O clima no castelo estava gélido, e não era por causa da neve que começava a cair lá fora. Selene passou o dia inteiro mergulhada em tarefas: revisou as contas da cozinha com a Senhora Maria, percorreu a biblioteca com Cristian e passou horas discutindo bordados e tradições nortenhas com Penelope. Tudo para garantir que, quando Adrian cruzasse os corredores, ela estivesse em qualquer lugar onde ele não estivesse.

​Ao cair da noite, em vez de se dirigir aos aposentos reais, Selene deu uma ordem clara a Lorena: levar seus pertences para um dos quartos de hóspedes na ala leste, uma torre menor e mais isolada.

​Adrian estava em seu gabinete quando Maria Benevides entrou, hesitante.

— Majestade... a Rainha Selene pediu para avisar que já se recolheu. No quarto da torre leste.

​Adrian travou a pena sobre o pergaminho. O silêncio que se seguiu foi cortante. Sem dizer uma palavra, ele se levantou, a capa farfalhando como um presságio, e caminhou em direção à ala leste. Seus passos ecoavam pelo corredor vazio, rápidos e pesados.

​Ele não bateu. Abriu a porta da torre com um estrondo que fez Selene pular da cama, onde tentava ler à luz de uma única vela.

​— O que significa isso? — Adrian perguntou, permanecendo na soleira da porta, a silhueta imponente bloqueando a saída.

​Selene fechou o livro com calma, embora suas mãos tremessem sob o lençol.

— Significa que este quarto é mais adequado ao meu humor hoje, Adrian. Ele é frio e silencioso. Achei que você apreciaria, já que são as qualidades que você mais valoriza.

​Adrian caminhou até o pé da cama, os olhos faiscando de uma raiva contida.

— Você é a Rainha de Oakhaven. O seu lugar é nos aposentos reais, ao lado do seu Rei. Não permitirei que transforme meu castelo em um cenário para suas rebeldias de criança.

​— E eu não permitirei que você me trate como um objeto de conveniência! — Selene rebateu, levantando-se e ficando de pé sobre a cama para encará-lo na mesma altura. — Você disse que cumpre seu dever, não disse? Pois bem, eu cumpri o meu. Dei a você o que o contrato exigia. Agora, no meu tempo livre, escolho não ser ignorada por um homem que não tem a decência de me tratar como um ser humano.

​Adrian deu um passo à frente, invadindo o espaço dela. A proximidade era elétrica.

— Você acha que ficar trancada aqui vai mudar as coisas? Acha que o mundo vai parar de girar porque você decidiu dormir em uma cama de solteira?

​— Não — Selene sussurrou, o rosto a centímetros do dele. — Mas pelo menos aqui eu não preciso esperar por um carinho que nunca vem. Aqui, a solidão é honesta. No seu quarto, ela é cruel.

​Adrian a observou por um longo tempo. Ele viu a mágoa profunda escondida atrás da fúria nos olhos dela. Por um momento, ele pareceu prestes a dizer algo — talvez algo que não fosse sobre deveres ou contratos — mas sua mandíbula se contraiu e ele recuperou a máscara de ferro.

​— Amanhã temos uma recepção para os senhores das montanhas — ele disse, a voz baixa e perigosa. — Você estará ao meu lado, vestida como a Rainha que eu comprei para este reino. E quando a festa acabar, você voltará para o nosso quarto. Por bem... ou por minhas próprias mãos.

​Ele se virou e saiu, batendo a porta com tanta força que o quadro na parede estremeceu. Selene caiu sentada na cama, o coração disparado. Ela havia provocado o Rei de Ferro, e o fogo que vira nos olhos dele indicava que a noite seguinte seria tudo, menos silenciosa.