O despertar de Adrian não veio com um evento grandioso, mas com o silêncio ensurdecedor de uma manhã de terça-feira. Ao olhar para o lado e ver uma desconhecida cujas feições ele sequer lembrava, um nojo profundo de si mesmo o atingiu. Ele olhou para suas mãos e percebeu que, enquanto tentava punir Selene, ele só havia conseguido destruir a si próprio.

​Naquela manhã, ele expulsou todos os estranhos da ala oeste. Lavou o cheiro de vinho e pecado da pele, vestiu sua armadura mais nobre e decidiu que, se era um conquistador, estava na hora de reconquistar o único território que realmente importava: o coração de Selene.

​O Primeiro Gesto: A Quebra do Protocolo

​Selene estava na biblioteca, cercada por mapas e o Conselheiro Cristian, quando as portas se abriram. Adrian entrou, mas não havia a arrogância habitual. Ele trazia nas mãos uma pequena muda de pinheiro-de-gelo — a mesma que ele havia prometido plantar meses atrás.

​Cristian, percebendo a mudança de ar, recolheu seus papéis e saiu em silêncio.

​— O que é isso, Adrian? — Selene perguntou, sem se levantar. Seu tom era de um cansaço infinito. — Mais uma encenação para os lordes?

​— Não há ninguém aqui, Selene — ele disse, a voz baixa, aproximando-se da mesa. — Só eu. E este pinheiro que deveria estar na terra desde aquele domingo.

​— Aquele domingo morreu na segunda-feira seguinte, se bem me lembro — ela rebateu, voltando os olhos para os mapas. — Leve isso embora. O jardim está cheio de árvores que sobrevivem sem ajuda.

​Adrian não recuou. Ele contornou a mesa e ajoelhou-se ao lado da cadeira dela, algo que um Rei de Oakhaven jamais faria.

— Eu fui um covarde. Eu tive medo de que, se eu amasse você, eu perderia a força que me mantém no trono. Mas a verdade é que, sem você, o trono é apenas uma cadeira fria em um castelo vazio.

​Selene finalmente o olhou, e ele viu a mágoa profunda ainda brilhando ali.

— Você me traiu. Você me humilhou diante de todo o reino.

​— Eu sei. E passarei cada dia da minha vida tentando compensar isso, se você me permitir. Não peço que me perdoe hoje, mas peço que me deixe tentar ser o homem que você viu naquele dia.

​A Persistência do Ferro

​Nos dias seguintes, Adrian não exigiu sexo, não exigiu presença e não deu ordens. Ele começou a "atacar" com pequenos atos de cuidado que Selene não esperava.

​O Café da Manhã: Ele passou a acordar mais cedo apenas para garantir que as frutas favoritas de Selene (trazidas de Delavga a um custo alto) estivessem na mesa dela.

​As Audiências: Durante as reuniões do conselho, ele não a interrompia mais. Em vez disso, ele a olhava com uma admiração óbvia e dizia: "A Rainha tem razão, sigam o plano dela."

​O Bilhete: Uma noite, Selene encontrou uma pequena caixa sobre seu travesseiro. Dentro, não havia joias, mas uma pétala de flor seca de Delavga e um bilhete com a caligrafia firme de Adrian: "Eu não mereço seu perdão, mas lutarei por ele como lutei por este reino. Por favor, não desista de nós."

​O Confronto no Jardim

​Ao entardecer, Selene encontrou Adrian no jardim da torre leste. Ele estava com as mãos sujas de terra, cavando o buraco para o pinheiro sozinho, sem ajuda de servos.

​Ela parou atrás dele, observando o esforço do homem que antes só se preocupava com a guerra.

​— Você vai ficar resfriado se continuar nesse vento sem capa — disse ela, a voz um pouco menos gélida.

​Adrian parou e olhou para trás, limpando o suor da testa com o antebraço. Ele deu um sorriso fraco, quase tímido.

— É um frio honesto, Selene. Prefiro ele ao gelo que eu carregava no peito.

​Selene caminhou até ele e, para a surpresa de Adrian, ajoelhou-se na terra também. Ela tocou a muda do pinheiro.

​— Você acha que ela vai sobreviver? — ela perguntou, sem olhar para ele. — Penelope disse que, se ela passar pelo primeiro inverno, o amor será eterno. Mas o inverno aqui é muito longo, Adrian.

​Adrian cobriu a mão dela com a sua, as mãos sujas de terra se encontrando sobre a planta.

— Eu vou construir uma redoma se for preciso. Vou queimar cada tora de madeira deste castelo para mantê-la aquecida. Eu não vou deixar nada morrer de novo entre nós, Selene. Eu prometo.

​Selene olhou para as mãos unidas e depois para os olhos dele. Pela primeira vez em muito tempo, ela viu o homem, não o monstro. Ela não o beijou, nem disse que o perdoava, mas não retirou a mão. Foi o primeiro sinal de degelo em Oakhaven.