O Preço da Coroa
2 As Paredes de Vidro
O escritório real de Edimburgo era um refúgio de carvalho escuro e o cheiro persistente de cera de abelha e pergaminho antigo. Pelas janelas altas, Edmund Blake observava os flocos de neve caírem sobre o pátio interno. O silêncio ali era absoluto, uma bolha de privilégio que o isolava do mundo real.
A porta rangeu. Lorde Archibald, o conselheiro que servira seu pai por três décadas, entrou com uma pilha de relatórios que pareciam pesar mais do que a própria coroa.
— Majestade — saudou Archibald, a voz rouca. — Precisamos revisar as provisões de inverno. As notícias que chegam das Terras Baixas não são boas.
Edmund afastou-se da janela, ajeitando a túnica impecável.
— O que houve? O relatório anterior dizia que os estoques eram suficientes para a transição do reinado.
Archibald soltou um suspiro pesado e colocou um papel amarelado sobre a mesa.
— O relatório anterior foi escrito por homens que queriam agradar seu pai antes de ele partir. A realidade, senhor, é que a geada destruiu metade da colheita de cevada. O preço do pão triplicou em duas semanas.
Edmund franziu a testa, sentindo um incômodo no peito.
— Se o preço subiu, o povo está reclamando?
— Reclamando seria um eufemismo, Majestade — Archibald aproximou-se, baixando o tom de voz. — Há sussurros de revolta em cada taberna. O povo olha para estas muralhas e não vê proteção, vê um banquete permanente enquanto eles dividem ratos para o jantar. Eles sentem que o Rei Henrique os abandonou para viver no conforto de uma cabana, deixando um "menino" que se importa mais com a cor de suas novas tapeçarias do que com a fome dos súditos.
Edmund sentiu o rosto arder. A acusação de ser apenas um "menino" o atingia como um golpe físico.
— Eu não pedi para meu pai abdicar agora, Archibald! Estou tentando manter a ordem.
— A ordem não se mantém com decretos, mas com barrigas cheias — retrucou o conselheiro, sem desviar o olhar. — Se o senhor não fizer algo para abrir os celeiros reais ou reduzir os impostos de emergência, a procissão do seu primeiro mês de reinado não será uma celebração. Será um massacre.
Edmund caminhou até a mesa e tocou o papel. As estatísticas de fome eram frias, mas as palavras de Archibald pintavam um cenário sangrento.
— Eles realmente nos odeiam tanto assim?
— Eles não odeiam o senhor, Majestade. Eles odeiam a fome. E, no momento, o senhor é o rosto dela. Há rumores de que grupos estão se organizando nos becos... gente jovem, furiosa, que não tem nada a perder.
Edmund apertou o punho sobre a mesa. A ideia de que, em algum lugar daquela cidade, alguém estava planejando algo contra ele o deixava inquieto. Ele ainda não sabia que, em uma casa humilde de pedra, uma jovem chamada Maria Benevides acabara de esconder uma adaga sob o corpete, pronta para provar que os avisos de Archibald eram terrivelmente reais.
— Prepare a guarda para a procissão de amanhã — ordenou Edmund, tentando recuperar a postura. — Eu vou sair. Vou mostrar a eles que não tenho medo.
— Às vezes, Majestade — disse Archibald, retirando-se — o medo é o único mestre que nos ensina a verdade.
Fale com o autor