A mudança de rotina de Adrian era o assunto mais comentado nos corredores do palácio. O "Príncipe das Sombras", como alguns o chamavam pelas suas escapadas noturnas, agora era o primeiro a acender as velas da Sala de Arquivos.

​Adrian estava debruçado sobre um mapa de irrigação das terras do sul, com as mangas da camisa branca dobradas até os cotovelos e o cabelo levemente bagunçado de tanto passar as mãos em frustração com os números.

​A porta rangeu suavemente. Mellyssa entrou com a elegância de uma pantera, segurando um envelope lacrado com cera vermelha. Ela parou na entrada, observando-o em silêncio por alguns segundos antes de falar.

​— Se eu contasse a alguém que o Príncipe Adrian Kane prefere o cheiro de papel mofado ao cheiro de cevada e perfume barato, diriam que fui enfeitiçada.

​Adrian levantou o olhar. O cansaço em seus olhos desapareceu instantaneamente, substituído pelo brilho predatório que só ela conseguia despertar.

​— O cheiro aqui é muito melhor, Baronesa — ele disse, encostando-se na cadeira de carvalho e cruzando os braços. — Especialmente agora que você trouxe esse seu perfume de lavanda para misturar com o pó. O que faz aqui? Veio conferir se eu já desisti?

​Mellyssa caminhou lentamente até a mesa, deslizando os dedos pela borda da madeira até parar bem em frente a ele. Ela se inclinou levemente, colocando o envelope sobre o mapa.

​— Vim trazer o relatório das colheitas de outono que seu pai solicitou. Mas confesso... a curiosidade foi maior. Queria ver se esse "novo Adrian" é apenas um personagem ou se o príncipe finalmente cresceu.

​— E qual o veredito? — Adrian esticou o braço, mas em vez de pegar o envelope, envolveu o pulso dela com os dedos, sentindo a pulsação acelerada de Mellyssa. — Ainda sou um garoto brincando de ser homem ou você está começando a ficar impressionada?

​Mellyssa não puxou o braço. Ela apenas sustentou o olhar, com um sorriso de canto que era sua arma mais perigosa.

​— Um homem de verdade não precisa de uma Sala de Arquivos para provar seu valor, Adrian. Ele prova no controle que tem sobre si mesmo — ela se aproximou mais, sussurrando perto do rosto dele. — Mas você... você parece estar à beira de um colapso. Está há dias sem suas "distrações" habituais. Quanto tempo acha que aguenta antes de correr de volta para a primeira taberna que encontrar?

​— Eu não preciso de tabernas quando tenho um desafio muito mais difícil bem na minha frente — ele puxou-a um pouco mais para perto, a voz descendo uma oitava. — Você adora isso, não é? Me ver trancado aqui, me esforçando para ser o homem que você diz que eu não sou, só para depois me torturar com esse seu desprezo fingido.

​— Fingido? — Mellyssa riu, uma risada baixa e provocante. — Você tem uma imaginação fértil. Eu apenas aprecio o esforço. Ver o grande libertino de Aethelgard domado por alguns livros de contabilidade é... fascinante.

​— Eu não estou domado, Mellyssa. Estou apenas focado — Adrian soltou o pulso dela e se levantou, ficando bem acima dela, a tensão entre os dois quase fazendo o papel seco entrar em combustão. — E meu foco atual tem nome, sobrenome e um título de Baronesa que eu adoraria trocar por algo mais... íntimo.

​Mellyssa deu um passo atrás, mantendo a calma absoluta, embora seus olhos traíssem o prazer que sentia em vê-lo naquele estado de urgência.

​— Para trocar meu título, você teria que me oferecer algo que eu ainda não vi, Príncipe. Disciplina é um bom começo, mas eu ainda sinto o cheiro do perigo em você. E eu não me deixo levar por perigos previsíveis.

​Ela caminhou em direção à porta, parando apenas para olhar por cima do ombro.

​— Continue trabalhando, Adrian. Quem sabe, se os arquivos estiverem em ordem até o jantar, eu permita que você me acompanhe em uma caminhada. Sem guardas. E sem vinho para te dar coragem.

​Ela saiu, fechando a porta com um clique suave. Adrian deu um soco leve na mesa, soltando um riso incrédulo.

​— Ela vai acabar comigo — murmurou ele para a sala vazia, voltando ao mapa com um sorriso que não saía do rosto. — Mas vai ser a melhor morte da minha vida.