O Preço da Liberdade

16 O casamento e o desfecho


O casamento de Saullo e Claire transformou a Catedral de Aethelgard em um oceano de seda branca, ouro e heráldica norueguesa. A cerimônia foi impecável, mas era no banquete, sob o teto abobadado do Grande Salão, que a verdadeira energia pulsava. A orquestra atacou uma polca vibrante, e a pista de dança se tornou um turbilhão de cores.

​No centro de tudo, Adrian girava a irmã, Sarah, com uma leveza que parecia impossível para alguém que carregava tanta fúria. Ele ria, os olhos brilhando enquanto Sarah tentava acompanhar o ritmo acelerado. Ele era o retrato da alegria, o príncipe herdeiro em toda a sua glória magnética.

​Mellyssa o observava de longe, encostada em uma pilastra, com uma taça intocada na mão. Ela procurava, nos traços daquele homem risonho, o carrasco gélido que a expulsara do quarto.

​— Ele é um mestre em máscaras, não é? — A voz da Rainha Carolina surgiu ao seu lado, suave e triste.

​— Ele parece... outra pessoa — Mellyssa admitiu, a voz falhando.

​— Adrian nem sempre foi um libertino, Baronesa. Aos dezoito anos, ele se apaixonou por uma Condessa. Ele era o homem mais doce do reino, escreveu poemas, planejou um futuro. Mas ela o usou para chegar ao trono, traindo-o com um de nossos generais e rindo do seu "idealismo juvenil". Aquilo o quebrou. Desde então, ao menor sinal de que ele possa ser trocado, usado ou desprezado, ele se fecha em espinhos. Ele prefere ser o vilão do que ser a vítima novamente.

​Carolina olhou para Mellyssa, os olhos suplicantes.

— Mas eu o conheço. A mulher que conseguir atravessar esse gelo e provar que ele não é descartável... terá o homem mais fiel e amoroso do mundo. Ele não ama pouco, Mellyssa. Ele ama até o próprio fim.

​O Incidente nas Sombras

​Abalada pelas palavras da Rainha, Mellyssa buscou o ar gelado dos jardins. Ela caminhava pela parte mais escura, onde as sebes de buxo formavam corredores sombrios. Ela precisava decidir: sua fortuna ou o coração ferido de um príncipe?

​De repente, uma mão forte apertou seu braço. O Duque de Valois, um nobre conhecido por seus excessos, surgiu das sombras com hálito podre de vinho.

​— A Baronesa solitária... — ele sibilou, empurrando-a contra uma estátua. — Viúvas não precisam de tantos protocolos, não é? Sei que sente falta de um toque firme, e eu tenho mais a oferecer que um príncipe mimado.

​— Solte-me, Duque! — Mellyssa gritou, tentando empurrá-lo, mas ele a prensou, rasgando a renda de seu ombro com um puxão bruto. — Socorro!

​Valois riu, tentando beijar seu pescoço. — Grite o quanto quiser. Quem vai acreditar em uma viúva que já frequenta o quarto do príncipe?

​De repente, o som de passos pesados esmagando o cascalho ecoou. Um vulto saltou das sombras. Adrian, que estava fumando um charuto em silêncio a poucos metros dali, colidiu com o Duque como um raio.

​O primeiro soco de Adrian foi seco, quebrando o nariz de Valois. O segundo o jogou no chão. Adrian não parou. Ele montou sobre o nobre, os punhos descendo com uma fúria selvagem, animalesca.

​— Você... tocou... nela! — Adrian urrava a cada golpe. — Você pensou que podia encostar a mão na minha mulher?!

​— Adrian, chega! Você vai matá-lo! — Mellyssa gritou, em choque, vendo o sangue espirrar na camisa branca do príncipe.

​O Duque já estava inconsciente, mas Adrian continuava, os olhos injetados, a alma saindo pelos punhos. Foi necessário que o Rei Alexander, o Tio Michael e Saullo corressem do salão para contê-lo.

​— Adrian, pare! — Saullo o agarrou por trás, tentando puxá-lo. — Ele já deu, primo! Acabou!

​Foram precisos três homens para arrancar Adrian de cima do corpo desfigurado de Valois. O príncipe arquejava, o peito subindo e descendo, o cabelo desgrenhado, as mãos cobertas de sangue. Ele olhou para Mellyssa, que tremia, segurando o vestido rasgado.

​Por um segundo, a máscara de ódio caiu. Ele não a olhou com indiferença. Olhou com um pavor absoluto de tê-la perdido, com um amor tão cru e violento que tirou o fôlego dela.

​— Você está bem? — ele perguntou, a voz falhando, tentando se soltar do aperto do pai.

​Mellyssa olhou para ele, depois para o Duque caído, e depois para o Rei. Naquele momento, ela percebeu. Adrian não lutara pelo reino, nem pelo protocolo. Ele lutara por ela. O homem "fiel e amoroso" que a rainha descrevera estava ali, ferido e sangrento, disposto a ir para a forca para defendê-la.

​Ela tinha uma escolha. Ouro e títulos, ou o homem que acabara de mostrar que ela era o seu mundo.

​Mellyssa caminhou até ele, ignorando os guardas e a família. Ela pegou a mão ensanguentada de Adrian e a levou ao rosto.

​— Estou bem, Adrian — ela sussurrou, as lágrimas caindo. — Porque você me salvou.

​O Rei Alexander olhou para os dois e suspirou, sinalizando para os guardas levarem o Duque. — Levem o herdeiro para dentro. Amanhã trataremos do escândalo. Mas hoje... parece que o destino de Aethelgard foi decidido no escuro.