A atmosfera de descontração da tarde evaporou-se assim que as tochas do Grande Salão foram acesas para o banquete noturno. Adrian caminhava pelo corredor de mármore que levava ao salão principal, ajustando os punhos da camisa, quando uma silhueta feminina emergiu das sombras de uma alcova.

​O perfume era o mesmo: orquídeas raras e um toque de almíscar. Um aroma que, por anos, fora o gatilho para os piores pesadelos de Adrian. Ele parou bruscamente, o corpo ficando rígido como uma estátua de gelo.

​— Sentiu minha falta, Adrian? — A voz era melodiosa, carregada de uma falsa doçura que escondia dentes de tubarão.

​Giulia Lâfrer deu um passo para a luz. A Condessa estava tão bela quanto no dia em que o traiu, vestindo um seda dourada que gritava opulência e pecado.

​— Giulia — o nome saiu da boca de Adrian como um pedaço de ferro enferrujado. — O que você está fazendo aqui? Os portões de Aethelgard deveriam estar fechados para pragas do seu tipo.

​— Ora, que recepção calorosa para quem já foi o seu mundo — ela se aproximou, esticando a mão para tocar o rosto dele, mas Adrian desviou com um movimento brusco e violento. — Soube que você se tornou um homem... interessante. Um justiceiro de viúvas.

​— O que você quer? — ele sibilou, os olhos injetados de uma fúria antiga.

​— Eu quero o que eu perdi, Adrian — Giulia disse, a voz baixando para um sussurro conspiratório. — Eu cometi um erro aos dezoito anos. Fui atrás de poder, mas descobri que o poder sem você é... tedioso. Voltei para reclamar o meu lugar ao seu lado. O lugar de futura Rainha.

​Adrian ficou em silêncio por um segundo, e então, uma gargalhada seca e carregada de escárnio explodiu de seu peito.

​— Rainha? — Ele se inclinou, o rosto a centímetros do dela, mas não havia desejo, apenas um desprezo absoluto. — Você não seria rainha nem de um chiqueiro, Giulia. Eu prefiro queimar este reino até as cinzas a permitir que você toque em uma única pedra do meu palácio novamente. Você não é mais o meu mundo. Você não passa de uma nota de rodapé suja na minha história.

​Ele virou as costas para ela sem dar chance de resposta, caminhando em direção às portas do salão.

​O Anúncio e a Tensão

​As portas se abriram e Adrian entrou. Ele não foi para o seu lugar de forma discreta. Ele parou na cabeceira da mesa, atraindo todos os olhares. Mellyssa, que já estava sentada, sentiu um calafrio ao ver a expressão perturbada e selvagem no rosto dele.

​— Família — Adrian disse, a voz ecoando com uma vibração perigosa. — Majestades. Parece que o banquete de hoje terá um tempero extra. A Condessa Giulia Lâfrer decidiu agraciar Aethelgard com sua presença indesejada nos corredores.

​O som dos talheres batendo nos pratos cessou instantaneamente.

​O Rei Alexander ficou de pé, o rosto perdendo a cor. — Giulia? Aqui? Eu dei ordens para que ela fosse mantida na fronteira!

​— Ela parece ter talentos para contornar ordens, pai — Adrian retrucou, sentando-se e servindo-se de vinho com a mão ainda levemente trêmula. — Ela diz que voltou para buscar o que "perdeu".

​A Rainha Carolina levou a mão ao peito, olhando imediatamente para Adrian com um pavor maternal. Ela sabia o que aquela mulher representava: a ruína da inocência de seu filho.

​Mellyssa sentiu o estômago revirar. Ela olhou para Adrian e viu nele uma rigidez que nem mesmo o duelo com o Duque provocara. O medo a atingiu como uma flecha: a mulher que o ensinara a não amar estava de volta.

​— Adrian... — Mellyssa começou, a voz pequena.

​— Não agora, Mellyssa — ele a cortou, sem olhar para ela, focado apenas na taça de vinho.

​— Ela não terá nada! — Alexander declarou, a voz de trovão. — Guardas! Se a Condessa Lâfrer for vista em qualquer área pública deste palácio, ela deve ser escoltada para fora imediatamente!

​— Ela não vai desistir fácil, Alexander — Michael comentou, trocando um olhar preocupado com Selina. — Giulia é como uma sanguessuga. Ela sentiu o cheiro da ascensão do Adrian após o julgamento.

​Mellyssa sentiu uma insegurança que nunca experimentara. Ela era a mulher que recusara o casamento para proteger seu ouro. E agora, a mulher que queria o trono — e Adrian — estava de volta, disposta a tudo. Ela olhou para Adrian, esperando um sinal de que ele estava bem, mas ele apenas bebia, o olhar perdido e sombrio, como se estivesse travando uma guerra interna contra os fantasmas de sua juventude.

​Naquela noite, a comida perdeu o gosto para todos. O passado tinha voltado para assombrar o presente, e Mellyssa percebeu que sua maior rival não era a liberdade ou a fortuna, mas a cicatriz que Giulia deixara no coração do homem que ela estava começando a amar.