O Preço da Magia

9 Episódio 09: Rien N'est Plus Comme Avant


Notas iniciais
*Nada mais será como antes Boa noite, suas maravilhosas! Como vão? Bom, esse é um capítulo BEM introspectivo (também pudera né, depois do que aconteceu com a linda da Esmeralda precisava mesmo de um capítulo assim), e por conta disso eu espero que não se torne cansativo na leitura. Eu dedico esse episódio à leitora Menta, que fiquei sabendo ter passado por uma perda triste. Força, minha linda! Qualquer coisa estou por aqui. E antes que eu me esqueça, num momento do capítulo eu incluí um link no meio do texto que se direciona a um vídeo do YouTube, e eu peço encarecidamente que vocês abram e escutem a música com carinho, nem precisa ver o vídeo se não quiserem, só escutem mesmo, hahaha! É uma música cantada pela Esmeralda que merece ser ouvida. Acho que era só isso! Beijos, e boa leitura ;*

Durante toda a noite, Esmeralda se remexeu com incômodo sobre o leito de Quasímodo, irrequieta. Em momento algum capaz de se sentir minimamente confortável, ainda que aquela cama fosse muito melhor do que a sua no Pátio dos Milagres. Estava dominada pela inquietude mesmo durante os raros instantes em que conseguia se entregar ao sono leve, este dominado pelas piores projeções que sua mente era capaz de reproduzir de seu último acidente com Phoebus.

A estrela de seis pontas, símbolo máximo de proteção, oscilando conivente com o mal que recaía sobre si, mimetizando a impotência que regia a vida dos estrangeiros.

Dormia e acordava, ao som de seus próprios sobressaltos, num padrão bem regrado, incapaz de descansar o corpo das injúrias que vivera há poucas horas. Havia ainda a dor. Não apenas a psicológica que, para a cigana, representava o pior de todos os rastros deixados por aquela violência, mas também a física, se pronunciando numa insistência latejante como um lembrete pouco gentil do ocorrido.

Marcando uma presença contínua e firme, impedindo que a egípcia se desligasse por mais do que alguns minutos daquela realidade penosa.

As lágrimas banhavam o travesseiro fino de Quasímodo, estivesse a estrangeira desperta ou não. Estivessem as pálpebras cerradas ou erguidas, o tormento era contínuo ainda que nos raros momentos de inconsciência, e mesmo que seu corpo estivesse dolorido, a boêmia continuava tentando se revirar sobre a cama sem grandes sucessos.

Por volta das quatro da manhã, contudo, o padrão se quebrou, e Esmeralda foi incapaz de resgatar qualquer indício de seu sono turbulento e entrecortado. Djali, aconchegada ao peito da dona, a fitava com seus olhos caramelos bem acordados, como se tencionasse dizer algo à cigana que tanto amava. Consolando-a apenas por direcionar a ela o par de íris retangulares, que prometiam entendê-la melhor do que qualquer humano jamais seria capaz, cúmplice em sua desolação.

Com um arfar que mimetizava tanto sua agonia física quanto a mental, a boêmia conseguiu sentar-se sobre o colchão, retribuindo ao olhar inteligente da cabra com o seu, que hoje se mostrava derrotado pelo marejar inevitável das lágrimas. Os joelhos se dobraram para perto de seu peito, numa fraca tentativa de tornar-se menor...

...De reiterar a insignificância que sua alma tão veementemente afirmava possuir.

Desejando, mais do que tudo, desaparecer em sua pequenez.

Acolheu-se sobre o manto do padre que a cobria, inspirando ao fim de um soluço o perfume peculiar que se desprendia do tecido como sua melhor distração. Tentando não pensar em mais nada além do odor, mais uma vez se esforçando para desviar de sua mente a imagem de Phoebus forçando-se em si, extasiado com cada faceta das angústias que lhe proporcionava.

"Tem o toque de almíscar que já notei em alguns ciganos..." — Por um momento a familiaridade do agradável perfume chegava a confortá-la, contudo, cedo ou tarde, era novamente arrebatada para a sensação vívida de Phoebus beliscando seus seios, forçando o membro enrijecido por entre seus glúteos, grunhindo de prazer enquanto ela era capaz apenas de chorar. O capitão em cada momento rindo de sua aflição e a transformando numa forma de prazer.

Esmeralda desviou o rosto sem saber exatamente do quê, as novas lágrimas esquentando os rastros frios que foram deixados pelas mais antigas. A dor veio como um golpe de espada em seu tórax quando ele sacolejou mediante aos indomados soluços que apenas cresciam, e suas pernas se comprimiram para ainda mais perto, o rosto se escondendo por entre os joelhos e abafando o novo choro que, na verdade, nada mais era do que uma extensão interminável de todos os outros.

Sentia-se imunda.

Pela primeira vez, via em si todo o mal que os parisienses incutiam aos ciganos como rótulo de sua origem.

A sujeira de Paris. Aquela que não podia ser varrida de suas preciosas ruas.

Por aquela madrugada desoladora, de fato acreditou ser ela a culpada por sua condição de agora. Durante a longa noite, vários pensamentos vieram brindá-la com desespero, angústia e derrota, sentimentos que não só cutucavam a ferida como também a estendia num esgarçar sufocante.

"Eu o provoquei várias vezes, como se procurasse pelo revide."

"Eu saí do Pátio por um capricho tolo..."

"Eu subestimei a leitura de minha própria sorte!"

"Eu mereci. Fui estúpida!"

De súbito, o ar tornou-se extremamente rarefeito. Cada inspiração demandava um esforço maior do que a última, e Esmeralda se viu arrastando os pés em direção às gárgulas que enfeitavam o parapeito do cômodo do sineiro. Seu corpo, encurvado pelas várias angústias, ainda encontrou força o suficiente para carregar o peso de Djali entre os braços trêmulos, exclusos da graça que antes esbanjavam até mesmo em seus movimentos mais insignificantes.

Ainda chorava quando cuidadosamente sentou nos pilares, escorando as costas na parede e, sem que pudesse afastar a ideia, calculou a altura até o chão com interesse, imaginando se suas dores seriam caladas se por acaso caísse do alto do campanário. Inclinava-se nos pilares com ousadia, de leve tentada por aquela conjectura. Djali, como se pudesse compreender o que se passava e ler os pensamentos mais íntimos da dona, baliu com indignação em seu colo, atraindo para si a atenção dispersa da cigana.

A boêmia tentou sorrir, mas tudo o que conseguiu foi levar uma expressão incoerente ao rosto.

— Não se preocupe, Djali. Era só uma hipótese, nada mais. — Explicou enquanto a acariciava, voltando o olhar para a paisagem noturna que trouxe um arrepio à sua espinha. Não era mais capaz de ver beleza alguma naquele cenário que um dia tanto a encantou.

Hoje, via somente maldade. Nas ruas bem cuidadas nos arredores de Notre Dame apenas conseguia distinguir um lar inalcançável aos seus irmãos — os proscritos e desvalidos da cidade, aqueles que eternamente seriam vistos através de olhares que se julgavam superiores.

Que serviam apenas como carne de forca, a maior atração à praça de Grève.

Ficou parada na mesma posição, vislumbrando o dia aos poucos nascer com os primeiros raios tímidos de luz, espantando a beleza singela das estrelas que jamais poderiam competir com o brilho insolente do sol.

Levou uma das mãos ao amuleto que Clopin fez para si, se concentrando no aperto cada vez mais forte que se extravasava no pingente.

Respirou um pouco mais fundo o ar fresco da aurora, os olhos agora fechados ainda dando vazão à tristeza, que era líquida. Sua voz despontou, suave apesar do choro, sedenta pela melodia que se erguia de seu timbre. Cálida e de uma afinação bela, Esmeralda cantou, entregando-se àquele instante como a maior de suas esperanças.

Ku vate moti qe ish nje here kur un e ti zemire duheshim shum mire. Ku vate moti qe ish nje here kur un e ti zemire duheshim shum mire. Aj lule lule, aj lule lule, aj lule lule mace mace e un per ty, e un per ty, e un per ty me dal pace e dale pace, e dale pace, e dale pace ish vertete. Aj lule lule, aj lule lule, aj lule lule mace mace e un per ty, e un per ty e un per ty me dal pace e dale pace, e dale pace, e dale pace ish vertete. Ku vate moti qe ish nje here kur un e ti zemire duheshim shum mire. Ku vate moti qe ne trut me mbaje edhe vdes nga malli ngaqe nuk me shohe. Aj lule lule, aj lule lule, aj lule lule mace mace e un per ty, e un per ty, e un per ty me dal pace. E dale pace, e dale pace e dale pace ish vertete. Aj lule lule, aj lule lule, aj lule lule mace mace e un per ty, e un per ty, e un per ty me dal pace e dale pace e dale pace e dale pace ish vertete.

A estrangeira cessou por um instante o canto, reproduzindo com perfeição em sua mente os acordes de banjo que se estenderiam durante minutos inteiros, solitários. O aperto sobre a estrela de seis pontas já se afrouxara, e o espírito de Esmeralda parecia um pouco mais leve ao se permitir entregar de corpo e alma à música. Ela recostou-se melhor sob a alvenaria fria de Notre Dame, os olhos ainda cerrados e úmidos se deixando levar pelo cântico que trazia em suas palavras o sangue cigano.

Um sangue capaz de encharcar as ruas da cidade sem gerar qualquer comoção dos parisienses.

Aj lule lule, aj lule lule, aj lule lule mace mace e un per ty, e un per ty, e un per ty me dal pace e dale pace e dale pace e dale pace ish vertete. Aj lule lule, aj lule lule, aj lule lule mace mace e un per ty, e un per ty, e un per ty me dal pace e dale pace, e dale pace, e dale pace ish vertete. Aj lule lule, aj lule lule, aj lule lule mace mace e un per ty, e un per ty, e un per ty me dal pace e dale pace, e dale pace, e dale pace ish vertete.*

Terminou a canção de origem albanesa que fora acolhida pelo povo egípcio e permaneceu ainda de olhos fechados, não se dando conta de que não estava mais a sós com os pensamentos sempre cruéis que desde a noite passada vinham se mostrando companheiros insistentes.

Frollo a encarava pela primeira vez sem quaisquer reservas, massacrado pela melancolia que deu ainda mais beleza ao canto, tão espontâneo quanto as notas que os pássaros soltam em meio ao voo, como uma parte indispensável de sua essência mais profunda. Destruído, acima de tudo, por sua fé fraca, que titubeava até mesmo na sugestão daquela única presença.

A voz da cigana, tão suave e bela quanto suas danças mais inspiradas, também parecia programada para ludibriar seus sentidos, cuspir em suas crenças e inflamar seu corpo com as chamas que provinham do próprio inferno. Uma voz disposta a vir atormentar seu espírito já em ruínas. O som lírico de seu timbre também eficaz em reclamar pela alma do arquidiácono, uma alma que não mais lhe pertencia.

O sacerdote aproximou-se sem emitir nenhum ruído em seus passos, aproveitando a visão mais aberta que podia desfrutar de sua Esmeralda. A menina pagã que o enfeitiçara sem o menor esforço, que o fazia caminhar de bom grado por um rumo sem volta, agora a apenas um palmo de si e ao mesmo tempo ainda mais distante do que os montes de Andaluzia. Os dedos pararam a meio caminho dos cachos negros, tentado a experimentar sua textura, a render-se ao cetim da pele morena que fantasiava contra a sua desde que pela primeira vez a vira.

Desde que Lúcifer começou a rir de seus vãos esforços em ignorá-la.

Entretanto, antes que pudesse se deixar levar por qualquer uma das tantas vontades que nutria, a cabra soltou uma potente vocalização, fazendo os olhos de Esmeralda novamente se abrirem de imediato, arregalados em conjunto com o sobressalto que invadiu seu corpo ao perceber a proximidade sorrateira do padre.

Ele imediatamente recuou, o fogo abrasivo em seu olhar dando espaço à habitual armadura que se erguia apenas de sentimentos amargos. Quando Frollo falou, já estava recomposto em sua postura rija, sem ao menos desconfiar o que ainda o movia a se portar de maneira sensata naquela presença.

— É preciso dispensar os devidos cuidados ao seu ferimento. — Alertou sob o olhar desconfiado da cigana, que afastava perigosamente o corpo para longe do arquidiácono e para mais perto de uma provável queda — Sequer devíamos ter esperado — Concluiu, disposto a mostrar-se o mais indiferente possível. Não sabia, até então, como vinha obtendo sucesso naquela árdua dissimulação que ameaçava ser desmascarada a cada novo instante em que se submetia à companhia da egípcia.

Frollo deu a ela mais espaço ao se afastar alguns passos da mulher que em segredo o atormentava, indicando o caminho com a mão aberta num convite para que retornasse ao aposento de Quasímodo. Esmeralda, ainda hesitando com o olhar, estudava atentamente o sacerdote de Notre Dame, a cada instante achando mais difícil a arte de lê-lo. Desde o princípio acreditou que o padre, em nome da religião que representava, se tratava da pessoa que mais nutria repúdio pelo povo cigano e seus costumes, porém fora esse mesmo homem que, contra todas as sua expectativas, por duas vezes a salvou das investidas maldadas de Phoebus.

Por fim, a cigana anuiu em leve concordância, secando dos olhos os resquícios das lágrimas já frias, tão gélidas quanto o corpo sem vida do capitão devia estar. Caminhou o mais rápido que pôde na frente de Frollo, mais uma vez se posicionando no leito singelo cedido pelo sineiro. O padre não tardou a se posicionar de frente à estrangeira, sua atenção naquele momento restrita à pequena tina de água trazida. Ajoelhado diante da cama o arquidiácono torcia um pano umedecido por água fria, ainda alvo do olhar interessado de Esmeralda, que parecia questioná-lo em silêncio.

Claude Frollo retirou com cuidado a bandagem improvisada na noite anterior, seus dedos gelados deslizando sobre a pele quente da cigana conforme deixava à mostra o ferimento em sua têmpora. Um irrefreável arrepio percorreu toda a extensão de seu corpo já fatigado por tantos desejos não sanados. Da mesma maneira a cigana estremeceu quando o tecido grudou sobre a ferida, puxando a pele em carne viva quando se desprendeu de todo o conjunto sujo que a cobria.

O padre afastou alguns cachos ensopados de sangue dali, virando o rosto da egípcia para que pudesse ter maior visibilidade da extensão dos múltiplos cortes macerados, a mão suave, embora firme, segurando sua mandíbula para dar firmeza aos próximos movimentos. Querendo, acima de tudo, escorregar os dedos pela extensão do pescoço e ombro da cigana, mais uma vez obrigado a reprimir seus maiores anseios. Esmeralda permitiu, ainda que consternada, cada toque cuidadoso, ela mesma passando a segurar o cabelo para libertar o arquidiácono aos cuidados que deveriam ser tomados.

A boêmia o percebeu encarando fixamente o sangue seco e sujo na lateral de sua testa, e nas profundezas de seus olhos castanhos parecia esconder algo, fazendo crescer as dúvidas que a egípcia vinha colecionando do misterioso homem.

— Doerá um pouco, mas é preciso limpar a profundidade da ferida. — Avisou, cheio de frieza e praticidade em meio à contradição perfeita daquele turbilhão pouco coerente que habitava e corroía seu íntimo, como se vermes se alimentassem de um cerne podre dentro de si. Prático como ele sabia jamais voltar a ser.

Ela fechou com força os olhos quando Frollo começou a atritar o pano úmido contra a ferida em movimentos rudes, debridando o tecido morto ao raspar dali o sangue e a sujeira que se impregnaram no machucado aberto. Amou-a ainda mais por vê-la resistir com notória bravura à dor que o padre por certo proporcionava, descontando aquele visível desconforto no forte trincar de seus dentes, fazendo sua respiração tomar um ritmo mais repicado.

Sangue fresco começou a escorrer ao longo da pele morena, e Frollo logo tratou de limpá-lo, inevitavelmente roçando os dedos pelo rosto de sua cigana em momentos ocasionais, capazes de elevar seu suplício a novos níveis quando um desses toques se firmava, ainda que por um incompleto segundo.

Deixou que seu olhar matasse a sede incontrolável pelas verdes íris, percebendo-as cravadas em si no momento em que as encontrou. Sentiu-se tremer por dentro, por pouco incapaz de dissimular sua fraqueza. Desviou os orbes castanhos da egípcia, concentrando-se na nova bandagem limpa assim que se deu por satisfeito da higienização realizada na ferida e seus entornos.

O pano seco e limpo rodeou a cabeça de Esmeralda por baixo das mechas negras que caíam em perfeitos cachos, moldando seu belo rosto de expressão contemplativa.

— Houve algum outro ferimento deixado pelo capitão? — Viu-se obrigado a perguntar, mal segurando o brilho furioso em seu semblante ao mencionar o homem que apagara o sorriso de sua Esmeralda.

"Não se vê mais sinal das covinhas em seu rosto" — Refletiu, maldizendo o cavaleiro que perdera a vida por suas próprias mãos. Ciente de que se a oportunidade se repetisse, novamente o mataria.

A cigana de imediato recordou-se do joelho atingindo a altura de suas costelas, e por mais que aquele golpe doesse com mais afinco do que sua têmpora em carne viva, limitou-se a negar num gesto de cabeça, indiferente.

— Vou deixá-la então. Logo Quasímodo lhe trará o que comer.

Frollo ergueu-se, ansioso por abandonar aquela presença que tanto o consumia em volúpia. Que tanto o aproximava de Phoebus em meio aos desejos carnais se manifestando nos delírios mais profundos de sua consciência. Não deu mais do que dois passos quando Esmeralda se pronunciou, o murmúrio ainda que baixo sendo capaz de açoitar o arquidiácono tamanha a tristeza que se incutia nele.

— Me desculpe por ontem... — Disse de cabeça baixa, não querendo corresponder ao olhar intenso que novamente se voltou a si, abrasivo — Finalmente percebi que pouco importa o que o senhor fazia no Pátio quando... Quando me encontrou. O que vale é que me ajudou quando qualquer outro teria mudado o trajeto e me deixado à própria sorte com o capitão... — Ela mexia em seus dedos enquanto falava, num pretexto para manter os olhos longe de Frollo, distraídos naqueles gestos, mas não era nisso que o sacerdote fixava sua atenção. O brilho apagado do rosto egípcio era o que golpeava com força o arquidiácono — Eu não tinha a intenção de soar ingrata quando o questionei noite passada, e tampouco devia ter feito qualquer insinuação. Como eu disse, nada disso importa agora. Me desculpe! — Concluiu sem ousar fitá-lo. Sem, sobretudo, agradecê-lo, ainda extremamente incomodada com a situação.

O padre assentiu num gesto quase imperceptível, mais do que nunca lutando contra a vontade de se mostrar verdadeiramente à cigana. Os farrapos que se tornaram seu ser implorando para que ela o consertasse. Implorando por alguma redenção.

— Não se preocupe com isso. — Disse simplesmente, retirando-se do cômodo antes que acabasse dando voz a seus impulsos desesperados. Antes que sucumbisse à necessidade irracional de reivindicar o corpo daquela que, sem saber, detinha sua alma.

Frollo esgueirou-se para longe, as mãos inseguras já fora da vista da cigana tateando ao redor da alvenaria conforme descia as escadas sem muita coordenação. Sua respiração, assim como a frequência cardíaca em seu peito, falhou quando se deparou com sua segunda alucinação. Viu claramente as paredes dos dois lados da escadaria se fechando contra si, constringindo seu espaço como se viessem esmagá-lo. Vinham veloz em sua direção, acusadoras.

Ele avançou aos saltos os últimos degraus, amaldiçoando-se pelas decisões que o trouxeram até ali. Desde o simples ato de espiar pela janela e ter seu primeiro vislumbre da cigana, até sua intervenção com o capitão Phoebus de Châteaupers, que apenas fez aumentar sua miséria. Quando venceu o último degrau fitou novamente a escada, ofegante, desconcertado por vê-la nas dimensões normais. Os dois extremos do concreto em espiral que a rodeava ocupando o espaço devido de sempre.

Arfou, pousando uma mão sobre a testa enquanto a outra buscava o altar para sustentar o corpo que ameaçava cair. Olhou mais uma vez na direção dos degraus, praguejando por sua mente que se deixava brincar pela influência da cigana.

Como a mais cruel feitiçaria.

"Foi um erro trazê-la" — Refletiu, no ápice de seus maiores desesperos — "Foi um erro salvá-la!"

Fitou agora a imagem alta de Jesus pregado na cruz, e clamou por uma misericórdia que sabia jamais chegar a si, independente do teor de suas preces. Não a ele, um desertor volúvel de suas antigas crenças.

— Tua cruz é preferível à minha... — Divagou, encarando a imagem de seu messias com um olhar pedinte, perdido em suas poucas opções. A mão trêmula subia em sua direção inalcançável — Não poderei eu ser culpado de cair enquanto a carrego, se o próprio Cristo sucumbiu algumas vezes ao transportar nos ombros seu instrumento de tortura. Se não pode me dar forças para essa caminhada, dê-me o alento que busca minha alma. Notre Dame, dê-me a cigana, antes que eu a tome forçada... Antes que eu a reclame por minhas próprias mãos.

Mãos capazes de amar... — Uma voz rígida, que não pertencia ao padre, se pronunciou dona de uma dicção límpida, como se o próprio Cristo pregado na cruz lhe direcionasse aquelas palavras claras — Mãos capazes de abençoar. Mãos capazes de matar — Acusou, fazendo-o relembrar a imagem mórbida de Phoebus.

O arquidiácono caiu de joelhos, mais do que nunca se sentindo preso nos limites insuficientes de seu corpo, que cada vez menos deixava sua mente comandar e traçar as regras de seus atos. A cabeça abaixada numa expressão que se contorcia em tormento, o frio em sua barriga contrastando com o calor instalado abaixo do ventre.

— Dê-me Esmeralda... Antes que ela me consuma ainda mais com seus feitiços pagãos — Pediu, os dedos firmes rodeando o crucifixo que jamais o atenderia.

Enquanto Esmeralda cantava sobre as pilastras de Notre Dame, um soldado real, de fortes olhos azuis, sacolejava à mercê do galope de seu corcel, forçando ainda mais o animal a correr à medida que seu calcanhar dava o comando. O vento passou a bater com maior intensidade em seus traços rígidos, focados nas ruas que entrava, fazendo esvoaçar o cabelo loiro já tomado por fios grisalhos.

Virou o cavalo por uma curva estreita, pouco se importando se os movimentos bruscos poderiam propiciar o risco de machucar alguém naquela corrida implacável. Precisava agir, e rápido! De preferência antes que Paris despertasse com as badaladas da catedral.

Freou apenas quando o animal venceu a enorme escadaria que desembocava no Palácio da Justiça, saltando do corcel antes que ele de fato parasse. As enormes quatro colunas se erguiam em dupla sustentando a beleza arquitetônica do prédio, porém o soldado tinha olhos apenas para seu desígnio, já habituado às belezas da Ile de la Cité para se permitir admirá-las num momento crítico como aquele.

Tinham uma crise em mãos, e seria ele a comunicá-la aos outros, talvez até mesmo conquistando a posição de maior destaque que deveria ser ocupada no lugar deixado por Phoebus.

Avançou pelo primeiro andar do palácio que era destinado aos soldados do rei, não tardando a solicitar a presença de todos que encontrava pelo caminho. Assim que reuniu cerca de meia dúzia de soldados, conduziu-os para fora do Palácio da Justiça, onde seu cavalo vagava solto, farejando o chão sem perceber que poderia ter fugido do humano e seus maus tratos sem a mínima dificuldade.

— Sigam-me. Tenho algo importante a lhes mostrar! — Avisou com pressa, novamente montando em seu corcel e aguardando que os outros subissem em sua própria montaria para acompanhá-lo naquele trajeto.

Os cascos dos equinos batendo contra o chão em sintonia pelas ruas de Paris trouxe ao soldado uma onda de mau agouro, a elegância do galope em conjunto sendo apreciada por ninguém naquela hora precoce da alvorada. Seu cavalo relinchou, exausto, quando mais uma vez foi coagido pelos calcanhares do humano a aumentar o ritmo de sua corrida já cansativa. Obedeceu, ciente de que se não o fizesse logo sentiria o chicote açoitar seu lombo.

Os soldados percorreram em silêncio as ruas ainda adormecidas da Ile de la Cité, focados no caminho que o servo real mostrava à frente. A maioria dos homens sentiu-se incomodada quando se deu conta de que o caminho feito se aproximava da morada pecaminosa dos ciganos, porém mantiveram o curso, sem questionar.

Pararam ao redor dos limites estimados do Pátio dos Milagres, e o soldado que mostrara o caminho foi o primeiro a desmontar da cela, um ar grave no rosto enquanto convidava os companheiros a fazer o mesmo.

Eles o seguiram, e não tardaram a ver com seus próprios olhos o assunto urgente que os trouxera até ali. Quase todos seguraram o cabo de suas espadas num reflexo involuntário à asquerosa visão, praguejando com a imagem pálida e desfalecida do antigo chefe dos arqueiros.

— O capitão Phoebus havia me deixado orientações expressas de retornar a este local antes do amanhecer para remover possíveis sinais de sua interação com a cigana na noite passada. — Explicou, não conseguindo desviar os olhos do rosto lúgubre do cadáver que há pouco havia encontrado. Seu semblante tomado por arranhões se encerrara numa última expressão de dor desagradável de se vislumbrar, os olhos bem abertos parecendo querer saltar das órbitas e dando um ar ainda mais mortífero àquele que fora seu capitão, mas por alguma razão o homem de orbes azulados não era capaz de um gesto simples como encarar um de seus companheiros, ou simplesmente desviar o olhar daquela visão — Parece que mais uma vez a egípcia o superou.

— E o que faremos agora? — Um deles perguntou enquanto se aproximava do corpo estirado, tentando encontrar qualquer indício do golpe que tirou sua vida — Não podemos permitir que descubram o que Phoebus fazia nas cercanias do Pátio.

— Essa questão é menor e irrelevante. Nosso capitão deve ser vingado, e não vejo por que entrar nesses detalhes e dar ao povo quaisquer explicações sobre o motivo de Phoebus estar aqui. — O primeiro soldado a encontrá-lo passou a sorrir, o azul de seus olhos faiscando com malícia — Temos finalmente, senhores, nosso pretexto para atacar os ciganos e escorraçá-los de Paris de uma vez por todas.

— Vamos responder ao ataque... — O cavaleiro mais novo dentre todos complementou, entendendo a linha de raciocínio que se firmava.

— Certamente. Encontrá-lo morto nas proximidades do Pátio dos Milagres é indício suficiente de que esse atentado é obra dos egípcios. — Concluiu, triunfante — Revidaremos a isso com uma investida ainda mais forte, daremos um fim definitivo a essa escória cada vez maior que vem tomando nosso território.

— Não me parece muito convincente... — O soldado que ainda examinava o cadáver alertou, atento aos menores sinais — Não se vê qualquer golpe fatal no capitão, apenas feridas inofensivas, embora certamente dolorosas... — Engoliu em seco ao perceber o pedaço que faltava de uma de suas orelhas, estremecendo ao imaginar o que acontecera ali e como a situação com Esmeralda fugira tanto de seu controle.

— Eu encontrei esse punhal junto de seu corpo... — O homem de intensos olhos azuis avisou, um meio sorriso cruel ascendendo os lábios enquanto observava o objeto — Por certo trata-se de uma arma cigana! — Afirmou ao analisar o padrão de desenhos do cabo, esbanjando misticismo em suas figuras pouco cristãs.

— Mas não há nenhum corte além dos arranhões superficiais. Mostrar a arma sem um golpe de nada nos servirá.

O soldado que portava a adaga se ajoelhou ao lado do rosto perturbador de Phoebus que um dia fora considerado belo, sem hesitar enfiando todo o corpo da lâmina entre o queixo e o pescoço do falecido capitão, a violência do golpe causando um breve sacolejo no corpo sem vida.

— Aí está nossa evidência... — Encerrou o assunto, tirando o excesso de sangue do punhal para que o líquido viscoso secasse sobre a arma e parecesse mais antigo — Agora me ajudem a levá-lo ao Palácio da Justiça. Teremos um longo trabalho pela frente, senhores.

Notas finais
*Me amem, porque fui muito ninja encontrando a letra escrita dessa música, hehehe! Eu até cheguei a encontrar a tradução em inglês, e vou transcrever aqui exatamente como a encontrei: Where is that time that once was. When you and I, my heart were so in love. You, my flower... my wild flower... My wild flower... my wild flower. You and I... you and I... You and I... still go cuckoo I go cuckoo for you... I go cuckoo... Wait, I lied... this one is true: you are my heart... My whole heart. Gone is the time when you locked me in your brain and died of love... the moment I went away. You, my flower... my wild flower... My wild flower... my wild flower. You and I... you and I... You and I... still go cuckoo I go cuckoo for you ... I go cuckoo... Wait, I lied... this one is true; you are my heart... My whole heart. Espero que tenham gostado do capítulo ♡ Beijunda, mes amours! ;*