O Preço da Magia

7 Episódio 07:Comme Des Vers Dans Le Ventre Pourri De La Terre


Notas iniciais
Hoje me dei conta de que fui esquecendo de colocar as traduções dos títulos dos capítulos passados, me desculpem, hehe! Já arrumei, para aqueles que tiverem curiosidade (tradução após um asterisco logo na primeira linha das notas)! O de hoje: *Como os vermes dentro do ventre podre da terra Eu preciso dizer que estou bem orgulhosa de mim nesse capítulo. Não porque o considerei o supra sumo da escrita ou por ser um capítulo eletrizante (muito pelo contrário, este é um capítulo mais calmo), mas por ter conseguido fazer algo que queria muito e já estava quase desistindo; colocar um pouco da cultura cigana aqui! É muito difícil encontrar referências sobre os costumes desse povo, eles são extremamente fechados e não admitem muito compartilhar a própria cultura (por isso eu nem posso garantir que não fui enganada pelo pouco que li, e tive que complementar alguns outros aspectos usando minha imaginação mesmo, de tão jogadas que eram as informações, hahaha) Sendo assim, espero que curtam o momento cigano da fic. Haverá alguns outros, mas esse possivelmente é o mais focado de todos. Ah, e antes desse "momento pagão", deliciem-se com a adaptação de uma das cenas mais fortes desse padreco atormentado xP

O arquidiácono soltou um urro enraivecido após ultrapassar a porta de madeira no topo da escadaria que praticamente já desembocava em seu quarto.

Frollo, tomado por uma fúria que não sentia há tempos, viu-se jogando no chão todo o conteúdo abarrotado de sua mesa. Livros, papiros, rascunhos, velas e tinteiros se espalharam sem padrão pelo piso, dando ao aposento um ar ainda mais mal tratado e desleixado. Até mesmo o crânio que descansava bem no canto, quase sem espaço em meio ao resto, tombou, gerando um baque seco ao colidir com o chão.

O arquidiácono levou uma mão trêmula à testa, sentindo o próprio descontrole não apenas arruinar seus estudos, mas sufocar sua garganta de uma maneira extremamente dolorosa, o incômodo daquela frustração chegando a sintomas físicos e conseguindo abalar sua respiração. Transformando-a em tentativas ineficazes, quase tão patéticas quanto ele mesmo se sentia.

Aquele sentimento parecia comprimir sua traqueia de uma forma íntima, o aperto tão forte fazendo questão de dificultar até mesmo uma respiração que já era entrecortada.

Estava condenado.

Não apenas condenado, mas indubitavelmente perdido dentro de suas próprias limitações, dominado por uma desconcertante e estranha sensação de não saber como agir. Como driblar algo que antes era ignorado com tanta facilidade.

"Essa boêmia ainda vai me destruir" — Asseverou a si mesmo como se tentasse recobrar o juízo perdido, aqueles últimos fiapos de sua sanidade trazendo a certeza incontestável que existia naquele pensamento. A certeza de que não havia saída para si se prosseguisse por aquele caminho.

Um caminho que não oferecia quaisquer alternativas de novos rumos.

O padre tentara usar todos os artifícios que pôde imaginar a fim de manter Esmeralda distante de sua visão e pensamento, para que assim pudesse passar o resto de seus miseráveis dias apenas rezando para que conseguisse esquecê-la...

...Mas ela parecia fazer questão de retornar.

Ainda mais avassaladora, a egípcia estava sempre por perto.

Sempre vinha a ele como um mau agouro, trazer sua graça e beleza amaldiçoada para o alcance do desejo irracional de Frollo, como se ela estivesse plenamente consciente do efeito que causava e sentisse um prazer sórdido em provocá-lo. Aguçando os sentidos do padre apenas ao mais rápido vislumbre de seu corpo, levando sua alma condenada a ferver em brasas apenas com um olhar direcionado a ele.

Fazendo-o, ainda em vida, entender o verdadeiro significado do inferno.

E a mera sugestão do capitão Phoebus de Châteaupers ameaçando encostar na pele morena que Frollo tanto desejava, tratando a cigana com palavras hostis enquanto seus olhos denunciavam um deleite febril quando pousados sobre ela — o tipo de desejo que era facilmente reconhecido por Frollo, pela similaridade com suas próprias vontades, embora as suas fossem indiscutivelmente mais intensas.

Quisera, acima de tudo, matá-lo por tamanha ousadia! Foi preciso um auto controle que sequer sabia possuir para não ceder àquela vontade em plena catedral, arruinando-se de vez.

Ver Esmeralda, sua Esmeralda, ser alvo não só das ameaças que eram empunhadas junto a espada de Phoebus, mas também da promessa sugestiva dentro dos orbes injetados, era tão enloquecedor quanto o próprio conhecimento de sua perdição por aquela estrangeira que veio ao mundo para fazer recair desgraças sobre o arquidiácono.

O soldado era jovem e belo, enquanto ele não passava de um padre mergulhado em amarguras.

"Por anos vivi uma vida inabalável, suportei situações que estão além da imaginação, e agora uma menina pagã veio colocar tudo em risco...Veio testar uma fé que descubro ser fraca" — Refletiu, raivoso consigo mesmo. Furioso por se dar conta da impotência que experimentava diante daquela necessidade tão baixa, mundana. Tão indigna de um servo de Notre Dame.

O arquidiácono caminhou, trôpego, até a lareira acesa de seu aposento, tencionando abrandar o suor frio que dominou toda a extensão de seu corpo, buscando se aquecer de uma maneira natural que não envolvesse a combustão interna que Esmeralda tão facilmente lhe causava.

Ajoelhou-se em frente ao fogo, aproximando as mãos espalmadas das chamas o mais próximo que conseguiu. O movimento dinâmico confinado à sua lareira prendeu por completo a atenção do servo de Notre Dame, dominando seus pensamentos de imediato em mais aquele instante desolador.

"O fogo que destrói também é aquele que purifica..." — Pensou com fascínio ao associar o movimento crepitante das labaredas à dança suave e harmônica da egípcia. Viu, dentro do fogo, Esmeralda reproduzir seus passos provocantes daquela cultura pagã, e bastou piscar para que até mesmo as curvas chamativas da estrangeira se sobressaíssem com perfeição em meio às chamas convidativas.

— O inferno é tomado por fogo para expiar em brasa os pecados de quem caiu nos domínios de Lúcifer... — Refletiu, não ousando perder de vista a imagem sedutora de Esmeralda, ainda reproduzindo rodopios elaborados como só ela era capaz de realizar no ápice de sua sensualidade tão única, portando em cada movimento e ação o próprio pecado original.

Frollo não chegou a perceber os dedos que se aproximavam da lareira, de imediato vermelhos com a alta temperatura que nem mesmo foi percebida.

— Se há inferno na terra, fugir daquilo que te consome pode não ser o caminho. — Prosseguiu, agora com as mãos em meio ao fogo, rodeando sua Esmeralda sem se importar com a dor. Não ousou tocá-la, com medo de que a imagem se desfizesse.

Inevitavelmente lembrou-se das últimas palavras que sua mãe dirigira a si, antes de partir para sempre de sua vida, apontando uma linha específica que cruzava o centro da palma de sua mão num tracejado torto. Eu vejo uma cigana em seu futuro.

— Assim como nas terras desoladas de Lúcifer, talvez seja necessário lançar-se ao fogo para começar a redimir o pecado... — Concluiu, um brilho altivo em seus olhos castanhos quando se dedicou a mais uma vez olhar as dobras da própria mão, sabendo o ponto exato que fora referido por sua mãe e o amaldiçoando.

A pele de um intenso vermelho latejava com força, dando indícios de que em breve se formariam bolhas na palma e no dorso por conta da queimadura. Frollo, no entanto, não sentia. Não se importava. O seu suplício era interno.

Apenas estava ciente de que tentar ignorar a presença de Esmeralda serviria unicamente para enlouquecê-lo mais rápido.

Precisava de uma nova estratégia, e já sabia por onde começar.

"Sairá de meus pensamentos, cigana! Ou me levará de vez ao meu próprio fim."

Frollo apoiou a cabeça no braço que se encostava às molduras da lareira, ainda de joelhos como se implorasse algo, com medo por seu próprio destino. Temendo, acima de tudo, não ser capaz de suprimir seus novos anseios, que por si só já se traduziam em pecado.

Ficou ainda mais certo e consciente de sua perdição quando tudo o que viu sob as pálpebras fechadas foi a silhueta das curvas de Esmeralda, dançando apenas para ele, atiçando ainda mais o tormento de sua alma em ruínas.

"Talvez não seja o capitão quem deva morrer"

Somente com o cair da noite Esmeralda sentiu confiança de retornar ao Pátio dos Milagres. O capitão parecia ter desistido de esperá-la, e a egípcia não suportava mais manter-se trancafiada ali dentro, por maior que fosse a catedral.

Afinal, o espírito cigano nunca lidou bem com a clausura.

Contudo, ainda que Esmeralda assegurasse com veemência que tudo estava bem, Quasímodo fez questão de acompanhá-la quando soube da perseguição ocorrida naquele mesmo dia entre ela e o soldado.

— Eu não ouvi nada! — O sineiro exclamou com frustração e alguma raiva de si mesmo ao ouvir o relato da cigana, os olhos parcialmente escondidos por enormes calombos nas sobrancelhas transmitindo surpresa e uma irritação inédita à estrangeira — Passo tanto tempo no campanário ouvindo o tamborilar dos sinos que devo estar ficando surdo... Já não me basta ser corcunda, zarolho, mocho e agora também surdo... — Praguejou, infeliz, sem parecer se importar com o fato de Esmeralda tentar tranquilizá-lo ao garantir que nada de pior acontecera, e que Frollo viera a tempo de impedir que Phoebus lhe fizesse qualquer mal.

Nada do que a egípcia dissera surtiu efeito, e quando se deu conta, novamente atravessava Paris sobre os ombros robustos de Quasímodo, que escalava com a mesma perfeição rude os telhados íngremes das casas. E a repetição daquela inusitada carona não foi menos angustiante para a boêmia e tampouco para a cabra em seu colo.

Agora, porém, Esmeralda caminhava sozinha com Djali novamente em chão firme. Uma sugestão de sorriso se notava em seu rosto conforme ela pensava a respeito do comportamento tão zeloso do amigo, que desde que se conheceram parecia por inteiro disposto a protegê-la de qualquer situação. Um amigo de fato valioso para se ter em Paris, ainda mais se tratando de alguém como ela, mal vista por todos que não entendiam a diversidade de sua crença e cultura.

Feiticeiras. Prostitutas. Pagãos. Devassos. Amorais.

Pouco sabia o povo de Paris sobre seus costumes, mas eram rápidos em julgar aquilo que não compreendiam.

Rápidos, inclusive, em jogá-los ao pelourinho apenas por não aprovar a origem de quem cegamente condenavam...

...Parecendo alheios ao fato de que, antes de qualquer rótulo, eram também pessoas.

Esmeralda parou de caminhar, deixando de lado suas reflexões enquanto virava o rosto, atenta. A sensação de ser observada se apossou dela com total intensidade, avisando-a de um possível perigo. Ela obedeceu aquela pulsão, olhando tudo ao seu redor com o máximo de atenção que foi possível reunir. Por mais infantil que pudesse ser aquele medo, não era do feitio dos ciganos ignorar seus instintos, algo que aprendem a amadurecer e ouvir desde cedo. Ela varreu a rua com os olhos, à procura do que a incomodava. Djali parou ao seu lado, também esperta ao ambiente, capaz de sentir a tensão da dona.

Viu apenas um homem de capuz longo virando uma rua perpendicular àquela que caminhava, e todo o resto lhe pareceu deserto, como era habitual nas cercanias do Pátio — nenhum parisiense se aventurava por lá, e todos os ciganos se concentravam no próprio Pátio dos Milagres, o único lugar que conseguiram conquistar.

Ainda com uma má impressão, seguiu adiante, arrependendo-se de parar estando tão perto de sua casa. Apertou o passo, pensando que talvez o último acontecimento com o capitão a tivesse deixado neurótica e mais alerta do que o normal.

Voltou a respirar tranquila apenas quando sentiu-se segura nos domínios de seu lar, permitindo-se brincar com uma Djali inquieta que puxava a barra de sua saia vermelha. Esmeralda riu, desanuviando um pouco a tensão, forçando o corpo para trás como se brincasse de cabo de guerra com sua cabra arteira, percebendo-a de imediato adotar uma postura mais rígida ao abaixar os membros anteriores e pescoço, tentando superar a força da egípcia e vencê-la naquela disputa silenciosa. Os olhos caramelos brilhavam com uma intensidade humana, instigados.

— Aí está você! — Uma voz feminina vibrante a saudou, interrompendo a brincadeira e causando um sobressalto em Esmeralda. Por Júpiter, como podem ser todos assim tão sorrateiros? Não é à toa que temos fama de ladrões..., pensou, sorrindo amplamente ao reconhecer a mulher que a abordava.

— Sara! — Esmeralda abraçou a cigana que devia ser uns dez anos mais velha, o rosto ainda jovial tornando-se vibrante ao vê-la.

A cigana mais velha retribuiu o abraço com carinho verdadeiro. Tinha a pele um tom mais escuro do que a de Esmeralda, os olhos negros reluzindo com vivacidade em seu rosto de traços marcantes. Fitou a mais nova com afeto, como se a considerasse uma irmã caçula por Esmeralda ser a única órfã da comunidade.

— Estou há dias à sua procura! Por onde esteve, criança?

Esmeralda, apenas naquele instante, se deu conta de que passou a última semana vindo ao Pátio apenas para dormir, vivendo seus dias no centro de Paris e usufruindo da plateia que tanto lhe entusiasmava na praça du Parvis em frente à catedral.

— Estive um pouco ocupada... Dançando e me apresentando por Paris. — Tentou parecer indiferente, contudo sentiu que aquela verdade a incomodou — Mas por que estava me procurando?

— A criança de Carmen nasceu! Há sete dias, e hoje faremos o ritual do nascimento para a sorte. Já deve estar para começar, inclusive. É uma menina linda, estão todos encantados! Já estava fazendo falta ter novas crianças no Pátio...

— Não acredito que perdi! — O sorriso de Esmeralda se alargou, sentindo-se aquecer por dentro com a boa notícia da chegada do bebê, culpando-se ainda mais por sua ausência — Você já vai para a festa?

— Estava a caminho sim. Vem comigo?

— Se importa de antes me fazer um favor? — Diminuiu a voz instintivamente, chegando mais perto de Sara.

— Do que você precisa? — Perguntou, agora de leve intrigada com o tom urgente de Esmeralda.

— Você pode ler minha sorte antes de irmos? Estou um pouco incomodada, com maus pressentimentos... — Confessou, fitando-a com expectativa — Acha que dá tempo?

— Com certeza — Sorriu despreocupada, conduzindo-a pelo Pátio até sua casa, simplória como todas as outras — Os sábios ainda nem se reuniram, temos tempo de sobra.

Enquanto caminhavam, Esmeralda olhou uma última vez por trás de seu ombro, esperando encontrar os olhos que nitidamente sentia sobre si. Tudo o que conseguiu discernir em meio à escuridão foi o vento noturno uivando baixo como um mau presságio. Sequer notou o brilho intenso de íris castanhas que a tinham por alvo, os orbes bem camuflados por baixo de um capuz negro.

— O que te preocupa, minha querida? — Sara perguntou ao abrir passagem para que a outra cigana entrasse em sua casa, a cabra também passando para dentro do recinto sem qualquer cerimônia.

— Uma sensação ruim. Nos últimos dias tive muitos momentos em que me sentia observada, e hoje talvez tenha sido o mais forte. Eu não pediria sua ajuda logo hoje se não fosse realmente...

Sara ergueu uma única mão, dispensando com seriedade as explicações da jovem egípcia e freando sua fala. As pulseiras em seu pulso tilintaram, um som que era reconfortante e familiar a qualquer cigano, significando estar na presença de um dos seus.

— Somos a minoria de um mundo que nos detesta e nos repudia, Esmeralda. Se não encontrarmos tempo para ajudar nossos irmãos e irmãs, quem o fará? — Lançou a questão, arrancando uma expressão grata de sua convidada — Vamos ver o que podemos descobrir. Sente-se aqui, querida — Apontou para a cadeira em frente à sua, indo buscar o material necessário.

No segundo seguinte pousou sobre a mesa uma longa vela sustentada por um prato modesto, e ao lado um pequeno recipiente com água. Acendeu o pavio, o fogo iluminando o ambiente num clarão súbito.

— Olhe para a chama comigo, está bem? Não desvie os olhos dela enquanto eu a leio — Orientou, dispondo a vela acesa bem no meio das duas, concentrando-se na chama que, recém nascida, lhe daria o norte que Esmeralda precisava.

As mãos de Sara formaram uma barreira protetora nas laterais do fogo puro, que dançava para as duas a primeira dança de sua vida imatura. Esmeralda sentiu um calafrio subir pela espinha com o magnetismo que vinha da vela, como se aquela pequena chama a desvendasse de alguma forma.

Sara de leve movimentava os dedos em torno da aura viva do fogo, conduzindo alguns de seus movimentos num semblante de traços sérios, interpretando o que era confidenciado a si por aquele elemento tão intenso da natureza.

Mantiveram-se naquela posição por vários minutos, Esmeralda mal sendo capaz de piscar ou respirar em meio àquele transe profético, enquanto Sara dedicava-se a desvendar o que vinha a si de informação. Somente quando a vela já havia sido consumida pela metade, Sara tampou aos poucos a visão que Esmeralda tinha do fogo, fitando-a com notória preocupação.

A jovem cigana voltou a si, prestes a perguntar o que a outra vira. Contudo, antes que pudesse, Sara negou com um movimento sutil da cabeça num sinal de que ainda não havia acabado, em seguida levando a vela a se posicionar alguns centímetros acima da água. Deitou o toco, deixando que a cera derretida caísse de encontro ao líquido, concentrada em interpretar os padrões que se formavam.

Esmeralda agora dedicou-se a avaliar o rosto da amiga, e não gostou nada do que viu ali. A cada nova gota de cera derretida que se solidificava junto ao líquido, a expressão de Sara se tornava um pouco menos indecifrável e mais tensa.

Os olhos negros, agora sombrios, relanceavam de vez em quando até os verdes, como se não pudessem evitar encará-los, ainda que brevemente. Esmeralda empertigou-se, de repente fitando o pote de água com curiosidade mesmo sabendo que nenhum cigano era capaz de ler a própria sorte. Por mais impaciente que estivesse, aguardou em silêncio até que Sara se pronunciasse.

Ela apagou a vela com um sopro curto, encarando um ponto inespecífico da mesa num silêncio contemplativo, pouco habitual naquela postura rígida que agora portava. Finalmente olhou para Esmeralda, os orbes carregados assim como o comentário que se seguiu.

— Você corre perigo, menina.

— O que você viu? — Perguntou, aflita, no fundo ela mesma já ciente daquilo.

— Um homem vem nutrindo por você uma obsessão doentia e perigosa. Um sentimento que a cada dia foge um pouco mais de seu controle, que poderá destruir tanto ele quanto você caso continue a ser alimentado. E pelo que a chama me contou... — Hesitou, temendo aquela visão — ...parece tarde demais para voltar atrás. Essa doença já atingiu um ponto sem volta, mas ainda pode ser evitada.

"Phoebus..." — Esmeralda pensou, não sabendo o quanto aquela conclusão era equivocada.

— Esse homem não vai descansar enquanto não tiver o que quer de você. No momento ele se engana, achando que puni-la, que... matá-la pode destruir seu verdadeiro desejo. Mas quando chegar a hora, vai descobrir que não, e o que fará a você será muito pior do que a própria morte se o padrão se mantiver — Prosseguiu, a voz com uma gravidade muito maior do que seu timbre naturalmente alegre.

— O que ele pretende fazer? — Perguntou, mesmo já ciente daquilo que Sara diria.

— Nem tudo pode ser revelado, Esmeralda, até mesmo para o nosso próprio bem. Ninguém deve saber demais sobre o futuro, mas o aviso principal está dado. Você sabe de quem se trata?

— Sim... — Engoliu em seco, novamente pensando erroneamente em Phoebus — Sei a quem a chama se refere.

— Então fique longe dele. O máximo que puder! Não nutra ainda mais essa loucura que te tem por desígnio. Toma cuidado, minha querida! — Pediu com sinceridade, enlaçando as mãos de Esmeralda às suas com afeto — Não saia do Pátio por um tempo! Fique aqui, onde os ciganos têm voz e podem te proteger dessa maldade que te cerca.

Esmeralda assentiu, atordoada.

— Você tem razão. — Ergueu-se da cadeira, sentindo-se de súbito carregada por uma energia ruim — Vou me aquietar aqui por enquanto, não se preocupe. Essa situação está mesmo fora de controle — Recordou do capitão tocando intimamente seu corpo em plena praça pública, lhe ameaçando em seguida com a espada ao desrespeitar seu direito sagrado de asilo, e nem por um momento chegou duvidar sobre a identidade do homem que Sara vira na chama profética. Jamais desconfiaria que a sorte lida, na verdade, se referia ao seu inusitado salvador naquele princípio de noite.

— Vamos, não pense mais nisso! — Sara sorriu com gentileza ímpar, também se levantando e pegando a mão de Esmeralda. As palavras tentavam acalmar, mas no seu timbre ainda se distinguia uma evidente pontada de preocupação — Hoje nossos pensamentos devem ser de alegria para transmitir apenas boas energias à criança que chegou, e aqui você está em segurança. Nem Clopin, nem nenhum de nós, jamais deixaria qualquer mal te acontecer.

— Sim, eu sei — Sorriu com gratidão, realmente se esforçando para evitar aqueles pensamentos numa noite tão importante. E Sara tinha razão! Enquanto estivesse no Pátio dos Milagres, estava segura. Phoebus jamais se atreveria a cruzar os limites da morada dos ciganos — Então vamos! Quero ver se a filha de Carmen é tão bonita quanto disse!

— Se corrermos ainda pegamos o começo! — Sara olhou com ternura para a cabra — O que acha, Djali? Consegue nos acompanhar?

O animal pareceu indignar-se, de imediato impulsionando-se em saltos para fora do recinto sem se importar em esperar as humanas. Parou apenas para certificar-se de que as duas a seguiam, e retomou o ritmo que tanto Sara quanto Esmeralda se esforçavam em vão para alcançar.

As egípcias correram todo o percurso de mãos dadas, rindo como duas crianças no auge da diversão. Esmeralda se deu conta do quanto sentiu falta daquela interação com outra cigana. Com alguém que compartilhasse das mesmas crenças que ela e que lhe desse apenas olhares iguais, nunca superiores.

Quasímodo foi uma grande descoberta em sua vida, talvez a mais doce de todas, mas o sineiro ou qualquer outro gajô* jamais seria capaz de suprir a plenitude daquela convivência com um dos seus.

Quando atingiram o local da comemoração, toda e qualquer preocupação que Esmeralda ainda pudesse ter foi esquecida apenas pelo clima festivo e alegre, como só seu povo era capaz de criar.

Uma enorme fogueira se acendia no centro da roda, crepitando com altivez e levando para o alto uma fumaça escura que pouco a pouco se fundia com o céu negro, embaçando a visão das estrelas. Os ciganos mais velhos, considerados os sábios do clã pela avançada idade — inclusive aquele que levara uma cusparada do capitão —, ocupavam o mais alto lugar de honra da comemoração, posicionados mais próximos do fogo.

Uma multidão de ciganos dançava, outros tocavam instrumentos numa melodia agridoce, oferecendo aqueles passos e acordes à criança recém chegada no colo da mulher mais radiante do Pátio dos Milagres naquela noite. Segurava a pequena menina com zelo extremo, também ela usufruindo da boa energia que era passada à criança por conta do laço místico que sempre coexistiu entre a mãe e seu bebê.

Esmeralda correu até ela, já totalmente dominada pela magia tranquilizadora de seu povo.

Não havia mais qualquer pensamento ruim quando envolveu Carmen num cuidadoso abraço.

— Carmen! Me perdoe por não ter te visitado antes, fiquei sabendo hoje da menina... — Comentou, degustando a visão da criança que dormia a sono solto no aconchego do colo de sua mãe, sem se incomodar em nada com o barulho ao seu redor — Ela é ainda mais linda do que me contaram!

— Que bom que você veio, Esmeralda! — Respondeu, exultante — Chegou bem a tempo! Por favor, dance para ela também, antes que comece o ritual... — Pediu, fitando a criança com um amor profundo.

— Eu não perderia essa dança por nada! — Beijou a testa da mãe e em seguida muito de leve a da criança, quase sem encostar os lábios na pele infantil com medo de acordá-la.

Foi para o meio da roda de dança, e vários uivos de aprovação a aclamaram assim que reconheceram a menina órfã que, de certa forma, fora adotada por todos eles. Clopin veio ao seu encontro com um sorriso amplo, cumprimentando-a com o habitual beijo na testa e, em seguida, prendendo em seus cachos soltos uma rosa de pétalas vermelhas.

— Bom te ver, minha menina! — Disse, dando espaço para que a cigana pudesse dançar livremente, e todos os que antes doavam seus passos à criança pararam, querendo também apreciar a mais talentosa dançarina que vivia entre eles.

A cigana, de olhos fechados, começou apenas mexendo de leve o quadril ao ritmo dos instrumentos, um sorriso apenas de canto surgindo pelo rosto que era iluminado pela incandescência que fluía da fogueira. As mãos começaram a se juntar ao embalo daquele ritmo, erguendo-se aos rebolados como se de fato sentisse a música e a traduzisse com seu corpo. Como se fosse parte essencial da melodia.

As mãos acompanhavam os trejeitos dos acordes em movimentos suaves, ainda lentos. Uma de suas pernas escorregou muito ereta pelo chão enquanto a outra se manteve dobrada no joelho, sustentando seu peso à medida que o tronco se curvava para trás, e mesmo a lentidão de seus passos era tão arrebatadora quanto o momento em que eles começaram a ganhar mais velocidade.

A egípcia abriu os olhos de repente, erguendo-se num movimento ligeiro e elegante que levou um sorriso aos lábios de todos. Retirou, em seguida, o tecido lilás que cobria sua cintura como um adorno e rodopiou com ele, este agora acima de sua cabeça enquanto os pés ágeis trabalhavam com êxito para aumentar a habilidade veloz de seus passos.

Passou o tecido macio de leve sobre a criança como se a abençoasse, jogando-o para o alto logo depois e pegando as laterais da barra de sua longa saia. Foi intercalando movimentos semi circulares com o tecido em volta de seu próprio corpo, passeando através dos ciganos que lhe abriam espaço imediatamente, extasiados com o espetáculo.

As mechas cacheadas caíam sobre seu rosto num convite a admirá-lo, e quando completou a volta que dera pelo ciganos e retornou à lareira, os outros voltaram a dançar, juntando seus passos de dança aos da habilidosa menina que lhes era tão cara. Preciosa como a joia que tinha por nome.

Uma lágrima alegre escorreu pelo rosto de Carmen, aquele instante em que seu povo se unia para celebrar o nascimento de sua menina se traduzindo numa visão forte demais para não se permitir chorar com os sentimentos tão puros que apenas cresciam em si.

"Que minha criança seja tão feliz entre nossos irmãos como eu tenho sido!" — Pediu em pensamento enquanto acariciava o cabelo ralo da menina adormecida, sorrindo ainda mais abertamente quando viu o esposo acompanhar num fervor exultado a dança ao redor da fogueira.

Uma voz em meio à singela multidão puxou o canto, e todas as outras acompanharam:

"Dgelem, Dgelem lungone dromentsa

Maladjilem bhartalé romentsa

Ai, ai, romale, ai shavalê

Ai, ai, romale, ai shavalê

Naís tumengue shavale

Patshiv dan man romale

Ai, ai, romale, ai shavalê

Ai, ai, romale, ai shavalê

Vi mande sas romni ay shukar shavê

Mudarde mura família

Lê katany ande kale

Ai, ai, romale, ai shavalê

Ai, ai, romale, ai shavalê

Shinde muro ilô

Pagerde mury luma

Ai, ai, romale, ai shavalê

Ai, ai, romale, ai shavalê

Opré Romá

Aven putras nevo dromoro

Ai, ai, romale, ai shavalê"**

Terminaram e cantaram uma segunda vez, os ânimos um pouco mais amainados quando um dos sábios se levantou após o fim do cântico.

— É chegada a hora de banhar a criança em prosperidade! — Avisou, o rosto voltado para o céu admirando a lua cheia tão propícia para aquele ritual — Levem até ela a bacia com água!

O marido de Carmen imediatamente o fez, pousando com cuidado o recipiente ao lado da mulher que fitou com profundo amor. A cigana que carregava o bebê no colo olhou esperançosa para o sábio, esperando seu comando.

— Coloque na água as flores primeiro. Amasse no líquido as pétalas até que sinta o odor floral se impregnar nele. — Instruiu, dando uma pausa para que a cigana tivesse tempo de reproduzir o que foi dito.

O marido passou a segurar a filha enquanto a esposa usava as duas mãos para esfregar as flores, transpondo ao líquido sua essência cheirosa. Usou cada uma das pétalas mesmo após atingir o ponto ideal proferido pelo sábio, ciente de que naquele caso o excesso não era um problema.

— Agora coloque dentro as joias e moedas que tiver. — Avisou quando a primeira parte foi concluída, ele ainda capaz de sentir o coração se aquecer mesmo após participar de tantos rituais como aquele ao longo de sua vida.

Uma criança era sempre uma dádiva.

Carmen, dispondo de raríssimas joias familiares e parcas moedas, não demorou a concluir aquela etapa, tirando de si apenas algumas pulseiras mais valiosas, contribuindo ao pequeno monte com alguns brincos e colares que separara para aquela ocasião. Muitos dos ciganos contribuíram despejando algumas moedas na água perfumada, fazendo volume às posses medíocres de Carmen, que olhou agradecida a cada um deles.

— E, por fim, banhe a criança — Decretou por último, observando com atenção a mãe tomar novamente a filha nos braços, erguendo-a na melhor posição vertical que foi capaz de sustentá-la enquanto a introduzia com cuidado na pequena e improvisada banheira.

Somente naquele instante em que tocou a água a criança despertou de seu sono profundo. Não houve qualquer choro por parte dela, apenas o olhar fixo na mãe como se fosse capaz de entender o que era feito. Carmen sorriu docemente para a menina, passando o líquido em toda a extensão de seu corpo, até mesmo por entre os dedos de seus pés miúdos.

Esfregava também as joias e moedas, pedindo prosperidade e sorte à filha.

— Agora, sussurre o nome que dará a ela apenas ao ouvido da criança, sem permitir que outros escutem.

Carmen, enquanto segredava à filha o nome que ela teria pelo resto da vida, acariciava de leve sua nuca tomada pela umidade floral.

— Por que não fala o nome em voz alta, senhor Artemio? — Uma criança por volta de seus cinco anos perguntou ao sábio que conduzia o ritual, os olhinhos curiosos de seus traços infantis dando ainda mais ênfase à pergunta.

O cigano colocou o menino em seu colo antes de responder.

— Por enquanto só a mãe e a própria criança podem saber o nome que ela terá. Foi assim quando você nasceu também — Contou, e um enorme "por quê?" se materializou no rosto confuso do menino, criando um sorriso por entre as rugas fatigadas do idoso — Deve ser assim para que os maus espíritos não chamem a menina pelo nome. Se chamarem, ela atende e pode nunca mais voltar. Então não devemos deixar que eles saibam.

O menino escutou com atenção, e quando a explicação acabou ele concordou solenemente, permanecendo no colo do cigano enquanto parecia refletir sobre aquilo.

— Que sua filha seja uma cigana próspera, Carmen! — O sábio concluiu, encerrando o ritual com aquele desejo honesto (embora utópico dada a realidade miserável em que viviam), ao som alegre das aclamações afirmativas dos outros egípcios que prometiam todo tipo de bênçãos à menina.

Com o término da festividade, muitos foram se dispersando da aglomeração e tomando o caminho de suas casas. Esmeralda no entanto demorou um pouco mais para sair, cortejando a enorme fogueira que ainda permaneceria acesa por horas, talvez até o amanhecer. Quando finalmente se viu sozinha ali, dedicou às altas labaredas uma oração que pedia por proteção e sabedoria.

Tirou a rosa que Clopin prendera em seu cabelo e a admirou por alguns segundos, sentindo com os dedos o toque aveludado das pétalas numa contemplação distante, quase pesarosa agora que pensava estar só. Jogou a flor no meio do fogo, gostando de imaginar que ela representava parte de suas orações, conseguindo por meio de sua matéria física alçá-las ao céu junto à fumaça. Vislumbrou a lua cheia uma última vez antes de se retirar.

Frollo ainda observava a cena ao longe, ciente de que se fosse pego dentro do Pátio dos Milagres certamente acabaria se encontrando mais cedo do que o previsto com sua própria morte, mas ao mesmo tempo incapaz de ignorar a semelhança de sua visão na lareira com a Esmeralda que há pouco tempo dançou sobre aquela aura ardente do fogo. Ainda mais sedutora em seus gestos, se é que para o padre aquilo fosse minimamente possível.

Nem chegou a se importar com o ritual pagão que presenciou ao longe, algo que em outra circunstância de certo o teria irritado.

Agora observava Esmeralda a sós, próxima à fogueira, e precisou conter o impulso urgente de ir até lá. De forçá-la a atender cada desejo pelo qual era culpada, de tomá-la ali mesmo sob a luz da lua e do fogo como únicas testemunhas.

De fazê-la pagar por desviá-lo tanto de suas convicções.

Apertava fortemente o crucifixo que caía na altura de seu peito, não se dando conta de que o contato rude doía. Os olhos castanhos, nem chegando a piscar, sedentos pela imagem próxima de Esmeralda, luziam um brilho perigoso. Sua mente de fato refletindo sobre e cogitando mostrar-se, sem mais suportar ficar naquele escuro em que ela mesma o atirou.

Viu que ela se afastava da fogueira, e um lapso de bom senso o invadiu. Se tomasse qualquer atitude no Pátio dos Milagres, seria pego. Seria capturado e enforcado pelos estrangeiros antes mesmo que pudesse satisfazer a menor de suas luxúrias com a cigana que lhe devia a alma.

Por mais que doesse ignorar aquela oportunidade, precisava ser mais frio e calculista naquele momento.

O padre, recordando das opções que se dera mais cedo naquele dia, entre esquecê-la ou condenar-se ainda mais àquele tormento, percebeu o quanto fora ingênuo de se dar tais alternativas. Havia apenas um caminho possível para o arquidiácono. Um caminho que estava absolutamente claro agora. Ainda que chegasse ao ponto de matá-la, ainda que visse com seus próprios olhos a egípcia deixando aquele mundo, era somente a condenação que o esperava no término de seus passos.

"Qualquer que sejam minhas escolhas a partir daqui, encontrarei-me com meu fim!"

Quando não havia mais ninguém à espreita no Pátio, mesmo ciente do perigo desnecessário que corria ao fazê-lo, Claude Frollo caminhou calmamente até a fogueira, resgatando do chão o lenço que Esmeralda usara em sua dança e que fora esquecido ali no calor do momento.

Voltou para a catedral, mais atormentado do que nunca.

Notas finais
* A forma como os ciganos se referem aos não-ciganos ** Caminhei, caminhei longas estradas Encontrei-me com ciganos de sorte Ai, ai ciganos, ai jovens ciganos Obrigado rapazes ciganos Pela festa louvor que me dão Eu também tive mulher e filhos bonitos Mataram minha família Os soldados de uniforme preto Ai, ai ciganos, ai jovens ciganos Cortaram meu coração Destruíram meu mundo Ai, ai ciganos, ai jovens ciganos Pra cima Ciganos Avante vamos abrir novos caminhos Ai, ai ciganos, ai jovens ciganos!!!