaz de esconder o quanto era orgulhosa de suas habilidades. Durante aquela semana de constante convivência, acabara criando algum laço afetivo com o rapaz, descobrindo-o muito sensível e prestativo, chegando até a cogitar que Quasímodo daria um excelente aprendiz ao seu ofício. E, agora que chegara ao fim de seu convívio com ele, até podia sentir que o jovem faria falta para aplacar sua solidão.

— Está perfeito, dame! — Elogiou de forma sincera, vislumbrando com agrado a tonalidade vermelha em conjunto com o branco, duas cores que de formas tão diferentes realçariam a cor de sua pele, o corte bem feito e terminado com a competência que fazia jus à fama da mulher idosa, tão hábil ao lidar com tecidos — Obrigado!

— De nada, rapaz. Mas deixe o ‘dame’ para sua catedral, por favor. Sei que poucos se sentem à vontade com informalidades na França, mas ainda prefiro que me chame pelo nome.

— Como quiser, Hélène... — O corcunda sorriu, desajeitado, estranhando o tratamento tão íntimo. Acabara conquistando mais uma amizade, apesar da péssima primeira impressão, e o consentimento recebido para chamá-la pelo primeiro nome apenas evidenciava que se tornara uma simpatia recíproca.

Mais uma vez agradecendo, Quasímodo saiu afoito do lugar, ansioso por presentear a cigana. Tão ansioso e excitado que pela primeira vez esqueceu-se de tomar seus cuidados tão habituais, irrequieto para retornar à catedral o mais rápido possível. Saíra do estabelecimento pela porta da frente, e, tarde demais, viu-se no meio de uma pequena multidão parisiense.

Ao se deparar com os primeiros olhares enojados, os primeiros habitantes se afastando de si com asco — alguns dedos em riste apontando para o corcunda e proferindo graves acusações ao seu monstro exterior —, ele cogitou refugiar-se nos telhados. Com esse pensamento, virou-se bruscamente, tentando alcançar a casa mais próxima para escalá-la o quanto antes.

Contudo, era tarde demais para tentar fugir.

No momento em que tentava escapar daquela exposição, um homem próximo a si, de braços fortes e expressão zombeteira, o segurou pela camisa, impedindo que se afastasse. Em meio à brusquidão com que segurou o tecido, ele se rompeu, criando um enorme rasgo bem no lugar em que jazia a corcunda do sineiro, expondo-o ainda mais.

— Testemunhem um verdadeiro milagre, mesdames e messieurs! Uma gárgula de Notre Dame desceu dos pilares e agora caminha livremente por Paris! — Disse, arrancando gargalhadas de uma pequena multidão que agora se aglomerava à volta do sineiro, donos de uma curiosidade sádica.

O corcunda, profundamente ferido por aquela exposição, tentou esconder a face, usando o embrulho com o vestido de Esmeralda para tal. Como réplica àquele gesto defensivo, uma voz gritou no meio da multidão.

— Mostre o rosto, aberração! — O timbre era feminino, e abriu uma ferida antiga no peito do rapaz ao ser alvo daquele tratamento.

Como um animal acuado, Quasímodo recuou alguns passos daqueles que estavam mais próximos, fitando-os como se clamasse piedade. Através do olhar, pedindo perdão por aquilo que era. Quando o cerco à sua volta começou a se fechar, o sineiro pôs-se a correr, abrindo caminho entre as pessoas com um dos braços, enquanto o outro ainda se ocupava numa tentativa falha de esconder as terríveis assimetrias de seu rosto.

Aumentar a velocidade de seus passos, no entanto, evidenciou ainda mais seu andar manco, a perna direita chegando a se arrastar de modo mais pronunciado sobre o chão, aumentando a diversão dos parisienses.

— Vejam como corre! — Um menino apontou, o rosto vermelho de tanto rir chegando a se molhar com algumas lágrimas, tamanho o esforço de sua gargalhada descontrolada. Sua mãe, ao seu lado, abriu os lábios num sorriso divertido, assim como o filho se deixando levar pela atração que era ter Quasímodo exposto nas ruas da cidade.

— MONSTRO! — Rugiram, sem nenhuma misericórdia.

Já mais próximo da catedral, o corcunda ainda corria, querendo naquele desolador instante que suas pernas fossem capazes de disparar tanto quanto o seu coração. O braço ainda tapando o rosto diminuía seu campo visual já normalmente restrito, e o que mais temia naquela situação aconteceu... Caiu, no meio da praça que tentava atravessar, sendo seguido pelos risos, pelo escárnio e pela maldade.

Antes que conseguisse se levantar, sentiu algo ser atirado contra si, acertando-o no rosto. Um tomate estraçalhado caiu ao seu lado, denunciando de onde provinha o líquido que agora sentia escorrer pela têmpora. Aquele primeiro arremesso estimulou vários outros, onde também ovos e verduras o acertavam em diversas partes de seu corpo encolhido, vários desses alimentos desperdiçados naquela maldada troça acertando também sua face.

Acertando, principalmente, seu coração estilhaçado.

E, para o desespero do sineiro, continuavam com os uivos contra a sua aparência. Naquelas palavras de ódio, desejavam e lhe prometiam o mal sem sequer conhecê-lo. Deixando-se levar apenas pelo monstro, sem saber que tais defeitos jamais representariam sua alma pura, concebida pelo mais forte dos feitiços; o verdadeiro amor.

Uma figura toda trajada de negro saiu da catedral, caminhando com pressa até o cerne da confusão. Quasímodo, todo encolhido em seu próprio corpo, nem mesmo chegou a notar a aproximação cadenciada de Frollo, apenas o percebeu quando sua voz marcante entoou entre os que zombavam de si, e seus olhos de imediato buscaram por aquela imagem acalentadora.

— Já basta deste circo! — O padre se colocou no meio da multidão, ajoelhando ao lado do sineiro para ajudá-lo a se levantar em meio àquele estado deplorável.

— Obrigado, mestre! — Agradeceu entre lágrimas, idolatrando-o com o olhar, beijando a mão do padre com a mesma veneração fiel que um cão demonstra ao seu dono.

— Vamos, Quasímodo. Levante. — O arquidiácono ordenou, seu timbre, apesar de sempre ríspido, soando naquele momento com algum traço de afabilidade, algo tão raro àquele homem.

Claude Frollo e o corcunda atravessaram a praça juntos, o primeiro mantendo o olhar erguido em direção à catedral — sua expressão endurecida pouco disposta a dispensar qualquer atenção aos boçais que ainda ocupavam o espaço —, enquanto o segundo parecia se arrastar de uma forma dolorida, a cabeça baixa tentando esconder a vergonha, porém evidenciando-a ainda mais em seus gestos.

Antes que se afastassem por completo da multidão, um novo comentário insolente se propagou pelo ambiente aberto.

— E o grand finale... Claude e seu claudicante**!

O arquidiácono dispensou um olhar frio ao autor daquele trocadilho, que imediatamente pareceu se retrair ante a amplitude de sua austeridade, e nada mais foi dito enquanto os dois caminhavam.

As pessoas reunidas ali sequer continuaram sorrindo.

Quando enfim alcançaram os limites da catedral, Frollo foi surpreendido pela cigana caminhando com dificuldade até a porta, contrariando suas recomendações e parecendo pagar o preço por forçar seu corpo mais do que devia.

Esmeralda dedicou um longo olhar ao sineiro, seu doce amigo todo coberto pelos alimentos lançados, e um sentimento de puro pesar se apossou da egípcia ao testemunhar tamanha covardia. Ignorando a dor que vinha junto aos passos, venceu a distância que ainda os separava, envolvendo-o num abraço tão amoroso quanto possível.

Claude Frollo observou a cena, consternado e, acima de tudo, irritado por reconhecer tamanha intimidade e carinho entre eles. Enfurecia-se facilmente ao testemunhar sua Esmeralda demonstrando tais sentimentos a outro, mesmo se tratando de alguém tão inofensivo quanto Quasímodo.

— Meu amigo... Eu sinto muito! — Ela enfatizou aquilo que já estava claro em seus traços cheios de compaixão, desfazendo o abraço para analisar seu rosto, buscando por algum machucado talvez. Constatou apenas que seu supercílio esquerdo sangrava, o corte se abrindo no instante em que caíra — Vamos limpar isso, está bem? — Tentou confortá-lo ao acariciar seu rosto, dando um beijo estalado numa das poucas partes isentas de toda aquela sujeira que o envolvia.

Esmeralda passou a encarar o arquidiácono de uma forma totalmente nova, como se demonstrasse uma profunda gratidão ao homem, de todo dominado pelos verdes olhos tão magnéticos direcionados a ele. Sem qualquer sinal prévio, a cigana lançou-se sobre o padre, rodeando-o num abraço tão sincero e apertado quanto o que acabara de dar no próprio sineiro.

Frollo, completamente aturdido, foi tomado por um forte tremor ao sentir o corpo da cigana comprimindo o seu, e sequer correspondeu aos braços que o circundavam, temendo ardentemente por sua alma ao notar que facilmente a venderia, apenas para prolongar aquele contato até o fim de sua desgarrada vida.

A cigana, apesar de ainda sentir o tórax dolorido, o cingiu com ainda mais afinco, experimentando com agrado a fonte daquele perfume almiscarado, que tanto a confortava ao distrair seus pensamentos das noites mais desoladas.

— Obrigada por cuidar dele! — Agradeceu, só então se permitindo afastar, embora as mãos ainda estivessem sobre ele, se deslocando até os braços do arquidiácono à medida que o apartava. Frollo parecia tão atônito que sequer conseguiu experimentar com plenitude o enorme vazio que o invadiu quando não pôde mais senti-la por completo sobre si — Eu costumava me perguntar como Quasímodo podia nutrir uma adoração tão forte pelo senhor, e acho que já me deparei com minha resposta. — Sorriu, e sem mais nada dizer foi de encontro ao amigo para ajudá-lo.

Deixando o sacerdote naquela mesma posição estática e desacreditada, tomado por um transe profundo de seus desejos — estes ainda mais pronunciados pela proximidade tão honesta da menina estrangeira. Permitindo-o mais uma vez se dar conta da intensidade devastadora de sua perdição.

A egípcia alcançou o amigo que fora até o altar da catedral, vislumbrando num silêncio resoluto a arte do lugar, resignado em suas próprias conjecturas amargas. Sentiu que Esmeralda o segurou gentilmente pelo braço, tentando chamar sua atenção naquele gesto terno.

— Vamos, Quasi. — Passou dedos afáveis por seu rosto, em seguida retirando da cintura um tecido que normalmente usava para dar mais cor à sua vestimenta, como um adorno em conjunto com a longa saia — Isso jamais deveria ter acontecido a você! — Lamentou, passando com delicadeza o belo pano por seu rosto, retirando dali a sujeira, porém não a humilhação. Esta última, Quasímodo temia, jamais seria lavada de seu semblante — Eu fiquei tão feliz por saber que você estava saindo um pouco mais da catedral, meu amigo... Essas pessoas são mesmo bárbaras por se divertirem tanto com o sofrimento do outro! — Desabafou, como cigana sabendo que compreendia muito bem aquele assunto.

— Eu só saí porque queria fazer uma surpresa a você... — Quasímodo confessou, tão baixo e abatido que Esmeralda quase não conseguiu ouvi-lo. Depois do que fizeram com ele pelo breve caminho travado, perdera até mesmo o prazer de dar alguma boa notícia à mulher que tanto amava.

— Como? — Ela questionou, confusa, só naquele instante reparando no embrulho que o corcunda protegia entre os braços, e que agora lhe oferecia. Ela pegou, desconfiada — O que é isso?

— Abra... — O sineiro respondeu, um meio sorriso cabisbaixo deixando sua expressão ainda mais melancólica ao invés de animá-la — É um presente.

A cigana suspirou com força, não acreditando que Quasímodo passara por tudo aquilo apenas por algo material. Sentiu-se instantaneamente culpada por saber que, de modo indireto, ela fora a causadora daquilo.

Passou a encarar a embalagem também suja, e abriu-a com receio, seus olhos se arregalando ao ver o conteúdo.

— Você havia me dito que se sentiria mais confortável de usar suas próprias roupas aqui ao invés do manto de meu mestre, então eu encomendei esse vestido para você. Espero que goste... e que sirva!

— Quasi... — Esmeralda engoliu em seco, verdadeiramente emocionada com aquela demonstração de apreço do sineiro, que por sua culpa agora demonstrava estar todo ferido por dentro após ter de lidar com a estupidez dos parisienses — Quasi, não precisava! Por Júpiter, você se arriscou lá fora por um vestido... Eu não valho isso, meu amigo... Ninguém vale... — Fitou-o com imensa tristeza, sentindo-se totalmente responsável pelo estado do rapaz.

— Você... não gostou? — Inquiriu, preocupado.

Ela o abraçou uma segunda vez, chegando a rir daquela apreensão tola de Quasímodo.

— Eu adorei. É lindo! O vestido mais bonito que já vi! — Voltou a encará-lo — Eu só estou dizendo que não devia ter se arriscado dessa forma por mim. Eu sempre defendi que você devia sair mais da catedral, mas por você. Porque você se sente à vontade, e não por mais ninguém...

— Não importa. Por você eu faria tudo de novo, e ainda mais... mesmo sabendo o que me esperava! — Deu agora um sorriso genuíno, e enrubesceu quando Esmeralda deu um estalado beijo em suas bochechas, o afeto que transbordava por seus olhos criando em Quasímodo a certeza de que suas palavras foram completamente sinceras.

Por Esmeralda, largaria mão de si mesmo se fosse necessário, sem nem precisar refletir.

Notas finais
*Não se deixem levar por esse pensamento achando que se trata de algo misericordioso. É apenas mais uma amostra da enorme bipolaridade de sentimentos que Frollo tem por Esmeralda se pronunciando =P **Eu jamais poderia ficar com o crédito por esse trocadilho maravilhoso, hehehe! Ele foi retirado de uma passagem do livro =) Gente, eu sei que a fic pode estar extremamente cansativa com esse foco absurdo que venho dando na dinâmica entre Frollo e Esmeralda, mas acreditem em mim, TUDO na história vai depender dos avanços dessa relação. Por isso realmente preciso dar esse enfoque maior nos dois para conseguir desenvolver todos os universos que ainda terão maior profundidade por aqui, então peço que tenha alguma paciência se isso estiver te cansando, hehehe! Não é do meu perfil ficar insistindo tão incansavelmente no “romance” de uma história (bem entre aspas pois sabemos que Frollinho - apesar de um personagem incrível - é um tanto problemático, hehe) e deixar o resto como segundo plano, mas nessa fic isso se mostrou mais do que necessário, confiem na Arrriba aqui, ela sabe o que está fazendo (ou pelo menos ACHA que sabe =P)