O amanhecer em Delavga trouxe uma névoa baixa, como se o reino estivesse guardando o fôlego para a partida de sua princesa. Adrian, fiel à sua palavra, não a procurou durante a noite; ele era um homem de protocolos, não de intimidades forçadas.

​Quando Selene entrou no grande salão, o som de suas botas de viagem ecoou melancolicamente. Ela vestia um traje prático de veludo escuro e carregava uma capa pesada nos braços. Ao longe, viu a silhueta imponente de Adrian. Ele já estava pronto, conversando em tons baixos com o Rei Dominic, a postura de quem não tinha tempo a perder com sentimentos.


​Selene caminhou até sua família. O choro, contido durante toda a noite, transbordou ao sentir o abraço da mãe.

​— Eu não quero ir, mamãe... — sussurrou ela, o rosto escondido no ombro de Iara.

​— Seja forte, minha estrela — respondeu a Rainha, tentando manter a voz firme apesar das lágrimas. — Lembre-se de quem você é.

​Alexander deu um passo à frente e a abraçou com força, o rosto fechado em uma mistura de culpa e proteção.

— Se ele te magoar, Selene... se ele for cruel, eu juro que...

​— Alexander, chega — Dominic interrompeu, com a voz embargada. — Ela agora é Rainha de Oakhaven.

​Débora aproximou-se por último, entregando a Selene um pequeno embrulho de tecido fino, feito por suas próprias mãos.

— Para que você nunca se esqueça do toque das pessoas que te amam, pequena.

​Adrian aproximou-se, o rosto impassível como uma máscara de mármore.

— É hora, Majestade. O sol já subiu e o caminho é longo.

​Selene não respondeu. Com um último olhar doloroso para trás, ela subiu os degraus da carruagem negra que ostentava o brasão do lobo de Oakhaven. O estalo do chicote e o movimento das rodas marcaram o fim de sua vida como ela a conhecia.

​Dentro da Carruagem: O Silêncio e a Faísca

​O interior da carruagem era luxuoso, mas parecia uma cela de seda. Adrian sentou-se à frente dela, abrindo um mapa de couro e ignorando o fato de que sua esposa ainda soluçava baixinho, olhando pela janela as torres de Delavga desaparecerem.

​Após uma hora de silêncio, Adrian finalmente falou sem desviar os olhos do mapa:

— Guarde suas lágrimas, Selene. Elas não vão comprar o seu caminho de volta.

​Selene limpou o rosto bruscamente, a tristeza sendo rapidamente substituída pela sua habitual faísca de rebeldia.

— Você é sempre assim? Ou o seu coração foi arrancado em alguma batalha e substituído por uma pedra de gelo?

​Adrian dobrou o mapa lentamente e fixou seus olhos nos dela. A intensidade do olhar fez Selene recuar um centímetro no assento.

— Eu sou o que meu reino precisa que eu seja. Oakhaven não é Delavga. Lá, não sobrevivemos de pinturas e poesias. Sobrevivemos de força.

​— E você acha que eu não sou forte? — ela desafiou. — Eu deixei tudo o que amo por um homem que nem sequer teve a decência de me dizer uma palavra gentil na nossa noite de núpcias.

​— Eu lhe dei o presente do silêncio e da privacidade — rebateu Adrian, a voz fria, mas cortante. — Achei que uma mulher que tanto preza a "liberdade" apreciaria uma última noite sem as obrigações do casamento. Ou eu me enganei e você estava ansiosa para cumprir seus deveres de esposa?

​O rosto de Selene queimou de vergonha e raiva.

— Você é odioso!

​— Talvez — Adrian recostou-se, fechando os olhos. — Mas eu sou o seu marido. E no meu reino, a primeira lição que você aprenderá é que o respeito se conquista com resiliência, não com gritos e acessos de fúria. Tente dormir. Quando acordar, o ar estará mais frio.

​Selene apertou sua capa contra o corpo, sentindo o primeiro calafrio que não vinha do vento. Ela olhou para o homem à sua frente — seu marido, seu carcereiro, seu rei — e percebeu que a viagem para o Norte seria a batalha mais difícil de sua vida. Ela não se curvaria. Não para o Rei de Ferro.