Adrian não esperava um perdão imediato; ele sabia que o gelo que ele mesmo criara era espesso e que o desquite solicitado por Selene ainda pairava como uma sombra entre eles. Por isso, ele mudou sua estratégia: parou de tentar ser o Rei que mandava e passou a ser o homem que servia.

​O Gesto da Biblioteca

​Dias depois do plantio da muda, Selene estava na biblioteca até tarde. O frio da noite começava a infiltrar-se pelas frestas. Ela sentiu um peso quente sobre seus ombros. Ao olhar para trás, viu Adrian ajustando uma capa de pele de raposa branca — a mais macia e cara do estoque real.

​— Você se perde nos livros e esquece que o fogo da lareira não dura para sempre — ele disse baixinho, retirando as mãos assim que o manto estava firme, respeitando o espaço dela.

​— Por que está fazendo isso, Adrian? — ela perguntou, sem se virar. — As cortesãs não estão mais na ala oeste?

​Adrian suspirou, sentando-se em uma cadeira próxima, mantendo uma distância segura.

— Não há mais ninguém lá, Selene. E nunca mais haverá. Eu entendi que tentar te ferir com outras mulheres foi a maior prova da minha fraqueza. Eu não quero corpos vazios. Eu quero a mulher que me desafia, que me ensina a governar e que... — ele hesitou — que eu não sou digno de ter, mas que farei de tudo para merecer.

​A Audiência Pública

​Na manhã seguinte, durante uma audiência com os camponeses que reclamavam das taxas de sal, um dos lordes do conselho tentou silenciar Selene quando ela sugeriu um subsídio real.

​— Com todo respeito, Majestade — disse o lorde para Adrian —, a Rainha talvez não entenda a economia do Norte como nós.

​Adrian, que antes ficaria em silêncio ou concordaria com o conselho, levantou-se bruscamente. O som de sua mão batendo no braço do trono ecoou pelo salão.

​— A Rainha entende de humanidade, algo que este conselho parece ter esquecido — Adrian rugiu, sua voz de comando fazendo o lorde recuar. — De hoje em diante, a palavra de Selene tem o mesmo peso que a minha. Se ela diz que o povo precisa de sal, o tesouro será aberto. E quem questionar a autoridade dela, estará questionando a minha coroa.

​Selene o olhou, surpresa. Pela primeira vez, ele não a tratava como uma posse, mas como uma sócia, uma igual. Ao final da audiência, ele apenas fez uma reverência curta para ela e saiu, deixando que ela recebesse os agradecimentos do povo sozinha, para que ela brilhasse sem a sombra dele.

​O Presente de Delavga

​Ao entardecer, Selene encontrou Adrian no pátio. Ele estava com um cavalo selado e uma pequena comitiva.

​— Onde vai? — ela perguntou.

​— Eu não vou. Eles vão — ele respondeu, apontando para os mensageiros. — Mandei buscar sua dama de companhia, Lorena, que você havia dispensado para protegê-la de mim, e também algumas mudas de flores de laranjeira de Delavga. Vamos construir uma estufa de vidro aqui em Oakhaven, Selene. Quero que você tenha um pedaço da sua casa aqui, para que não sinta que este lugar é apenas uma prisão de pedra.

​Ele se aproximou dela, parando a um passo de distância. O cheiro de pinheiro e couro o acompanhava.

​— Eu sei que você pediu o desquite. Os papéis ainda estão na minha mesa, rasgados, mas a intenção deles ainda está no seu coração. — Adrian baixou o tom de voz, e Selene viu uma súplica genuína em seus olhos. — Só peço que não os assine novamente por um mês. Me dê trinta dias para te mostrar que o monstro pode aprender a ser homem. Se ao fim desse tempo você ainda quiser ir... eu mesmo prepararei sua carruagem e te levarei até a fronteira.

​Selene olhou para o cavalo, para os mensageiros e para o homem à sua frente, que agora parecia muito mais vulnerável do que o Rei de Ferro que ela conhecera.

​— Trinta dias, Adrian — ela respondeu, a voz ainda firme, mas sem o corte de navalha de antes. — Mas não espere que flores de laranjeira apaguem o que eu vi naquele quarto.

​— Eu não espero milagres, Selene. Espero apenas uma chance de lutar por você — ele disse, e por um breve momento, ele ousou tocar a ponta dos dedos dela, uma carícia elétrica e breve, antes de se afastar para cumprir suas tarefas, deixando-a com o perfume de Delavga e a promessa de um novo inverno.