O Preço da Magia
8 Episódio 08: La Désirer Fait-il De Moi Un Criminel
Notas iniciais
No dia seguinte à celebração de boas vindas à criança de Carmen, as ciganas do Pátio se reuniram em torno da fogueira já apagada num mutirão para colocar em ordem o lugar. Tirar dali as cinzas e resquícios do ritual, retomando enfim as agruras que a vida reservara àquele povo tão maltratado.
Os semblantes mais reservados das egípcias de diversas idades deixava claro que a alegria contagiante do dia anterior parecia ter se apagado junto à última fagulha do fogo. Quando novamente eram apresentados à dura realidade de sua miséria.
Esmeralda estava no meio das mulheres, ajudando a recolher os tocos enegrecidos da madeira que por toda a noite alimentou a fogueira festiva, aproveitando para procurar o lenço perdido na noite passada, no calor de sua dança. Revirou o lugar por baixo de cada sujeira, gastando um tempo que se mostrou totalmente improdutivo naquela tarefa.
A estrangeira olhou ao redor, intrigada.
Porém, logo seus pensamentos tomaram outro rumo, esquecendo por completo o enfeite barato.
— Esmeralda! — Ouviu o chamado, se virando na direção da conhecida voz já com um sorriso querendo escavar as típicas covinhas em seu rosto. Avistou Clopin a alguns metros de distância, pedindo com um movimento de cabeça que a egípcia viesse até si.
Ela caminhou a passos lentos até o cigano, ainda carregando nos braços os resquícios queimados de madeira e no rosto um semblante inquisidor. Clopin parecia, de algum modo, diferente. Rígido, sem sorrir, ainda aguardava que a mulher o alcançasse.
— Aconteceu alguma coisa? — Ela inquiriu ao finalmente se aproximar, analisando o homem mais velho com cuidado, certeira em suas desconfianças. Aquela carranca em seu rosto era um tanto incomum, e de imediato a preocupou.
— Preciso ter uma conversa com você. — Explicou vagamente, seu tom seco deixando Esmeralda ainda mais perdida em meio àquele tratamento severo.
— Agora? Eu estou ajudando as outras a limpar o que sobrou da noite passada...
— Eu estou certo de que elas podem terminar sem você. — Clopin, ainda muito sério, ofereceu um braço à cigana, esperando que ela o segurasse — Venha, Esmeralda, é importante.
A estrangeira estreitou os olhos, tentando prever as implicações daquele comportamento atípico. Deixou as toras que carregava organizadas numa pilha sobre o chão, aceitando o braço do cigano e ao mesmo tempo limpando o suor que salpicava a testa.
Caminharam em completo silêncio, o líder do Pátio encarando algo bem à frente, sem destinar um único olhar à mulher que o vislumbrava abertamente, intrigada. Tentou recordar-se da noite passada, imaginando se de alguma forma fizera algo para desrespeitar o cigano.
Os minutos se arrastaram quietos até que Clopin pareceu satisfeito com a distância atingida, longe de qualquer ouvido curioso onde poderia falar a sós com Esmeralda. Conduziu-a rumo a uma larga pedra, e ali sentaram lado a lado, os braços ainda entrelaçados de uma forma que constrangeu a cigana pelo silêncio tão firme, tão rígido.
O boêmio ainda fitava um ponto fixo distante, parecendo na dúvida sobre olhar ou não para a menina que desde sempre teve como filha. Quando enfim se pronunciou, ainda parecia relutante em direcionar a ela seus orbes escuros.
— Eu conversei com Sara noite passada... — Principiou, e Esmeralda sentiu o corpo relaxar ao compreender tudo de imediato, com aquela única frase.
"Não posso nem mesmo culpá-la! Eu não cheguei a pedir que guardasse segredo..."
Esmeralda permaneceu em silêncio, apenas analisando a situação à sua maneira, aguardando que o cigano prosseguisse seu relato e até mesmo ansiando pelas conclusões que adviriam daquela conversa. Não quisera preocupá-lo, mas se sentiu de leve culpada por não ter sido ela a entrar naquele assunto.
— Ela me alertou sobre a sorte que leu para você antes que as duas se juntassem ao ritual. — Finalmente se dispôs a encará-la, e disputando com a preocupação havia alguma severidade em suas íris — Agora quero saber de seus lábios o que de fato está acontecendo.
— Clopin, não é nada com que se preocupar, eu garanto! — Sorriu com carinho, afagando o braço sobre o seu ao verbalizar frases que nesta manhã pareciam soar com muito mais confiança do que na noite passada — Eu tive alguns incidentes com um soldado real que passou de alguns limites, mas nada que não possa ser contornado. A própria Sara sugeriu isso quando leu minha sorte.
— Quem é ele? — Questionou com simplicidade, não se deixando levar pela tranquilidade aparente de Esmeralda. Ela suspirou, conhecendo aquele olhar. Clopin não desistiria de nenhuma de suas perguntas, e esquivar-se delas só aumentaria a preocupação do homem.
— O capitão Phoebus. — Revelou, vencida — Não sei se o conhece...
— Conheço. — Avisou, ainda ríspido — O que ele fez?
Esmeralda o mirou por alguns segundos, percebendo o rosto inabalável do líder disposto ao que fosse preciso para proteger a mulher que, às vezes, ele teimava em ver como uma menina indefesa.
— Ele vem me perseguindo sempre que vê uma oportunidade. — Contou a meia verdade, não suportando a ideia de Clopin preso ou morto ao buscar por uma vingança que jamais seria alcançada. Sabia, sem sombra de dúvidas, que era exatamente dessa forma que ele agiria se chegasse a conhecer os pormenores que protagonizavam esses conturbados encontros — Sempre que me apresento por Paris ele vem me atormentar sem qualquer razão.
— Ele já te tocou com ameaças ou luxúria, Esmeralda? Já fez algum mal a você?
— Nunca. — Mentiu com descaro, sem ao menos vacilar naquela falsa resposta — Só tem sido muito inconveniente sempre que nossos caminhos se cruzam.
O líder do Pátio dos Milagres a estudou com minúcia, aparentemente tentando detectar qualquer sinal de mentira no rosto sereno de Esmeralda, que nem chegou a sentir remorso pelas inverdades contadas, unicamente para protegê-lo de seu espírito impulsivo. Pelos seus irmãos e irmãs, sentia que era capaz de qualquer coisa.
Por Clopin, contudo, faria ainda muito mais do que somente o necessário. Por ele, o extraordinário nunca seria demais.
O cigano pareceu convencer-se, relaxando um pouco os músculos tensos. Sua expressão também foi se suavizando paulatinamente conforme sentia a certeza de Esmeralda fluir por seus traços confiantes, transmitindo uma verdade que nem desconfiou o quanto fugia da real situação.
— Eu fiz algo para você... — Clopin retirou do pescoço um colar largo, a corrente de couro grossa sustentando um pingente engenhosamente talhado em madeira — A estrela de seis pontas. — Indicou, passando o polegar sobre o trabalho artesanal com certo orgulho antes de pendurar o colar no pescoço da egípcia, que ergueu o pingente até a altura de seus olhos, admirando os detalhes. A estrela de seis pontas era rodeada por um círculo de dimensões perfeitas, o trabalho delicado de um verdadeiro artista em completa harmonia com suas proporções — Ela representa nosso amuleto máximo de proteção.
— É linda...! — Elogiou, ainda encantada com a fineza tão delicada do objeto.
— E tem mais uma coisa... — Clopin olhou atentamente os arredores, certificando-se de que estavam de fato a sós — Se o amuleto não for suficiente para lhe proteger, quero que use isto.
Passou à cigana um punhal prata de tamanho pequeno, a arma aparentando ser antiga e ao mesmo tempo incrivelmente afiada. Os olhos verdes se arregalaram, fitando o amigo com receio e alguma diversão.
— Você sabe que é proibido portar armas. Se me pegam com isso, terei um problema muito maior do que apenas o capitão Phoebus.
— Você não é mais uma menina, Esmeralda, por mais que às vezes eu relute em admitir... Já é uma mulher feita. Guarde o punhal sob a saia. — Orientou, pousando a arma no colo de Esmeralda, cuidadoso em seu gesto, não querendo correr o risco de cortá-la — Qualquer um que se aventure por baixo dela sem o seu consentimento e acabe descobrindo-o escondido, merecerá provar de sua lâmina.
A menina riu, incrédula, enrolando a arma ilícita entre o pano longo de sua saia enquanto não tivesse a oportunidade para escondê-la melhor. Clopin passou uma mão terna por seu rosto, pousando os dedos na curva de seu pescoço e atraindo para si a atenção da cigana. Ele a fitava com profunda tristeza.
— Não hesite em me pedir ajuda. — Rogou, pesaroso. De fato preocupado com a segurança daquela que tanto amava — Se este capitão ou qualquer outro homem te desrespeitar, venha a mim, Esmeralda. Meu dever é resguardá-los. Eu zelo por todos da maneira que posso, e por mais que você seja aquela a quem eu mais anseio proteger, é também a que menos me procura nos momentos difíceis.
— Eu não quis preocupá-lo. Só isso... — Justificou-se, pousando os dedos sobre a mão do líder e sentindo um consolo agradável com o contato — Eu sabia que você ficaria fora de si sem razão. Não quero que você se deixe levar por seu gênio e cometa alguma bobagem!
— Por enquanto, prometo não fazer nada a respeito. Isso se você também prometer que vai me deixar a par de qualquer movimento mais ousado que venha desse capitão — Referiu-se a Phoebus com asco, uma faísca de fúria ascendendo aos seus olhos.
— Prometo... — Sorriu sem alegria, de súbito detestando a sensação de mentir para Clopin.
Conhecendo o explosivo gênio do homem, sabia que deixá-lo conhecer aquelas questões seria o mesmo que condená-lo à forca.
— Eu espero que sim, minha querida! — Concluiu, erguendo-se num movimento altivo, novamente se portando como o homem de sempre — Não podemos ter receios entre nós. Somos nossa única esperança de sobrevivência nesse mundo bárbaro — Sorriu com alguma amargura, a mão calorosa no ombro da cigana tentando transmitir o quanto se importava. O quanto sempre se importaria com aquela menina, que por vezes ainda parecia uma criança a seus olhos.
As mãos encaixaram-se nos ângulos esbeltos que formavam sua mandíbula, abaixando-se o suficiente para pousar um beijo à testa da boêmia, orando em pensamento para que algum de seus presentes, de preferência o primeiro, fosse eficaz na proteção da mulher.
O cigano a deixou sozinha, ainda sentada sobre a frieza da pedra refletindo sobre a breve conversa que tiveram. Desenrolou o punhal com cuidado, admirando o brilho prata da lâmina que relanceava à mercê da claridade nublada vinda do céu. Passou o indicador pela lateral cortante, percebendo o quanto Clopin devia tê-la afiado, surpresa ao notar que qualquer aumento de pressão naquele leve contato já seria capaz de rasgar sua pele.
Escondeu-o mais uma vez, a solidão fazendo reviver em si a desagradável sensação de ser vigiada que a vinha perseguindo, e que ainda a atormentaria por toda aquela semana antes que finalmente terminasse...
...Antes que se visse coagida a usar pela primeira vez o punhal que Clopin lhe dera.

Esmeralda se manteve ocupada pelos dias que se seguiram, dedicando-se a executar tarefas dentro do próprio Pátio a fim de não pensar muito a respeito de sua sorte. De esvaziar a mente dos maus agouros, e não permitir que se deixasse enlouquecer pelos olhos invisíveis que sentia sobre si, a cada dia com mais força. Como prometera a Sara, não voltou ao centro de Paris desde então, por mais que lhe angustiasse sentir sua liberdade podada daquela forma.
Seu corpo se exauria à medida que a cigana se dedicava sem descanso a todo tipo de trabalho que surgia, porém sua mente era grata, vendo aquele cansaço como uma oportunidade bem vinda de ocupar-se com outras questões. Somente assim pensava com menos frequência nas más sensações que vinha tendo e se permitia distrair da passagem dos dias.
Sentia falta de Paris, contudo.
Bastava fechar os olhos para vislumbrar com clareza a arquitetura bela do centro da cidade, sua dança sendo aclamada pelas bocas parisienses como se, naquele breve instante, a barreira entre Paris e seus estrangeiros caísse, fazendo seus habitantes verem-na com alguma igualdade e até mesmo apreço. Era capaz de ouvir os sinos tocando do alto da catedral, e o som do campanário trazia a visão do sorriso torto e gentil de Quasímodo, todo sem jeito diante de sua presença, e aquela saudade era a que mais doía.
Via-se livre, indo aonde bem entendesse com Djali ao seu encalço.
— Não sei quanto tempo mais posso continuar com isso... — Resmungou, agachada sobre a simples horta que cultivavam, limpando a terra de ervas daninhas que ameaçavam crescer às margens dos alimentos.
A cabra, sentada a seu lado, olhava desejosa em direção a um pé de alface, sem ao menos piscar. Arrastou-se sutilmente com as patas da frente, aproximando-se aos poucos sem deixar que Esmeralda percebesse seu intuito.
— Não fomos feitos para nos sentir presos... — A cigana prosseguiu, a revolta crescendo em sua voz à medida que fazia o desabafo. O animal venceu um novo passo, agora dividindo seu olhar entre a verdura fresca já ao seu alcance e a dona, que fazia suas divagações de costas para si — Talvez isso esteja indo longe demais. Com certeza já foi longe demais. Não posso deixar que me intimidem desse jeito... Não acha...?
A egípcia virou o rosto, procurando por sua fiel companhia, vendo a cabra agachada nas quatro patas, como se temesse fazer barulho, e a boca aberta se aproximando com lentidão da folha de alface, seus movimentos escusos e comedidos indicando que Djali estava bem ciente do crime que cometia.
Esmeralda pegou-a no colo, e os dentes do animal se fecharam no vazio, trincando um contra o outro. A pequena cigana quadrúpede encarou a dona, frustrada e enraivecida.
— Eu não estou me desdobrando nessa horta para ver você destruí-la... — Tentou repreender, mas não foi capaz de evitar o riso. Ajeitou-a em seu colo, fitando o animal com profundo amor enquanto os dedos acariciavam o pescoço peludo, destruindo de imediato a raiva de seus olhos caramelos — Só um pedacinho, está bem?
Arrancou a maior folha do pé que quase foi consumido inteiro pela cabra, esta se impulsionando com afã na direção da comida, temendo que a egípcia mudasse de ideia. Esmeralda saiu da horta protegida por cercas, fechando o lugar por onde entrara e só então colocando Djali de volta ao chão. O animal, agora serelepe, seguiu a dona, satisfeita enquanto ainda se refestelava com o seu prêmio.
Esmeralda suspirou ao perceber a lua já ocupando o alto do céu.
"Mais um dia fazendo do meu próprio lar uma clausura..."
Caminhou cabisbaixa pelo Pátio, limpando os resquícios de terra das mãos e dos joelhos conforme seus pés refaziam o caminho até sua casa. Sentiu o punhal que Clopin lhe dera bem preso à coxa direita, o suporte improvisado que ela fez sustentando bem o objeto.
A cigana estancou, de repente encorajada pela sensação da arma contra sua pele. O ar noturno trouxe uma lufada fresca ao rosto, como se contribuísse para seus pensamentos, convidando-a a ouvir seus impulsos tão reprimidos naqueles últimos tempos.
A sentir-se mais uma vez livre, como o próprio vento tocando seu rosto, capaz de ser o único dono dos rumos que tomava.
— O que acha de mudar um pouco o caminho, Djali? — Perguntou com um meio sorriso nos lábios, a mera sugestão já lhe parecendo um tanto libertadora. A cabra lambeu os beiços, farejando a mão da cigana em busca de mais alimento, sem se importar com o conflito interno que a humana demonstrava em seus monólogos.
Ela trocou o trajeto numa postura decidida, já farta de sua rotina tão regrada. Andou rápido para que nenhum cigano a visse, silenciosa como o vento fresco que ainda a impulsionava com coragem. Não tinha a intenção de se aventurar por Paris àquela hora, contentando-se em, naquele momento, apenas ver de longe a catedral nos limites do Pátio. No dia seguinte faria uma visita mais adequada, contudo aquele vislumbre ao longe da cidade por certo amainaria um pouco da saudade.
A ansiedade a fez correr para longe do caminho de sua casa, a barra da saia esvoaçando pelo calcanhar e atiçando Djali a rodeá-la com os típicos saltos faceiros que vinham junto à corrida do animal sempre tão alegre e disposto a brincadeiras.
Esmeralda freou apenas quando reconheceu as cercanias do Pátio dos Milagres, dando um sorriso largo ao identificar as duas torres mais altas da catedral ao longe, iluminada. Passou a andar mais devagar, se permitindo sair um pouco dos limites da morada cigana enquanto respirava fundo, agradada por entregar-se à sensação de liberdade que tanto sentiu suprimida nos últimos dias. Procurou pelo melhor ângulo para vislumbrar aquela paisagem distante, mas não menos bela.
Djali baliu chamando a atenção da dona, e quando Esmeralda olhou para trás viu que a cabra estava relutante em avançar. Ainda dentro do limite estimado do Pátio, Djali a chamava, escavando o chão com seus cascos como se pedisse a volta da egípcia...
...Parecendo prever o que aconteceria muito em breve.
— Está tudo bem, querida. Pode vir! — Tentou tranquilizá-la, os braços abertos num convite. A cabra olhou, ainda ressabiada, mantendo-se estática naquele lugar que sabia ser seguro, esperando que a humana viesse até si para que pudessem retornar. Sentia odores estranhos impregnados naquele ar, e mais uma vez reclamou, pedindo a volta da dona.
E a partir daí tudo aconteceu rápido demais.
Um assobio alto ecoou com força pelo ar, e um soldado real surgiu das sombras com um semblante sério de autoridade. Vinha em direção à cigana, e Esmeralda esquivou-se com rapidez do estranho homem quando este fez menção de agarrá-la, mirando com precisão um chute que acertou seu rosto de barba mal feita. Arfou quando outro a segurou com força pelo braço, este novo rosto mais familiar do que ela gostaria.
— Não devia ter deixado seu covil, boêmia! — A voz conhecida de Phoebus despontou com ódio exultado, lançando um olhar ao subordinado com um sorriso amedrontador — Vocês estão dispensados. — Avisou, pedindo para que o homem levasse o recado aos outros soldados que vigiavam as cercanias do Pátio dos Milagres por ordem sua, esperando justamente por aquele momento de descuido por parte da estrangeira que tanto o humilhara — Me deixem a sós com a cigana. Ainda tenho uma importante lição a lhe ensinar! — Ordenou, e o outro imediatamente saiu de cena, limpando o sangue do canto de seus lábios num roçar grosseiro, um último olhar raivoso direcionado à egípcia antes de desaparecer pela escuridão das ruas.
A voz agourenta de Sara lendo sua sorte encheu a cabeça de Esmeralda, trazendo um arrepio frio à sua espinha. Esse homem não vai descansar enquanto não tiver o que quer de você.
Djali pôs-se a correr velozmente na direção do capitão, mais uma vez disposta a intervir pela dona. Phoebus, já esperando por aquilo, aguardou que a cabra chegasse perto o suficiente de si e lançou o pé em sua direção, atingindo em cheio o terço anterior de seu pequeno corpo e enchendo a noite com o grito desolado do animal, que caiu sem mais conseguir levantar-se.
— Maldito! — Esmeralda rugiu, debatendo-se com vigor daquele toque que tanto a enojava.
— Hoje seremos só você e eu, egípcia! — Constringiu ainda mais a pele morena sobre seus dedos pálidos, sorrindo vitorioso para a cigana que apenas tinha olhos para sua cabra, inerte sobre o chão. Lágrimas grossas se formaram em seus olhos, pensando o pior. Phoebus puxou-a com violência, a mão livre segurando com rudeza o queixo de Esmeralda de forma a obrigar a cigana a corresponder o seu olhar inflamado — Hoje, você aprenderá a dispensar o devido respeito a uma autoridade da minha envergadura.
Esmeralda parou por um instante de se contorcer, vislumbrando o capitão com um ódio que jamais seria explicado em palavras, mas que estava muito bem explanado em seu olhar estreito, faiscante como labaredas esverdeadas. Cuspiu em seu rosto, demonstrando assim o quanto o considerava.
— Quando quiser um pouco mais do meu respeito basta pedir, capitão — Desafiou, sem que ele percebesse tentando alcançar a arma que descansava dentro de sua saia.
Porém, antes mesmo que pudesse sentir sua silhueta por baixo do pano, Phoebus a empurrou com força contra o chão, vislumbrando friamente a egípcia cair de costas. Por maior que tenha sido a dor do baque, Esmeralda tentou arrastar-se para perto de Djali, bastando começar a virar o corpo para que o soldado se colocasse acima dela, imobilizando a mulher ao pressionar o quadril feminino com os próprios joelhos.
— Continue me desafiando, cigana. Continue! — Os olhos loucos a ameaçavam, e para o profundo horror de Esmeralda, o parisiense começou a baixar a calça, expondo o membro rígido que antes se escondia dentro do tecido — Isso apenas me instiga mais na lição que pretendo lhe dar — Sorriu ao finalmente ver o medo no semblante da cigana, excitando-se ainda mais com aquela visão inédita.
Phoebus rasgou toda a extensão frontal da blusa de Esmeralda, arrancando o tecido miserável de seu corpo e conseguindo uma visão privilegiada de seu peito arfante. Segurou os punhos da mulher quando ela fez menção de tentar esconder os seios com os braços, as lágrimas já caindo por seu rosto dominado por raiva, vergonha e medo. O capitão a encarava com um sorriso formado pelo mais puro deleite, naquele instante a luxúria quase capaz de se sobrepor à vontade de constrangê-la.
— Tem belos atrativos para uma egípcia. — Troçou, disposto a se livrar também da saia, sem mais suportar prorrogar o desejo que apenas crescia em si, abrasador.
Tentou segurar os dois pulsos da mulher com uma única mão, livrando a outra para que cuidasse do empecilho que se tornara a última peça de roupa no contexto de seu intuito febril. Conforme o fez, Esmeralda conseguiu libertar um dos braços, e com uma rapidez felina arranhou o lado esquerdo do rosto do capitão, arrancando grossos filetes paralelos de sangue por onde suas unhas passaram.
Antes que terminasse novamente contida, Esmeralda dobrou o braço liberto e lançou o cotovelo à têmpora direita do homem, conseguindo desestabilizar seu equilíbrio já fragilizado com o primeiro golpe. Rugia, como um animal selvagem lutando pela própria sobrevivência, quase conseguindo colocar-se novamente de pé.
— CADELA! — Phoebus urrou, recebendo novos arranhões no rosto antes que conseguisse mais uma vez contê-la. Segurou com força redobrada os braços em fúria, vendo a mulher impulsionar com toda a força o corpo contra ele num desígnio raivoso que arrancou gritos de dor do capitão.
Esmeralda alcançou a orelha direita do soldado com os dentes, mordendo com força suficiente para conseguir arrancar aquele pedaço de carne e cuspi-lo para longe, fazendo o sangue verter profuso por todo o pescoço do homem e para dentro da boca da mulher, que tentava repetir a investida com a cartilagem mais acima, ainda intacta.
Phoebus lançou o joelho na altura das costelas nuas da cigana, tirando-lhe todo o ar dos pulmões e conseguindo afastá-la. Segurou uma pedra que encheu toda a palma de sua mão, acertando com brutalidade a lateral da cabeça da egípcia, percebendo de imediato ela perder todo o vigor após o golpe. Jogou a pedra sangrenta para longe, vendo com exultação a estrangeira escorregar novamente para o chão, sem qualquer domínio dos próprios movimentos.
Os verdes olhos já cortejando a inconsciência demoravam mais a se mostrar cada vez que as pálpebras piscavam, e até mesmo o sabor enferrujado do sangue foi se perdendo junto com os outros sentidos. Antes que Esmeralda perdesse de vez a consciência, contudo, ainda foi capaz de ver o homem mais uma vez se ajoelhar sobre ela, e a última coisa que ouviu foi sua voz cheia das piores promessas.
— É realmente uma pena! Preferia que você me sentisse entrar em seu corpo imundo, cigana maldita. — Abaixou ainda mais as calças, novamente sorrindo — Mas não tem problema. Ainda será uma lição que a fará aprender.
Os olhos da egípcia enfim se fecharam, os dedos uma última vez tateando pela adaga num movimento vão e fraco demais.
Phoebus limpou o sangue viscoso de seu pescoço, sentindo o rosto desfigurado pelas feridas, tal situação o impulsionando com ainda mais avidez para a atrevida mulher. Decidiu concluir rapidamente aquilo, com medo de que os gritos da breve luta atraíssem alguém para aquele desgarrado lugar.
Virou-a de costas, sustentando seu ventre à medida que baixava a saia e expunha os glúteos femininos com urgência, o membro viril já dolorido se inserindo na mulher de consciência comprometida, fraca como os músculos que pendiam. Phoebus estocou com vontade a pélvis contra o corpo moreno, introduzindo-se com fúria àquela que tanto lhe desafiava.
As mãos correram pela barriga, procurando os seios fartos enquanto a estuprava sem ao menos tentar se camuflar naquele cenário. Ciente de que Paris era condescendente com qualquer desgraça que recaísse sobre os ciganos.
Os dedos apertaram com vigor os seios, beliscando os mamilos para que, quando Esmeralda acordasse, um fantasma de dor pudesse recordá-la do que acontecia naquele exato momento. Tomado pelo instante de completo prazer, o capitão grunhiu, aumentando o ritmo com que avançava o quadril sobre Esmeralda, o toque também mais bruto sobre os seios.
A egípcia despertou quase no mesmo instante em que desmaiara, a enorme dor de ter Phoebus a violando por trás, em conjunto com os machucados que desferia na região de seu peito, fazendo uma enorme onda de adrenalida percorrer sua corrente sanguínea e trazendo-a de volta à uma realidade que ela preferia se ausentar.
Você está em perigo, menina. — A voz de Sara se fez novamente presente nos pensamentos obscuros de Esmeralda, que chorava em silêncio, não querendo que Phoebus percebesse que passava por tudo aquilo acordada.
Viu o amuleto que Clopin lhe dera oscilando no ar de forma a acompanhar os movimentos que Phoebus determinava. A estrela de seis pontas se encharcava com as lágrimas de sua portadora, naquele momento escancarada à visão da egípcia como se zombasse de seu próprio significado protetor.
A cigana tentou olhar discretamente para trás, percebendo o capitão de olhos fechados, deliciando-se com a dor que proporcionava. Esmeralda segurou o pingente, rezando por alguma proteção enquanto a outra mão escorregava pela coxa direita à procura do punhal. Retirou-o dali, tomando cuidado para não roçar no braço de Phoebus que ainda a envolvia pelo corpo, as unhas se enterrando com maldade nos seios.
Ainda sem força pelo ferimento que enevoava sua visão, tentou cravar a lâmina na lateral alta de seu tronco, porém tudo o que conseguiu com seu movimento trêmulo foi desferir um corte pouco profundo na perna do homem, alertando-o de que sua vítima estava novamente desperta. O capitão nem pareceu se importar com a perna que agora também sangrava de leve, sentindo ainda mais prazer por saber que a cigana o sentia dentro dela.
Riu, aumentando a brutalidade de suas estocadas, e dessa vez Esmeralda não pôde evitar uma onda de soluços que queriam escapar desde o começo do choro.
— Está gostando, cadela? — Perguntou num tom arfante, beliscando com ainda mais rudeza os mamilos da cigana, que se revezava entre o choro e rugidos de dor. Phoebus abriu novamente os lábios na intenção de dizer algo, porém sua fala foi impedida por algo que jamais esperaria.
A mesma pedra que ele usara para domar Esmeralda agora veio de encontro à sua nuca com surpreendente força, e o capitão caiu para o lado, sem ao menos entender o que o atingira. Um homem que Phoebus apenas percebeu naquele instante estava parado atrás de si, o rosto completamente escondido por baixo de um capuz e ainda segurando a pedra que agora mesclava os sangues da cigana e do capitão. Esmeralda, vendo-se livre, ergueu com pressa a saia até a altura de seu quadril e rastejou para perto de Djali o melhor que pôde, aferindo com dificuldade que o animal ainda respirava.
O homem de capuz se pôs acima do capitão, desferindo em seu rosto já machucado uma tríade de socos furiosos, não se afetando com o sangue que manchava os nós de seus dedos e parte do tecido. Os olhos de Phoebus quiseram fechar, agora ele vítima do convite irresistível da inconsciência.
— Olhe para mim, desgraçado! — Frollo ordenou, permitindo a visão de seu rosto ao afastar o capuz. Os olhos castanhos brilhavam com tanto ódio que Phoebus sentiu um breve tremor ao encará-lo — Que eu seja sua última visão antes de te mandar ao inferno! — Murmurou quando as mãos foram de encontro ao pescoço do capitão, pressionando a garganta ao jogar o peso de seu próprio corpo naquela tarefa.
O arquidiácono, completamente cego ao seu redor, nem chegou a perceber Phoebus tentando alcançar o punhal que Esmeralda deixara cair ali perto. Os dedos do capitão até chegaram a rodear o cabo da arma, porém no instante seguinte se afrouxaram, já sem vida.
Frollo se manteve impedindo a passagem de ar até mesmo depois que a morte de Phoebus se tornou evidente, a ira que se apossou do padre com a cena que presenciara sendo forte demais para ser ignorada ou mesmo abrandada.
O arquidiácono saiu de cima do capitão, atraído pelo choro de Esmeralda, que ainda fraca tentava arrastar seu corpo e o de Djali para longe daquele lugar. O padre caminhou até ela, que no mesmo momento tentou desesperamente cobrir-se com o que restou da blusa rasgada, desviando o rosto lavado pelo sangue que ainda escapava da ferida aberta.
Frollo, sem nada dizer, tirou a capa que o cobria e envolveu a cigana com o tecido negro, não sabendo para quem se direcionava aquele ato de misericórdia. Se para a egípcia, que juntava suas últimas forças para esconder sua nudez, ou para si, que facilmente se via assumindo o lugar de Phoebus caso fosse exposto por muito tempo à visão do corpo que tão fervorosamente desejava.
A estrangeira o encarava com dúvidas, parecendo profundamente desconfiada de suas intenções quando o padre ajoelhou ao seu lado, examinando a gravidade da ferida que latejava, feroz. Ela tentou se arrastar para longe, ainda em prantos, mas não foi necessário. Ele mesmo deu um passo para trás, percebendo a necessidade vigente de Esmeralda em resguardar seu espaço pessoal depois do que lhe acontecera.
Frollo, por outro lado, apenas conseguia sentir uma raiva indomada de si mesmo.
"Eu devia ter chegado antes!" — Praguejou, morrendo por dentro com o que Phoebus causara à sua Esmeralda. Sua mais secreta e desregrada paixão. Sua, em todos os aspectos.
— Consegue levantar? — Questionou sem demonstrar qualquer emoção, encarando os verdes olhos com uma praticidade que condizia pouco com aquilo que de fato sentia. Pensou consigo mesmo como fora capaz de imaginá-la morta, se vê-la ferida já era um suplício árduo de suportar.
— Me deixe, monsieur! — Tentou afastar-se mais, arisca — Não preciso de sua ajuda!
— Bem se vê que não... — Disse, irônico, sem alterar a frieza inabalável de sua postura — Mas se vier comigo à catedral, posso ajudar você e também sua cabra — Propôs, vendo claramente que os orbes desconfiados pesavam suas alternativas — Ao menos me deixe estancar esse sangue — Aproximou-se novamente, dessa vez um pouco mais devagar, desfiando uma tira do tecido de sua roupa sacerdotal e com ela improvisando uma bandagem sobre a região lesionada, prendendo o pano com firmeza ao redor da cabeça da cigana, que resoluta aceitava aquele mínimo contato.
Pensando consigo mesma como agir.
Ela não podia voltar ao Pátio. Não naquele estado, que traria tantas perguntas principalmente de Clopin, e o líder dos ciganos dessa vez não se contentaria com as promessas falsas de Esmeralda de que tudo estava sob seu controle. Não queria admitir a ninguém sua estupidez de deixar a segurança de seu lar apenas por um capricho bobo e infantil de sua parte. Talvez realmente precisasse da companhia de Quasímodo quando a necessidade de ficar sozinha passasse.
Quando a vergonha fosse um pouco menor.
A cigana, sem qualquer resposta, esforçou-se para assumir uma postura ereta, algo que descobriu extremamente penoso, ainda mais com o peso da cabra em seu colo, que agora abria olhos manhosos para a dona. Frollo a amparou, sustentando a cintura da mulher sem que ela se visse com muita escolha.
Sentiu-a estremecer com o toque.
— Não tenha medo — O arquidiácono asseverou, pouco gentil em seu timbre grave — Eu não vou machucá-la.
Esmeralda virou o rosto, lágrima e sangue ainda banhando sua feição infeliz. Negando de leve quando o padre se ofereceu para carregar Djali. Deixaram ali o corpo sem vida de Phoebus, indo até a catedral num ritmo lento, condizente com os passos que a cigana era capaz de travar.
Partiram da cena do crime num silêncio sorumbático, a egípcia mancando enquanto inevitavelmente se via revivendo aquele momento de poucos minutos atrás, se concentrando nas dores que latejavam pelo seu corpo como um vestígio que martelava o estupro em sua mente. Frollo também evitava olhar para a mulher, destruído pela cena que presenciara tarde demais. Destruído por tê-la tão próxima de si, e ao mesmo tempo tão distante.
Chegaram à Notre Dame, e de imediato Quasímodo veio descendo as escadas após vê-los entrando do campanário. Uma lágrima solitária desceu pelas assimetrias de seu rosto ao ver o estado em que Esmeralda se encontrava, o sineiro também não suportando ver os machucados que a cobriam. Aproximou-se dos dois devagar com seu passo mocho, questionando com o olhar.
— Quasímodo, prepare sua cama para que a cigana possa descansar — Frollo ordenou, e de imediato o corcunda assentiu, sem qualquer objeção ou desagrado.
— Não precisa. — Ela interviu, ainda sem conseguir olhar diretamente para nenhum dos dois — Eu durmo em qualquer lugar.
— Venha comigo, Esmeralda! — Quasímodo ofereceu uma mão solidária, o semblante ferido como nunca — Eu a ajudo com as escadas.
A estrangeira segurou a mão do amigo com pesar, aconchegando a cabeça em seu ombro quando o corcunda a ergueu em seu colo com a gentileza que lhe era tão singular. Em seus braços chorou copiosamente, sentindo o quanto suas lágrimas afetavam o sineiro.
Frollo observou tudo atentamente, uma flama periculosa de ciúme lampejando pelas íris intensas. Viu-os sumirem de seu campo visual, e encarou as palmas de ambas as mãos, ainda revelando queimaduras de sua última alucinação na lareira.
"Eu a salvei do capitão e é ao corcunda que ela se demonstra grata" — Lançou um último olhar desagradado na direção do campanário antes que finalmente os seguisse, mergulhado em remorsos, amarguras e desejos. Todos esses sentimentos tão bem misturados que não saberia distinguir qual dos três prevalecia.
O padre subiu a escada, chegando a ver a forma zelosa com que Quasímodo pousou a egípcia sobre a própria cama, Djali ainda em seu colo com uma expressão que denotava dor.
— Quem fez isso a você? — O sineiro perguntou, entre a fúria e o pesar, de um modo tão íntimo que fez aumentar a irritação de Frollo.
Ela negou com a cabeça, finalmente juntando coragem para encará-lo.
— Agora não, meu amigo. Por favor... — Pediu, direcionando um olhar misterioso para o arquidiácono, a quem parecia tentar desvendar.
— Vá buscar um pouco de água, Quasímodo. Precisamos limpar esse ferimento e colocar aí uma bandagem decente...
— Não! — Esmeralda interrompeu Frollo, encarando-o com firmeza pela primeira vez naquele dia — Djali. Cuide dela primeiro! — Levantou com visível dificuldade, colocando a cabra no colo de Frollo como que implorando algo. O contato visual se firmou por apenas alguns segundos, mas estes já foram suficientes para que o homem sentisse o significado incutido naqueles orbes delineados pelas lágrimas — Hoje eu só preciso descansar um pouco... — Disse, mesmo ciente de que não seria nada fácil adormecer e tampouco relaxar de alguma forma.
Mesmo que achasse uma péssima ideia esperar, Frollo anuiu de leve, dispensando o sineiro com um gesto da cabeça, totalmente levado por aquele olhar que o engolfava por caminhos muito errados à sua condição. Percebeu a cabra retesar em seu colo quando tocou na pata dianteira, se curvando num ângulo lateralizado anormal. Um aumento de volume se percebia na articulação da altura média de seu membro, muito sensível ao toque.
— Só é preciso colocar a articulação de volta no lugar. Seria bom se você a segurasse — Decretou, deitando o animal de lado no chão e esperando que a cigana chegasse até eles, ficando de costas para a cabra a fim de conseguir amparar o pescoço e o ventre de Djali. Com um estalo audível que fez todos os pelos de Esmeralda se eriçarem, o padre posicionou o membro novamente à posição correta.
A cabra, sentindo uma explosão de dor, pressionou com força a cabeça no joelho dobrado do arquidiácono à sua frente, chorosa. Frollo acariciou a mandíbula peluda, verdadeiramente surpreso com a resistência do animal. Qualquer pessoa naquela situação gritaria e espernearia, contudo a pequena quadrúpede aguentou tudo como se soubesse a importância do que era feito. Esmeralda o analisava em todos os gestos, internamente grata por aquele pequeno afago, ela mesma passando os dedos pela cabra num deslizar delicado, temendo esbarrar em algum hematoma que se escondesse por baixo da pelagem longa.
Frollo ergueu-se, indo buscar alguns tocos de madeira que Quasímodo usava para talhar seus bonecos, afinando quatro deles e cortando no tamanho ideal. Voltou junto à cigana, dispondo simetricamente as tiras de madeira à pata antes luxada, rodeando firmemente todo o conjunto com uma bandagem a fim de imobilizá-la.
— Não deixe que ela force muito. Tente fazê-la ficar em repouso por alguns dias, só para não correr o risco de se machucar ainda mais... — Orientou, percebendo a cigana completamente atenta a si — Tem certeza que não quer que eu veja sua ferida?
— Amanhã — Ela dispensou, novamente desviando o olhar. Queria, mais do que tudo, ficar sozinha.
O arquidiácono assentiu sem demonstrar a preocupação que o consumia, já prestes a descer os degraus quando a voz de Esmeralda o fez parar, virando o rosto mais uma vez em sua direção.
— O que o senhor fazia no Pátio? — Fez a pergunta que a incomodou desde o princípio.
— Fui atraído pelos gritos. Apenas me guiei por eles.
— Ouviu os gritos daqui, de Notre Dame? — Ergueu uma sobrancelha, incrédula — O senhor é o homem que vem me seguindo por todos esses dias. — Afirmou, recordando de ter vislumbres daquela capa negra que agora a vestia — Por quê?
Frollo deu um sorriso curto, inabalável, antes de responder.
— Está nitidamente confusa, cigana. Durma um pouco, e talvez pela manhã seus pensamentos se tornem um pouco mais claros — Sugeriu, esgueirando-se pela escada até que sumiu de vista.
Esmeralda andou com dificuldade até o parapeito, ignorando as tantas dores que latejavam em conjunto. Djali estava aconchegada em seus braços, os olhos caramelos fitando a dona com verdadeira adoração e tristeza ao reconhecer a melancolia na feição humana, que ela aprendera a desvendar.
— Tudo isso apenas por um vislumbre dessa vista, Djali. E ela nem me parece mais tão bela... — Fitou a cabra, os olhos se encharcando ainda mais por vê-la naquele estado frágil em que a egípcia atribuía a si toda a culpa — E você sabia... Tentou me avisar. Me desculpe... — Abraçou-a, se rendendo aos novos soluços, o arrependimento por aquela má decisão recaindo sobre seus ombros de um único golpe.
Manteve aquela posição por algum tempo, admirando a aura brilhante da lua enquanto se perdia em considerações afiadas. Amargas ao paladar. Somente após algumas horas se permitiu deitar na cama, chorando como uma criança desolada sobre o leito de Quasímodo. Encolheu-se junto à capa negra que a vestia, percebendo o tecido exalar um perfume almiscarado que veio como uma distração reconfortante aos seus pensamentos.
Adormeceu com dificuldade num sono leve e composto pelos mais cruéis pesadelos, ainda com lágrimas saindo dos olhos mesmo após eles se fecharem, sem desconfiar em nenhum momento que Frollo a observava dormir à distância, segurando o crucifixo como se fizesse uma prece.
O tipo de prece que deus algum atenderia.
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