O domingo nasceu com um sol pálido, mas o calor que costumava acompanhar o dia de descanso havia desaparecido por completo. No quarto real, o silêncio era tão espesso que parecia sufocar. Adrian despertou e, num gesto quase automático, tentou se aproximar de Selene, sua mão buscando o ombro dela com uma suavidade que ele reservava apenas para aquele dia da semana.

​Selene se esquivou como se o toque dele a queimasse. Ela saltou da cama, enrolando-se em seu robe com uma agilidade defensiva.

​— Nem pense nisso — ela disse, a voz ríspida, os olhos faiscando.

​— Selene, é domingo — Adrian disse, sentando-se, a voz ainda rouca. — Eu estava pensando no piquenique, Penelope já deve estar...

​— Eu não quero piquenique! — ela o interrompeu, gritando. — Não quero seus beijos, não quero seu carinho fingido e não quero suas migalhas de domingo!

​Adrian franziu a testa, a rigidez voltando ao seu rosto. — Do que você está falando? Eu estou tentando ser...

​— Você está tentando ser o quê? Humano por doze horas? — Selene riu, um som amargo e sem alegria. — Eu me recuso a aceitar algo que você vai arrancar de mim amanhã às seis da manhã. Eu não sou um brinquedo que você tira da caixa no dia de folga e guarda no armário de ferro durante a semana. Se não posso ter o homem integral, não quero as sobras do Rei.

​Adrian levantou-se, a fúria começando a emanar de seus poros. Ele deu um passo em direção a ela, a voz subindo de tom.

— Você é uma ingrata! Eu te dei tudo. Tirei sua família da lama, sustento o seu luxo e te trato com uma deferência que nenhuma outra mulher no Norte recebe. Você deveria estar de joelhos me agradecendo, e não fazendo cena como uma criança mimada que não recebeu atenção!

​— Agradecer? Por me transformar em uma estátua sem alma? — Selene gritou de volta, as lágrimas de raiva transbordando. — Você me comprou, Adrian! Mas esqueceu que comprou uma pessoa, não um objeto de decoração!

​— Eu comprei uma Rainha, mas parece que recebi uma pirracenta de Delavga! — Adrian cuspiu as palavras, o rosto a centímetros do dela, a máscara de ferro agora distorcida pelo ódio. — Sabe por que eu sou frio durante a semana? Porque olhar para você me lembra do erro que cometi ao me amarrar a uma mulher tão fraca e sentimental. Você é um fardo, Selene. Um contrato caro que eu sou obrigado a suportar entre lençóis!

​O som do impacto ecoou pelas paredes de pedra do quarto.

​Selene desferiu um tapa tão violento que o rosto de Adrian virou para o lado. O silêncio que se seguiu foi mortal. A marca dos dedos dela começou a arder em vermelho na pele pálida do Rei de Oakhaven.

​— Você é um monstro — ela sussurrou, a voz trêmula de nojo, recuando enquanto ele voltava o olhar para ela, os olhos sombrios como uma tempestade. — Um monstro de gelo que destrói tudo o que toca. Prefiro passar o resto da minha vida no frio de Oakhaven do que sentir o calor de um homem tão vazio quanto você. Saia daqui!

​Adrian levou a mão ao rosto, sentindo o calor do golpe. Ele a encarou por um longo tempo, a mandíbula travada, o orgulho ferido e algo mais — algo que parecia uma dor profunda que ele se recusava a nomear. Sem dizer uma única palavra, ele pegou sua capa e saiu do quarto, batendo a porta com uma força que fez alguns cristais da penteadeira caírem e se estraçalharem no chão, assim como o que restava da paz entre eles.