O Preço da Liberdade
26 O Fruto da Redenção
O sol da manhã entrava filtrado pelas cortinas de linho, criando um ambiente acolhedor e íntimo nos aposentos reais. O palácio ainda estava silencioso, mas dentro daquela cama, o mundo parecia vibrar com uma nova vida. Mellyssa estava encostada na cabeceira, usando uma camisola de seda branca, enquanto Adrian estava deitado de lado, com a cabeça apoiada na curvatura do quadril dela, a mão enfaixada — agora totalmente cicatrizada — espalmada sobre o ventre ainda plano da esposa.
Adrian deslizava os dedos em movimentos circulares, fechando os olhos como se pudesse sentir a pulsação do pequeno ser que crescia ali dentro. Ele deixou um beijo demorado sobre a pele de Mellyssa, um gesto de pura adoração.
— É difícil acreditar — ele sussurrou, a voz ainda rouca de sono. — Que há alguns meses, eu estava perdendo as noites em tavernas, tentando enterrar quem eu era em garrafas de vinho e braços que não significavam nada.
Mellyssa passou os dedos pelos cabelos dele, bagunçando-os carinhosamente.
— E eu estava trancada em meus livros de contabilidade, achando que paredes de ouro eram o suficiente para me manter segura. Eu tinha tanto medo de você, Adrian.
Adrian levantou o olhar para ela, um sorriso de canto surgindo.
— Medo? Eu achei que você sentisse apenas desprezo por aquele príncipe devasso que te provocava nos jardins.
— O desprezo era a minha defesa — ela admitiu, inclinando-se para beijar a testa dele. — Eu via o homem que você era por baixo daquela máscara de deboche. O homem que me defendeu do clero, que enfrentou o passado por mim. Eu tinha medo porque sabia que, se eu me entregasse, não haveria volta. Eu perderia o controle.
Adrian sentou-se na cama, mas manteve a mão sobre a barriga dela, como se temesse que, ao soltar, aquele sonho pudesse evaporar.
— Você não perdeu o controle, Mellyssa. Você me deu um propósito. Sabe, quando eu bati naquele Duque... ou quando joguei o vinho na Giulia... eu não estava apenas protegendo a Baronesa. Eu estava protegendo a única parte de mim que ainda era pura. Você me salvou de mim mesmo.
— Nós nos salvamos — ela corrigiu, segurando a mão dele e levando-a aos lábios. — Olhe para nós agora. Quem diria que a "viúva pragmática" e o "príncipe rebelde" estariam aqui, esperando um herdeiro?
Adrian soltou uma risada baixa e encostou a testa na dela.
— O reino vai ter um choque. Eles esperam um guerreiro ou uma diplomata. Mas este pequeno aqui... — ele voltou a olhar para o ventre dela — ...será amado de uma forma que eu nunca achei ser possível. Eu juro, Mellyssa, que ele nunca terá que usar máscaras. Ele terá a honra do pai e a inteligência da mãe.
— E a teimosia dos dois — Mellyssa brincou, fazendo-o rir. — Eu amo você, Adrian. Mais do que qualquer terra no sul, mais do que qualquer título.
— E eu amo você, minha Rainha. — Adrian a puxou para um beijo calmo, profundo, que selava todo o caminho de espinhos que percorreram. — O nosso império de ouro ficou para trás. Agora, o nosso verdadeiro tesouro está apenas começando a crescer.
Eles ficaram ali, abraçados sob os lençóis de seda, conversando sobre nomes, cores para o berçário e o futuro de Aethelgard. O caminho fora tortuoso, cheio de brigas, ciúmes e sangue, mas o destino final era exatamente aquele: o silêncio doce de uma manhã onde o amor não precisava mais de provas, apenas de presença.
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