O Grande Salão de Jantar estava especialmente aquecido naquela noite. O Rei Alexander parecia satisfeito com os relatórios que Adrian entregara, e o clima de "missão cumprida" pairava no ar, abrindo espaço para uma descontração que o príncipe não esperava.

​Mellyssa estava sentada entre Sarah e Saullo, usando um vestido azul-marinho que realçava a frieza elegante de seus olhos, mas havia um brilho diferente nela — uma satisfação silenciosa por ter vencido o embate nos arquivos mais cedo.

​— Adrian — começou o Rei Alexander, partindo um pedaço de pão —, Michael me contou que você passou dez horas trancado na sala de arquivos hoje. Devo chamar o médico real ou você finalmente descobriu que o papel não morde?

​A mesa explodiu em risadinhas abafadas. Adrian, servindo-se de vinho, tentou manter a pose.

​— Eu apenas decidi que o reino precisava de um pouco de ordem, pai. E descobri que sou excelente com números.

​— Números ou curvas, Adrian? — provocou o Tio Michael, piscando para Selina. — Porque Saullo me disse que a Baronesa foi vista entrando lá para "entregar um relatório". O arquivo nunca pareceu tão interessante para o resto de nós.

​— Ah, sim! — Sarah interveio, com um sorriso travesso. — Eu passei pelo corredor e o silêncio era absoluto. Pensei que Adrian tivesse desmaiado de tédio ou que a Baronesa o tivesse transformado em uma estátua de sal com um daqueles olhares dela.

​Adrian olhou para Mellyssa, esperando que ela o defendesse, mas ela apenas levou a taça aos lábios, observando-o com um desdém divertido.

​— Na verdade, Princesa Sarah — disse Mellyssa, a voz calma ecoando pelo salão —, encontrei o Príncipe em um estado de quase desespero. Ele parecia estar tentando convencer os mapas de que sabia o que estava fazendo. Foi... comovente, de certa forma.

​— Comovente? — Adrian arqueou uma sobrancelha, desafiando-a. — Você disse que era fascinante, Baronesa. Não mude as palavras agora só porque temos plateia.

​— Fascínio e compaixão andam de mãos dadas quando se observa um esforço tão... hercúleo para uma tarefa tão simples — ela rebateu, e até a Rainha Carolina soltou uma risada discreta.

​— O que importa — disse Saullo, olhando para a noiva Claire — é que a taverna sentiu sua falta, primo. O dono mandou perguntar se você foi sequestrado por alguma ordem religiosa ou se finalmente decidiu entrar para o monastério.

​— Talvez ele tenha encontrado uma religião nova — sugeriu Claire Mackenzie, com um sorriso ácido. — A religião da "Redenção pela Baronesa". Dizem que os milagres dela são bem rigorosos.

​O Rei Alexander bateu levemente na mesa, rindo.

— Bom, se a Baronesa conseguiu manter Adrian longe das mesas de jogo por três dias, eu deveria dar a ela uma medalha de honra ao mérito ou, quem sabe, a chave da tesouraria.

​— Eu aceitaria a chave — Mellyssa disse, olhando fixamente para Adrian —, mas temo que o Príncipe a usaria para trancar a porta da Sala de Arquivos e me manter lá para ajudá-lo com as subtrações. Ele tem uma dificuldade crônica em... abrir mão de certas coisas.

​Adrian inclinou-se para frente, ignorando os risos da família que agora comentava sobre como ele estava "domesticado".

​— Você acha que eu preciso de ajuda, Mellyssa? — sussurrou ele, alto o suficiente para que apenas ela sentisse o peso da pergunta.

​— Eu acho que você precisa de foco, Adrian — ela respondeu, baixando o tom, enquanto a família continuava a brincar sobre quem ganharia a aposta de quanto tempo ele duraria sem as noitadas. — E, pelo que vi hoje, seu foco está exatamente onde eu quero que esteja.

​— E onde seria isso? — ele provocou.

​Mellyssa deu o último gole em seu vinho, levantou-se com uma elegância que silenciou a mesa por um segundo e sorriu.

​— Na sua caminhada de logo mais. Não se atrase, Príncipe. O jardim não espera por quem não sabe cumprir horários.

​Ela se retirou sob os olhares de choque da família. O silêncio durou três segundos antes de Sarah exclamar:

​— Ela acabou de marcar um encontro com ele na frente de todo mundo?

​— Não — corrigiu o Rei, rindo e voltando a comer. — Ela acabou de dar uma ordem ao futuro Rei. E, pelo que vejo na cara do seu irmão, ele vai obedecer correndo.

​Adrian levantou-se logo em seguida, ajeitando a túnica.

— Com licença, família. Tenho... assuntos de estado para tratar no jardim.

​— Assuntos de estado! — gritou Saullo enquanto Adrian saía apressado. — Não esqueça de levar um casaco, a Baronesa é fria, mas o sereno da noite é pior!