O Preço da Coroa

16 Jogo de espelhos


O jogo de espelhos começou. Se Adrian queria uma rainha feita de gelo e dever, seria exatamente isso que ele receberia. Selene guardou seus sorrisos em uma caixa de veludo e vestiu sua própria armadura de indiferença.

​Nos dias que se seguiram, o palácio de Oakhaven tornou-se um palco de silêncios cortantes e formalidades excessivas.

​Na Sala de Jantar

​Eles estavam sentados nas extremidades da mesa longa. O som dos talheres era o único diálogo entre eles, até que Adrian quebrou o silêncio.

​— Os lordes do Vale estão satisfeitos com a recepção que você organizou ontem, Selene. Foi eficiente.

​Selene sequer levantou os olhos do prato. Sua voz saiu monótona, desprovida de qualquer brilho.

— É o meu dever, Majestade. Eficiência é o que se espera de uma Rainha de Oakhaven, não é? Fiz o que o contrato exigia.

​Adrian estreitou os olhos, sentindo a ponta do sarcasmo.

— Sim. Mas você não trocou uma palavra com Penelope durante toda a noite.

​— Estava ocupada demais executando minhas tarefas para me perder em conversas triviais. O senhor mesmo disse que não temos tempo para "sentimentos de criança". — Ela finalmente o olhou, mas seus olhos eram duas pedras frias. — Algum outro relatório que exija minha atenção?

​— Não — Adrian respondeu, a mandíbula contraída. — Pode se retirar.

​— Com licença, Majestade.

​No Gabinete (Encontro casual)

​Adrian estava saindo de uma reunião com Cristian quando cruzou com Selene no corredor. Instintivamente, ele estendeu a mão para tocar o braço dela, um resquício do domingo passado. Selene recuou um passo antes mesmo do toque acontecer.

​— Precisa de algo, Rei Adrian? — perguntou ela, mantendo uma distância segura e protocolar.

​— Eu ia apenas perguntar se... você gostaria de cavalgar. O tempo abriu.

​Selene deu um sorriso gélido que não chegou aos olhos.

— Gostaria muito, mas Maria Benevides me aguarda para a contagem dos tecidos e das provisões de inverno. O dever vem antes do desejo, lembra-se? Não posso me dar ao luxo de "descansos" agora que entendi como este reino funciona.

​Cristian, ao lado, pigarreou desconfortável, sentindo a tensão elétrica. Adrian fechou a mão em um punho, sentindo o próprio veneno ser servido de volta para ele.

​No Quarto (À noite)

​Adrian entrou e encontrou Selene já deitada, lendo um relatório de gastos da cozinha. Ela não se moveu quando ele se aproximou da cama. Quando ele se deitou e buscou o corpo dela para a habitual "consumação do dever", Selene permaneceu imóvel, os olhos fixos no papel.

​Ele parou, a mão pairando sobre a cintura dela.

— Você está agindo como uma estranha, Selene.

​— Estranha? — Ela fechou o relatório e apagou a vela do seu lado, mergulhando o quarto na penumbra. — Pelo contrário. Estou agindo exatamente como você. Estou sendo estável, funcional e focada nas obrigações. Não era isso que você queria? Uma esposa que não exige carinho, que não espera por palavras e que entende que o amor é uma fraqueza?

​— Há um limite entre dever e desdém — Adrian rosnou, virando-a para encará-lo.

​— O limite é o mesmo que você traçou na segunda-feira de manhã, Adrian — ela sussurrou, a voz cortante como uma lâmina. — Se você quer o "Rei de Ferro", terá que lidar com a "Rainha de Gelo". Agora, se terminou sua inspeção noturna, eu gostaria de dormir. Tenho muito o que "executar" amanhã.

​Ela se virou de costas para ele, deixando Adrian sozinho com o silêncio que ele mesmo havia criado. Pela primeira vez na vida, o Rei de Oakhaven sentiu que o frio de seu próprio castelo estava começando a queimá-lo.