O Preço da Liberdade

1 Prataria e Provocações



​O sol de Aethelgard entrava pelas altas janelas de vitral da sala de jantar, refletindo-se na prataria polida e no banquete que daria para alimentar uma aldeia. No centro da mesa, o Rei Alexander Kane mantinha uma postura impecável, enquanto sua esposa, a Rainha Carolina, conferia se o pequeno Dominic, de apenas um ano, não estava transformando seu mingau em pintura de parede no colo de Selina.

​Adrian entrou na sala com passos lentos, a gola da camisa levemente desarrumada e aquele sorriso de quem tinha dormido apenas três horas.

​— Bom dia, família — murmurou ele, sentando-se e servindo-se imediatamente de vinho em vez de suco.

​— Três horas de atraso para o desjejum, Adrian? — Alexander disparou, sem tirar os olhos do jornal oficial. — Espero que a taberna "O Bode Cego" tenha valido a pena.

​— Na verdade, se chamava "A Sereia Embriagada", pai. E a música estava excelente — Adrian piscou para a irmã, Sarah, que tentou segurar o riso atrás de sua xícara de chá.

​— Você é uma vergonha para a coroa — Saullo comentou, embora o tom fosse de brincadeira. Ele estava sentado ao lado de sua noiva, Claire Mackenzie, que exibia um anel de noivado norueguês que brilhava mais que o próprio sol. — Claire e eu já revisamos três tratados comerciais antes de você acordar.

​— Por isso você é o meu primo favorito, Saullo — Adrian serviu-se de uma coxa de frango. — Você faz o trabalho duro, e eu fico com a fama de bonito da família.

​Michael Kane, o tio, riu baixo, recebendo um olhar de reprovação da esposa, Selina.

​— Chega de palhaçada — Alexander fechou o jornal com um baque seco. — Adrian, o conselho está pressionando. Saullo já está garantindo alianças com a Noruega através da Claire. Você tem 22 anos. Está na hora de arrumar uma esposa. Uma mulher que coloque juízo nessa sua cabeça oca antes que você herde um reino e o transforme em um prostíbulo.

​Adrian soltou uma gargalhada alta, genuína, jogando a cabeça para trás.

​— Uma esposa? Eu? — Ele olhou para o pai como se tivesse ouvido a piada do século. — Majestade, eu prezo demais pelas mulheres de Aethelgard para me dedicar a uma só. Seria um egoísmo sem tamanho da minha parte.

​— Adrian! — Carolina, a rainha, o repreendeu, mas havia um brilho de diversão nos olhos. — Seja sério ao menos uma vez.

​— Eu estou sendo sério, mamãe. O casamento é uma sentença de morte para a diversão. Vejam o Saullo: ele já fala como um homem de oitenta anos e só usa cores sóbrias.

​— Eu ouvi dizer — Sarah interveio, com um brilho malicioso no olhar — que a Baronesa Rossi chegou à corte ontem à noite. Dizem que ela é a mulher mais rica de todo o sul. E que é... interessante.

​Adrian deu de ombros, fingindo desinteresse enquanto girava o anel no dedo.

​— Outra viúva em busca de um título? Passo. Elas são todas iguais: desesperadas para casar de novo e garantir a herança.

​— Mellyssa Solomon não precisa da sua herança, Adrian — disse o Rei Alexander, voltando a comer com um sorriso de canto. — Ela tem mais ouro em seus cofres do que você tem de neurônios. E ela não está aqui para casar. Está aqui para administrar as terras que Rossi deixou perto da fronteira.

​Adrian arqueou uma sobrancelha, o interesse finalmente despertado pelo desafio, não pelo dinheiro.

​— Uma mulher que não quer casar? — Adrian sorriu, aquele sorriso perigoso que fazia os guardas do palácio suspirarem. — Talvez o café da manhã amanhã seja mais animado do que eu pensava.

​— Mantenha-se longe dela, Adrian — advertiu Michael, o tio. — Ela enterrou um Barão. Não vai ter paciência para um príncipe mimado.

​— Ah, tio Michael... — Adrian levantou-se, pegando uma maçã da mesa. — Você sabe que eu adoro um enterro. Especialmente quando a viúva é quem fica por cima.

​Dando uma piscadela geral para a mesa, ele saiu do salão sob os resmungos do pai e os risos abafados de Sarah, sem saber que, pela primeira vez na vida, ele não seria o caçador, mas a presa.