O Preço da Coroa
22 O Contraste de Oakhaven
A atmosfera em Oakhaven tornou-se um retrato de decadência e dever. Enquanto o Rei se afundava em um ciclo de excessos e prazeres superficiais para mascarar seu vazio, a Rainha tornava-se a verdadeira coluna de pedra que sustentava o reino.
O castelo estava dividido por um abismo moral. De um lado, a ala oeste ecoava com risadas agudas, o cheiro de vinho derramado e a música alta que durava até o amanhecer. Do outro, o silêncio focado da sala do conselho, onde Selene passava suas horas.
Selene não chorava mais. Ela transformou sua dor em uma eficiência cortante. Ela revisava as rotas comerciais, inspecionava os celeiros para o inverno e recebia os súditos com uma dignidade que Adrian havia perdido.
No Corredor: O Encontro dos Mundos
Certa tarde, Selene caminhava com Cristian Blake, discutindo a reforma tributária das vilas mineiras, quando Adrian surgiu no corredor oposto. Ele estava com as vestes desalinhadas e o braço passado pelos ombros de uma mulher jovem de traços vulgares, que ria de algo que ele sussurrava.
Selene não parou. Ela continuou caminhando, a cabeça erguida, os papéis do reino firmes em suas mãos.
— Majestade — disse ela ao passar por ele, uma saudação curta e mecânica, sem sequer desviar os olhos de Cristian.
Adrian parou abruptamente. O riso da cortesã morreu no ar diante da autoridade gélida que Selene emanava. Ele a observou se afastar, a silhueta da esposa impecável e poderosa. Ele sentiu uma pontada de fúria e inveja; ela parecia mais rainha do que ele rei.
Na Cozinha: Selene e Maria Benevides
Maria Benevides observava Selene conferir as listas de estoque. A governanta, que vira Adrian crescer, não conseguia mais esconder sua tristeza.
— Minha senhora... a senhora não precisa carregar tudo isso sozinha. O Rei deveria estar aqui, ao seu lado.
Selene deu um sorriso amargo, sem tirar os olhos do inventário.
— O Rei está ocupado, Maria. Ele escolheu as sombras, então eu preciso garantir que a luz não se apague para o povo. Se ele prefere o calor de corpos que ele paga para ter, eu prefiro a solidez destas contas. Pelo menos os números não mentem para mim.
— Mas isso está matando a senhora por dentro — sussurrou a governanta.
— O que não mata, Maria, petrifica — Selene respondeu, fechando o livro com um estalo seco. — E pedras não sentem traição.
O Quarto de Adrian: A Solidão no Meio da Multidão
Tarde da noite, após dispensar as companhias daquela noite, Adrian estava sentado na beira da cama, com a cabeça entre as mãos. O quarto estava uma bagunça, mas ele nunca se sentira tão só. Ele ouvia, ao longe, o som dos guardas trocando de turno e o silêncio vindo da ala de Selene.
Ele sabia que, enquanto ele se perdia, ela se tornava o coração de Oakhaven. O povo já a amava; os lordes já a respeitavam mais do que a ele. Ele tentava se convencer de que estava se vingando da rejeição dela, mas a verdade era que, a cada cortesã que entrava em seu quarto, ele se sentia mais distante da única mulher que realmente o havia feito sentir-se vivo.
Selene era a Rainha. Ele era apenas um homem cercado por estranhos, assistindo de longe a mulher que ele amava se transformar na pedra que ele sempre disse que ela deveria ser.
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