O Preço da Flor de Ferro

3 O Jantar sob a Luz das Velas



​O ar na pequena casa dos Nóbrega estava carregado de uma tensão invisível, misturada ao cheiro de ensopado de batatas — o pouco que Açucena conseguira salvar da despensa externa. À mesa, o Duque Heitor Martinez parecia uma figura deslocada, um falcão em um ninho de pardais, mas sua postura não era de arrogância. Ele ocupava o banco de madeira com uma elegância natural, observando a simplicidade ao seu redor com um respeito silencioso.

​— É uma refeição humilde, Vossa Graça — disse José, a voz ainda rouca pela fumaça do dia anterior. — Pedimos desculpas por não termos algo à altura de sua posição.

​Heitor sorriu levemente, e Jasmine notou que seus olhos não eram frios como ela imaginara.

— O tempero da honestidade é melhor do que qualquer banquete da corte, mestre Nóbrega. Agradeço a hospitalidade.

​O silêncio que se seguiu foi quebrado pela pequena Rebekah. Com a curiosidade típica dos seis anos, ela apoiava o queixo na mão, encarando as abotoaduras de ouro do Duque.

​— O senhor é um príncipe? — perguntou a menina, os olhos brilhando. — Mamãe disse que os príncipes vêm em cavalos brancos para salvar as pessoas. O senhor vai salvar a nossa fazenda?

​— Rebekah! — Açucena repreendeu, mas Heitor levantou a mão suavemente.

​— Eu não sou um príncipe, pequena. Apenas um homem que reconhece o valor das flores que crescem em solos difíceis — ele respondeu, olhando por um breve segundo para Jasmine, que manteve os olhos fixos em seu prato. — E sim, vou ajudar seu pai a deixar tudo verde e bonito de novo.

​— E a Jasmine? Ela vai morar no castelo com o senhor? — Rebekah continuou. — Ela vai ter um vestido azul? Ela disse que eu ia ter um...

​— Rebekah, coma sua sopa — Jasmine interrompeu, a voz firme, embora sentisse o rosto queimar de raiva e vergonha.

​Após o jantar, o ar dentro da casa parecia sufocante para Jasmine. Ela saiu para o pequeno jardim lateral, onde o frio da noite começava a assentar sobre as cinzas da plantação. Momentos depois, ouviu passos pesados e rítmicos. Heitor parou ao seu lado, mantendo uma distância respeitosa.

​— Você me odeia — não era uma pergunta, mas uma constatação calma.

​Jasmine virou-se para ele, os olhos faiscando sob o luar.

— O senhor está nos comprando, Duque. Como meu pai compra ferro para a forja. Como eu esperaria que eu me sentisse?

​Heitor suspirou, olhando para o horizonte escuro.

— Entendo que pareça um negócio cruel. Mas não busco uma prisioneira, Jasmine. Sei que este casamento é um sacrifício para você. Mas dou minha palavra: nunca a obrigarei a nada que seu coração não deseje. Quero apenas que me dê a chance de provar que posso ser o porto seguro que sua família precisa.

​— Por que eu? — ela perguntou, a voz falhando. — Há centenas de damas na corte que matariam por este título.

​Heitor deu um passo à frente, e Jasmine sentiu o perfume de sândalo e couro que emanava dele. Ele estendeu a mão, mas não a tocou; apenas a manteve próxima, em um gesto de oferta.

​— Porque naquelas mulheres eu vejo apenas seda e ambição. Em você, vejo a força de quem ama os seus acima de si mesma. E essa é a única riqueza que realmente me interessa.

​Ele retirou um lenço de seda do bolso e o entregou a ela, notando que Jasmine tremia levemente pelo frio.

— Voltarei amanhã para os preparativos. Tente descansar, Jasmine. O castelo pode ser grande, mas não deixarei que você se sinta sozinha nele.

​Com uma breve reverência, ele se retirou, deixando Jasmine com o lenço perfumado na mão e uma confusão de sentimentos que ela não conseguia mais chamar apenas de ódio.