O Preço da Coroa

10 Querendo carinho


O quarto real estava mergulhado na penumbra, iluminado apenas pelo brilho moribundo das brasas na lareira. Selene estava sentada diante da penteadeira, desfazendo as tranças com mãos trêmulas. Através do espelho, ela observava Adrian. Ele já estava na cama, recostado contra os travesseiros, lendo um relatório de guerra como se ela fosse apenas mais um móvel de luxo no aposento.

​A timidez que a assolava no início da noite começou a se transformar em uma irritação corrosiva. Toda vez que as luzes se apagavam, a dinâmica era a mesma: ele a possuía com uma intensidade silenciosa, técnica e bruta, para logo depois se virar e dormir, deixando-a acordada com o som do vento e o vazio no peito.

​Adrian fechou o livro e apagou a última vela. No escuro, Selene sentiu a mão dele em sua cintura, puxando-a para o centro da cama com a força habitual. Quando ele começou a beijar seu pescoço de forma mecânica, ela travou os ombros e se afastou.

​— Pare — ela disse, a voz firme, embora o coração batesse na garganta.

​Adrian parou, a respiração pesada contra a pele dela.

— O que foi agora? Você está cansada da viagem?

​Selene sentou-se na cama, puxando os lençóis para cobrir o corpo.

— Eu não sou um de seus soldados, Adrian. E não sou um território que você invade, finca uma bandeira e depois abandona.

​Houve um silêncio pesado. Ela ouviu o lençol farfalhar enquanto ele se sentava também.

— Do que você está falando, Selene?

​— Estou falando de humanidade! — ela explodiu, as lágrimas de frustração brilhando na escuridão. — Você me puxa, faz o que quer e depois me descarta como se eu fosse um fardo de palha. Onde estão as palavras? Onde está o carinho? Você nem sequer olha nos meus olhos depois que terminamos. Isso não é um casamento, é uma transação física!

​Adrian soltou um riso seco, sem qualquer humor.

— Você reclama de barriga cheia, princesa. Eu lhe dei proteção, dei o ouro que salvou a coroa de seu pai da ruína e estou cumprindo meu papel de marido todas as noites. Eu te sustento, te dou o título de Rainha e garanto que nada te falte.

​— Falta tudo! — ela gritou, batendo no colchão. — Falta o homem por trás dessa armadura de gelo!

​— Você deveria me agradecer — Adrian retrucou, a voz baixando para um tom perigosamente calmo. — Muitos reis mantêm suas rainhas apenas como enfeites e buscam prazer em outros leitos. Eu estou aqui. Estou no seu quarto. Estou garantindo a sucessão do meu reino com a mulher que me foi dada. Eu faço o meu dever, Selene. Se você esperava por romances de cavalaria e beijos ao luar, você casou com o homem errado.

​Selene sentiu como se tivesse levado um tapa físico.

— Então é isso? Eu sou apenas "o seu dever"?

​— Em Oakhaven, o dever é a forma mais alta de respeito — ele respondeu, voltando a se deitar e puxando a coberta. — Agora durma. Amanhã tenho um conselho ao amanhecer e não tenho tempo para dramas infantis sobre como você se sente.

​Ele virou as costas para ela, fechando o mundo exterior mais uma vez. Selene permaneceu sentada, olhando para a silhueta das costas dele. O fogo na lareira se apagou por completo, e ela percebeu que, naquele castelo, o gelo não estava apenas nas paredes de pedra, mas no coração do homem com quem ela dividia a vida. Ela nunca se sentira tão sozinha.