O Preço da Ambição

5 O Golpe de Misericórdia e a Linha Borrada



​As duas semanas seguintes foram um turbilhão. O plano avançava com a precisão de um relógio suíço. Leonard e Suzan começaram a ser vistos juntos em todos os lugares: almoços de negócios que se estendiam por horas, jantares em restaurantes intimistas e saídas estratégicas da holding no fim do expediente. Não demorou para que os tabloides locais começassem a publicar fotos borradas com manchetes provocativas: “Crise no império Vance? Herdeiro é visto em clima de romance com nova assistente”.

​Anastasia estava espumando de raiva, exatamente como previram. Mas faltava o golpe final. A sexta-feira era o dia perfeito, pois era a noite em que Anastasia, religiosamente, ia até o apartamento duplex de Leonard para passar o fim de semana.

​Por volta das nove da noite, a atmosfera na cobertura de Leonard era de uma calmaria tensa. O som suave de jazz tocava ao fundo, e os dois estavam sentados no imenso sofá de couro, compartilhando uma garrafa de vinho tinto.

​Para passar o tempo e aliviar a ansiedade da espera, Leonard girou a taça nos dedos e olhou para Suzan, que vestia roupas simples, mas confortáveis.

​— Sabe, Styles... passamos tanto tempo fingindo nas últimas semanas que eu percebi que mal conheço a mulher por trás da minha assistente brilhante. De onde você vem? O que você fazia antes de entrar na Vance Holding?

​Suzan sentiu o coração dar um sobressalto. Ela olhou para o líquido escuro na taça, medindo as palavras. Não podia contar sobre o trato com o pai dele, mas também não queria mentir totalmente.

​— Eu venho de uma realidade bem diferente da sua, senhor Vance — ela disse, com um sorriso sutil. — Minha vida sempre foi uma correria entre ajudar minha mãe e tentar guardar cada centavo para um dia cursar Administração. Nós nunca tivemos luxo, as coisas sempre foram... na risca. Mas a gente se apoiava.

​Leonard a avaliou, os olhos pretos de ônix suavizando de uma forma que Suzan nunca tinha visto antes.

​— Você é genuína, Suzan. É diferente de todas as pessoas que orbitam o meu mundo por causa do dinheiro. Eu admiro isso.

​O uso de seu primeiro nome, em vez de "Styles", fez a pele dela formigar. Antes que o clima ficasse íntimo demais, o som do bipe do elevador privativo ecoou pelo hall, seguido pelo barulho da fechadura eletrônica se abrindo. Era ela.

​Num reflexo puramente movido pela adrenalina do plano, Suzan não pensou. Ela largou a taça na mesa de centro, jogou-se no colo de Leonard, passando as pernas ao redor de sua cintura, e enlaçou o pescoço dele com os braços. A intenção inicial era apenas esconder o rosto dele e simular um flagrante, mas quando os lábios de Suzan roçaram nos de Leonard, algo mudou.

​Leonard segurou a cintura dela com força, e o que deveria ser uma encenação explodiu em um beijo real, faminto e profundo. O calor do corpo dele e o gosto do vinho se misturaram, e por alguns segundos, Suzan esqueceu completamente que aquilo era um teatro. Ela se entregou ao beijo, o coração batendo descompassado contra o peito dele.

​— Mas que p*** é essa?! — o grito agudo de Anastasia rasgou o ar da sala.

​O choque cortou o beijo. Suzan virou a cabeça, ainda no colo de Leonard, fingindo uma falsa surpresa e ofegante. Anastasia estava parada no tapete, as malas caídas no chão, as mãos na cintura e o rosto completamente deformado pelo ódio e pela humilhação.

​— Leonard! No meu dia de vir aqui, você está na porcaria do seu sofá com essa... essa vagabunda de morango?! — ela berrou, apontando o dedo trêmulo.

​Leonard não se deu ao trabalho de sair do lugar ou de tirar as mãos da cintura de Suzan. Ele apenas olhou para a noiva com uma frieza cortante.

​— Acho que o que você está vendo fala por si só, Anastasia.

​— Você está me traindo! Com a secretária! — ela caminhou até o sofá, as lágrimas de raiva borrando a maquiagem cara. — Eu vou acabar com você, Leonard! Eu vou destruir a imagem dessa holding, seu desgraçado!

​— Vá em frente — Leonard rebateu, a voz perfeitamente controlada. — O contrato pré-nupcial não foi assinado. Você não tem direito a um centavo da empresa. E quanto à imprensa? Eles já estavam especulando há semanas. Eu me apaixonei por outra. Acontece. Agora, pegue as suas coisas e saia da minha casa. Acabou.

​Anastasia soltou um grito de pura frustração, chutou uma de suas próprias malas, pegou a bolsa e girou nos calcanhares.

​— Você vai se arrepender disso, Leonard Vance! Você e essa morta-fome!

​As portas do elevador se fecharam com estrondo após a saída dela. O silêncio voltou a reinar no duplex.

​Por alguns segundos, nenhum dos dois se moveu. Então, Leonard soltou uma gargalhada alta, genuína e revigorada, jogando a cabeça para trás.

​— Eu não acredito... funcionou! Ela caiu direitinho! Styles, você foi perfeita! Eu finalmente estou livre daquela mulher!

​Ele olhou de volta para Suzan, o sorriso ainda brilhando em seu rosto, e a proximidade física entre os dois se fez notar novamente. As mãos dele continuavam firmes nos quadris dela. O clima de comemoração rapidamente começou a se transformar em uma tensão sexual palpável. Leonard inclinou o rosto para a frente, os olhos fixos nos lábios dela, buscando repetir o beijo.

​Suzan sentiu o perigo iminente. O beijo de antes já tinha cruzado uma linha perigosa, e se ela ficasse ali, perderia totalmente o controle da situação.

​— Senhor Vance... Leonard, espere — ela pediu, colocando as mãos suavemente no peito dele, afastando-o de leve. Ela desceu do colo dele, ajeitando o vestido azul com os dedos trêmulos. — O plano funcionou. O objetivo foi alcançado. Mas... eu acho que está na minha hora de ir embora. O expediente acabou faz tempo.

​Leonard piscou, parecendo acordar de um transe. Ele pigarreou, recuperando a postura, embora o olhar ainda estivesse intenso.

​— Claro... com certeza. Você tem razão. Desculpe pelo... pelo beijo de antes. Foi a adrenalina do momento.

​— Tudo bem. Até segunda-feira, senhor Vance.

​Suzan praticamente correu para o estacionamento subterrâneo. Entrou em seu Audi A3, travou as portas e apoiou a testa no volante, tentando fazer o coração desacelerar. Seus lábios ainda formigavam com o toque dele.

​Dando a partida no carro, ela pegou o celular e ligou imediatamente para Ricardo Vance.

​— Ricardo? Acabou. O noivado foi desfeito. Anastasia pegou as malas e saiu gritando. O Leonard está livre.

​Do outro lado da linha, Ricardo soltou um grito de vitória, rindo alto.

​— Magnífico! Eu sabia que você conseguiria, Suzan! Você limpou o caminho do meu filho. O milhão de dólares é seu por direito. Mas me diga... e agora? Qual foi a reação do Leonard?

​Suzan engoliu em seco, olhando para a estrada escura enquanto dirigia.

​— Ele está feliz, comemorando. Mas... e agora, Ricardo? O que eu faço? Eu sumo da empresa? Invento uma demissão e pego o dinheiro, ou continuo indo trabalhar?

​Ricardo ficou em silêncio por alguns instantes, ponderando.

​— Se você sumir na segunda-feira, vai parecer muito suspeito, Suzan. Anastasia pode começar a investigar e descobrir que foi uma armação minha. Não, você precisa manter as aparências. Continue no cargo por pelo menos mais duas semanas. Finjam que o "caso" de vocês está esfriando naturalmente por causa da pressão, ou simplesmente peça demissão daqui a quinze dias alegando motivos pessoais. Precisamos de uma transição limpa. Você concorda?

​Suzan olhou pelo retrovisor, sentindo um nó apertado no estômago. Continuar ali, olhando para Leonard todos os dias depois do que tinha acontecido no sofá, seria uma tortura. Mas Ricardo estava certo: o plano precisava ser blindado até o fim.

​— Tudo bem, Ricardo. Duas semanas. Eu continuo até lá — ela respondeu, a voz firme, escondendo a confusão interna.

​— Ótimo. Você é uma garota fantástica, Suzan. Até logo.

​Ela desligou o aparelho. Encarando a noite de Caxias do Sul, Suzan Styles percebeu que, embora tivesse ganho o dinheiro para salvar sua mãe, ela acabara de entrar em um labirinto muito mais perigoso: o coração de Leonard Vance. E sair dali sem se machucar seria o seu maior desafio.