O Preço da Ambição
6 Linhas Invisíveis e Risadas Compartilhadas
A farsa havia caído, mas a realidade que se instalou na sala da presidência da Vance Holding era ainda mais perigosa. Sem a sombra de Anastasia e com o pretexto do "namoro de fachada" ainda ativo para a mídia, a barreira de gelo que cercava Leonard Vance derreteu por completo, dando lugar a uma convivência leve, divertida e carregada de uma eletricidade que nenhum dos dois conseguia mais ignorar.
Terça-feira, 10h15 – A Hora do Café
Suzan estava em pé diante da moderna máquina de café no canto da sala, concentrada em não errar a medida do expresso de Leonard, quando sentiu uma presença imponente logo atrás dela. O aroma amadeirado do perfume dele flutuou no ar, misturando-se ao cheiro do grão torrado.
— Se você continuar encarando essa máquina com tanta intensidade, Styles, ela vai acabar implodindo — a voz barítona de Leonard ecoou bem perto do ouvido dela, tingida de ironia.
Suzan virou-se de lado, encostando a bacia na bancada de granito, e cruzou os braços, erguendo os olhos azuis com um brilho desafiador.
— Eu só estou tentando garantir que o grande chefe não tenha um colapso nervoso porque o café ficou meio milímetro abaixo do padrão de exigência dele. Sabia que o senhor é incrivelmente meticuloso?
Leonard soltou uma risada curta, pegando a xícara que ela havia acabado de encher. Seus dedos roçaram nos dela por um segundo longo demais, enviando uma corrente elétrica direto pela espinha de Suzan.
— Eu chamo isso de busca pela perfeição, Styles. E, para sua informação, o café está excelente — ele tomou um gole, prendendo o olhar no dela. — Mas mudei de ideia. Hoje você vai almoçar comigo fora. E não aceito "estou cheia de relatórios" como desculpa.
— É uma ordem do chefe ou um convite do meu... namorado de mentira? — ela brincou, arqueando uma sobrancelha.
Leonard inclinou-se um pouco mais para a frente, um sorriso de canto brincando em seus lábios bem desenhados.
— Considere uma convocação de emergência para fins de... manutenção da nossa química pública. Esteja pronta ao meio-dia.
12h30 – O Almoço no Bistrô
Eles escolheram uma mesa mais reservada nos fundos de um bistrô contemporâneo a poucas quadras da holding. O sol de Caxias do Sul entrava pela vidraça, iluminando os cabelos ruivos de Suzan. A postura rígida de terno e gravata de Leonard parecia não combinar com a forma descontraída como ele gesticulava enquanto conversavam.
— Não, espera. Deixa ver se eu entendi — Leonard dizia, limpando os lábios com o guardanapo, rindo abertamente. — Você realmente tentou consertar o aspirador de pó da sua antiga agência e acabou inundando o escritório com espuma?
— Eu achei que o botão de reverso fosse aspirar água! — Suzan defendeu-se, cobrindo o rosto com as mãos, corada de vergonha e rindo junto. — Minha mãe quase me matou. Tivemos que passar a noite inteira puxando espuma com o rodo. Foi um desastre completo.
Leonard apoiou os cotovelos na mesa, olhando para ela com uma intensidade que fez o estômago de Suzan dar voltas. O olhar de ônix dele estava quente, totalmente desarmado.
— Sabe o que é mais fascinante em você, Suzan? — ele falou, o tom de voz caindo para algo mais íntimo. — Você não tem medo de ser quem é. No meu círculo, as pessoas calculam até o peso do sorriso para ver se vão lucrar algo com isso. Com você, até os desastres parecem... humanos. Genuínos.
Suzan engoliu em seco, o sorriso diminuindo sutilmente diante do peso daquelas palavras. A culpa por estar sendo paga para estar ali pesou como uma pedra em seu peito, mas ela empurrou o sentimento para longe, tentando manter o tom leve.
— É porque você nunca me viu brava de verdade, Vance. Eu posso ser bem assustadora quando quero.
— Ah, com certeza — ele ironizou, estendendo a mão sobre a mesa e, por um impulso que pareceu natural para ambos, cobriu a mão dela com a sua. A carícia do polegar dele na pele dela foi suave. — Um perigo real. Estou tremendo de medo da minha assistente de criação.
Suzan olhou para as mãos unidas e depois para ele. A química entre os dois não era mais um teatro para afastar Anastasia; era real, palpável e assustadora.
Quinta-feira, 16h00 – O Flagrante no Corredor
De volta à empresa, o comportamento dos dois começou a chamar a atenção. Na sala de criação, eles compartilhavam piadas internas que ninguém mais entendia. Se Suzan soltava um murmúrio reclamando de dor nas costas, Leonard magicamente aparecia com uma almofada ergonômica para a cadeira dela cinco minutos depois, sem dizer uma palavra.
Naquela tarde, Suzan estava saindo da sala com uma pilha de pastas quando tropeçou levemente no próprio salto. Antes que os papéis voassem, os braços fortes de Leonard a enlaçaram pela cintura, puxando-a contra o peito dele no meio do corredor de vidro.
— Opa. Peguei você — ele murmurou, segurando-a firme. Os rostos deles ficaram a centímetros de distância. Suzan conseguia sentir o calor da respiração dele.
— Obrigada... de novo — ela sussurrou, temporariamente sem ar, presa naqueles olhos escuros.
Uma funcionária do marketing passou por eles, fingindo olhar para o tablet, mas com um sorriso malicioso no rosto. O burburinho nos corredores já era geral: O chefe está completamente caido pela nova assistente.
Leonard não a soltou imediatamente. Ele ajeitou uma mecha do cabelo ruivo dela atrás da orelha, seus dedos demorando-se na bochecha dela.
— Você precisa andar mais devagar, Styles. Não sei se vou estar por perto para te segurar todas as vezes.
— Eu acho que consigo me virar sozinha, Vance — ela rebateu, embora seu coração estivesse martelando tão alto que ela teve certeza de que ele podia ouvir.
— Eu sei que consegue — ele disse, soltando-a devagar, com um brilho de admiração nos olhos. — Mas eu gosto de garantir.
Quando Suzan finalmente voltou para sua mesa, ela sentou-se e encarou a tela do computador sem conseguir ler uma única linha. O prazo de duas semanas dado por Ricardo estava correndo. Metade do tempo já havia passado. Cada risada compartilhada, cada toque acidental e cada olhar cúmplice com Leonard faziam com que a ideia de pegar o dinheiro e sumir parecesse a pior traição do mundo. Ela estava se apaixonando pelo alvo do plano, e o preço dessa ambição estava cobrando o seu valor mais alto.
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