O Preço da Flor de Ferro

2 O Pacto do Brasão e da Brasa



​A manhã seguinte ao incêndio tinha um gosto de metal amargo. O cheiro de queimado ainda pairava no ar, impregnado nas roupas e na pele da família Nóbrega. José estava na oficina, não para forjar, mas para organizar os restos de ferramentas que não haviam sido levadas pelo calor.

​O som de cascos de cavalos finos e o ranger de uma carruagem luxuosa quebraram o silêncio fúnebre da propriedade. Jasmine, que limpava a entrada da casa, parou e observou o veículo negro com detalhes em dourado parar diante da ferraria.

​De dentro, desceu um homem que parecia pertencer a outro mundo. Heitor Martinez, o Duque, vestia uma casaca impecável e botas de couro polido. Seus cabelos levemente grisalhos e o olhar penetrante emanavam uma autoridade que fez Jasmine recuar um passo.

​O Acordo na Ferraria

​Heitor entrou na oficina, sua presença preenchendo o espaço rústico. José levantou-se, limpando as mãos sujas em um trapo velho.

​— Vossa Graça — disse José, curvando a cabeça. — Sinto pela bagunça. O fogo não foi gentil.

​— Eu soube da sua perda, mestre Nóbrega — a voz de Heitor era profunda e calma. — Um homem de sua integridade não merece tal desgraça.

​José soltou um riso amargo.

— A integridade não enche o estômago da minha caçula, senhor. Estamos arruinados.

​Heitor deu um passo à frente, os olhos fixos no ferreiro.

— Vim aqui com uma proposta. Sei que tem uma filha em idade de casamento, a jovem Jasmine. Eu procuro uma esposa que não tenha sido corrompida pela futilidade da corte. Alguém que saiba o valor do esforço.

​José travou a mandíbula.

— Está tentando comprar minha filha, Duque?

​— Estou propondo um futuro — corrigiu Heitor. — Em troca da mão de Jasmine, eu reconstruirei sua fazenda, pagarei suas dívidas e garantirei que Rebekah tenha a melhor educação. Eu dou minha palavra de cavalheiro, Nóbrega: eu cuidarei bem dela. Ela não será apenas uma esposa, será a Duquesa de Martinez.

​José olhou para o chão, o conflito estampado em seu rosto marcado.

— Ela é apenas uma menina...

​— Ela é a salvação desta família — Heitor concluiu, deixando um documento sobre a bigorna. — Pense. Voltarei em dois dias pela resposta.

​A Revelação ao Entardecer

​Naquela noite, a mesa de jantar estava quase vazia. Rebekah já dormia no quarto pequeno. José mal tocou no prato de sopa rala.

​— Pai? O senhor está pálido — Jasmine disse, colocando a mão sobre a dele. — O que o Duque queria?

​José suspirou, as lágrimas ameaçando cair pela primeira vez.

— Ele me fez uma proposta, Jasmine. Ele quer se casar com você.

​O silêncio caiu sobre a sala como uma pedra. Jasmine sentiu um calafrio percorrer a espinha.

— Casar? Comigo? Ele tem o dobro da minha idade! Ele é um estranho!

​— Eu sei, minha filha... eu sei — José disse com a voz embargada. — Mas ele prometeu reconstruir tudo. Prometeu que Rebekah nunca passaria fome. Se não aceitarmos... teremos que mendigar na capital em menos de um mês.

​Açucena, a mãe, cobriu o rosto com o avental, soluçando baixo. Jasmine olhou pela janela para a escuridão do campo que antes era verde e agora era apenas terra morta. Ela pensou no esforço do pai, na doçura de Rebekah e na miséria que as aguardava.

​— Ele disse que cuidaria de mim? — Jasmine perguntou, a voz fria e decidida.

​— Deu sua palavra de honra — respondeu o pai.

​Jasmine levantou-se, as mãos trêmulas escondidas sob a mesa. Ela viu o desespero nos olhos do homem que sempre fora seu porto seguro. O peso da família agora estava sobre seus ombros de dezoito anos.

​— Diga a ele que aceito — disse ela, embora o peito doesse de raiva. — Se o preço da nossa sobrevivência é a minha liberdade, então que assim seja. Eu me casarei com o Duque.

​Naquela noite, Jasmine não chorou. Ela apenas guardou suas roupas simples, sabendo que a jovem plebeia que amava o cheiro da terra estava prestes a morrer para dar lugar a uma Duquesa feita de gelo e sacrifício.