O Preço da Coroa

33 Se sentindo inútil


A celebração no castelo havia acabado, mas as palavras do Bispo ficaram presas na mente de Selene como espinhos. No quarto, enquanto Eloise dormia profundamente no berço de bétula, Selene estava sentada diante da lareira, os olhos fixos nas chamas, mas o pensamento longe.

​Quando Adrian entrou, ele esperava encontrar a esposa vitoriosa após o confronto no templo, mas o que viu foi uma mulher encolhida, com os ombros pesados e o olhar perdido.

​— Selene? — Ele se aproximou, deixando sua capa de lado. — O que foi? O médico disse que você precisa descansar, foi um dia longo.

​— Você ouviu o que eles disseram, Adrian — ela começou, a voz num sussurro quebrado. — "Roma não está satisfeita". "Sangue vigoroso". Eles queriam um príncipe. O reino esperava um herdeiro para as batalhas, para carregar o seu nome...

​— Selene, não comece com isso...

​— Eu me sinto inútil — ela o interrompeu, as lágrimas finalmente transbordando. — Depois de tudo o que passamos, de todo o esforço que você fez para me reconquistar, eu sinto que falhei com você. Eu não te dei o menino que protegeria sua linhagem. Eu te dei uma menina em um mundo que só respeita a espada de um homem.

​Adrian congelou. A dor na voz dela o atingiu com mais força do que qualquer insulto do clero. Ele caminhou até ela, ajoelhou-se entre suas pernas e segurou seu rosto com as duas mãos, forçando-a a olhar para ele.

​— Olhe para mim — ele ordenou, com uma suavidade firme. — Você me deu a única coisa que eu realmente precisava para ser um homem melhor: uma razão para amar o futuro.

​— Mas Adrian, as leis, o conselho... eles vão te pressionar.

​— Que pressionem! — ele rugiu baixinho, para não acordar a bebê. — Selene, entenda uma coisa: eu não quero um herdeiro que seja apenas uma cópia minha, criado para a guerra. Eu queria a mistura perfeita de nós dois. E veja Eloise... ela tem o seu espírito. Você acha que eu trocaria a vida dela por dez príncipes? Nunca!

​Ele beijou a testa de Selene, limpando as lágrimas dela com os polegares.

​— Você não é uma incubadora de herdeiros, você é a minha Rainha. Você me deu a vida de volta quando eu era apenas um monstro de gelo. Se Roma quer um menino, que eles venham lutar contra a Rainha que Eloise se tornará. Eu vou ensiná-la a lutar, e você vai ensiná-la a governar com essa sabedoria que me dobrou.

​Selene soluçou, encostando a testa na dele. O peso da culpa começou a diminuir sob o calor do abraço de Adrian.

​— Eu só queria que você tivesse tudo, Adrian.

​— Eu já tenho tudo — ele murmurou, puxando-a para o seu peito. — Eu tenho você e tenho ela. O resto do mundo que se exploda com suas coroas e suas regras. Você é a mulher mais útil e poderosa deste mundo, porque você mudou o meu destino. Nunca mais diga que falhou, porque para mim, você é a perfeição.

​Ele a conduziu até o berço, e ambos ficaram ali, em silêncio, observando o peito de Eloise subir e descer. Naquele momento, Selene entendeu que o amor de Adrian não era condicional à linhagem, mas sim à alma que eles haviam construído juntos.