O Preço da Coroa
18 Desventuras
O castelo de Oakhaven tornou-se um labirinto de sombras onde o Rei e a Rainha habitavam em hemisférios opostos. A tensão era tão densa que os criados caminhavam nas pontas dos pés, temendo que uma palavra errada pudesse causar um desmoronamento. Adrian agora ocupava os aposentos da ala oeste, e o silêncio entre o casal era a única lei que ambos respeitavam.
Na Biblioteca: Selene e Penelope
Selene estava debruçada sobre um livro de botânica, tentando ignorar o frio que o isolamento trazia, quando Penelope entrou com uma bandeja de chá.
— Você está desaparecendo, Selene — disse Penelope, sentando-se à frente dela com um suspiro pesado. — Ontem, na recepção dos mercadores, você e meu irmão pareciam dois estranhos dividindo um elevador.
— Somos estranhos, Penelope — Selene respondeu, sem tirar os olhos das páginas. — Apenas estranhos que assinaram um contrato. É melhor assim. O silêncio não mente, ao contrário dos domingos dele.
— Ele está sofrendo, do jeito torto dele — insistiu a cunhada. — Adrian parou de comer. Ele passa as noites trancado naquele gabinete, revisando mapas que já sabe de cor.
Selene finalmente fechou o livro e olhou para Penelope com olhos cansados.
— Se ele sofre, é porque o monstro que ele criou não tem mais ninguém para devorar. Eu não sou mais o fardo dele, Penelope. Eu sou apenas a Rainha de fachada que ele comprou. Deixe-o com o seu gelo. Eu já me acostumei com o meu.
No Pátio de Treinamento: Adrian e Cristian Blake
Adrian golpeava um boneco de palha com sua espada de treino com uma ferocidade assustadora. Cada impacto era seco e brutal. Cristian observava de longe, até que resolveu intervir.
— Se continuar assim, vai quebrar a espada ou o próprio pulso, Adrian — disse Cristian, cruzando os braços.
Adrian parou, a respiração ofegante, o suor escorrendo pelo rosto apesar do frio.
— O que você quer, Cristian? Se veio falar sobre as rotas do sul, o relatório está na minha mesa.
— Vim falar sobre a Rainha. Ela nem sequer olha na sua direção durante as refeições. O povo está começando a comentar. Oakhaven precisa de estabilidade, não de um trono partido ao meio.
— Ela me chamou de monstro, Cristian — Adrian rosnou, cravando a espada no chão. — E talvez ela tenha razão. Eu não sei ser o que ela quer. Eu não sei ser um príncipe de contos de fadas que recita poesias enquanto o reino passa fome.
— Ela não quer poesias, Adrian. Ela queria o homem que você mostrou ser naquele domingo — rebateu Cristian com calma. — Você a feriu porque teve medo do que sentiu. E agora, prefere dormir sozinho em um quarto frio do que admitir que aquela "pirracenta de Delavga" é a única coisa que ainda aquece este castelo.
Adrian não respondeu. Ele apenas arrancou a espada do chão e voltou a golpear o boneco, mas desta vez, seus movimentos eram mais lentos, carregados de uma dor que ele não conseguia mais esconder sob a armadura.
No Corredor: O Encontro Silencioso
Horas depois, Selene subia as escadas para se recolher quando Adrian vinha no sentido oposto. Por um segundo, seus caminhos se cruzaram no corredor estreito. Selene baixou o olhar imediatamente, encostando-se na parede para deixá-lo passar, como se ele fosse uma assombração.
Adrian parou por um breve instante ao lado dela. Ele sentiu o perfume de jasmim que ela ainda usava — o cheiro de Delavga. Sua mão hesitou no ar, querendo tocar o braço dela, pedir desculpas, implorar para que ela voltasse.
Mas o orgulho e o medo foram mais fortes. Ele seguiu em frente sem dizer uma palavra. Selene esperou que o som de suas botas desaparecesse no corredor antes de soltar a respiração que nem sabia que estava segurando. O casamento de fachada continuava, sólido e inquebrável como uma tumba de mármore.
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