O Preço da Coroa

19 Dia dos namorados


O Grande Salão de Oakhaven estava transformado para o Baile do Dia dos Namorados. Guirlandas de pinheiro entrelaçadas com fitas vermelhas adornavam as colunas de pedra, e centenas de velas criavam uma ilusão de calor. A música das harpas e violinos era doce, e o riso dos casais apaixonados preenchia o ar.

​No topo do estrado, os dois tronos pareciam ilhas de gelo em um mar de chamas.

​Selene estava imóvel, o rosto uma máscara de perfeição real. Seus olhos, no entanto, traíam sua alma. Ela observava Penelope e Cristian girando no salão, trocando olhares que diziam tudo sem uma única palavra. Ela via jovens nobres sussurrando promessas e mãos se entrelaçando. O contraste com o homem sentado ao seu lado — silencioso, rígido e distante — era insuportável. Cada risada alheia parecia uma pontada de agulha em seu peito. Ela sentia que, se ficasse ali mais um minuto, o grito que guardava na garganta finalmente escaparia.

​Com um esforço hercúleo, Selene levantou-se.

​— Majestade — disse ela, a voz baixa e sem emoção, dirigindo-se a Adrian pela primeira vez na noite. — Sinto-me indisposta. Peço licença para me retirar.

​Adrian não se moveu, mas seus dedos apertaram a haste da taça de ouro.

— O baile mal começou, Rainha Selene.

​— O baile é para quem tem o que comemorar — rebateu ela, em um sussurro audível apenas para ele.

​Ela fez uma reverência profunda e impecável, a imagem exata da rainha obediente que ele exigira, e saiu do salão com passos rápidos.

​Nos Aposentos: O Peso do Silêncio

​Já no quarto, Selene dispensou Lorena. Ela não queria mãos gentis ou conversas de consolo. Com movimentos bruscos, arrancou as joias pesadas e deixou o vestido de seda cair no chão. Ela vestiu uma camisola de linho simples, sem rendas ou adornos, e deitou-se na cama imensa.

​Ela não chorou. Apenas ficou ali, deitada de lado, encarando a lareira apagada. Sua mente viajava para o sol de Delavga, para os sonhos que tinha aos 18 anos sobre encontrar alguém que a amasse pela sua liberdade, e não que a aprisionasse em um título. O silêncio do quarto era tão pesado quanto a coroa que ela acabara de tirar.

​No Trono: A Memória do Gelo

​Lá embaixo, Adrian permanecia sentado, observando o lugar vazio ao seu lado. Ele levou a taça aos lábios, o vinho tinto descendo como veneno. Ele deveria estar satisfeito; tinha o respeito dos lordes e a estabilidade do reino. Mas seus pensamentos eram traidores.

​Ele fechava os olhos e, contra sua vontade, a memória daquela noite intensa voltava. O calor da pele de Selene, o jeito que ela se entregara a ele, o som da respiração dela em seu peito quando o sol nasceu. Ele se lembrou do domingo, do sorriso que ela lhe dera quando ele a puxou para perto no piquenique. Naquele dia, ele sentira algo que não sentia há décadas: paz.

​Adrian olhou para a porta por onde ela saíra. Ele sabia que, se subisse agora, encontraria uma porta trancada — se não fisicamente, emocionalmente. O "monstro" que ela descrevera era o homem que ele acreditava que precisava ser para protegê-la, mas o preço dessa proteção tinha sido o brilho nos olhos da mulher que, ele agora percebia com um nó na garganta, era a única vida que restava naquele castelo de mortos.

​Ele virou o restante do vinho de um gole só, o olhar sombrio fixo no nada, enquanto a música dos apaixonados continuava a tocar, lembrando-o de tudo o que ele tivera em mãos e deixara congelar.