O Preço da Liberdade

21 A defesa e a revolta


O ar no salão do café da manhã estava tão denso que parecia que as paredes de mármore estavam se fechando. O Rei Alexander tinha os olhos fixos no prato, a mandíbula travada; Roma havia enviado um decreto de última hora: a família Lâfrer recuperara um antigo favor papal, e Giulia tinha o direito de asilo diplomático no palácio por uma semana.

​A porta se abriu e Giulia entrou, exalando confiança. Ela não hesitou. Caminhou direto para a cabeceira e puxou a cadeira exatamente ao lado de Adrian, roçando o ombro no dele ao se sentar.

​— Bom dia, família. Adrian, querido, você parece não ter dormido bem. Sonhou comigo? — ela sussurrou, a voz carregada de uma intimidade forçada.

​Adrian soltou um bufo de raiva tão alto que Sarah se encolheu na cadeira. Ele empurrou seu prato para longe, recusando-se a comer.

​— O único modo de eu sonhar com você, Giulia, é se eu tiver uma indigestão severa — ele retrucou, a voz gélida.

​Giulia ignorou o insulto e virou seus olhos de serpente para o outro lado da mesa, onde Mellyssa observava a cena em silêncio absoluto.

​— E você deve ser a famosa Baronesa Solomon — Giulia disse, analisando Mellyssa de cima a baixo com um sorriso de escárnio. — Ouvi dizer que você é excelente com números e... proteção de terras. É uma pena que use vestidos tão austeros. Em Roma, as mulheres de linhagem real preferem sedas que não escondam tanto a falta de... berço. Mas suponho que, para uma viúva que negocia o próprio coração, o estilo seja o que menos importa, não é?

​O salão congelou. Mellyssa sentiu o sangue fugir do rosto, mas antes que pudesse abrir a boca, o som de uma mão batendo na mesa como um tiro fez os cristais tremerem.

​Adrian se levantou lentamente. Ele não gritou. Sua voz era um sussurro letal, muito mais assustador.

​— Você deve estar confusa, Giulia — começou Adrian, inclinando-se sobre ela. — Você entra nesta casa, senta-se à minha mesa e ousa abrir essa boca cheia de veneno contra uma mulher que tem mais honra em um único fio de cabelo do que você tem em toda a sua árvore genealógica podre?

​— Adrian, eu só estava comentando que... — Giulia tentou manter a pose, mas vacilou ao ver o fogo nos olhos dele.

​— Você não comenta nada! — ele rugiu, o tom agora subindo como um trovão. — Você é um parasita que Roma nos obrigou a hospedar, mas não pense, nem por um segundo, que você é bem-vinda. Mellyssa é a convidada de honra deste reino. Você? Você é apenas um erro que eu cometi aos dezoito anos e que eu adoraria apagar da história.

​— Você ainda me ama, eu sei que esse ódio é... — Giulia começou, tentando tocar o braço dele.

​— Amor?! — Adrian soltou uma risada maníaca. — O que eu sinto por você não chega nem perto de algo humano. Você é um tapete, Giulia. Um tapete sujo que eu já pisei e chutei para fora da minha vida.

​Em um movimento súbito e carregado de desprezo, Adrian pegou a taça de vinho tinto que estava à sua frente. Sem hesitar, ele virou o líquido diretamente sobre a cabeça de Giulia. O vinho escorreu pelo rosto dela, manchando o vestido dourado caríssimo e encharcando seus cabelos perfeitamente penteados.

​Giulia soltou um grito de horror, levantando-se bruscamente enquanto o líquido vermelho pingava no chão.

​— Saia da minha frente! — ordenou Adrian, apontando para a porta com o dedo trêmulo de fúria. — Saia antes que eu esqueça que você é uma "mulher" e a arraste pelos cabelos até o pátio. Se você dirigir a palavra à Baronesa novamente, se você ousar olhar para ela com esse seu desprezo de cortesã barata, eu juro por Deus que Roma não terá nada de você para levar de volta, a não ser cinzas!

​Giulia, humilhada e soluçando de raiva e vergonha, recolheu as saias e correu para fora do salão sob os olhares de satisfação do Rei e o choque da Rainha.

​Adrian permaneceu ofegante, as mãos apoiadas na mesa, o peito subindo e descendo. Ele lentamente virou o rosto para Mellyssa. Seus olhos, que segundos antes eram puro ódio, suavizaram-se em uma súplica silenciosa por perdão.

​Mellyssa, que até então temia perder o espaço para o passado dele, sentiu o coração disparar. Ela viu a verdade ali, no vinho derramado e na fúria protetora de Adrian: ele não sentia nada por Giulia a não ser nojo. O amor dele, bruto, difícil e intenso, pertencia única e exclusivamente a ela.

​— Adrian... — ela sussurrou.

​Ele apenas balançou a cabeça, saindo do salão logo em seguida para se acalmar, deixando claro para todos que a Baronesa não era apenas uma aliada, era a dona da alma do futuro Rei.