O Preço da Coroa

3 Sangue e Neve, O Primeiro Olhar




​O sol de inverno tentava romper as nuvens cinzentas sobre o Royal Mile de Edimburgo. A neve que caíra durante a noite derretera, deixando as pedras das ruas escorregadias e lodosas. O cheiro de cavalos, fumaça de turfa e pão fresco (para aqueles que podiam pagar) preenchia o ar misturado com o perfume dos tecidos ricos que o Rei Edmund Blake e sua comitiva usavam.

​— Mantenham a postura, Majestade — sussurrou Lorde Archibald ao lado dele, montado em um corcel negro. — Deixe-os ver o Rei.

​Edmund, em sua túnica de veludo roxo com a gola de pele branca e chains de ouro, acenava com um sorriso mecanizado. Seus olhos, no entanto, não paravam. Ele via a multidão, mas não a alegria. Ele via rostos pálidos, bochechas cavadas, e olhares que pareciam mais facas do que saudações. As palavras de Archibald sobre a geada e a fome pareciam ganhar vida a cada passo do seu cavalo.

​E então, ele a viu.

​Não como uma ameaça, no início. Apenas como uma moça de cabelos escuros e cacheados que caíam sobre o corpete de camurça marrom, destacando-se na massa de cores neutras do povo. Seus olhos castanhos eram grandes e intensos, não como os de uma súdita admiradora, mas como os de uma caçadora.

​Ela estava perigosamente perto da borda da corda que separava o povo da procissão. O cavalo de Edmund estava a poucos metros dela. E em um piscar de olhos, o mundo parou.

​Maria Benevides rompeu a barreira.

​— Para trás! — gritaram os guardas, mas ela foi mais rápida. Um brilho metálico surgiu em sua mão direita. Ela não gritou, não hesitou. Ela avançou direto para o Rei, a adaga de caça afiada apontada para o seu peito.

​— Majestade, cuidado! — O grito de um guarda ecoou.

​Edmund, surpreso pela velocidade dela, não teve tempo de desembainhar sua própria espada. Ele agiu por instinto, soltando as rédeas e jogando o corpo para o lado no cavalo. A adaga de Maria cortou o ar onde seu peito estivera milissegundos antes, rasgando o veludo de sua túnica e deixando uma fina linha vermelha na sua pele.

​O grito da multidão foi ensurdecedor, não de apoio, mas de choque e terror. Maria, com a inércia, caiu no chão, a adaga deslizando para longe. Antes que ela pudesse se levantar, quatro guardas a imobilizaram, prendendo-a contra o calçamento lamacento.

​— Prendam-na! — rugiu o capitão da guarda. — Levem-na para as masmorras!

​Edmund, recuperando o equilíbrio no cavalo, olhou para baixo. Maria estava no chão, o rosto sujo de lama, mas seus olhos castanhos estavam fixos nele, queimando com uma fúria que o paralisou. Ela não parecia uma plebeia assustada. Ela parecia uma leoa capturada.

​— Seu covarde! — ela cuspiu, a voz rouca. — Você e seu pai nos deixaram morrer de fome! O sangue deles está em suas mãos!

​— Calem a boca dela! — gritou um guarda, e Maria foi arrastada, seus gritos de protesto ecoando pela rua agora silenciosa.

​Edmund tocou o corte no peito. O sangue estava quente, e o seu coração batia como um tambor. Ele olhou para Archibald, cujo rosto estava pálido. A procissão continuou, mas o Rei já não sorria.

​A Noite nas Masmorras

​As masmorras do Castelo de Edimburgo eram um lugar que o tempo esquecera. O ar era pesado, úmido e fedia a mofo e desespero. Tochas solitárias projetavam sombras dançantes nas paredes de pedra, fazendo o lugar parecer ainda mais assustador.

​Edmund, agora vestindo uma túnica simples de lã escura e uma capa com capuz para passar despercebido, desceu as escadas de pedra. Ele não dissera a ninguém onde ia, nem mesmo a Archibald. Ele precisava ver aquela moça de novo. Ele precisava entender.

​O guarda na porta da cela a abriu com um ranger estridente.

— Majestade, tem certeza? Ela é perigosa.

​— Eu sei. — Edmund entrou e a porta se fechou atrás dele.

​Maria estava sentada em um punhado de palha no canto da cela, seus pés e mãos acorrentados. Seus cabelos estavam bagunçados e o rosto ainda estava sujo, mas a fúria em seus olhos não diminuíra. Ela olhou para ele, seu sorriso amargo retornando.

​— O Menino-Rei veio ver o brinquedo que tentou quebrá-lo? — ela zombou, a voz ecoando na cela pequena. — Achei que estaria ocupado demais escolhendo a cor dos seus novos talheres.

​Edmund se aproximou, parando a uma distância segura. Ele tentou manter a voz firme.

— Como você se chama, plebeia?

​— Maria Benevides. — Ela levantou o queixo. — E eu não sou sua plebeia. Eu sou a voz do povo que você ignora.

​— Você tentou me matar, Maria. — Ele apontou para o pequeno corte em seu peito, visível pela abertura da túnica. — Você acha que isso resolveria os problemas da geada e da fome?

​— Resolveria o problema de ter um idiota no trono que não se importa! — retrucou Maria, a voz subindo de tom. — Enquanto você se banqueteia, crianças estão morrendo de frio. Você sabe o que é ter que dividir um nabo murcho com toda a sua família e ainda ter que pagar impostos para a sua coroa de ouro? Você já sentiu o gosto da poeira, Majestade?

​As palavras dela o atingiram como um soco. Archibald lhe dissera o mesmo, mas ouvir da boca da pessoa que tentara matá-lo era diferente.

​— Eu… eu estou tentando fazer o que posso. — Edmund tentou se defender. — Eu ordenei a revisão dos impostos.

​— Uma revisão! — Ela riu, um som seco e sem alegria. — O povo não precisa de revisões, precisamos de ação! Precisamos de comida! Você não é o seu pai, Edmund Blake. Ele, pelo menos, sabia o que era ser um rei. Você é só um garoto brincando de governar.

​Edmund sentiu a raiva subir. Ninguém, nunca, o chamara de garoto daquela forma.

— Eu sou o Rei! E se você não tivesse tentado me matar, talvez eu estaria mais inclinado a ouvir suas queixas. Agora, você é apenas uma traidora.

​— E você é apenas um covarde que se esconde atrás de muralhas e guardas! — gritou Maria, as correntes batendo contra o chão. — Eu posso ser uma traidora para você, mas eu sou uma heroína para o meu povo. E eles não vão parar até que você entenda!

​Edmund olhou para ela, o ódio e a admiração lutando dentro dele. Ela era perigosa, sim. Mas ela também era incrivelmente corajosa, e sua paixão era algo que ele nunca vira antes. Ele percebeu, com um arrepio, que ele não a odiava. Ele a temia, sim. Mas ele também estava, de alguma forma, fascinado por ela.

​— Você vai ficar aqui, Maria Benevides. — Ele disse, com a voz baixa e fria, mas seus olhos traíam uma incerteza que ela não percebeu. — E amanhã, você será julgada. E você saberá o que é o peso da coroa.

​Ele se virou e saiu da cela, o ranger da porta ecoando na masmorra silenciosa. Maria Benevides ficou sozinha na escuridão, com o som de suas próprias correntes e o gosto amargo da poeira em sua boca. Ela tentara quebrar o Menino-Rei, mas ela mal sabia que ela acabara de despertar algo nele que mudaria a Escócia para sempre.