O Preço da Coroa
25 Os 30 dias
Os trinta dias em Oakhaven não pareceram um decreto real, mas sim uma estação de transição, como se o gelo eterno estivesse finalmente cedendo espaço para uma primavera tímida. Adrian não mudou apenas seus atos; ele mudou seu ritmo.
A Segunda Semana: O Silêncio Preenchido
Adrian passou a buscar a companhia de Selene de formas não intrusivas. Se ela estava na biblioteca, ele entrava apenas para alimentar a lareira ou trazer um chá de ervas que ele mesmo solicitara à Senhora Maria.
Certa noite, enquanto ela escrevia cartas para sua família em Delavga, ele sentou-se no tapete aos pés dela, longe o suficiente para não invadir seu espaço, mas perto o suficiente para que ela sentisse seu calor.
— O que está fazendo, Adrian? — perguntou ela, curiosa.
Ele levantou um pedaço de madeira de cedro e uma pequena faca.
— Esculpindo. Meu avô dizia que um rei que não sabe criar nada com as mãos esquece o valor do trabalho do seu povo. Estou tentando esculpir um lobo... mas ele parece mais um cão assustado por enquanto.
Selene soltou um riso baixo, o primeiro em semanas.
— Realmente, parece um cão.
Adrian sorriu, olhando para ela com uma ternura que a fez desviar o olhar.
— É um começo. Assim como eu.
A Terceira Semana: O Cavaleiro e a Rainha
Adrian sugeriu um passeio a cavalo, mas desta vez sem guardas ou protocolos. Eles cavalgaram até um penhasco que dava para o mar revolto do Norte. O vento soprava forte, e Adrian posicionou seu cavalo de modo a bloquear as rajadas mais frias para Selene.
— Por que você insiste tanto, Adrian? — ela perguntou, olhando para o horizonte. — Você poderia ter qualquer mulher. Poderia ter o silêncio e o poder.
— Porque nenhuma delas é você — ele respondeu, aproximando seu cavalo do dela. — O poder é um fardo pesado demais para se carregar sozinho. E o silêncio... o silêncio sem você é apenas um lembrete do homem vazio que eu era. Eu não quero "qualquer mulher", Selene. Eu quero a mulher que me deu um tapa na cara e me disse a verdade quando ninguém mais ousava.
Ele estendeu a mão, não para puxá-la, mas apenas oferecendo a palma. Selene hesitou, mas finalmente colocou a mão sobre a dele. Adrian não a apertou; ele apenas a segurou com uma leveza que dizia: Eu estou aqui se você precisar.
A Quarta Semana: O Gesto Final
Faltando apenas três dias para o fim do prazo, Adrian levou Selene até a estufa de vidro que ele prometera. Ela estava pronta. Por dentro, o ar era úmido e quente, contrastando com a neve lá fora. Havia flores de laranjeira, jasmim e até pequenas árvores de frutas cítricas.
— Você trouxe Delavga para o Norte — sussurrou Selene, tocando uma pétala branca.
— Eu trouxe o que você ama para onde eu vivo — Adrian corrigiu. — Porque espero que um dia esses dois mundos não sejam mais separados.
Naquela noite, eles jantaram sozinhos em uma mesa pequena, sem a distância monumental do salão real. Adrian falava sobre seus sonhos para o reino, sobre escolas que queria abrir e sobre como a visão de Selene o estava ajudando a ser um soberano melhor.
Ao fim do jantar, ele se levantou e caminhou até ela. Ele não a beijou. Em vez disso, ele se ajoelhou e descansou a cabeça no colo dela, um gesto de total rendição e vulnerabilidade.
— Amanhã termina o prazo — ele murmurou contra o tecido do vestido dela. — A carruagem está pronta, se você desejar. Os cavalos estão alimentados e o caminho para o sul está livre de neve. Mas meu coração, Selene... meu coração vai com você em cada quilômetro daquela estrada.
Selene sentiu as lágrimas subirem aos olhos. Ela passou os dedos pelos cabelos dele, sentindo a força e, ao mesmo tempo, a fragilidade daquele homem. O "monstro" havia sido domado, não por ordens ou força, mas pelo amor persistente e pelo arrependimento sincero.
— O pinheiro-de-gelo que plantamos... — Selene disse, a voz trêmula. — Ele ainda está vivo, Adrian. Maria me disse hoje de manhã. Ele sobreviveu à primeira tempestade.
Adrian levantou o rosto, os olhos brilhando de esperança.
— E você? Você sobreviveu à minha tempestade?
Selene sorriu entre as lágrimas, selando o rosto dele com as mãos.
— Eu acho que nós dois sobrevivemos, Adrian. Mande desmanchar a carruagem. Eu não vou a lugar nenhum.
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