O Preço da Liberdade
2 Irrelevante
O clima no palácio de Aethelgard à noite era completamente diferente da informalidade do café da manhã. Centenas de velas em candelabros de cristal iluminavam o Grande Salão. O Rei Alexander e a Rainha Carolina recebiam sua convidada de honra com toda a pompa que o título de Mellyssa Solomon exigia.
Mellyssa estava deslumbrante em seu vestido de veludo bordô. Ela se sentou à direita do rei, mantendo uma postura que exalava uma autoridade silenciosa.
— Agradecemos por aceitar nosso convite, Baronesa — disse Carolina, com um sorriso acolhedor. — Soubemos que a viagem do sul foi cansativa.
— O cansaço é um preço pequeno para a liberdade de administrar meus próprios negócios, Majestade — respondeu Mellyssa, sua voz era como seda, mas com uma firmeza que fez Alexander arquear a sobrancelha, impressionado.
— Uma mulher de negócios no comando de terras tão vastas... — comentou Michael, o tio, enquanto servia vinho para Selina. — O falecido Barão Rossi certamente sabia em quem confiar sua fortuna.
— Na verdade, Lorde Michael, eu não esperei que ele confiasse — Mellyssa disse, calmamente, enquanto cortava uma pequena porção de perdiz. — Eu apenas garanti que, na ausência dele, nada saísse do meu controle.
Saullo e Claire Mackenzie trocavam olhares de admiração. Até mesmo Sarah, a jovem princesa, observava a Baronesa como se estivesse diante de uma heroína de romance.
Foi nesse momento que as portas pesadas se abriram. Adrian entrou. Ele não usava trajes de gala completos; a camisa de seda negra estava aberta no colarinho e ele caminhava com uma arrogância despojada, como se o mundo fosse seu quintal.
— Peço perdão pelo atraso — Adrian disse, sua voz projetando-se pelo salão. — Mas me disseram que tínhamos uma convidada que valia a espera.
Ele caminhou até a mesa e, em vez de se sentar no seu lugar habitual, puxou a cadeira exatamente à frente de Mellyssa. Ele fixou os olhos nela, esperando o habitual rubor ou o desvio de olhar que recebia de todas as mulheres da corte.
Mellyssa, no entanto, sequer parou de levar o garfo à boca. Ela terminou a mastigação calmamente, bebeu um gole de água e só então levantou os olhos frios para ele.
— Suponho que este seja o Príncipe Adrian — disse ela para o Rei, sem dirigir a palavra diretamente ao rapaz. — A semelhança com o senhor é notável, Majestade, embora falte a ele a... dignidade do cargo.
A mesa ficou em silêncio. Saullo soltou um pigarro para não rir.
Adrian sorriu, encostando-se na cadeira.
— E eu suponho que esta seja a viúva de gelo de quem todos falam. Devo dizer, Baronesa, que o preto do luto combinaria muito bem com esse seu olhar cortante.
— O luto acabou há muito tempo, Alteza — rebateu ela, finalmente encarando-o, mas com um desprezo tão profundo que Adrian sentiu uma pontada de irritação. — E quanto ao olhar... ele costuma ser apenas um reflexo da irrelevância do que está à minha frente.
— Irrelevância? — Adrian inclinou-se para frente, baixando o tom de voz. — Eu sou o herdeiro deste reino, Mellyssa. Ninguém me chama de irrelevante.
— Ser herdeiro é um acidente de nascimento, não uma conquista — ela respondeu, com um sorriso de canto que não chegava aos olhos. — Pelo que ouvi nesta mesa, o senhor gasta seu tempo em tabernas enquanto seu primo faz o trabalho de um homem. Para mim, isso é a definição de irrelevância.
— Você é corajosa — Adrian sibilou, os olhos brilhando de desafio. — Muitas mulheres dariam tudo por um minuto da minha atenção.
Mellyssa largou os talheres e limpou os lábios com o guardanapo de linho, levantando-se.
— Então sugiro que guarde sua atenção para elas, Príncipe. Eu já lidei com homens muito mais perigosos que um rapaz que confunde libertinagem com charme. Majestades, a comida estava excelente, mas receio que o ambiente tenha se tornado... pueril. Com licença.
Ela fez uma reverência perfeita para o Rei e a Rainha e saiu do salão sem olhar para trás.
Adrian ficou parado, a mão apertando o cabo da taça de vinho. O Rei Alexander deu uma risada curta e seca.
— Bem, Adrian... parece que você finalmente encontrou alguém que não quer a sua maçã.
— Ela é... intragável — Adrian resmungou, embora, lá no fundo, seu sangue estivesse fervendo de uma forma que ele não sentia há anos.
— Ela é magnífica — corrigiu Sarah, animada. — E ela acabou com você em menos de cinco minutos!
Adrian não respondeu. Ele apenas observou as portas por onde Mellyssa saíra, jurando a si mesmo que aquela Baronesa ainda aprenderia a baixar a guarda. Ou ele aprenderia que algumas fortalezas não foram feitas para serem invadidas.
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