O palácio de Aethelgard parecia ter recuperado sua alegria habitual, mas era uma alegria de fachada, sustentada pela máscara impecável que Adrian decidira usar. Para a família, ele era o sol: voltara a fazer piadas durante o café, brincava com o pequeno Dominic e até discutia política com Saullo com uma vivacidade renovada. Ele era o centro das atenções, o príncipe perfeito, risonho e magnético.

​Mas, no momento em que Mellyssa Solomon entrava no recinto, a temperatura caía drasticamente.

​Capítulo: O Inverno de Adrian

​Era uma tarde ensolarada no terraço principal. A Rainha Carolina servia chá enquanto o Rei Alexander ria de uma anedota que Adrian contava sobre um mercador atrapalhado na cidade.

​— E então o homem disse que o burro era diplomata! — Adrian exclamou, fazendo Sarah e Claire caírem na gargalhada. — Eu quase o nomeei meu conselheiro pessoal!

​O riso era contagiante. Adrian brilhava. Porém, o som dos saltos de Mellyssa contra a pedra do terraço fez o sorriso do príncipe se transformar em uma linha fina e gélida. Ele não parou de falar, mas o calor em seus olhos evaporou.

​— Baronesa — cumprimentou Adrian, com um aceno de cabeça tão curto que foi quase imperceptível. A voz dele, antes vibrante, agora era um bloco de gelo.

​— Boa tarde a todos — Mellyssa disse, tentando manter a voz firme, embora o contraste no tratamento a ferisse mais do que qualquer xingamento. — Majestade, os documentos que pediu sobre a fronteira sul estão prontos.

​— Excelente, Mellyssa. Sente-se conosco, tome um chá — convidou Carolina, notando a tensão.

​— Receio que a Baronesa tenha negócios muito mais urgentes do que o nosso convívio "pueril", mamãe — Adrian interveio, a voz destilando um veneno educado. — Ela é uma mulher de posses, afinal. O tempo dela vale ouro, e nós somos apenas... diversão barata.

​Mellyssa sentiu o golpe. Ela se sentou ao lado de Sarah, que a olhou com compaixão.

— Adrian, por que está sendo tão ríspido? — perguntou a irmã. — Você estava tão engraçado agora há pouco.

​— Eu continuo engraçado, Sarah. Pergunte a qualquer um na cidade — Adrian deu um gole no seu chá, os olhos fixos em um ponto distante, ignorando totalmente a presença de Mellyssa ao seu lado. — Eu só escolho muito bem para quem desperdiço minhas piadas. Algumas pessoas não têm senso de humor... apenas senso de propriedade.

​— Eu gostaria de tratar sobre o relatório, se o Príncipe não se importar em ser profissional por cinco minutos — Mellyssa disse, os olhos brilhando de uma dor que ela tentava transformar em fúria.

​Adrian virou o rosto lentamente para ela. O olhar era vazio. Não havia ódio, nem desejo, nem a mágoa da noite anterior. Havia algo muito pior: indiferença.

​— Profissional? Claro. Deixe os papéis com meu secretário. Eu lerei quando tiver um intervalo entre minhas... "distrações". — Ele se levantou, ajeitando a túnica com elegância. — Pai, se me der licença, prometi a Saullo que o ajudaria com o treinamento dos novos guardas. O dever chama, e ao contrário de alguns, eu não preciso de um testamento para saber qual é o meu lugar.

​Ele passou por Mellyssa sem que seus braços se tocassem por um milímetro. Antes de sair, ele parou perto de Claire e beijou a mão da princesa norueguesa com um sorriso charmoso.

— Até o jantar, Claire. Espero que use aquele vestido verde, ele realça sua... vivacidade.

​Mellyssa apertou a xícara com tanta força que os nós dos seus dedos ficaram brancos. O desprezo silencioso de Adrian era uma tortura pública. Ele a estava tratando como se ela fosse um móvel invisível e incômodo no palácio que ela mesma escolhera para recomeçar.

​— Ele vai passar, Mellyssa — sussurrou a Rainha Carolina, colocando a mão sobre a dela.

​— Não, Majestade — Mellyssa respondeu, a voz embargada enquanto observava Adrian rir alto de algo que Saullo disse ao longe. — Ele não vai passar. Ele descobriu que a indiferença dói muito mais do que o ódio. E ele está adorando me ver sangrar em silêncio.

​Adrian, do outro lado do jardim, sentia o olhar dela queimando em suas costas. Por dentro, ele estava em ruínas, mas por fora, ele era o príncipe que Aethelgard amava: belo, risonho e, para Mellyssa Solomon, absolutamente inalcançável.